Crédito: Eloar Guazzelli_2025
Contra o monopólio da razão literária
O saldo bastante negativo das controvérsias de Walnice Nogueira Galvão, Aurora Bernardini e José Falero
A publicação de uma lista dos 25 melhores livros brasileiros do século XXI na Folha de S.Paulo, em maio de 2025, deu origem a uma controvérsia que se arrastou ao longo de todo o ano passado. Começou com o comentário à lista feito pela crítica literária Walnice Nogueira Galvão, professora emérita da USP, que, diante do destaque de livros de autoria negra na lista, comemorou, dizendo que “a tendência é bem-vinda, já vem tarde”, e a reputou como um aparente “triunfo da negritude”.
Para Galvão, esse fato poderia ser entendido como uma “tentativa de reparação simbólica aos males não só da escravidão como também à maneira desastrada pela qual a emancipação foi feita”. Ato contínuo, ela ressaltou que, “para a crítica literária propriamente dita”, vivemos um momento de predomínio do conteúdo sobre a forma na literatura brasileira. “O que se escreve e o que se lê são definidos pelo conteúdo”, afirmou, o que “pode estar implicando uma inclinação da literatura mais para o lado do entretenimento, e menos para o lado da arte”.
A ensaísta e tradutora Aurora Fornoni Bernardini, professora aposentada também da USP, pôs mais lenha na fogueira, meses depois, ao retomar em entrevista na Folha o argumento de Galvão, ampliá-lo para escala mundial e declarar que autores como Itamar Vieira Jr., Annie Ernaux e Elena Ferrante “são interessantes, mas não literatura”. Perguntada sobre a especificidade do Brasil nessa tendência conteudista global, Bernardini disse: “O passado não pode repercutir no presente como estão querendo. Esse fenômeno terrível do passado, a escravidão, não implica merecimentos no presente. É preciso partir da igualdade de condições de conhecimento. Não se pode dar o mérito antes das condições.” A entrevista repercutiu com força.
Um capítulo inquietante dessa discussão surgiu em novembro, mês em que se comemora o Dia da Consciência Negra. Em artigo publicado na piauí_230 (Murro em ponta de faca, novembro de 2025), o escritor José Falero reconstruiu com cuidado o argumento de Bernardini. A ideia de que a literatura contemporânea “se baseia no conteúdo e esquece a forma”, para ele, é “uma afirmativa de exatidão patente”. Isso posto, ele observou que as manifestações contrárias à fala da professora, em sua maioria, não estão interessadas em “demonstrar falta de base material para as afirmações” feitas por Bernardini; em vez disso, “se dedicam a desqualificá-las, por ser ela branca, de origem europeia, bem posicionada socialmente”.
Falero vai ao que lhe parece ser a raiz do problema: “Um par de conceitos muito em voga hoje em dia: lugar de fala e pacto narcísico da branquitude.” Para registro – já que Falero não dá a autoria intelectual desses conceitos –, a noção de “lugar de fala” remonta à obra de Michel Foucault e foi sistematizado e popularizado no debate brasileiro pela escritora e ensaísta Djamila Ribeiro. A noção de pacto narcísico da branquitude, por sua vez, foi formulada pela psicóloga e escritora Cida Bento e articula a psicanálise freudiana – na linha do psicanalista René Kaës, cujo foco são os grupos e seus vínculos intersubjetivos – com os estudos críticos da branquitude. Sigamos.
Falero ressalta que “a importância e a legitimidade de tais conceitos estão fora de discussão; não resta qualquer dúvida, no entanto, de que o uso imprudente de ambos tem enorme potencial para promover injustiças”. A seu ver, foi o que ocorreu com Bernardini, tachada categoricamente de racista nas redes. Na opinião do escritor, “sugerir que a explicação por trás da afirmação de Bernardini seja racismo, por exemplo, constitui gravíssima acusação, que ademais não pode ser comprovada de nenhuma maneira, o que configura calúnia”.
O saldo parcial desse debate revelou-se bastante negativo. A mídia aparece como veículo de “contaminação” que, ao dar mais ênfase à biografia dos autores do que às obras, faz pender a balança da literatura mais para o lado do “entretenimento” que o da “arte”, como disse Walnice Nogueira Galvão. O mercado editorial, por sua vez, surge como um mecanismo ávido por atender uma “demanda mercadológica por inclusão representativa”, como escreveu Falero, jogando o mesmo jogo e se posicionando “longe dos propósitos artísticos”, já que “como todo e qualquer mercado, é uma máquina de atender demandas cegamente, visando ao lucro”.
A própria crítica literária oscilou entre duas posições desairosas. Na primeira, o crítico aparece como um “coitado”, “à beira da extinção” e intimidado “por hordas de fãs agressivos que fazem das redes sociais uma ferramenta de linchamento”, ainda nas palavras de Falero. Sem coragem de falar a verdade sobre as obras que analisa, esse crítico hipotético acaba se “acovardando” (o termo é do escritor e crítico Luiz Maurício Azevedo), aderindo à “inversão de papéis” entre público e crítica e alimentando o “círculo vicioso demeritocrático” que tem feito com que “livros tenebrosos” consigam “a proeza de tornarem-se fenômenos de venda” (segundo Falero).
Na segunda posição, a crítica que teima em ser corajosa o suficiente para dizer o que pensa, o faz articulando uma “improdutiva disjunção teórica entre conteúdo e expressão” que funciona como “uma banal e autoritária petição de princípio ontológica: tal coisa é ou não é [literatura], porque se enquadra ou não em minha definição desta mesma coisa”, como explicou com lucidez e precisão o professor Eduardo Cesar Maia, da Universidade Federal de Pernambuco (Ufpe), em artigo na Folha (em 3/9/2025). Por fim, a literatura de autoria negra, cuja ascensão foi o disparador de toda essa discussão, se torna a figura paradigmática desse “fenômeno de inclusão representativa por meio do conteúdo dos livros, em absoluto detrimento da forma”, nos termos de Falero.
Na melhor das hipóteses, o conjunto dessas análises encena um resignado “é o que tem pra hoje, gente!”, reiterando o que havia escrito Walnice Nogueira Galvão no texto que inaugurou o debate: “Quanto à estética, ao trabalho com a forma, aos anseios da vanguarda, ao fermento da experimentação… Tudo isso fica no horizonte do futuro, e assim mesmo, talvez.” O pior cenário surge no diagnóstico alarmista de Falero: “Não sei se ficou claro o suficiente, mas estamos em meio a uma verdadeira catástrofe.”
Não me parece claro que estejamos diante de uma “verdadeira catástrofe” e penso que o futuro talvez já esteja batendo à nossa porta. Mas, para notar sua presença, como sugeriu Eduardo Cesar Maia, “talvez tenhamos que começar a tentar discutir a questão a partir de perspectivas renovadas, ou novo vocabulário”. Tentemos, pois, entrar em 2026 divisando outro horizonte.
“Que tipo de crítica, de comentário sobre as artes, é desejável hoje em dia?”, perguntou Susan Sontag em Contra a interpretação, ensaio publicado em 1964 na revista Partisan Review e mais tarde incluído no livro Contra a interpretação e outros ensaios (1966). Essa obra, que consolidou Sontag como uma das principais vozes da crítica cultural americana, descreve um cenário que nos é familiar: “Nossa cultura se baseia no excesso, na superprodução; o resultado é uma perda constante no grau de agudeza de nossa experiência sensorial.” Dos anos 1960 para cá, essa situação só se agravou, sobretudo nas últimas três décadas, com o advento da internet e, especialmente, das redes sociais.
Sessenta anos atrás, Sontag propunha uma saída relativamente simples: “O importante agora é recuperar nossos sentidos. Precisamos aprender a ver mais, a ouvir mais, a sentir mais.” Ela chamou essa abordagem de uma “erótica da arte” e a contrapôs aos enfoques tradicionais – ou “projeto da interpretação” –, preocupados em analisar e julgar a arte a partir de um conjunto de elementos (ou regras), o que culmina na tentativa sempre inconclusa de descobrir o que está por trás de uma obra de arte, o que ela verdadeiramente significa.
Sontag explica que, desde Platão, o desvio da arte é não ter utilidade prática: a cama retratada por uma pintura não serve para dormir, o que a “torna problemática, precisando de defesa”. E é essa necessidade de defender a arte que “dá origem à estranha concepção de que algo que aprendemos a chamar de ‘forma’ está separado de algo que aprendemos a chamar de ‘conteúdo’”. Desde a Antiguidade grega, portanto, o ato inaugural de toda crítica estética é, “em defesa da arte”, apelar para a distinção conceitual entre forma e conteúdo. Sontag argumenta que isso, “em última análise, não passa de uma ilusão” que atende à “inútil necessidade de proteger a arte solene das artes de entretenimento”, e cuja manobra central, na década de 1960, consistia no “gesto bem-intencionado de considerar o conteúdo como essencial e a forma como acessória”.
Trata-se de uma perfeita inversão dos termos do debate contemporâneo, em seu clamor por mais atenção à forma. Além da centralidade da díade forma-conteúdo (o que só comprova como ela pode operar em sentido diametralmente oposto), os dois momentos históricos guardam outro “gesto bem-intencionado” comum. Para entendê-lo, precisamos adentrar um novo terreno.
No atual debate sobre a maior presença negra no mundo dos livros no Brasil é patente a dificuldade em se conectar com qualidade a rica e multifacetada produção intelectual global sobre o tema das relações raciais e a análise do sistema literário em suas conexões estéticas e políticas com a sociedade civil e a indústria cultural. Parece nos faltar elementos para conduzir esse diálogo.
Em Black matters (Questões negras), primeiro ensaio de Playing in the Dark – whiteness and the literary imagination (Brincando no escuro – branquitude e a imaginação literária), publicado em 1992 e ainda sem tradução para o português, Toni Morrison explica que, embora incontornável, a presença negra nas origens e no desenvolvimento da literatura dos Estados Unidos sempre foi um tópico ignorado pelos críticos (Susan Sontag inclusa). Morrison ressalta que “o silêncio e a evasão [sobre a questão racial] historicamente governaram o discurso literário”. Essa tática acabou fomentando “uma outra linguagem, substituta, na qual essas questões são codificadas, inviabilizando o debate aberto”. E, sendo o debate racial um campo de fortes tensões, “o hábito de ignorar a raça é entendido como um gesto liberal elegante, até mesmo generoso”. Ou, reitero o ponto, um gesto “bem-intencionado”.
A história do Brasil é rica em “políticas com intenções ou efeitos raciais”, como explica o sociólogo Antônio Sérgio Guimarães. Ele denomina essas “políticas raciais” como o “conjunto de práticas socialmente compartilhadas e moralmente sancionadas, que se refletem em políticas públicas e arranjos institucionais” e que por estarem “atreladas a ideologias nacionais” representam “um corpo de ideias e ideais sobre o que deveria ser a nação e seu povo, mas não são iguais a elas”.
O primeiro momento das políticas raciais brasileira cobre o período da Colônia e Império e ficou conhecido como ideologia do embranquecimento. Nas palavras de Guimarães, ele “se nutria do sentimento de que a civilização europeia era única (seu modo de vida, sua cultura) e que o que existia no Brasil, nos grupos indígenas ou nos costumes trazidos pelos africanos escravizados, seria um estado natural, pré-cultural, incivilizado”. Numa palavra: “inferior”.
A imagem dos povos negros e indígenas como passivos e incapazes de ação política foi uma das fabricações coloniais mais eficientes para a “comprovação” da inferioridade deles e, por extensão, para a legitimação da conquista e da dominação. É um tema muito bem estudado. A filósofa e ativista Sueli Carneiro, em Dispositivo da racialidade, demonstra como o racismo opera social e ontologicamente para produzir o “assujeitamento” do negro, cuja autonomia, mesmo quando exercida, será negada. A passividade não é, pois, um traço do subalterno, mas uma fantasia de poder que nasce do próprio propósito da dominação.
O segundo paradigma das políticas raciais no Brasil é a chamada democracia racial. Diferentemente do que a alusão ao “democrático” insinua, ela não pressupõe relações de igualdade. Embora se radique, como explica Guimarães, na “tese de que a nação brasileira se constituiria pela mistura de três raças – branca, indígena e negra”, essa mistura não é simétrica, mas hierárquica. “Nesse mito, a raça branca – os europeus – tem papel de liderança cultural e política”. Ou seja, a superioridade branca segue intocada.
Voltemos ao “ponto máximo de ebulição” do debate, a entrevista de Aurora Bernardini. Instada a responder sobre a especificidade do Brasil na tendência conteudista global, a professora evoca a escravidão colonial, a relaciona à reprodução de desigualdades e faz uma reivindicação perfeitamente justa e correta: “É preciso partir da igualdade de condições de conhecimento.” Ninguém, suponho, discordaria. O problema, óbvio, é que essas condições não estão dadas. Bernardini, ela mesma, faz essa ressalva, ao observar que, embora muita coisa tenha melhorado nos últimos anos, “a injustiça continua sendo a principal marca do cotidiano brasileiro”. O que fazer? Bernardini sabe ao menos o que não fazer: “Não se pode dar o mérito antes das condições.”
É aqui que nos deparamos com o elemento insólito da análise da professora. Numa fala que, se bem entendi, é um comentário sobre nossas históricas injustiças sociais, ela diz: “O povo europeu é mais amadurecido, pois passou por guerras e revoluções, então reclama mais. Aqui, o povo é muito passivo.”
Por mais que me esforce, não entendo como essa (suposta) passividade excessiva do povo brasileiro caiba como elemento elucidativo do (suposto) empobrecimento da literatura brasileira contemporânea, exemplificado no (suposto) déficit estilístico da escrita de Itamar Vieira Jr., tema que, no fim das contas, era o objeto da explicação. A correlação parece estapafúrdia. Deixa de sê-lo quando consideramos o que expliquei acima.
Importa pouco se falamos de uma Europa “amadurecida”, como faz Bernardini, ou escolhemos outro predicado, como “evoluída”, “civilizada”, “desenvolvida”, “refinada”, “racional” etc. Foram e são muitas as formas de mobilizar um léxico radicado na ideologia do embranquecimento, isto é, na tese da superioridade branco-europeia (uma ideia do século XIX, e que poderia ter fenecido junto com o espírito de seu tempo) e fazer com que isso funcione, como diz Toni Morisson, como uma “linguagem codificada”. Termos técnicos – como a díade forma-conteúdo –- operam aqui como “gesto (analítico) bem-intencionado”, apresentado como exterior à arena racial, mas que serve para pontificar se negros merecem ou não o que conquistam em nossa sociedade.
Essa recuperação conspícua da ideologia do embranquecimento expressa uma forma sobremaneira hostil de se colocar diante do protagonismo negro onde quer que se manifeste, no caso, na literatura. Cada qual julgue se prefere ou não chamar isso de racismo. O ponto decisivo aqui é que, por mobilizar ideias “socialmente compartilhadas e moralmente sancionadas”, o caminho para que tenhamos um debate aberto (e maduro) sobre esse posicionamento fica bastante dificultado.
A política racial contemporânea ganhou contornou nítidos em outro evento literário de grande repercussão: a entrada de Ana Maria Gonçalves na Academia Brasileira de Letras (ABL). Em seu discurso de posse, além de sublinhar que por muito tempo a negritude de Machado de Assis, fundador da instituição, lhe foi negada, a escritora mineira celebrou sua própria chegada citando Tornar-se negro: as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social, da psicanalista Neusa Sousa Santos: “Saber-se negra é viver a experiência de ter sido massacrada em sua identidade, confundida em suas perspectivas, submetida a exigências, compelida a expectativas alienadas.”
Dois dias depois, Merval Pereira, presidente da ABL, afirmou em sua coluna n’O Globo que Ana Maria Gonçalves ingressou na Academia por ser uma grande escritora, e não por ser negra. Em seguida, citando Alberto da Costa e Silva, disse que o debate sobre racismo na ABL avançará quando “a história subterrânea do mestiço no Brasil” for escrita “com seriedade, sem viés político”.
A altercação é bem didática. Ana Maria Gonçalves reitera e reivindica a centralidade do “ser negra” em sua dimensão tanto ética e existencial como, no que concerne a seu projeto literário, estética e política. Tão logo ela adentra a ABL, porém, como um Machado de Assis do século XXI, a instituição se põe a negar a relevância de sua negritude. E assim temos, novamente, o “gesto bem-intencionado” de ignorar a raça, aqui emoldurado nos termos do elogio da mestiçagem típico de nossa ideologia da democracia racial.
Vivemos hoje, seguindo ainda a terminologia de Antônio Sérgio Guimarães, o terceiro momento das políticas raciais no Brasil, o “multirracialismo”. Trata-se de um marco em que todos os grupos étnico-raciais reivindicam o direito de serem reconhecidos em seus próprios termos. E mais: demandam que os brancos reconheçam sua posição relacional nesse arranjo (aqui inclusa a parcela desigual de recursos, de todos os tipos, que detêm), abandonem sua pretensão de universalidade e, para usar uma imagem belíssima proposta por Ailton Krenak, façam agora o que poderiam ter feito desde sua chegada a estas terras, nas caravelas: aprendam a ser apenas mais um na diferença.
O ativismo negro teve um papel decisivo no desenvolvimento do multirracialismo brasileiro no século XXI, cujo principal avanço foi a formação de um consenso social em torno da ideia de que é insuficiente combater o preconceito e a discriminação raciais ao nível dos hábitos e costumes, da língua ou das relações interpessoais; é preciso atacar o racismo nos planos institucional e estrutural.
Assinalado esse ponto – a centralidade das políticas afirmativas de combate à desigualdade racial em seus diversos âmbitos –, temos o necessário para retomar um tema que, como sublinhei no início deste texto, está no cerne das declarações de Walnice Nogueira Galvão, Aurora Bernardini e José Falero: reparação. É também o momento de retomarmos a “erótica da arte”.
O traço característico da arte, diz Sontag, é “gerar não um conhecimento conceitual”, e sim “algo como um entusiasmo, um fenômeno de envolvimento, de julgamento num estado de sujeição ou fascínio”. Para que isso ocorra é preciso “haver cooperação da pessoa que está tendo a experiência, pois pode ocorrer que ela veja o que é ‘dito’, mas não se sinta tocada, seja por distração ou obtusidade. A arte é sedução, não estupro. Uma obra de arte propõe um tipo de experiência destinado a manifestar uma qualidade imperiosa. Mas a arte não pode seduzir sem a cumplicidade do sujeito da experiência”.
A literatura negra contemporânea, em suas várias expressões e gêneros, está operando em condições inéditas no Brasil. Não se trata apenas de ter conseguido algum sucesso de crítica e de público, mas também de lidar com as aspirações de novos estratos médios – compostos em parte por um contingente de pessoas negras que se beneficiaram das políticas de ação afirmativa na educação de nível superior – e hoje se habituam a gozar de certa representatividade na indústria cultural. Além disso, houve a emergência de novos movimentos sociais que produziram uma reconfiguração do poder. O feminismo, como escreveu Vera Iaconelli em uma coluna na Folha de S.Paulo, “sem disparar uma bala, mudou a sociedade radicalmente”. O antirracismo se propõe a fazer o mesmo. Junto desses avanços, porém, há um aumento global da desigualdade social e uma profunda crise da democracia. Para muitos, o mundo está uma bagunça, cheio de “inversões de papéis”, e a culpa disso é (adivinhe!) do espaço conquistado por grupos subalternizados, como os negros.
Pois bem, é sob essas duras condições que estamos hoje construindo a imaginação literária de um grupo heterogêneo, que tem em comum o fato de ter sido submetido por séculos a um modo de vida (a escravidão colonial), que, nas palavras de David Scott, foi “uma vida traumatizada, aterrorizada; uma vida abreviada, distorcida e eminentemente descartável; uma vida, em outras palavras, desprovida de vitalidade”. Desprovida por outrem, claro está. É uma vida que, como diz Mano Brown, é “cheia de querer”. Revitalizar essa vida é um trabalho árduo, um projeto ético e estético de dimensões descomunais.
Essa tarefa implica investigar o que o acúmulo de experiência histórica nessa vida “desprovida de vitalidade” produziu em termos de construção de nossa subjetividade (não apenas de pessoas negras, mas de todos, sem exceção). E talvez também implique descobrir que tipo de crítica, de comentário sobre literatura está apto a compreender – ou ao menos acomodar – esse processo ora em curso.
Em entrevista a Branca Vianna, no episódio A crítica morreu? do podcast Fio da Meada, o jornalista e crítico Paulo Roberto Pires recuperou um artigo do também crítico Richard Brody, da revista The New Yorker, para definir seu ofício como o resultado da relação de um leitor especializado com o leitor comum, e cujo efeito é a constante criação de um espaço de conversa. Nessa conversa, Pires disse, trazendo Virginia Woolf para o papo, que o leitor comum não é uma “pessoa desqualificada, muito pelo contrário”, em suas palavras: “O leitor comum é aquele que garante a sobrevivência das obras. Por associações muito particulares, que não visam um discurso de autoridade, ele faz o seu repertório, e ele sobrevive. O leitor comum é o que garante a literatura, é o que faz o futuro da literatura.” O crítico, por sua vez, deixa de ser uma figura de autoridade absoluta: “Críticos que faziam livros e destruíam livros, isso não existe mais. E é excelente que não exista mais para todo mundo, para os críticos e para quem lê.”
Além de se colocar entre a obra e o leitor comum, sem críticos independentes, como observa o próprio Brody em seu artigo na New Yorker (citando a lendária crítica de cinema Pauline Kael), “não há nada entre o público e os anunciantes”, ou, refraseando, não há nada entre o leitor e atores mais propensos a serem motivados por interesses de mercado, aqui incluídos os influenciadores digitais. Há, por fim, um último traço do exercício dessa crítica que nos interessa sobremaneira aqui: a desmontagem da hierarquia valorativa que sustenta a oposição rígida entre o “comercial” e o “artístico”, assim como entre a literatura tida como mero “entretenimento” e aquela investida de pretensos fins intelectuais superiores.
Tomada em conjunto, essa abordagem forma um quadro analítico que se abre a possibilidades “eróticas” (no sentido de Sontag). Em vez de investir em binarismos, como o de que “o papel da crítica e o papel do público são antagônicos por natureza” (palavras de Falero), ou sentir nostalgia do tempo em que o crítico, do alto de sua torre de marfim, exercia o monopólio da razão literária, abrimos o horizonte para uma crítica capaz de apreender a experiência estética de forma mais complexa, íntegra e sensível às necessidades contemporâneas.
Para colocar esse projeto crítico em ação, precisamos superar duas mistificações. A primeira é a ideia de que o mundo editorial é hoje dirigido pela “demanda implacável por um tipo de conteúdo que confronte a tradição literária e represente melhor as minorias” (Falero). Evidentemente, as “minorias” fazem suas demandas (oxalá assim prossiga), mas a pressão que exercem passa longe de ser “implacável” (como talvez até desejassem que fosse). No que concerne à autoria negra, nossa integração ao circuito hegemônico da indústria cultural sempre foi uma conquista política difícil e instável, que se dá por avanços e recuos. Sem garantias.
Toni Morrison – que foi importante editora na prestigiosa Random House, antes de se consagrar como escritora – disse em uma palestra sobre literatura negra nos Estados Unidos: “Acho que a sobrevivência do mercado editorial negro, que para mim é uma forma de dizer da literatura negra, dependerá das mesmas coisas de que depende a sobrevivência de qualquer coisa negra, ou seja, da energia do povo negro, e por energia entendo a inventividade e inovação, a capacidade de perseverar.” São palavras de 1976. Gosto de pensar que hoje, meio século depois, já não precisamos perseverar tanto, e que os avanços atuais não serão episódicos.
Não obstante, não esqueço que uma obra importante como Tornar-se negro, da psiquiatra Neusa Santos Sousa, depois de ser publicada em 1983 ficou décadas fora de catálogo, sendo relançada somente em 2021, pela editora Zahar. É bastante assustador conjecturar que daqui algumas décadas uma nova geração de editores negros possa estar trabalhando no “resgate” de nomes como Eliana Alves Cruz, Luciany Aparecida, Lilia Guerra, Edimilson Pereira de Almeida ou Itamar Vieira Jr. Assusta, mas não seria de todo surpreendente.
Nos Estados Unidos, os ventos já começam a mudar de direção. Uma matéria intitulada Muitos de nós já se foram: como o esforço para diversificar o mercado editorial ficou aquém do esperado, publicada em agosto de 2024 no The New York Times, relata retrocessos recentes, como a demissão de editores e executivos negros contratados no período pós-George Floyd. Seguir esse caminho seria um retrocesso, como discuto em artigo publicado recentemente na piauí. E, se a métrica do mercado e dos prêmios indicam algo, nossas listas recentes de mais vendidos em ficção literária nacional já quase não apresentam obras de autoria negra, e nenhuma delas foi agraciada em 2025 nas categorias principais dos prêmios literários mais celebrados (como o Jabuti, o Prêmio São Paulo ou o Oceanos).
A segunda mistificação é a ideia de que enfrentamos hoje uma dificuldade generalizada em discernir o bom do mau texto, e que esse fenômeno, em parte, teria a ver com certa condescendência com os “subalternos” em sua – entre danosa e ingênua – recusa do cânone ocidental.
Com frequência, essa crítica adota um fraseado acusatório na linha do “acham que tudo que veio antes é ruim”, “querem inventar o mundo baseado em nada”, acompanhada de uma defesa (ou elogio), mesmo que ponderada e cheio de ressalvas, do cânone. A intervenção de Falero adere a essa retórica quando alerta para o engano de confundir “acúmulo de conhecimento com elitismo” e acabar embarcando “na aventura fadada ao fracasso que é a tentativa de empreender a partir do zero uma concepção formal nova por inteiro”.
A escritora Dione Brand tem uma reflexão bastante original sobre esse ponto. Em Salvamento: Leituras do naufrágio, ela observa que “uma vida animada pelos livros é algo que todo o mundo pode entender, mas uma vida destruída pelos livros é uma proposição mais complexa, contraditória e misteriosa”. O cânone literário ocidental, sabemos, construiu toda uma educação dos sentidos e dos sentimentos; deu alicerce para a formação da subjetividade e do discernimento modernos. Ela pergunta: o que significa “que a taxonomia de valores que sustentou a escravidão racial forneça a bússola para muitos dos textos consagrados como grandes realizações literárias?” Essa me parece ser uma indagação bastante legítima, como igualmente legítimo é o exercício de “reler esses textos com a esperança de abandoná-los enquanto objetos estéticos” e, ao mesmo tempo, procurar pontos outros de ancoragem existencial.
É um enorme equívoco pressupor que a tentativa de pular do barco do Ocidente seja uma empreitada fadada ao fracasso. A afirmação deriva sua força precisamente da ideia de que, ao fazê-lo, deve-se partir doravante do nada, do zero. Aqui, ou não se leva em conta que o gesto implique em um mergulho decidido em tradições intelectuais e epistemológicas outras, ou, se se leva isso em conta, deve-se considerar então que essas tradições equivalem a zero ou nada. Ambas as alternativas são angustiantes.
Com isso, não quero negar que empreitadas radicalmente contra-hegemônicas possam dar em becos sem saída, mostrarem-se malsucedidas ou desembocar em experimentos ambiciosos, mas frustrados e inócuos. Ainda assim, penso que estamos mais bem equipados para reconhecer todas essas possibilidades quando abandonamos a estigmatização fácil de quem rechaça o cânone, e adotamos um olhar mais arejado, como o de Dione Brand.
Alcançamos um grau de abertura igualmente equilibrado e radical se articularmos o olhar de Brand com o gesto sagaz do historiador senegalês Cheikh Anta Diop, que reivindica o cânone ocidental como parte do “patrimônio intelectual comum da humanidade”, ao qual podemos e devemos recorrer sempre que nos aprouver, já que, embora a “autoria” seja historicamente atribuída aos brancos europeus, o trabalho envolvido em seu soerguimento foi desempenhado por muitos outros.
À luz de tudo que disse até aqui, me parece justo insistir no ponto de que não estamos “em meio a uma catástrofe”, tragédia ou coisa parecida. A situação atual não é anômala.
É certo que a autoria negra pintou com mais força na área, vem dando sua contribuição, promoveu até alguns deslocamentos, mas o sistema literário não se deixa transformar tão fácil. E, no que diz respeito ao vastíssimo ecossistema editorial, em todos os segmentos publicam-se diariamente livros excepcionais, bons, medianos e também medíocres – a autoria negra não foge a essa regra. Simples assim.
Não há nada anômalo sequer nessa sintonia entre o sucesso relativo da literatura negra e o diagnóstico de empobrecimento geral da literatura brasileira. Não é de hoje que, onde quer que nós, negros, marquemos maior presença, logo surjam rumores sobre a emergência de uma crise, uma alegação de queda da qualidade, uma necessidade de “rever os parâmetros de admissão” (a exemplo dos argumentos levantados contra as cotas raciais nas universidades públicas).
O objeto dessa réplica é, no fundo, a persistência de certas ideias. Ideias do século XIX, que pareciam ter fenecido junto com o espírito de seu tempo, de repente retornam com força inesperada – vide o renascimento da Doutrina Monroe nas mãos de Trump. É sinal de que nunca sabemos para onde elas vão, quando vão embora. Nem se, de fato, se foram.
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