questões da política

O PT e a encruzilhada de Haddad

Dois fatores, contudo, dão aos marqueteiros envolvidos na disputa municipal de São Paulo a convicção de que o petista, a despeito da derrocada do PT, deve estar no segundo turno da disputa

Julia Duailibi
07abr2016_19h40
FOTO: SUAMY BEYDOUN/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

“Quem apertará 13 nas eleições municipais deste ano?” Políticos e marqueteiros envolvidos na disputa de 2016 estão às voltas com essa pergunta. Ou melhor: com a resposta a ela. A crise moral e política que assola o PT deve devastar as intenções de voto do partido Brasil afora – só no estado de São Paulo, em menos de um ano a legenda perdeu mais de 30% de seus prefeitos. É particularmente nebulosa a conjuntura da capital paulista, maior colégio eleitoral do país e principal vitrine municipal do PT, que aposta na reeleição do prefeito Fernando Haddad.

Eleito em 2012 pelas mãos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, hoje investigado na Operação Lava Jato, Haddad amarga 12% das intenções de voto. Seu baixo desempenho não está relacionado apenas à crise do partido, mas também a escolhas da administração municipal. Os especialistas, porém, são unânimes em sustentar que o PT se transformou na maior âncora da eleição municipal, deixando em segundo plano a discussão sobre a qualidade da gestão do petista.

Dois fatores, contudo, dão aos marqueteiros envolvidos na disputa municipal de São Paulo a convicção de que o petista, a despeito da derrocada do PT, deve estar no segundo turno da disputa. São duas variáveis que podem mudar nos próximos dias, mas que já servem de baliza para que as equipes comecem a esboçar suas estratégias.

A primeira delas é a fragmentação da eleição deste ano. “A gente tem um cenário que nunca aconteceu: seis candidaturas com capacidade de atrair atenções”, disse o marqueteiro Felipe Soutello, que hoje trabalha para o PSD de Andrea Matarazzo. Por enquanto, além de Haddad, lançaram-se na disputa outros cinco candidatos de grandes partidos ou com recall de eleições anteriores: Celso Russomanno (PRB), líder nas pesquisas, Marta Suplicy (PMDB), João Doria (PSDB), Matarazzo (PSD) e Luiza Erundina (PSOL).

A briga de “gigantes” diminui o percentual necessário para um candidato passar ao segundo turno, o que facilita a vida de Haddad, que tem a máquina da prefeitura na mão (variável nada desprezível numa corrida eleitoral) – em 2012, ele foi para a segunda etapa da disputa com 28,98% dos votos contra 30,75% do tucano José Serra.

“Haddad precisa só da confirmação de apenas parte dos eleitores que votaram nele no segundo turno de 2012, quando se elegeu, para passar para o segundo turno deste ano (ele obteve 55,57% dos votos). Não é nada impossível. Principalmente em se tratando de um candidato que está no cargo”, afirmou um marqueteiro que atuou na última campanha municipal. A estimativa é que, dado o potencial eleitoral dos demais candidatos, algo entre 18% e 22% das intenções de voto deve garantir a vaga no segundo turno.

“Candidatos precisavam de mais ou menos 20% para ir para o segundo turno. Agora, com a fragmentação, restaura-se a chance de Haddad. Para quem disputa a reeleição, nunca é bom muitas candidaturas porque no segundo turno todos tendem a se juntar contra o incumbente. Os eleitores veem as demais candidaturas como de oposição ao mandatário. Curiosamente, no entanto, a existência de múltiplas candidaturas pode ajudar Haddad, dando a ele a chance de ir para o segundo turno”, declarou o sociólogo Antonio Lavareda, que trabalha para o PSDB estadual.

A fragmentação, porém, pode encolher até a eleição. Russomanno corre o risco de ser considerado ficha suja até a disputa de outubro, e Marta Suplicy, do PMDB, pode não ter legenda, caso o vice-presidente Michel Temer assuma o governo e precise usar a eleição de São Paulo como moeda para compor a governabilidade no Congresso.

A segunda variável apontada pelos especialistas na disputa paulistana, que pode favorecer o atual prefeito, é o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Haddad, dizem, se beneficiaria de um cenário no qual o impedimento de Dilma fosse aprovado. Com a saída do “Fora PT” e a entrada de Temer na vitrine, para chegar a setores da sociedade incomodados com o processo Haddad poderia evocar o discurso da vitimização, segundo o qual o impeachment teria sido um golpe da classe política e da imprensa.

“Se houver impeachment, virão novos tempos, novos personagens, novos problemas. O PT sai um pouco vitimizado, sim. Mas só de Dilma ir para casa, não ficar na conta do Haddad, já está bom para ele”, completou Lavareda.



Julia Duailibi

Julia Duailibi trabalhou na piauí, na TV Bandeirantes, na Folha de S.Paulo, na Veja e n’O Estado de S. Paulo

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