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    Lula nos braços do Psol: o programa atual do partido, aprovado em 2004, diz que o petista é um "agente na defesa dos interesses do grande capital financeiro". É improvável que o texto continue assim Foto: Ricardo Stuckert

questões ideológicas

Quando os socialistas fazem o “L”

Em vinte anos, o Psol foi de oposição intransigente a base fiel do governo Lula. Agora, vai reescrever seu programa partidário para se adaptar aos novos tempos

Gabriela Sá Pessoa, de São Paulo | 31 mar 2025_09h40
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Era junho de 2004 e o governo Lula, iniciado havia pouco mais de um ano, acelerava “a rota para o precipício”. Assim dizia (ainda diz) o quinto parágrafo do programa do Partido Socialismo e Liberdade, o Psol. Aprovado em uma convenção com cerca de setecentos militantes, em pleno domingo, no Minas Brasília Tênis Clube, o texto inaugurou “a verdadeira oposição ao governo Lula”, nas palavras do então deputado federal Babá. O mundo só recebeu a notícia no dia seguinte, quando, postados em frente a um pôster de Che Guevara, no Senado, um trio de parlamentares – Luciana Genro (RS), Heloísa Helena (AL) e, claro, Babá (PA) – anunciou a criação do partido. Os três, mais o então deputado federal João Fontes (SE), haviam sido expulsos do PT meses antes por terem votado contra a reforma da previdência encampada por Lula.

O governo, contrariando quem esperava gulags e expropriações, vinha seguindo a cartilha da austeridade preconizada pelos economistas liberais. Cortou gastos e podou aposentadorias. Por razões de disciplina partidária, e com aval do presidente, o PT defenestrou os parlamentares que se opuseram a essa agenda. A solução encontrada por eles foi fundar um novo partido, o 29º da democracia brasileira àquela altura. Demorou um ano até que coletassem o mínimo de 450 mil assinaturas exigido pelo Tribunal Superior Eleitoral. Pretendiam escolher o 10 como número de urna, mas, por questão de dias, perderam-no para o bispo Edir Macedo, que acabava de fundar seu Partido Municipalista Renovador – hoje Republicanos. O Psol se contentou com o 50.

Ziraldo, simpático à causa, desenhou o Sol sorridente que até hoje serve de logotipo para o partido. “Renasceremos a cada dia como um Sol”, prometeu a então senadora Heloísa Helena, segundo registrou a Folha de S.Paulo. Nesses primeiros dias, Helena ainda se referia à agremiação como “o partido do Sol”. Em 2006, apelando ao eleitorado à esquerda de Lula, ela se candidatou a presidente e levou quase 7% dos votos, um percentual que a legenda, desde então, nunca esteve perto de igualar.

Hoje, tendo completado vinte anos, o partido do Sol se vê em circunstâncias muito diferentes. Está mais próximo do PT do que jamais esteve e conta uma ministra na Esplanada – Sonia Guajajara, à frente do Ministério dos Povos Indígenas. Não sem brigas, o partido decidiu não lançar candidato a presidente em 2022, fato inédito em sua história, e aderiu prontamente à coalizão de Lula. Agora bambeia diante da possibilidade de assumir mais um ministério, já que corre em Brasília o rumor de que Guilherme Boulos, deputado federal e principal liderança do partido, assumirá a Secretaria-Geral da Presidência, hoje nas mãos de Márcio Macêdo (PT). Caso o faça, passará a despachar do quarto andar do Palácio do Planalto, um acima de Lula.

O assunto é tabu. “A gente ainda está tentando entender se é uma possibilidade ou uma especulação”, disse Paula Coradi, presidente do Psol. Topar o cargo não será, segundo ela, uma contradição com os ideais do partido. “Tudo partiria de um diálogo para entender o nosso papel e quais seriam as expectativas em torno de uma presença maior nossa no governo.” Boulos não comenta. À piauí, disse apenas que compor a base do governo Lula é “raciocínio simples e ao mesmo tempo decisivo para nós”.

O dilema talvez explique por que, pela primeira vez, o Psol fará agora uma revisão do programa partidário aprovado em 2004. A justificativa oficial é de que o texto precisa refletir os novos tempos. Muita coisa mudou, no mundo e na esquerda, nesses vinte anos. “Nosso programa fala da Alca [Área de Livre Comércio das Américas], que já foi derrotada há muito tempo”, disse Juliano Medeiros, que presidia o Psol até 2023 e está engajado nas discussões do novo programa. Outros anacronismos, como as críticas a Lula, ele defende que também sejam deletados do texto. “Por que vamos citar no programa do partido uma pessoa que nem é do nosso partido? Não faz sentido.”

Programas partidários são uma exigência da Justiça Eleitoral e servem para que a legenda diga à sociedade a que veio. Ali estão as ideias que a inspiram, as propostas que defende, os objetivos que almeja. O cidadão que perscrutar as 5.836 palavras do programa do Psol saberá que o partido apregoa a reforma agrária, o confisco dos bens de corruptos e sonegadores, o combate ao racismo e à homofobia, a democratização dos meios de comunicação e, como horizonte final, a transição para o socialismo.

Parte 1, item 3: “Rechaçar a conciliação de classes e apoiar as lutas dos trabalhadores.” Não está claro se, com a adesão à frente ampla capitaneada por Lula, a frase sobreviverá intacta no programa do Psol. As discussões sobre o novo texto começarão em abril e vão ser divididas em cinco eixos temáticos: socialismo do século XXI; democracia, direitos humanos e sociais; crise climática e transição ecológica; mundo do trabalho e modelo econômico; lutas sociais e políticas do nosso tempo. 

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Os dirigentes evitam falar de pautas específicas. “Estamos buscando entender o presente para gerar esperança para o futuro. A gente quer se afirmar enquanto partido da nova esquerda, um partido dinâmico, um partido que defende as lutas do nosso tempo”, desconversou Coradi, a presidente. O tesoureiro, Tiago Paraíba, diz que é preciso fazer um balanço dos últimos dez anos. Como sair da oposição para a base do governo sem perder a identidade?, ele indagou. “Não é uma equação fácil”, concluiu.

 

A capixaba Paula Coradi tem 39 anos e se filiou ao Psol em 2009. Como Juliano Medeiros, seu antecessor, é historiadora de formação. Também como ele, ascendeu à presidência do partido sem ter ocupado cargo público. É uma militante da máquina. Galgou espaço na Executiva Nacional do partido e foi eleita para o cargo máximo em outubro de 2023. Recebeu os votos de 67% dos 451 delegados que se reuniram no 8º Congresso Nacional do Psol, em Brasília. A vitória mais folgada até hoje, mas em ambiente inflamado: a certa altura, militantes de correntes adversárias trocaram socos. 

Coradi faz parte da Primavera Socialista, a maior tendência do Psol, que tem como integrante mais célebre o deputado federal Ivan Valente (SP). Junto com a Revolução Solidária, grupo de Boulos, eles formam o Psol Popular, aliança que vem conseguindo obter maioria nas disputas internas e advoga por uma proximidade maior com o governo Lula. Do lado oposto há correntes menores, à esquerda, cujos representantes mais vocais têm sido o casal de deputados Sâmia Bonfim (SP) e Glauber Braga (RJ).

Grupos que andam se estranhando. A última crise, a maior de que se tem notícia, aconteceu em fevereiro, quando a liderança do Psol na Câmara demitiu o economista David Deccache de seu quadro de assessores. Inconformado, Deccache foi à imprensa e disse que estava sendo perseguido por criticar as políticas econômicas do governo Lula, o que, segundo ele, desagradava os chefes. Os deputados negaram: em nota pública, disseram que a demissão fora motivada não por discordâncias, “mas por ataques públicos do assessor [Decacche] a parlamentares e à presidente do Psol.”

Braga apoiou o colega demitido – um profissional, em suas palavras, “brilhante”. Em uma live no Instagram, o deputado denunciou o que considerava “uma virada de chave por parte do campo majoritário” do partido. No final, parafraseou Lênin: “O que fazer? Se esgotou o [meu] tempo de presença no Psol?” Por ora, Braga continua filiado.

Para os partidos de inspiração marxista, trata-se de uma encruzilhada tão velha quanto o próprio Marx. O quanto é possível se integrar a uma frente social-democrata sem perder de vista o socialismo? Em um artigo de dezembro de 2022, o historiador Valerio Arcary, que milita pelo Psol na corrente Resistência, adiantou o dilema que vinha pela frente. “A adesão ao governo condenaria o Psol a ser um satélite do PT. A definição como oposição de esquerda condenaria o Psol a uma solidão na marginalidade.”

Os dois lados da disputa dizem defender o caminho do meio: apoiar o governo contra as investidas do bolsonarismo, sem abrir mão de suas próprias bandeiras. Discordam mesmo é no método. Medidas de austeridade fortalecem a extrema direita. É papel do Psol fazer o enfrentamento dessas medidas, tensionando publicamente para garantir os direitos da maioria do povo”, disse Braga à piauí. Boulos deu parecer diferente: “Achar que esse é o momento adequado para colocar em pauta as diferenças na esquerda, ou situar o governo como adversário, é de uma miopia inacreditável.”

 

A revisão do programa partidário foi aprovada no mesmo congresso que elegeu Paula Coradi, e com votação igualmente expressiva. “A gente sentiu naquele momento que a consolidação de uma maioria de dois terços – que nunca tinha acontecido no Psol –, assim como a política de frente ampla, foram conquistas do nosso partido”, diz Juliano Medeiros, que também milita pela Primavera Socialista e pensa em sintonia com Boulos. “A gente não podia retroceder. Isso precisava estar documentado, no papel.”

O objetivo, em linhas gerais, é cristalizar a nova visão dominante do partido, que se expandiu e fez concessões ao pragmatismo. Medeiros encarnou essa transformação. Presidiu o Psol por dois mandatos consecutivos, entre 2017 e 2023, período no qual o número de filiados praticamente dobrou, passando de 147 mil para 292 mil. O partido ainda sofre nas eleições majoritárias: não elegeu nenhum prefeito no ano passado e perdeu a única capital que governava, Belém, onde o mandatário sequer chegou ao segundo turno. No Congresso as coisas não vão mal. Embora não tenha senador, o partido dobrou a bancada na Câmara desde 2014. Conta hoje com treze deputados.

Medeiros se filiou ao Psol em 2005, vindo do PT, numa história comum à dos integrantes da primeira geração do partido. Militava ao lado de Ivan Valente e o acompanhou quando o deputado resolveu abandonar as hostes petistas. “Lula havia sido eleito, e o desempenho do governo estava sendo frustrante para quem esperava mudanças um pouco mais profundas”, lembrou o ex-presidente do Psol. “A gota d’água para nós foi quando vieram à tona as denúncias de corrupção, como o Mensalão.”

As acusações contra o PT deram ao Psol a oportunidade de empunhar a bandeira da moralidade, da qual nunca se desvencilhou totalmente. Quem melhor encarnou esse sentimento foi Heloísa Helena, primeira presidente do partido. Em 2006, a senadora chamou Lula de gângster e descreveu o PT como uma “organização criminosa capaz de roubar, matar, caluniar e liquidar qualquer um que passe pela frente ameaçando seu projeto de poder”. Palavras que hoje soam mal para os ex-colegas. “Ela, que vem de uma corrente programática, acabou virando uma pessoa-fígado”, diz Ivan Valente.

Helena deixou o Psol em 2015, ano em que o partido, por força das circunstâncias, começou a calibrar o antipetismo. Dilma Rousseff iniciava o segundo mandato já nas cordas, emparedada por uma direita despudorada que emergira em 2013. O Psol cerrou fileiras com o governo e passou a buscar lideranças populares que desfizessem sua imagem de um partido de classe média. Lançou, com sucesso, as candidaturas de Marielle Franco e Talíria Petrone, ambas jovens negras eleitas vereadoras em 2016, no Rio de Janeiro e em Niterói, respectivamente. Pouco depois, Guilherme Boulos se filiou, trazendo consigo ativistas do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

A estratégia de popularização do partido foi encabeçada por Medeiros e Valente. “Eles representavam e ainda representam ideias de um partido mais arejado, mais aberto, mais amplo, que não pregue só pra convertido”, defendeu Boulos. “O que unia meu grupo ao grupo do Juliano e do Ivan Valente era a compreensão de que a gente precisava focar no enfrentamento à direita. Era preciso construir uma unidade dentro do campo progressista para lidar com o tempo difícil que estava se iniciando ali.”

Quando Lula, fora da prisão, recuperou o direito de disputar eleições após uma decisão do STF, ele convidou Boulos e Medeiros para uma conversa na sede do Instituto Lula, em São Paulo. Segundo Medeiros se recorda, o petista serviu cachaça e comentou que estava pensando em ser candidato à presidência em 2022. “Ele, muito sedutor como é, tentou nos puxar para uma aliança”, contou Medeiros. “A gente disse: ‘Não, presidente. A gente tem muito respeito, o senhor é um homem fortíssimo, talvez o mais adequado para liderar a frente contra o Bolsonaro. Mas a gente precisa discutir mais coisas’”.

Discutiram e se acertaram. O Psol não lançou candidato a presidente nem a governador em São Paulo naquele ano, fato que inflamou parte da militância, para quem se tratava de capitulação inaceitável. Recebeu, como contrapartida, apoio a Boulos na disputa pela prefeitura, em 2024. “Foi uma decisão não só correta, mas que nos custou menos do que poderia”, diz Medeiros. A seu ver, não fosse a aliança com Lula, o Psol teria se isolado de sua base. “A gente retrocederia dez anos de construção partidária, de abertura, para voltar a ser o Psol que fala com o gueto.”

O grupo majoritário diz que o novo programa, além de excluir as análises conjunturais de 2004, servirá para posicionar o partido no novo mundo do trabalho. “Temos uma classe trabalhadora mais fragmentada, marcada pela ideologia do empreendedorismo”, disse Boulos. “O Psol precisa apostar num caminho de disputa digital, de guerra cultural, de discussão de ideias.” Coradi citou como exemplo o movimento Vida Além do Trabalho, liderado pelo vereador carioca Rick Azevedo (Psol), que pleiteia o fim da jornada de trabalho 6×1. Trata-se, ela diz, de um exemplo de “programa ao máximo” – uma maneira acessível de divulgar pautas da esquerda sem moderar o discurso.

As resoluções serão discutidas em grupos de trabalho e, depois, submetidas à apreciação geral do partido. Não há previsão de quando o novo programa ficará pronto. Glauber Braga disse não saber que mudanças serão feitas no texto, nem quando.

“Lula entregou-se aos antigos adversários e voltou as costas às suas combativas bases sociais históricas. Transformou-se num agente na defesa dos interesses do grande capital financeiro. Na esteira dessa guinada ideológica do governo, o Partido dos Trabalhadores foi transformado em correia de transmissão das decisões da Esplanada dos Ministérios”, diz o programa partidário do Psol aprovado no Minas Tênis Clube.

Babá ainda concorda. Aos 71 anos, o ex-deputado conhecido pela longa cabeleira anunciou recentemente sua desfiliação do partido que ajudou a criar. “Eu considero um envelhecimento precoce do Psol”, disse à piauí. Do quarteto inicial de parlamentares, sobrou só Luciana Genro, deputada estadual no Rio Grande do Sul. Babá diz que aguarda, agora, o surgimento de um novo partido que represente a causa socialista.