questões eleitorais

Pastor Everaldo rebate críticas ao ex-juiz Witzel: “É mimimi”

Presidente do PSC culpa "politicamente correto" pela reação à ameaça do candidato do seu partido ao governo do Rio de dar voz de prisão a rival

Consuelo Dieguez
09out2018_22h51
ILUSTRAÇÃO: PAULA CARDOSO

Presidente do PSC, o Pastor Everaldo não considera graves as ameaças que o candidato do seu partido ao governo do Rio de Janeiro, o ex-juiz Wilson Witzel, fez a Eduardo Paes, seu rival na disputa. Witzel gravou um vídeo acusando Paes de espalhar notícias falsas e declarou que daria “voz de prisão” ao adversário durante os debates, caso o ex-prefeito “fale mentiras ao vivo” contra ele, por “crime de injúria”. Na tarde desta terça-feira, à piauí, o Pastor Everaldo defendeu o candidato e afirmou que as reações à ameaça são “mimimi”. “Por causa desse politicamente correto, as pessoas ficam nesse não me toque, nesse mimimi. Não estão acostumadas com um juiz dando voz de prisão contra um candidato que venha a cometer uma irregularidade”, disse o presidente do PSC.

Pastor Everaldo afirmou que ainda não tinha visto o vídeo com os ataques de Witzel a Paes, mas disse, a princípio, não ver problema nas palavras do juiz. “Se estiver dentro da lei, o Witzel pode dar voz de prisão, sim. Eu aceito tudo que esteja dentro da lei”, disse Pastor Everaldo. O presidente do PSC não acha que o partido deve repreender seu candidato pela ameaça a Paes. “Não é o caso, porque ele não está cometendo nenhuma irregularidade”. Paes ironizou a ameaça: “Se for assim, eu também posso dar voz de prisão, por ele estar espalhando notícias falsas contra mim.”

Procurada, a Justiça Eleitoral não se manifestou sobre a ameaça de Witzel em nenhuma de suas instâncias. O Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro não comentou o vídeo e disse que uma denúncia dependeria da Procuradoria Regional Eleitoral do estado. Já a assessoria da PRE-RJ disse que o vídeo foi mostrado ao procurador regional eleitoral Sidney Madruga, mas que “ele preferiu não se manifestar sobre essa declaração de um dos candidatos, assim como teria feito se a declaração tivesse partido de seu adversário”. O Tribunal Superior Eleitoral, por sua vez, informou que “somente se pronuncia na análise de casos concretos que venham a tramitar” e que “não há nenhum processo sobre esse caso em tramitação no TSE”.

Aliado de Jair Bolsonaro no Rio e primeiro colocado no primeiro turno na disputa estadual, Witzel entrou em mais uma controvérsia após a divulgação nas redes sociais de um segundo vídeo, gravado de dentro de um carro em movimento pela cidade. Dirigindo-se aos “coronéis, comandantes e diretores de nossa briosa Polícia Militar”, o ex-juiz afirma que extinguirá a Secretaria de Segurança Pública para “evitar interferência política nos nossos órgãos de policiamento investigativo e ofensivo”, o que daria mais autonomia para a PM e menor controle ao Estado. Para o Pastor Everaldo, não há novidade na declaração. “Está no programa de governo do Witzel criar dois órgãos de segurança, um para a Polícia Militar e outro para a Polícia Civil. Não há nenhuma novidade nessas declarações dele”, defendeu.

Pastor Everaldo tampouco considera que Witzel tenha extrapolado limites da civilidade eleitoral ao ser flagrado com um microfone na mão e o outro braço erguido e com o punho fechado, enquanto dois futuros deputados estaduais do Rio, recém-eleitos pelo PSL, rasgavam um cartaz com o nome da vereadora Marielle Franco, assassinada em março. “Era ele que estava rasgando a placa?”, perguntou-me o pastor, com irritação na voz. Argumentei se não seria o caso de repreendê-lo por desrespeito a uma pessoa assassinada. “Eu tive um irmão assassinado em 2013, num assalto, na frente da mulher dele, até hoje o caso não foi desvendado. Meu irmão foi assassinado e ninguém foi para a rua fazer escândalo”, reclamou, e continuou o raciocínio. “Nossos heróis policiais são mortos e há alguma manifestação? Toda a vida perdida é muito importante.”

Quando perguntei se evangélicos tentariam apaziguar os ataques entre os candidatos que, como o representante do seu partido, têm subido o tom na disputa eleitoral, o Pastor Everaldo citou um trecho do livro de Eclesiastes, capítulo 13. “Há um tempo para tudo. Um tempo para orar e outro para agir. Agora estamos em campanha. É tempo de agir.”

 

Candidato do DEM ao governo do Rio, Paes respondeu ao vídeo do seu opositor com outro vídeo, em que disse estranhar que Witzel o ameace de voz de prisão por injúria, e não ter se manifestado durante o debate da Rede Globo com os candidatos. Lembrou que quando Romário chamou o ex-juiz de “frouxo” duas vezes, Witzel calou-se. Já o candidato Índio da Costa, afirmou Paes, o chamou de mentiroso, enquanto Anthony Garotinho sugeriu que o juiz teria oferecido vantagens a ele, Garotinho, na Justiça Federal. “Não entendi. Será que ele concordou com o que disseram? Não se sentiu injuriado?”, questionou Paes. E completou: “Estamos indo para um debate eleitoral, aqui não vai funcionar carteirada.”

Ao ameaçar o adversário com voz de prisão, Witzel faz uma referência aos anos em que atuou como juiz federal. No entanto, para poder concorrer ao governo ele teve que se desligar definitivamente de sua função no Judiciário e, hoje, é um ex-juiz.

Witzel até tentou permanecer na profissão. Quando ele procurou o Pastor Everaldo, em março de 2017, para pedir a vaga do PSC para concorrer ao governo, sabia que, como juiz, não poderia apenas se licenciar do cargo para concorrer a um cargo político. A alternativa seria se desligar da função. Junto com o partido, contudo, o atual candidato tentou uma manobra para evitar a decisão irreversível de deixar a carreira. Na discussão sobre reforma política, o PSC propôs um Projeto de Emenda Constitucional prevendo que juízes pudessem apenas se licenciar para concorrer a um cargo político e voltar a ativa após o fim do mandato. A proposta foi barrada. Tanto o Congresso quanto o Supremo Tribunal Federal, o STF, afirmaram que seria um risco para o Legislativo um juiz se afastar temporariamente da função. O entendimento foi de que, nessa condição, o juiz poderia, por exemplo, por interesse pessoal, condenar um adversário simulando alguma penalidade para que não o ameaçasse nas urnas.

*

Colaborou para esta reportagem o jornalista Alexandre Aragão.

 

Consuelo Dieguez (siga @consuelodieguez no Twitter)

Repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras

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