questões cinematográficas

A quem faz cinema no Brasil

Reflexões sobre os impasses da profissão, nas palavras de Dziga Vertov

Eduardo Escorel
24maio2018_12h07
Imagem do filme <i>Um Homem com uma Câmera</i> (1928-29), de Vertov
Imagem do filme Um Homem com uma Câmera (1928-29), de Vertov / REPRODUÇÃO

“Eu faço uma proposta de filme depois da outra. Enquanto o estúdio nada propõe. É como se eu estivesse em um palco, enquanto a administração e o departamento de roteiros estivesse na plateia.

Eu canso minhas pernas, propondo uma coisa, depois outra. E os espectadores observam e ouvem. E ficam em silêncio.

E sinto como se eu estivesse lá embaixo. De frente para o primeiro degrau de uma escadaria longa e íngreme. […]

Você quer fazer um filme a partir de um roteiro.

Mas lhe dizem: ‘Bem, quem pode escrever o roteiro para você?’

Você quer fazer um filme sem roteiro.

Mas lhe dizem: ‘Isto não tem um plano. Um filme precisa necessariamente ser feito conforme um roteiro.’

Você quer fazer um filme sobre pessoas reais.

Dizem: ‘Estou firmemente convencido que pessoas reais não podem ser filmadas de maneira documental; não podemos permitir isso.’

[…] Aí, lhe dizem: ‘Nós não podemos ter você fazendo isso. Você tem um nome e uma identidade criativa. Nosso estúdio não pode correr esse risco. Nós precisamos mantê-lo do modo que sua reputação no cinema exige.’

Aonde, eu pergunto, está a saída desse impasse?”

*

Não fui eu quem escreveu o texto acima, apenas o traduzi do inglês, de um original em russo. O autor é Dziga Vertov, pseudônimo de Denis Abramovich Kaufman (1896-1954), diretor, entre vários filmes menos famosos, de Um Homem com uma Câmera (1928-29). Foi ele quem fez essa anotação em seu diário, no dia 24 de outubro de 1939.

As circunstâncias da União Soviética de então e as do Brasil de hoje são, naturalmente, muito diversas. Mas, ao menos para mim, ao reler por acaso essas anotações de Vertov, senti certa familiaridade com a sua tragédia. Para ele, “não haveria saída”, escreve Annette Michelson na introdução aos escritos de Vertov (Kino-Eye: The Writings of Dziga Vertov, 1984, sem edição brasileira).

“A enorme burocracia do regime stalinista estava agora inteiramente reproduzida na indústria soviética de cinema”, escreve Michelson. E completa: “A apresentação incessante de projetos, as antecâmaras assombradas e as infindáveis solicitações de autorização oficial eram a única resposta possível para a situação.”

No mesmo dia em que fez a anotação reproduzida acima, Vertov escreveu também que “ele escreveria de acordo com todas as regras, se tão somente eles lhe derem seu violino o mais brevemente possível. Afinal, se as coisas continuarem deste modo, ele esquecerá como tocar. […] Ele se arrasta pelas ruas, maldizendo a si mesmo por sua inabilidade para dar-se bem; sua inabilidade para oferecer seu trabalho, para ser astuto, e para manobrar; sua inabilidade para obter um trabalho criativo por qualquer meio, como qualquer cortador de filme comum sabe fazer”.

Deixo aqui essas palavras de Vertov e dou início a um período de férias. Voltarei à lide em 28 de junho. Até lá.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

Leia também

Últimas Mais Lidas

Foro de Teresina especial: aguarde

O programa, que contou com a participação da jornalista Maria Cristina Fernandes, foi gravado ao vivo durante o evento que reuniu os melhores podcasters do país

Entre gargalhadas, cotidiano e estratégia: os podcasts de humor

Linguagem politicamente incorreta e medo da repetição estão entre as preocupações dos realizadores 

Em podcasts jornalísticos, muito planejamento e pouco improviso

Produção diversificada e roteiro bem construído ajudam a resumir informação e análise

Um podcast pra chamar de seu: os temas de cada tribo

Futebol, feminismo e história motivam conteúdos produzidos para grupos específicos; para realizadores, nem todo patrocínio é bom

Podcast, um novo modelo de negócio

Mesa de abertura da segunda edição do evento discutiu estratégias de financiamento 

Acompanhe a transmissão ao vivo da segunda Maratona Piauí CBN de Podcast

Encontro está sendo transmitido em áudio e em vídeo nos sites e redes sociais da piauí e da CBN

Sem saúde nem plano

Por que os planos de saúde privados se tornam inviáveis a partir dos 60 anos e como algumas operadoras conseguem cobrar menos

Foro de Teresina #64: A fritura de Moro, a expulsão de Frota e o acordo de Itaipu

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Acordo de WhatsApp para manter Frota no PSL não resiste a canetada de Bolsonaro

Bancada selou em grupo de aplicativo permanência do deputado, que acabou expulso depois de criticar Eduardo; outros parlamentares devem ser enquadrados

O direito ao cinema

Reflexões de Antonio Candido sobre literatura podem ser adaptadas ao cinema, uma aventura equivalente

Mais textos
1

A vovó fashion

Uma influencer e seus looks ousados

2

A imprevidência chilena

Elogiado por Bolsonaro e Guedes, regime de capitalização implantado no Chile tem aposentadoria média inferior ao salário mínimo

3

Acordo de WhatsApp para manter Frota no PSL não resiste a canetada de Bolsonaro

Bancada selou em grupo de aplicativo permanência do deputado, que acabou expulso depois de criticar Eduardo; outros parlamentares devem ser enquadrados

4

Por que João Gilberto é João Gilberto

Diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo comenta, ao violão, legado do inventor da bossa nova; veja os vídeos

6

Sem saúde nem plano

Por que os planos de saúde privados se tornam inviáveis a partir dos 60 anos e como algumas operadoras conseguem cobrar menos

7

Foro de Teresina #64: A fritura de Moro, a expulsão de Frota e o acordo de Itaipu

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

8

Um novo epílogo para Eike Batista

Investigação que levou empresário de volta à cadeia mostra como ele enganou investidores e manipulou preço das ações

9

Operação zangão

O combate ao furto de abelhas no interior de Minas Gerais

10

Congresso abana o fogo entre Moro e Bolsonaro

Deputados comemoram desgaste do ministro da Justiça com Bolsonaro, impõem derrotas ao pacote anticrime e mostram descontentamento com o ex-juiz símbolo da Lava Jato