Taís Araújo, na cena em que sua personagem volta a vender sanduíche na praia depois de perder a empresa que lhe deu temporariamente fama e fortuna Reprodução/ TV Globo
Quem matou Raquel Acioli?
O sumiço da protagonista negra e suas consequências
Primeiro, a comemoração. A personagem Raquel, protagonista de Vale Tudo, novela de 1988 escrita por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, antes interpretada por Regina Duarte, seria vivida por Taís Araujo no remake de Manuela Dias. A escolha da artista negra para interpretar a mulher ética, que atravessa a vida tendo embates morais com a filha, era mais que diversidade, mas uma justa correção de rota para uma tevê que só nos últimos anos começou a refletir um pouco melhor a cor do Brasil (55,5% da população é preta e parda, segundo o último censo, de 2022). “Para mim, a personagem Raquel sempre foi preta. Só era branca pela nossa incapacidade social no momento de dar protagonismo a uma atriz preta”, declarou a autora Manuela Dias antes do lançamento. Era uma daquelas escolhas de significado expandido, que cabe na máxima de Angela Davis: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela.” Mais significativo ainda que muitos outros atores negros foram escalados para estar no centro e por todos os cantos da história. No original, havia apenas dois: uma faxineira e um adolescente em situação de rua envolvido em roubos e furtos. Agora, Maria de Fátima passou de Glória Pires para Bella Campos. Jarbas, de Stepan Nercessian para Leandro Firmino. Consuelo, de Rosane Gofman para Belize Pombal. Fernanda, de Flávia Monteiro para Ramille. Daniela, de Paula Lavigne para Jessica Marques. André, de Marcello Novaes para Breno Ferreira. Eunice, de Íris Bruzzi para Edvana Carvalho. Luciano, de Jairo Lourenço para Licínio Januário. Sardinha, de Otávio Muller para Lucas Leto. E a lista continua…
Eis que, então, veio a decepção. Em 1988, Raquel tinha uma sólida trajetória ascendente. Alicerçada no trabalho ético – em contraste com a trajetória da filha, que levava a Lei de Gérson às últimas consequências –, a heroína da trama se tornava rica e famosa lá pelo meio da história, para nunca mais contar moedinhas na vida. Em 2025, depois de se tornar uma mulher de sucesso, Raquel sofre um golpe da vilã, perde sua empresa, a Paladar, e fica pobre de novo. Reinicia a luta para honrar os boletos e volta ao ponto zero de sua saga no Rio, vendendo sanduíche na praia. O que para muitos poderia ser um recurso narrativo da jornada do herói, boa parte do público (em especial, o público negro) percebeu como um golpe no queixo, e se avolumaram as reclamações nas redes sociais. Deu-se, pelo avesso, a máxima de Davis: quando a protagonista negra se movimentou de volta, com tantos passos para trás, parte da sociedade se sentiu atropelada na catarse.
Até que a própria Taís Araujo, que antes defendia o remake das críticas (e não foram poucas, desde o começo) em suas redes, adotou um tom crítico em uma entrevista no dia 27 de agosto, em um evento ligado à exposição Ancestral: Afro-Américas, no CCBB do Rio. Ali, ela foi parada por jornalistas perguntando sobre seu cabelo, look e planos futuros. A pauta mudou quando o repórter Patrick Monteiro, que cobria a noite pela revista Quem (Grupo Globo), fez uma abordagem diferente. Monteiro, que também é negro, perguntou sobre o momento “tristíssimo” que iria ao ar mais tarde, no qual Raquel encontraria a rival amorosa Heleninha (Paolla Oliveira) enquanto pelejava na areia quente. Taís disse ter “levado um susto” ao ver que Raquel, que havia ascendido pelo trabalho, voltaria à pobreza. Ela disse:
“Quando peguei a Raquel para fazer, falei: ‘A narrativa dessa mulher é a cara do Brasil. Ela vai ter uma ascensão social a partir do trabalho. Ela vai ascender e vai permanecer. Isso vai ser uma narrativa muito nova do que a gente vê sobre representação da mulher negra na teledramaturgia brasileira’ (…) Quando vejo que isso não aconteceu, como uma artista que quer contar uma nova narrativa de país, e a dramaturgia proporciona isso, confesso que fico triste e frustrada (…) A Raquel tinha todas as possibilidades da gente contar essa nova narrativa. E quando li, pensei: ‘Ai, meu Deus, não vai ter?’ Não, não vai ter. Tenho que lidar com a realidade que me cabe, que é a de intérprete de uma personagem que não é escrita por mim (…) Também tinha esperança disso e gostaria muito de vê-la assim. Como mulher negra, como artista negra, de ver uma outra narrativa sobre mulheres negras.” Taís Araujo encerrou a conversa falando do papel da dramaturgia e da ficção. “Eu queria que a batalha da Raquel fosse outra, e não uma batalha por sobrevivência (…) Que ela tivesse conflitos, sim, mas de outra ordem. Com a própria Odete, conflitos éticos. A ficção serve para a gente sonhar, a ficção serve para a gente se sentir possível. A ficção tem um trabalho na narrativa de um país, de como um país entende um povo”.
A entrevista virou um dos grandes assuntos do dia e chamou atenção de lideranças negras. A escritora Maíra Azevedo, conhecida como Tia Má, autora do livro A menina que não sabia que era bonita, postou uma carta de apoio à atriz em seu perfil no Instagram, onde soma 1,6 milhão de seguidores: “Hoje, como Raquel, você segue tão presente que até sua ausência se faz sentir. Porque quando você não está, falta. E essa falta é a prova de sua grandeza. E tem ainda coragem de dizer o que sente, o que vive. Esse gesto também nos ensina que sermos verdadeiras é parte de nossa liberdade.”
A escritora Bárbara Carine, com 656 mil seguidores, postou um vídeo em suas redes, no dia 30 de agosto, repercutindo o apagamento de Raquel. Ela sintetizou uma visão partilhada por muitos: “Há um fetiche da branquitude em torno da constante superação das pessoas negras. Há uma necessidade de ver pessoas negras se superando o tempo todo, e a gente queria ter uma vida tranquila.” O post teve 27,8 mil curtidas e 2,3 mil compartilhamentos.
Alguns dias depois da entrevista, Taís foi vista chorando em seu camarim, na Globo. A piauí perguntou sobre o episódio à TV Globo e questionou se a atriz foi acolhida de alguma forma. “Mantemos uma relação de profundo respeito e acolhimento com todos os nossos profissionais” foi a resposta.
Pessoas próximas à atriz e à autora afirmam que elas não chegaram a conversar presencialmente. A autora só foi dar uma declaração no começo de outubro. Uma repórter da RedeTV! lhe perguntou: “A Taís Araujo fez uma crítica pública. Você conversou com ela depois? Entendeu também o lado dela?” Dias tergiversou: “Acho que a novela é um processo de colaboração, né? É isso.”
Procuradas, nem Dias nem Taís concederam entrevista à piauí.
Fora do ar, porém, as especulações criaram uma novela paralela. A personagem de Taís Araujo foi deslizando rumo à irrelevância nos últimos meses. O embate entre mãe e filha se esgarçou enquanto Dias deu protagonismo ao núcleo da família Roitman. O núcleo de Raquel foi sumindo junto dela. Se antes os atores tinham gravações de segunda a sábado, nas últimas semanas passaram a ter dois ou três dias de folga na semana. Em geral, a artista principal da história fica com a agenda de gravações ainda mais tomada à medida que o fim da novela se aproxima. Com o remake de Vale Tudo, foi diferente. O primeiro nome a aparecer nos créditos de abertura começou a ver o jogo do banco.
Procurada pela piauí, a Comunicação da Globo tem outra leitura: “O embate entre Raquel e Maria de Fátima esteve no centro da trama de Vale Tudo do primeiro ao último capítulo, como pôde ser visto ao longo da exibição.”
Amigos da dramaturga dizem que ela ficou abalada com as acusações com viés racial. A Comunicação da Globo enfatizou à piauí: “A Diretoria de Diversidade e Inovação dos Estúdios Globo participa do desenvolvimento de todos os roteiros de todos os conteúdos produzidos. Com Vale Tudo não foi diferente. A área de Diversidade participou do desenvolvimento desde a sinopse até os roteiros finais, como é de praxe”.
Uma pessoa próxima à autora disse à piauí que Taís foi injusta. “Era sabido por todo o elenco que o final da novela seria com a Raquel comprando uma mansão”, diz uma pessoa diretamente envolvida na novela. Durante a entrevista, a atriz mencionou que ainda faltava gravar doze capítulos (a compra da mansão se deu na semana final).
Na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) deste ano, Dias participou de uma mesa disputada ao lado de roteiristas de Ainda estou aqui na Casa República, do cineasta Guilherme Coelho. Ela explicou sobre o seu processo de criação e de como se preocupou em fazer adaptações para deixar o remake de Vale Tudo sintonizado com o espírito do tempo. Citou, por exemplo, que em 1988 praticamente todos os personagens homens ameaçavam bater em mulheres. “O Poliana vira para a Aldeíde e diz: ‘eu vou dar um tapa na sua cara’”, contou Dias, para espanto dos presentes, fazendo referência ao personagem masculino mais inofensivo da história (antes, Pedro Paulo Rangel; hoje, Matheus Nachtergaele). Ela comentou a questão racial. “Eu tinha 11 anos quando passou a primeira versão de Vale Tudo. Tinha dois personagens negros: a doméstica e o ladrão. Isso me chamou a atenção”.
Atacada nas redes por detratores da novela e pessoas incomodadas com o sumiço da protagonista, Dias restringiu o recurso de comentários de suas redes sociais. O público usava então outros posts e redes para protestar quando a personagem da Raquel aparecia pouco ou nada em alguns capítulos. A novelista foi acusada de ter retaliado Taís após a entrevista, cortando as suas cenas. Não faz sentido. Quando a atriz concedeu aquela entrevista ao site da Quem no final do mês de agosto, o elenco sabia que a personagem dela tinha pouquíssimas cenas nos próximos capítulos. Não havia nem campo para retaliação – ela já tinha virado uma coadjuvante de luxo.
“Do ponto de vista da análise do roteiro, as falas da Raquel são mais pobres e menos complexas: ela passa minutos falando sobre uma colher de pau”, diz Silvia Nascimento, head de conteúdo do site Mundo Negro. O fato de a personagem, mesmo já rica, seguir morando em um apartamento simples e com cortina de plástico, chamou a atenção. Mesmo Daniela, estudante de direito, trabalhava como motorista de moto por aplicativo. A essa altura da novela, a Raquel vivida por Regina Duarte já tinha saído de uma casa simples para ir viver em um apartamento chique. “A Taís Araujo não só virou coadjuvante da novela como se transformou em uma garota-propaganda de luxo, fazendo merchan para muitas marcas.”
Com 1 milhão de seguidores no Instagram, o Mundo Negro tem feito de Vale Tudo um assunto preferencial, com destaque para os triunfos dos personagens vividos por atores negros, em especial a Consuelo de Belize Pombal. Se na original a secretária executiva da empresa TCA acabava a história como namorada de bandido, aqui ela é muito preparada, poliglota e ascende para a diretoria da firma, com aumento de 470% em uma só tacada. As reações nas redes sociais sobre ela são inversamente proporcionais à tristeza com o destino de Raquel (e pelo mesmo motivo): a imagem da mulher preta vencedora, aí sim, foi uma catarse plena.
O enfraquecimento de Raquel, a bem da verdade, aconteceu com outros personagens marcantes da novela original interpretados por atores brancos. O mais comentado foi o mordomo Eugênio (antes Sérgio Mamberti, agora Luis Salém), desidratado desde o começo, mas há outros que começaram com destaque na história e terminaram como escada, a exemplo de Solange Duprat (Lídia Brondi, Alice Wegmann).
O quanto o embate de heroína e escritora incomodaram a cúpula da Globo foi um segredo tão bem guardado quanto quem matou Odete Roitman. Ainda assim, o clima de celebração foi geral, com o recorde de faturamento na história da telenovela brasileira (os números precisos não foram divulgados). Os atores mais famosos faturam entre 30 e 40 mil reais por merchan. Já os menos famosos recebem um pouco abaixo dos 10 mil reais.
Se as críticas a fragilidades do roteiro invadiram as redes, uma pesquisa do Datafolha divulgada em setembro mostrou que 65% dos espectadores da novela acham a trama boa ou ótima; 25%, regular. Apenas 8% classificaram Vale Tudo como ruim ou péssimo, e 1% não opinou. Nas últimas semanas, a história chegou enfim a passar dos 30 pontos de audiência, marca muito boa para os dias de hoje.
Em meio a ações de BYD, iFood, Zé Delivery, Omo, Comfort, L’Oréal, Tintas Coral, Coca-Cola, O Boticário, Vivo e dezenas de outras marcas, sumiu da história a questão sobre a qual Gilberto Braga construiu a novela, em um contexto de redemocratização do país: Vale a pena ser honesto no Brasil?
“A Globo decidiu fazer esse remake, entre aspas, e suprimiu a crítica social. Eu acho que tirar a crítica social é algo que venha da Globo, e não da Manuela”, avalia Nilson Xavier, crítico de tevê e autor do livro Almanaque da Telenovela Brasileira. Em suas redes, Xavier disse que o nome Vale Tudo deixou de fazer sentido e poderia mudar para “keeping up with the Roitman” (acompanhando os Roitman), em uma alusão ao reality show americano que documentava as futilidades milionárias das Kardashian.
A observação do crítico faz sentido. Na tentativa de se aproximar de um público conservador, que desde 2013 tem feito campanhas para que a “#GloboLixo” seja vista como uma grande vilã do país, a Globo tem acenado também para o público que se distanciou dela. Exibiu recentemente uma série especial sobre música gospel e lançou uma série especial sobre rodeio, que mostra, entre outras coisas, como os animais são extremamente bem tratados antes de entrar na arena.
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