anais da política

O pato, o general e o capital

Na Fiesp, 600 dos maiores empresários do país bajulam Mourão e cobram Bolsonaro

Fabio Victor
27mar2019_10h41
INTERVENÇÃO DE PAULA CARDOSO EM FOTOS DE LALO DE ALMEIDA E PEDRO LADEIRA/FOLHAPRESS

Os grupos de direita que acamparam por meses em frente ao prédio da Fiesp, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, para pedir a derrubada de Dilma Rousseff já não estão mais por lá. O pato amarelo plantado no local, que simbolizou o apoio de primeira hora do empresariado paulista à deposição da petista, tampouco pode ser mais encontrado – aposentou-se compulsoriamente, por invalidez, quando ficou claro que o que movia o impeachment não era a briga para diminuir impostos ou ajustar a economia. Foi substituído por um sapo verde, em cuja pança está escrito: “Chega de engolir sapo.”.

O que não mudou, no edifício-cartão-postal da avenida Paulista, foi a capacidade do presidente da maior entidade empresarial do país, Paulo Skaf, de perceber os humores do dinheiro. Aos primeiros sinais de insatisfação do PIB com o governo Jair Bolsonaro – sintoma da incúria na articulação política palaciana, que levou o Planalto a sucessivas derrotas para tentar deslanchar sua proposta de reforma da Previdência, e da desorientação do próprio presidente –, Skaf preparou uma recepção de gala para o vice Hamilton Mourão.

Na tarde/noite de terça-feira (26/3), mais de 600 empresários foram à sede da Fiesp para ouvir Mourão. A diretoria da Fiesp se reúne a cada quinze dias; a da Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), uma vez por mês. Skaf resolveu juntar as duas, e fez uma reunião extraordinária em torno de Mourão. O maior auditório do edifício, com capacidade para 456 pessoas, não deu conta da audiência, e parte dos convidados teve de acompanhar a fala de Mourão de um telão instalado numa sala contígua.

Em um discurso de 35 minutos – na maior parte lido, mas entrecortado por cacos –, Mourão consolidou-se como contraponto liberal aos extremismos do bolsonarismo. É verdade que numa passagem o vice referiu-se ao presidente como alguém que “não é nem nunca será uma ameaça à democracia”. “Quero enfatizar que ele é um estadista, que não está pensando nas próximas eleições, mas nas próximas gerações.” Foi, aliás, o único trecho que Mourão publicou depois em sua conta no Twitter – como se não quisesse por enquanto mais problemas com Carlos Bolsonaro. Mas todo o restante do discurso destoou da pregação ideológico-paranoica de pai e filhos.



Primeiro Mourão tratou de afagar a plateia, falando da necessidade de uma reforma tributária. “As senhoras e senhores, como empresários e produtores, sabem muito bem o peso da carga tributária. Temos de reorganizar o sistema tributário e as taxas que incorrem sobre todos vocês.” Recebeu o primeiro grande aplauso. Pregou uma abertura ao capital estrangeiro “lenta, gradual e segura”. “Se não reorganizarmos o sistema tributário, uma abertura da noite para o dia do nosso país vai acabar com a nossa indústria” (mais aplausos).

Depois defendeu o diálogo com os parlamentares para aprovar a reforma da Previdência. “O Congresso representa a população brasileira. Ali está a imagem dos que votaram nos seus representantes. Nós temos que dialogar com eles, não fugir ao diálogo. Todos aqui sabem que minha experiência política é baixíssima, mas o bom senso tem que prevalecer nessas horas.” E pareceu mandar um recado a Bolsonaro. “Na instituição a que servi por 46 anos, a gente sempre dizia: o comandante não tem que ser aplaudido no pátio, o comandante tem que tomar decisões”.

Exaltou a globalização, o neoliberalismo, o capitalismo: “Os historiadores do futuro vão olhar para o final dos anos 1970 e início dos anos 1980 como um momento revolucionário na história social e econômica da história da humanidade. Naquela época pessoas como o [líder chinês] Deng Xiaoping, a [premiê britânica] Margaret Thatcher e o [presidente dos Estados Unidos] Ronald Reagan iniciaram um movimento que trouxe vida àquilo que hoje chamamos de globalização. E também surgiu aquilo que foi designado como neoliberalismo. O Estado organizar a sociedade e as leis e deixar de interferir nos mercados. Neoliberalismo nada mais é do que o direito intransigente à propriedade privada. Pois onde não há propriedade não há o único sistema econômico que deu certo no mundo, que é o capitalismo”. Atacou a Venezuela, “um caso clássico de destruição daquilo que o chamado socialismo pode produzir”.

Condenou o excesso de regulação e burocracia (“ainda somos o país do carimbo; na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, ainda circula papel, senhoras e senhores, isso é um absurdo”). Criticou o aumento do salário mínimo: “Governos anteriores aumentaram o salário mínimo acima da inflação e produziram contradição, em que classes desfavorecidas recebem menos que as mais favorecidas” (não explicou o raciocínio tortuoso).

Criticou a barafunda do MEC: “Precisa de um freio de arrumação.” Mencionou a necessidade de diminuir a desigualdade social: “[Temos de] melhorar as condições de vida dos que vivem nos cinturões de miséria que cercam as nossas grandes cidades, sem acesso a luz, água, esgoto e tendo suas necessidades básicas providas pelos representantes das narcoquadrilhas”. Falou de segurança pública, narcotráfico e sistema prisional.

Finalizou citando o presidente americano Franklin Roosevelt. “Quando terminarmos o nosso governo e entregarmos a faixa presidencial em 1º de janeiro de 2023, gostaríamos muito que nossa população, e em especial essa plateia, estivesse vivendo aquilo que o presidente Roosevelt, em seu discurso do State of the Union [Estado da União] em 1940, chamou de as quatro grandes liberdades humanas. Que vivamos sob a liberdade de expressão, a liberdade de religião, a liberdade de não sermos forçados a fazer aquilo que não queremos e principalmente a liberdade de não termos medo.”

Mourão terminou aplaudido de pé, e os empresários ouvidos pela piauí ao final do encontro se mostraram bem mais alinhados às ideias e métodos do vice do que às do presidente. “Quando o Mourão passa essa imagem de bom senso e de diálogo, acalma muito o mercado e o setor produtivo. É um contraste enorme com a família Bolsonaro”, disse o diretor do Grupo Amazonas (calçados), Saulo Pucci. “Espero que o presidente seja contaminado com esse espírito. Esse é um momento em que temos de diminuir as diferenças, não aumentar; temos de ampliar o diálogo, não restringir.”

Ingo Schmidt, executivo do setor de alimentos (preferiu não dizer de qual empresa) e investidor em start-ups, também se mostrou decepcionado com o presidente e entusiasmado com o vice. “Votei no Bolsonaro, fiz campanha para ele, mas a campanha acabou. Tem de tirar o celular dele. Ele só vai ganhar a população se mostrar serviço, não tuitando. Gostei bastante do Mourão, é extremamente capacitado, como a maioria dos generais. Passou segurança e estabilidade, está respaldado por essa casa [a Fiesp]. Está bem mais para estadista do que o Bolsonaro.”

Diretor do Simefre, sindicato da indústria de equipamentos rodometroferroviários, Francisco Petrini atribuiu o momento negativo de Bolsonaro à recuperação da cirurgia para se recuperar do atentado a faca sofrido na campanha. “Ele saiu há pouco de uma situação delicada, mas vai aprender. O Mourão, que é excelente, mas também o Heleno, o Santos Cruz e o Floriano Peixoto [outros ministros militares], vão ensinar.”

Roberto Paranhos do Rio Branco, ex-executivo da Brastemp e hoje empresário do setor imobiliário e integrante do Conselho de Inovação e Competitividade da Fiesp, também deu ao presidente um desconto pelos problemas recentes de saúde, mas alertou: “Eles [o governo] estão tentando se entender entre eles, mas está demorando mais do que deveria. Mourão fez o discurso que todo mundo gosta de ouvir. A dificuldade, como estamos vendo, é pôr em prática”.

Dublê de dirigente patronal e político, Paulo Skaf tentou por três vezes se eleger governador de São Paulo (2010, 2014 e 2018), foi derrotado em todas. Em 2017, foi reeleito para seu quarto mandato consecutivo como presidente da Fiesp. Se ficar até o final do mandato, em 2021, completará dezessete anos no cargo. No encontro de terça, Skaf se referiu aos empresários como “guerreiros que produzem empregos, investimentos e riquezas” e disse a Mourão que a presença dele ali significava a “abertura de um canal intenso e próspero entre a Fiesp e o governo Bolsonaro”.

Skaf apoiou Bolsonaro na eleição de 2018. Encontraram-se em novembro, com o capitão reformado já eleito, mas não depois da posse. Com o general Mourão já foram três reuniões desde o início do governo: a primeira aconteceu num almoço na casa de Skaf em São Paulo, em 17 de janeiro. Em 19 de fevereiro, Mourão recebeu Skaf e uma delegação da Fiesp em seu gabinete em Brasília. A desta terça reforçou o bom relacionamento – facilitado pela sintonia fina entre a entidade empresarial e os militares. A Fiesp mantém um Departamento de Defesa e Segurança, cujos titulares são oficiais da reserva das Forças Armadas, e promove anualmente um jantar em homenagem aos militares.

Na noite de terça, depois da reunião extraordinária na Fiesp, Skaf ofereceu um jantar a Mourão em sua casa, no Morumbi, com um número de convidados bem mais restrito, cerca de 30 empresários pesos-pesados, entre os quais Carlos Trabuco (Bradesco), Josué Gomes (Coteminas), Frederico Curado (Grupo Ultra), David Feffer (Suzano), Marcos Lutz  (Cosan) e Flávio Rocha (Riachuelo).

Enquanto o vice confraternizava com representantes de algumas das maiores fortunas do país, o governo Bolsonaro acumulou mais uma derrota no Congresso. Numa votação-relâmpago em dois turnos na Câmara, os deputados desengavetaram e aprovaram uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional), parada desde 2015, que engessa mais o Orçamento, diminuindo a autonomia do governo de decidir onde vai investir. Foi de lavada: 448 votos no primeiro turno e 453 no segundo turno. Até o partido de Bolsonaro votou contra o governo.

Fabio Victor (siga @fabiopvictor no Twitter)

Repórter da piauí. Na Folha de S.Paulo, onde trabalhou por vinte anos, foi repórter especial e correspondente em Londres

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