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Os notáveis dão a dica

Nomes que adoramos ler, assistir e ouvir em 2025 fazem suas recomendações aos leitores da piauí

João Batista Jr., de São Paulo | 19 dez 2025_13h03
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Para quem ainda tem tempo de colocar em dia as leituras, os podcasts, os documentários e outros trabalhos jornalísticos relevantes deste ano, procurei pessoas que foram muito lidas, vistas e ouvidas em 2025 a fim de colher suas recomendações. São doze nomes: Arthur Nestrovski, Camila Fremder, Débora Falabella, Dira Paes, Fernanda Torres, José Henrique Bortoluci, Laurinha Lero, Luiz Braga, Natuza Nery, Paulo Motoryn, Pedro Borges e Rafael Soares. Espero que gostem!

Dira Paes, atriz

 

É preciso se ater a fatos comprovados pelo jornalismo investigativo, que sempre presta um serviço fundamental à sociedade.

Quando falamos em tráfico, pensamos logo em armas e drogas. Mal sabemos, no entanto, que o terceiro maior tráfico internacional é o de animais silvestres, e o Brasil, infelizmente, é um dos maiores “fornecedores”. Nessa matéria, o Fantástico revela como essa terrível cadeia exploratória destrói a nossa fauna, matando e extinguindo espécies. Por isso eu quis filmar Pasárgada. Para lançar luz sobre esse tema tão cruel e impactante, que nos mostra toda a ordem de crimes ambientais, desde a captura dos animais, em sua maioria pássaros, depois o transporte, a liberação de licenças e, por fim, a venda desses bichos tão preciosos e indefesos.

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Fernanda Torres, atriz

 

Segundo Regina Casé, ouvir podcast é para quem corre ou lava louça. Como eu corro e desde a pandemia me tornei uma assídua lavadora de prato, o podcast me cabe como uma luva. Sou dependente química de dois deles, do Foro de Teresina e do Lex Fridman, além de escutar o Medo e Delírio em Brasília sempre que subo a serra.

Eu só tenho certeza do que eu penso sobre as desgraças da pátria depois de ouvir o Fernando de Barros e Silva, a Ana Clara Costa e o impagável Celso Rocha de Barros. O Celso leva o caneco de comunicador PhD do milênio pela mistura de humor cortante e informação, a Ana pela perseverança investigativa e o Fernando pela erudição. É o melhor resumo da semana, sempre.

O Lex Fridman é um achado. Russo naturalizado americano, ele é um cientista da computação do MIT e se popularizou no seu podcast entrevistando uma gama impressionante de cérebros pensantes do planeta. Admirador da versão verde do Elon Musk, eu não sei o que ele pensa do sul-africano hoje. O Fridman é da turma da ciência, às vezes demonstra um otimismo que beira a ingenuidade, faz jiu-jítsu e passa ao largo das questões identitárias. É um entrevistador preparado, capaz de dialogar com mentes brilhantes. As conversas demoram mais de três horas, uma raridade em tempos tão imediatistas, o que permite ao ouvinte conhecer a fundo o entrevistado, algo raro. Para quem quiser se aventurar, aí vão minhas dicas:

Na política, a entrevista com Narendra Modi, o primeiro-ministro da Índia, com uma impressionante tradução para o inglês por IA, que mantém a voz natural, as pausas e intenções do político em Hindi, seu idioma original.

Na biologia, a entrevista com Michael Levin, diretor do Allen Discovery Center da Universidade de Tufts, em Massachusetts. Não dá nem para resumir o escopo da pesquisa do homem, mas Levin é o criador dos Xenobots, robôs biológicos multicelulares desenvolvidos a partir de embriões de rãs, capazes de se autorreplicar e executar tarefas que podem levar da cura do câncer à regeneração de membros amputados.

Na ciência da computação, aconselho ouvir as três entrevistas com Stephen Wolfram, que estuda os autômatos celulares, códigos muito simples de rodar em computadores, que levam a complexidades inimagináveis. As conversas me instigaram a ler o livro dele, A New Kind Of Science, que aplica o conceito de complexidade da pesquisa com os autômatos à economia, à Teoria da Evolução das Espécies, à física, à biologia, à política. É sensacional.

E a outra série de entrevistas nessa mesma toada é a com o filósofo, cientista da cognição e pesquisador de IA alemão Joshua Bach. Parente do compositor Bach, Joshua é o mais perto de um ET Savant que se pode chegar. Vale demais.

Na economia, o episódio com a historiadora Jennifer Burns, autora de duas biografias sobre o economista Milton Friedman – papa do liberalismo e detentor de um Prêmio Nobel de Economia. É uma aula sobre as crises econômicas do século XX, e sobre os mecanismos que as diferentes escolas de economia se valeram para combatê-las.

Sobre a China, a entrevista com Keyu Jin, economista especializada no milagre econômico do gigante asiático. Acerca do Marxismo, o diálogo com o americano Richard Wolff, filósofo e economista marxista. Para discutir o nazismo, sugiro a impagável entrevista com o alemão Norman Ohler, que analisa o abuso de anfetamina, alucinógenos, estimulantes e depressivos por Hitler, seu exército e o Terceiro Reich.

Há outros papos preciosos sobre as culturas ameríndias pré-colombianas, a vida em outros planetas, buracos negros, Google, Facebook e Jeff Bezos, sobre Guerra e Paz, sobre tudo. O Fridman é uma companhia e tanto.

Por fim, Medo e Delírio em Brasília. A mais abusada edição de som jamais feita em podcast, oferece rebeldia e excelente nível de informação. É bom pra cacete.

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Camila Fremder, escritora e podcaster do É nóia minha

 

Sabe uma coisa que gostei de ouvir? Avestruz Master, da Rádio Novelo. É um surto. Sou fascinada por todos os assuntos que têm esquema de pirâmide. Fico entusiasmada com a ideia, com a sensação de que vai dar certo. Crio uma esperança no negócio. Fora tudo que aprendi sobre o avestruz, um animal com o qual não temos tanto contato. Fiquei chocada por motivos variados: o porte do bicho, sua complexidade… achei tudo interessante.  

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Natuza Nery, apresentadora da Globo News e do podcast O assunto

 

A série de reportagens Amazônidas, veiculada na GloboNews e apresentada pelo repórter Victor Ferreira, foi uma das melhores coisas que vi na tevê neste segundo semestre. Outra apuração fundamental para entender o caso Banco Master veio com Consuelo Dieguez, da piauí, que desde o ano passado vem descortinando os negócios e as relações de Daniel Vorcaro. Aproveito também para indicar uma produção do podcast O assunto, com O Diário do Julgamento de Bolsonaro — do início à condenação, um importante e didático retrato de tudo o que aconteceu com o ex-presidente.

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Arthur Nestrovski, violinista, compositor e escritor

 

Cada vez que aparece um texto de Claudio Leal, a gente corre para ler. Ao longo do último ano, publicou na Folha de S.Paulo entrevistas e matérias memoráveis com e sobre Décio Pignatari, Augusto de Campos, Nana Caymmi, Dori Caymmi, Maria Bethânia e a grande exposição Complexo Brasil (em Lisboa), para ficar só nessas. 

Música, literatura, cinema, teatro, artes plásticas: ele fala de tudo com conhecimento, mas dando mostras de pesquisa. A escolha de cada assunto já é significativa, uma pedra a mais na coerente arquitetura. Todo texto é fruto de trabalho. E toda frase é um exercício de estilo. No ambiente depauperado do jornalismo cultural brasileiro, Claudio Leal segue seu rumo com natural dignidade. Faz muita diferença. Esses e outros textos publicados por Claudio Leal na Folha de S.Paulo estão reunidos aqui

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Paulo Motoryn, repórter investigativo do site The Intercept

 

A minha reportagem preferida de 2025 é A verdadeira história dos socos em Ronaldo Fenômeno em 1994, do jornalista Andrey Raychtock, publicada em seu canal no YouTube. É um trabalho que mostra como o jornalismo investigativo não depende de grandes escândalos, vazamentos, fontes palacianas ou documentos sigilosos. Pelo contrário. O bom jornalismo pode vir de um episódio absolutamente irrelevante, e ainda assim produzir conhecimento, organizar memória e inspirar. E olha que nem sei quem é o Andrey. Mas o formato do vídeo, o caminho da apuração, a banalidade tão profunda… Gostei muito.

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Débora Falabella, atriz

 

Dos produtos jornalísticos que vi neste ano, o que mais me impressionou foi o podcast Silenciadas, da Cristina Fibe, que fala sobre como vítimas de assédio foram silenciadas ao relatarem seus casos. O que achei interessante e dolorido foi entender como as jornalistas que estavam colhendo esses relatos também foram silenciadas e tiveram que trabalhar ainda mais para publicar suas reportagens sobre o tema. O podcast mostra como essas jornalistas sofreram traumas por não serem ouvidas. 

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Laurinha Lero, apresentadora do podcast Respondendo em Voz Alta

 

O documentário Bebês Reborn não Choram, publicado em abril no canal de YouYube do Chico Barney. Só o Chico seria capaz de descrever o Encontro de Bebês Reborn no Parque Ibirapuera com frases como “corpos de vinil alheios à passagem do tempo” ou “a tentativa humana de domesticar a ausência”. É o triunfo do jornalismo.

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José Henrique Bortoluci, escritor e autor de O que é meu (Fósforo Editora)

 

Num momento da história em que estamos todos empanturrados de informação (nem sempre de qualidade), de notícias fugazes, de vídeos que passam voando em nossas telas, tenho procurado dedicar uma boa parte de meu tempo de leitura para me debruçar sobre ensaios e reportagens investigativas mais longas, que exigiram mais fôlego do escritor e, por consequência, convidam a uma leitura mais lenta, muito diferente do frenesi cotidiano das nossas telas e algoritmos. Uma nova revista de ensaios, Equator, sediada em Londres, publicou alguns dos melhores textos longos de não ficção que li este ano. A revista, em inglês, foca em temas e autores do Sul Global, apesar de contar com editores que passaram boa parte de suas carreiras em veículos ocidentais tradicionais, como a New York Review of Books e o The Guardian. O projeto editorial e gráfico é uma beleza. Recomendo assinar a newsletter e deixar-se levar pelos textos longos de seu gosto, seja sobre a história de vida de trabalhadores industriais na China, os dilemas de jovens na Ucrânia em guerra, ou a estética do sonho americano na Nigéria de meados do século XX – e isso é só o começo.

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Pedro Borges, cofundador do site Alma Preta e ex-integrante do programa Profissão Repórter, da TV Globo

 

Nós, do Alma Preta, fizemos uma cobertura in loco e publicamos reportagens sobre a COP30. Mostramos como as obras para a conferência do clima impactaram comunidades negras e quilombolas, em um evidente caso de racismo ambiental. Estivemos no Congo para acompanhar um tema marginalizado no jornalismo brasileiro: a guerra que já dura quase três décadas na República Democrática do Congo. Aliás, dentre os conflitos ao redor do mundo, alguns locais são mais privilegiados do que outros na cobertura da mídia. Destaco também o trabalho que a repórter Dindara Paz tem feito ao noticiar a violência policial em Salvador, mostrando que este é um tema que extrapola Rio de Janeiro e São Paulo, alvos preferenciais da imprensa brasileira. Essas matérias dimensionam nossa linha editorial e o cuidado na apuração de cada história. 

Ainda sobre o que foi publicado pela imprensa brasileira, destaco duas reportagens da piauí. Uma sobre Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, herdeiro de um ditador da Guiné Equatorial, e a outra sobre como a violência interrompe a infância em áreas pobres do Rio de Janeiro

No exterior, minha dica são as investigações visuais promovidas pelo site holandês Bellingcat. O portal trabalha com dados e códigos abertos, e constrói apurações visuais que ainda não são frequentes no Brasil. Neste ano, eles usaram essa estratégia para acompanhar conflitos no Sudão e na República Democrática do Congo

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Rafael Soares, repórter do jornal O Globo e autor de Milicianos: Como agentes formados para combater o crime passaram a matar a serviço dele (Companhia das Letras)

 

Destaco A Farra do INSS, série do portal Metrópoles, que descobriu descontos ilegais em aposentadorias de idosos e acabou forçando a Polícia Federal a entrar no caso. Jornalismo investigativo clássico, que começa de baixo para cima, com a apuração e persistência dos repórteres Luiz Vassallo e Fabio Leite ao longo dos últimos dois anos. Essa cobertura acaba de ganhar o Prêmio Latino-americano de Jornalismo Investigativo. 

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Luiz Braga, fotógrafo que há mais de quarenta anos se dedica a registrar a Amazônia

 

Minha escolha é uma reportagem do jornal The New York Times que aborda o trabalho humano feito com pessoas que sofrem com problemas de saúde mental, um tema que atravessa minha vida desde a infância. Meu pai, o psiquiatra Dorvalino Frazão Braga, atuou no Rio de Janeiro com a Nise da Silveira, referência no trabalho humanizado, para depois dirigir um hospício em Belém chamado Hospital Juliano Moreira, entre os anos 1960 e 1970. Foi neste lugar, onde as pessoas eram respeitadas e tratadas com carinho, praticavam esportes, música, dança e artesanato, que comecei a fotografar, aos 11 anos de idade. O meu olhar foi treinado a enxergar os desvalidos, aqueles que são carentes de afeto. Esse olhar pelo outro, seja na fotografia ou na vida, impregnou a minha alma. Ao ver essa matéria, pensei: ‘o papai estava certo.’

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