minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
Jogos
piauí jogos
Pela luz dos óculos teus…

    O único indício de que os óculos estão filmando é um pequeno sinal luminoso na armação. Não demorou para usuários acharem formas de escondê-lo Foto: Josh Edelson/AFP

questões tecnológicas

Pela luz dos óculos teus…

Com os smart glasses da Meta, você pode não saber que foi filmado, rastreado e até mesmo transformado em piada na internet

Victor Calcagno, do Rio de Janeiro | 22 jan 2026_08h40
A+ A- A

Em ruas, cafés, praças, supermercados, pontes, cais, parques, praias e mesmo em frente a um totem de autoatendimento num restaurante fast food, o brasileiro Arnaldo Campos aborda mulheres em Portugal. Ele inicia a conversa com frases que chamam atenção, como: “Você derrubou uma coisa… Meu coração!”; “Onde você conseguiu isso? Essa beleza.” Outras tantas vezes, abre mão do gracejo e faz logo comentários mais diretos: “Com licença, você é tão linda, uau.” Seus alvos são turistas estrangeiras, e por isso Campos sempre fala em inglês. Depois de iniciado o diálogo, ele pergunta à interlocutora de que país ela é, quanto tempo ficará em Portugal, se gosta de vinho, se tem planos para aquela noite, se pode adicioná-lo nas redes sociais. As moças respondem sem perceber que estão sendo filmadas por uma câmera acoplada aos óculos escuros do rapaz – que, tão logo se despedir, publicará o vídeo da conversa no Instagram e no TikTok, expondo as mulheres para seus mais de 175 mil seguidores.

Os óculos de Campos são do modelo Ray-Ban Meta, o mais famoso dentre os chamados smart glasses – os óculos inteligentes. Outras empresas do ramo, como a Xiaomi e a RayNeo, têm investido nessa tecnologia, mas nenhuma conseguiu equiparar até agora o sucesso da big tech de Mark Zuckerberg, dona do Instagram, do WhatsApp e do Facebook. É justamente a conexão com essas redes sociais que tem garantido a popularidade de seus óculos, usados para produzir todo tipo de conteúdo, especialmente no formato em primeira pessoa, ou “POV” (point of view).

O produto é fruto de um parceria entre a Meta e a EssilorLuxottica, empresa franco-italiana dona da Ray-Ban. Ele permite que o usuário faça registros em vídeo e áudio, atenda ligações e envie mensagens, como se operasse um celular. Os óculos oferecem também orientações por GPS e tradução simultânea, e são capazes de fornecer informações sobre o ambiente ao redor: se o usuário observa um determinado monumento público, os smart glasses podem lhe dizer o nome da obra, quando foi construída e por quem. Grande parte dessas funções é operada a partir do app da Meta no smartphone do dono dos óculos, em pareamento, ou por meio de uma espécie de pulseira inteligente que vem junto dos modelos mais caros.

Lançados no final de 2023, os óculos tiveram um pico de vendas no ano passado nos Estados Unidos. O crescimento se deu sobretudo no segundo semestre, quando chegou ao mercado a segunda geração do produto, com melhor qualidade de imagem e uma bateria que dura mais. Estima-se que, até hoje, já foram vendidos 2 milhões de unidades, mas a fabricação tem aumentado para acompanhar a demanda crescente. As duas empresas estimam que, até o fim deste ano, produzirão 10 milhões de pares. Hoje, um óculos do tipo não sai por menos de trezentos dólares nos Estados Unidos. No Brasil, costuma estar em torno dos 3 mil reais.

A aposta de Zuckerberg é que os óculos inteligentes se tornarão uma das plataformas de computação mais populares no mundo, lado a lado com os smartphones. Por isso, a empresa tem investido em diferentes modelos. Um deles, em parceria com a Oakley, é voltado para esportistas. O mais sofisticado de todos, chamado Meta Ray-Ban Display, contém uma pequena tela em uma das lentes e é acompanhado de uma pulseira capaz de reconhecer movimentos da mão, com a qual o usuário pode navegar pelo sistema. O modelo tem sido tão requisitado que a Meta, para dar conta do mercado americano, optou por suspender a expansão que estava planejada para outros países.

O grande trunfo desses óculos, porém, é menos a tecnologia e mais a aparência. Eles parecem óculos perfeitamente normais, que podem ser usados rotineiramente, em casa, no trabalho, na escola. São vendidos com lentes de várias colorações, para ambientes externos e internos, com ou sem grau, e só se distinguem dos óculos comuns pela presença de duas pequenas aberturas na ponta da armação, uma delas sendo a câmera, à esquerda. A não ser que se olhe muito de perto, é quase impossível diferenciar um Wayfarer, modelo mais famoso da Ray-Ban, de seu irmão inteligente. 

O único indício de que o aparelho está filmando é um pequeno LED na abertura do lado direito, que fica aceso quando a câmera está ligada. Tão logo os óculos se popularizaram, no entanto, surgiram gambiarras que permitem ao usuário esconder a luz e disfarçar o fato de que está filmando. Adesivos, mutilações do aparelho – as soluções são várias, algumas delas vendidas na internet por 60 dólares. Talvez nem sejam tão necessárias: como os óculos da Meta ainda são pouco conhecidos do público em geral, o provável é que grande parte das pessoas nem perceba o sinal luminoso.

Disso resultam figuras como Arnaldo Campos. O brasileiro de 27 anos filma mulheres desconhecidas com o propósito de ensinar “desenvolvimento pessoal e sedução” aos seus seguidores, em sua maioria homens. Vende cursos online e um ebook que custa 10 euros. Se você assistir a um de seus vídeos, é provável que o algoritmo te conduza a outros tantos perfis com conteúdos similares. Filmagens desse gênero vêm se popularizando sob a hashtag #rizz, gíria em inglês que significa carisma sexual.

Para popularizar o equipamento de sua empresa-mãe, o Instagram marca as postagens com uma sinalização padronizada, indicando que as filmagens foram feitas com os smart glasses da Meta. Clique nesse pequeno aviso e você será redirecionado para uma página onde são vendidos óculos do gênero. A pessoa filmada, no entanto, geralmente não recebe aviso algum do que se passa e não ganha nada nessa história. Talvez, dali a meses, rolando o feed de uma rede social, descubra que protagonizou um vídeo assistido por milhões de pessoas. Os problemas éticos e jurídicos que essa prática envolve são, evidentemente, enormes.

 

Perfis focados na sedução de mulheres são apenas uma parte desse novo ecossistema criado pelos smart glasses. Na verdade, o gênero mais comum é o de vídeos ditos humorísticos. O potencial é grande: basta pensar nas pegadinhas que o apresentador João Kléber poderia ter inventado nos anos 2000 se óculos desse tipo já existissem. A diferença é que, nos programas da RedeTV!, as vítimas das gravações ao menos eram avisadas de que haviam sido filmadas. Nem sempre é o caso com os óculos da Meta.

A lista de conteúdos é longa e diversa, e algumas são mais inocentes do que outras. Por exemplo, há toda uma série de vídeos em que uma pessoa, ao receber o troco em dinheiro no mercado ou numa lotérica, saca de uma pochete vários apetrechos, como lanternas, canetas especiais e luz negra, para conferir se as notas são verdadeiras. A graça está na reação dos funcionários do estabelecimento, que normalmente ficam espantados com aquele procedimento inusitado. As piadas têm diferentes gradações de mau gosto. Numa delas, o usuário dos smart glasses pede ajuda a um transeunte para libertar seu irmão mais novo, supostamente preso no banheiro de um shopping. A pessoa, munida de boas intenções, vai até lá e tenta abrir a cabine, no que se depara com um adulto qualquer e toma um susto.

Entre os alvos mais frequentes estão trabalhadores do comércio, pegos desprevenidos. O usuário brasileiro gg_dz7oficial, por exemplo, obteve 35 milhões de visualizações num vídeo em que vai ao mercado para comprar um pepino, um preservativo e um lubrificante. A operadora do caixa, ao se deparar com essa combinação sugestiva, tenta prender o riso – e aí está a graça. Não sabemos se ela foi avisada da gravação. O dono do perfil não respondeu à piauí. A rede de supermercados Sakashita, onde foi feita a filmagem, disse apenas que acionou seu departamento jurídico para avaliar o caso.

Há exemplos mais agressivos. Um jovem carioca chamado Guilherme Angelicci, com 171 mil seguidores no Instagram, se filmou entrando pela janela de um drive-thru e invadindo a cozinha, para o desespero dos funcionários. Nos Estados Unidos – polo irradiador desse tipo de conteúdo, que depois se espalha por outros países em versões copiadas –, há homens que constrangem massoterapeutas perguntando se haverá “final feliz” ao término da sessão. Os óculos filmam a cena constrangedora.

No Brasil, não deve tardar para que os óculos da Meta entrem em rota de colisão com o inciso X do artigo 5º da Constituição e o artigo 20 do Código Civil. Ambos garantem o controle de imagem como um direito de personalidade intransferível e preveem indenização quando não houver consentimento ou quando houver ofensa “à honra, à boa fama ou à respeitabilidade” da pessoa – ou, também, quando a filmagem for usada para fins comerciais. Caso a autorização do uso de imagem seja concedida, quem grava deve mostrar exatamente de que forma usará a imagem. A pessoa filmada pode mudar de ideia mesmo depois da divulgação do material, pedindo sua exclusão.

Outros países têm legislações mais duras, proibindo a gravação de pessoas sem consentimento mesmo em lugares públicos. É o caso de Portugal, onde Arnaldo Campos se filma abordando mulheres. Lá, a pena pode chegar a um ano de prisão, mas o brasileiro não demonstra estar muito preocupado. Numa troca de mensagens com a piauí pelo Instagram, confirmou que grava mulheres sem que elas saibam e que somente “em alguns casos” pede autorização delas para divulgar o vídeo. Segundo ele, “na Europa são poucas as pessoas que se importam” com o direito de imagem. “Algumas pessoas mandam apagar e eu simplesmente apago.” Seu vídeo mais popular no TikTok tem 4,4 milhões de visualizações. Mostra o brasileiro abordando duas garotas sul-coreanas na rua. Elas dizem que conhecem pouco sobre o Brasil, ao que ele responde: “Você precisa saber mais sobre o Brasil, porque seu futuro namorado é brasileiro!”

Em maio, um homem que usou os smart glasses da Meta para gravar mulheres em Barcelona foi detido pela polícia. Tinha feito mais de trezentas filmagens, e só foi parado depois que uma vítima se reconheceu em uma das gravações e acionou as autoridades. Segundo os policiais, ele cobrava 3 mil euros para dar aulas de sedução na internet, como Campos, e vendia o acesso à íntegra de seus vídeos. Ocorrências do tipo fizeram com que a linha de cruzeiros MSC anunciasse, em dezembro, a proibição de smart glasses nas áreas comuns de seus navios.

 

A Meta afirma, protocolarmente, que seus óculos devem ser usados respeitando as leis e a privacidade das pessoas. As orientações que a empresa disponibiliza em sua página oficial são puro bom senso, o que não quer dizer que sejam acatadas. “Nem todo mundo ama ser fotografado. Pare de gravar se alguém disser que prefere não participar e seja especialmente cuidadoso com outras pessoas antes de iniciar uma transmissão ao vivo”, orienta a big tech. Em outro trecho ela pede: “Obedeça à lei. Não use os óculos para praticar atividades nocivas, como assédio, violação de privacidade ou captação de informações sensíveis, como senhas ou códigos PIN.”

Não há qualquer garantia de que as pessoas não vão fazê-lo. “Há ao menos algumas camadas de preocupação”, diz Elias Bitencourt, ao ser questionado sobre o uso dos smart glasses no Brasil. Ele é professor do curso de Design da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e pesquisador do Datalab Design, um laboratório especializado no uso e visualização de dados. Desenvolveu pesquisas sobre tecnologias vestíveis, como pulseiras para monitoramento de exercícios. “A dimensão da privacidade é agressiva nesse caso, porque é possível gravar pessoas com mais facilidade, e há a crescente sensação de que podemos estar sendo filmados o tempo todo sem perceber, complicando ainda mais a relação do que é público e privado numa época de constante exposição na internet.” A tecnologia é nova, e portanto o problema também o é. Ainda não há clareza sobre a aplicação da lei nesses casos. É um descompasso semelhante ao que vemos em outras frentes, como o uso de inteligência artificial, que a Justiça civil e a Justiça eleitoral ainda se esforçam para regulamentar.

Uma outra camada de preocupação, segundo Bitencourt, está no fato de que os smart glasses podem permitir que a Meta colete dados de seus usuários num volume sem precedentes. “Se dentro dos apps já temos uma captação granular de dados, às vezes a partir de micromovimentos e atitudes tomadas pelo usuário, imagine nos óculos inteligentes, que filmam os arredores? Eles talvez possam tratar toda a sua paisagem como um feed.” Caminhou em frente a uma academia de ginástica usando os óculos? Aqui vão dezenas de anúncios de academias e produtos fitness nas suas redes. Contemplou o amanhecer na praia? Tome promoções de biquínis e protetor solar.

Como os softwares da Meta funcionam em sistemas operacionais e lojas de aplicativos de outras gigantes da tecnologia, como Google e Apple, os óculos lhe dão uma vantagem: permitem que a empresa colete dados sem precisar da mediação de seus concorrentes. Os Termos de Uso e Política de Privacidade do Ray-Ban Meta, ao qual todos devem aceder antes de ativar o equipamento, afirmam que diversas ações praticadas com os óculos, incluindo filmagens e gravações de voz, podem ser coletadas como dados pela Meta. São as linhas miúdas do contrato que quase ninguém lê. À piauí, ao ser questionada sobre as possíveis violações de privacidade, a Meta enviou uma nota reforçando o que diz em seu site: que a luz acesa dos óculos sinalizam quando ele está gravando e que “os usuários são responsáveis por cumprir todas as leis aplicáveis e por usar nossos óculos com IA de maneira segura e respeitosa”. Disse também que o equipamento conta com “recursos para impedir a gravação quando a luz é obstruída”. Essa medida, no entanto, não tem freado modificações caseiras que burlam o sinal luminoso.

É provável que, cada vez mais, nos deparemos com relatos de pessoas que se sentiram expostas por óculos inteligentes. Um caso recente é o de Toluwa Omitowoju, americana de 31 anos que publicou um vídeo no TikTok relatando ter sido filmada sem autorização. Ela conta que estava na sala VIP de um aeroporto quando um homem usando os óculos Ray-Ban Meta a abordou. Embora conhecesse os óculos e seu sinal luminoso, Omitowoju não os identificou naquele momento. O homem a elogiou e engatou uma conversa. Os dois trocaram perfis de redes sociais, amigavelmente.

“Quando ele enfim sentou na minha mesa, colocou os óculos sobre a cabeça, e não consegui ver que eram do tipo que grava”, disse Omitowoju à piauí, numa conversa por Zoom. O papo no aeroporto durou pouco, segundo ela, e o homem se despediu com rapidez. Algum tempo depois, ela resolveu conferir o feed dele nas redes sociais e constatou que ele havia filmado abordagens a dezenas de mulheres, como fizera com ela. As conversas eram sempre publicadas com a hashtag #rizz. “Pedi para ele não postar o vídeo, mas ele não só ignorou o pedido como disse que a gente deveria fazer uma parte 2.” 

Tempos depois, um amigo de Omitowoju se deparou com o vídeo nas redes sociais e a contatou. Foi o primeiro de muitos. “Eu não aguentava mais pessoas me mandando a filmagem”, ela diz. Embora não fizesse nada de errado no registro, se sentiu “com a privacidade invadida, completamente desrespeitada”. Resolveu postar o desabafo no TikTok para chamar atenção para o caso. Seu depoimento repercutiu, e o homem que a gravou, sentindo-se pressionado, acabou deletando todos os vídeos de sua conta. Omitowoju pondera que, se tivesse optado por seguir o passo a passo do TikTok para denunciar o vídeo, provavelmente sua imagem ainda estaria circulando livre por aí.

Tanto para Omitowoju quanto para Bitencourt o remédio mais eficaz contra abusos desse tipo é um misto de legislação, letramento digital e tecnologias mais transparentes. A americana, que também é dona de um Ray-Ban Meta, com o qual filma paisagens urbanas, diz que o aviso luminoso é claramente insuficiente. Bitencourt, por sua vez, defende que sejam criadas novas regras para a coleta de dados de usuários na internet. Pondera, no entanto, que as leis atuais sobre uso de imagem já podem ser um instrumento poderoso contra as violações de privacidade – ao menos no Brasil. “Não é só porque temos um novo eletrônico que devemos começar do zero. Podemos reforçar o que já existe contra essas infrações.”

 


O subtítulo da reportagem foi alterado em 23/01/2026. A versão original dizia: “Com os smart glasses da Meta, você nunca sabe quando está sendo filmado, rastreado e até mesmo transformado em piada na internet.” A afirmação era inexata, já que o sinal luminoso dos óculos permite saber quando há uma filmagem sendo feita, apesar de o recurso ter sido frequentemente fraudado.

Assine nossa newsletter

Toda sexta-feira enviaremos uma seleção de conteúdos em destaque na piauí