Adolpho Veloso durante as filmagens de Sonhos de Trem Foto: Daniel Schaefer/BBP Train Dreams
Retrato em branco e preto
A campanha de um corintiano fanático pelo Oscar de fotografia com o longa Sonhos de Trem
“Vai, Corinthians!” Foi ao dizer essas palavras, no último dia 10 de janeiro, que o cineasta Adolpho Veloso entrou no radar (e na tela do celular) de milhões de brasileiros. Ele não estava em um estádio de futebol, mas no palco do Los Angeles Film Critic Awards, agradecendo pelo prêmio de Melhor Direção de fotografia por seu trabalho no filme Sonhos de Trem. A mesma exclamação foi repetida por Veloso doze dias depois, em sua casa em Lisboa, quando soube da indicação ao Oscar.
“É um negócio que talvez todo corintiano esteja meio acostumado a falar em qualquer situação da vida. É algo que eu digo em qualquer celebração”, diz o paulistano de 36 anos, primeiro brasileiro a ser lembrado nessa categoria pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas – em 2004, Cidade de Deus chegou a ser indicado na categoria, em trabalho do uruguaio César Charlone. Assim, desde o último dia 22, o até então desconhecido diretor de fotografia se uniu a Wagner Moura e Kléber Mendonça Filho, protagonista e diretor de O Agente Secreto, como esperança da torcida nacional no Oscar deste ano.
A popularidade repentina levou Veloso a situações inimagináveis, como as de receber mensagens privadas de Matheuzinho, lateral-direito do Corinthians, e do ex-jogador Neto, apresentador de tevê e ídolo do clube. O clube paulista também o convidou a conhecer suas instalações, dando-lhe de presente uma camisa oficial – Veloso escolheu a de número 7, em homenagem ao craque de sua infância, Marcelinho Carioca. “A última coisa que eu esperava ao fazer um filme sobre um lenhador no meio dos Estados Unidos é que eu iria visitar o Centro de Treinamento do Corinthians.”
Lançado inicialmente em janeiro de 2025 no festival de Sundance, meca do cinema independente global, Sonhos de Trem tem sido um dos queridinhos desta temporada de premiações. Comprado pela Netflix e relançado na plataforma de streaming em novembro passado, o longa do diretor Clint Bentley conta a história de Robert Grainier (Joel Edgerton), um lenhador de Idaho que passa longas temporadas longe de sua família, trabalhando na construção de ferrovias na região noroeste dos Estados Unidos, no início do século XX. “É talvez o filme que eu fiz que mais me identifiquei na vida. Passo meses fora, trabalhando num lugar que não conheço, com um monte de gente que talvez nunca veja de novo. Ao mesmo tempo, ao voltar para casa, é sempre difícil me conectar e achar que aquele lugar é meu”, explica Veloso.
Desde o lançamento, o trabalho do brasileiro tem chamado a atenção como um dos destaques da obra – ao lado da interpretação do australiano Joel Edgerton e de Train Dreams, canção de Nick Cave e Bryce Dessner que aparece nos créditos e também foi indicada ao Oscar. “A fotografia do Adolpho traz uma intimidade para as cenas que é muito rara no cinema hoje em dia. Com uma câmera de mão, ele consegue mostrar paisagens grandiosas ao mesmo tempo em que captura toda a luta de um homem, em uma amplitude gigante”, destaca o jornalista e crítico Rodrigo Salem, radicado em Los Angeles e votante do Critics Choice Awards, premiação também vencida por Veloso.
A crítica americana também não poupa elogios à fotografia do brasileiro. No Hollywood Reporter, David Rooney chama Veloso de “talentoso” e elogia seu “olhar de pintor” para composições de cena e um excelente trabalho de câmera, realizado em proporção de 3:2 – a mesma utilizada em boa parte da fotografia analógica da época em que se situa a produção. O veterano Peter Travers, por sua vez, avalia o trabalho do paulistano como “sublime”, sendo capaz de trazer “graça e garra a cada frame do filme”. “É difícil acreditar que os restos de um incêndio florestal podem ser tão bonitos”, elogia Alissa Wilkinson no New York Times. Em meados de fevereiro, Veloso levou o prêmio de Melhor Fotografia na 41ª edição do Film Independent Spirit Awards.
Parte desse destaque se deve a uma escolha feita pelo paulistano, que optou por utilizar a luz diegética – jargão do cinema para identificar as fontes de luz que aparecem na narrativa, seja da natureza ou de objetos de cena como fogueiras, lareiras, lâmpadas e abajures. Veloso acredita que a decisão de trabalhar com essa abordagem permite que o fotógrafo e o diretor tenham mais flexibilidade na hora de filmar, sem precisar montar e desmontar equipamentos apenas para fazer uma sutil correção de ângulos.
A grande novidade é que talvez esta tenha sido a primeira vez em sua carreira que o brasileiro tenha optado por esse método conscientemente. “A maioria dos filmes que eu fiz, principalmente no começo, nunca tinha o orçamento necessário. É natural ter que fazer escolhas pontuais. Nos meus primeiros filmes, não havia grana para nada”, afirma. “O único tipo de decisão que eu tinha de tomar era saber qual janela eu ia fechar e qual abajur eu ia desligar.”
Nascido em São Paulo, filho de uma advogada mineira, Veloso tem uma irmã dois anos e meio mais velha e perdeu o pai aos 3 meses de idade. “Minha mãe fez um trabalho incrível para criar duas crianças sozinhas, com o apoio da família em Araguari [cidade do Triângulo Mineiro]. Ia muito para lá”. A convivência o fez decorar na ponta da língua uma definição do que é fotografia – ou cinematografia – que diz aos parentes nos churrascos da família.
“De maneira poética, sou a pessoa responsável por traduzir o roteiro em imagens. Meu trabalho é pensar como transmitir algo sem que nada precise ser falado.” É uma missão que Veloso leva muito a sério. “Até hoje, eu não me considero um fotógrafo. Não consigo tirar uma foto de uma sala só a partir do conceito. Só consigo pensar o que fazer ao saber o que o personagem está sentindo ou a emoção que o diretor quer passar.”
A relação com o cinema começou por volta dos 12 anos, quando assistiu a Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick. “Foi o que me despertou interesse para procurar outros filmes. O cinema era um portal para outros mundos, talvez ocupasse o lugar da falta de uma figura paterna. Ele me deu acesso a coisas que, vivendo num núcleo feminino, talvez não tivesse em casa”, pondera, com a segurança de quem já passou horas discutindo o tema em sessões de terapia.
A paixão pela sétima arte o levou a querer trabalhar com cinema. Ao prestar vestibular, em 2007, escolheu duas faculdades de uma vez: cinema, na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), e filosofia, na Universidade de São Paulo (USP). Apesar de ter tido aulas com nomes como Marilena Chauí, Veloso acabou largando a filosofia no primeiro ano de curso para estudar cinema. “Comecei a trabalhar com publicidade e mal conseguia ir às aulas. Me formei aos trancos e barrancos, graças aos professores simpáticos o suficiente para me liberar das faltas.”
O primeiro trabalho na publicidade foi como “assistente do assistente de produção”. “Não lembro qual era a campanha, mas tinha um ator falando no fundo branco. Minha função era ir lá e limpar as marcas de tênis dele no fundo branco a cada take.” A posição demandava que ele fizesse de tudo um pouco em vários departamentos, o que lhe deu espaço para descobrir do que gostava. “Quando entrei na faculdade, só sabia que existia ator e diretor – e ator, com certeza, eu não queria ser. Até que comecei a perceber que a parte da luz e da câmera era o que me interessava e comecei a fotografar os curtas dos amigos e clipes de bandas independentes.”
Para o cineasta, o setor publicitário é a melhor escola possível para quem quer ganhar experiência rapidamente. “Filma-se muito, o mercado tem dinheiro, há acesso a equipamento e a velocidade é diferente do cinema. Um filme demora três anos pra sair, a publicidade sai na semana que vem”, explica sobre a atividade, que ainda exerce como diretor de fotografia. Na lista dos mais recentes trabalhos, estão uma campanha para o uísque Glenmorangie, com o ator Harrison Ford, e outra para a Adidas, com a participação do craque inglês Jude Bellingham, do Real Madrid. “Ele é muito gente boa.”
Os clipes também fazem parte da trajetória de Veloso e o ajudaram a firmar uma linguagem de experimentação – entre os projetos mais celebrados, estão Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer , do rapper BK, e Ameianoite, parceria entre as cantoras drag Pabllo Vittar e Glória Groove que tem vários elementos em comum com Sonhos de Trem, como cenas de natureza e forte presença do fogo. “Trabalhar com clipes tem o lado incrível de experimentar mais – e se der meio errado, você finge que deu certo”, afirma Veloso.
Foi com a publicidade que Veloso, em uma campanha para a operadora Vivo, em 2015, conheceu o diretor Heitor Dhalia, àquela altura conhecido por filmes como O Cheiro do Ralo e À Deriva. “Lembro que o Adolpho era um cara obcecado e queria entrar no mundo do entretenimento. Ele tinha qualidade fotográfica, mas, principalmente, tinha fome de bola”, conta o cineasta pernambucano.
Pouco tempo depois, Dhalia começou a elaborar um projeto sobre o fotógrafo americano Michael O’Neill, que havia publicado um livro reunindo imagens de mestres de yoga na Índia e nos Estados Unidos. “Achei que tinha algo interessante ali, mas não tinha financiamento, não tinha nada. Só uma oportunidade de filmar na Índia. Comecei a montar a equipe e pensei que precisava de alguém que topasse trabalhar no amor. O Adolpho topou na hora”, disse Dhalia.
A luz do Sol no país asiático era um desafio para o trabalho do fotógrafo. “Isso fez com que o Adolpho tivesse de experimentar situações de composição de quadros e de luz com pouco equipamento, sustentando só no olhar, no foco dos personagens e nas horas boas de filmar, longe do meio-dia”, lembra Dhalia. No começo das gravações, o pernambucano lembra que o método do novato gerou desconfiança em O’Neill, até que o veterano americano começou a olhar as imagens captadas. “Tive a liberdade de fazer algo cinematográfico mas que lembrasse a fotografia still, sem aquela linguagem clássica de documentário”, pondera Veloso.
A ousadia deu certo. Após ser exibido em alguns festivais em 2017, o longa-metragem Yoga: Arquitetura da Paz foi adquirido pela Netflix. O trabalho foi indicado a premiações importantes de fotografia, como o CameraImage e o Imago, da associação dos cinematógrafos profissionais – neste último, o paulistano levou o troféu de Melhor Fotografia de Documentário para casa. Foi também graças a Yoga que ele foi visto pelo diretor iniciante Bentley, à época preparando seu primeiro longa-metragem.
Yoga, porém, não foi o primeiro filme que Veloso participou a chamar a atenção no estrangeiro. Em 2015, o longa-metragem experimental Asco, dirigido por Alê Paschoalini, foi incluído na mostra de Slamdance, vertical do festival de Sundance dedicada a jovens cineastas e responsável por revelar nomes como Bong-Joon Ho (Parasita, 2019), Christopher Nolan (Oppenheimer, 2023) e Sean Baker (Anora, 2024), todos vencedores do Oscar de Melhor Diretor. “Asco foi feito com 18 mil reais, três pessoas na equipe, os atores e uma câmera Canon 5D”, recorda-se o diretor de fotografia. Antes de Yoga, o paulistano também teve a oportunidade de filmar um longa-metragem na Amazônia, Rodantes, com a atriz Caroline Abras e o diretor Leandro Lara – com quem o fotógrafo já tinha trabalhado inicialmente em Isqueiro Azul, clipe da cantora Tiê, ex-mulher de Leandro.
Em Rodantes, rodado em 2016 e lançado em 2019, Veloso teve várias experiências que se repetiriam em Sonhos de Trem: cenas de incêndio, filmagens em meio à natureza e grande intimidade entre fotógrafo, ator e diretor. “Várias das cenas mais bonitas do filme foram feitas depois que acabou a produção e ficamos só eu, Carol e Adolpho andando pela Amazônia e fazendo imagens. Isso evoluiu a linguagem do filme. Sem ele, o Rodantes não existiria”, afirmou Lara. “Esses filmes me ensinaram que não é só porque você tem acesso a materiais que você precisa usá-los. Se você pode pegar o ambiente de um filme de Hollywood e conseguir reduzi-lo a parecer que está filmando numa sala com os amigos, é melhor.”
O primeiro filme de Veloso nos Estados Unidos está longe de ser uma superprodução. Filmado em 2019 e lançado na edição virtual do festival de Sundance em 2021, Jockey foi o trabalho de estreia de Bentley na direção e também tinha equipe e orçamento diminutos – 300 mil dólares e um time de dez pessoas. “Trabalhar com alguém pela primeira vez é como ir num encontro às cegas. Com alguém que está fazendo o primeiro filme, é ainda mais difícil”, brinca o paulistano. “O que ajudou muito foi que o Clint [Bentley] inteligentemente escolheu um tema que era caro para ele, porque o pai dele era jóquei.”
Uma das primeiras afinidades entre diretor e fotógrafo justamente surgiu no uso da luz natural, que permitiu a capacidade de improviso necessária para que algumas cenas ganhassem vida. A equipe diminuta e o caráter íntimo da produção aproximou os dois. “Até porque você passa muito tempo com elas: filma 12 horas por dia, às vezes no meio do nada, e até nas horas de folga você está junto”, conta o brasileiro.
Após as filmagens de Jockey, Veloso e Bentley mantiveram contato, sempre imaginando quais trabalhos poderiam fazer juntos. Enquanto o americano buscava recursos e inspiração para um próximo longa, o brasileiro se mudou para Lisboa, a fim de facilitar sua projeção no mercado internacional. Não que ele passe muito tempo na capital portuguesa, onde mora desde 2019. “Estou sempre de projeto em projeto, já houve até um período em que fiquei um ano sem casa. Funciona, mas era ruim não ter um lugar pra voltar.”
Foi só no final de 2023 que Bentley apareceu com uma ideia: uma adaptação do romance Sonhos de Trem, do autor americano Denis Johnson. A primeira versão do roteiro chegou até o diretor de fotografia junto com um convite e uma dúvida: “ele não sabia se eu ia me identificar com a história, mas tem vários elementos da vida do protagonista que são basicamente a minha vida de fazer filmes. Fazer cinema me tornou nômade”, conta Veloso, que diz passar cerca de trinta dias do ano em Lisboa e precisa de plantas para se sentir “aterrado”. “Até mesmo quando vou passar muito tempo filmando num lugar, a primeira coisa que faço é comprar umas plantas para sentir que o lugar é uma casa.”
O respeito à natureza, por outro lado, foi justamente o que impediu Sonhos de Trem de contar com 100% de suas cenas com luz diegética. Um dos pontos-chave da trama envolve uma cena de incêndio, considerada um dos grandes desafios do filme por Veloso. “Nós não podíamos botar fogo numa floresta, obviamente, então precisamos confiar nos efeitos visuais. E o estresse de como fazer a cena do incêndio não destoar da luz natural aumentou muito os meus cabelos brancos”, diz o fotógrafo, que recorreu a uma estrutura de iluminação usada em festivais de música para fazer a gravação.
Conseguir fazer um filme quase todo em luz natural numa estrutura hollywoodiana, porém, não foi algo simples. Executar esse trabalho em uma agenda de filmagens de apenas 29 dias, com mais de cem pessoas e fatores complicadores como animais e bebês em cena, mais ainda. “É preciso que todos saiam das zonas de conforto, inclusive os atores”, diz Veloso. “Tivemos cenas em que os atores precisavam se trocar perto de nós ou fazer a própria maquiagem – e não é o seu amigo iniciante, é a Felicity Jones. Mas tem 1 milhão de momentos no filme que não teriam rolado se não fosse assim.”
É claro que parte do processo começa na parceria entre diretor e diretor de fotografia. Em meio à campanha de premiações de Sonhos de Trem, Bentley e o brasileiro já discutem quem poderá fazer parte da equipe de um próximo longa-metragem e que toparia desafios semelhantes. “Outro dia ouvi que fazer esse tipo de cinema é que nem tocar jazz. Não é só pelo improviso, mas porque requer saber o suficiente para conseguir improvisar e escutar o outro”, afirma, ao mesmo tempo em que nega o crédito individual por sua indicação. “Nunca vai haver uma boa fotografia sem uma boa direção de arte, um bom figurino ou bons atores.”
Outro parceiro fundamental é o colorista, responsável por corrigir e amplificar a cor das imagens – e em Sonhos de Trem, Adolpho teve a companhia do brasileiro Sérgio Pasqualino Jr., responsável também por Cidade de Deus. “Adolpho é extremamente exigente e autoral. Nosso trabalho é sempre um trabalho de polimento, no qual ele é muito presente. Ele revê e estuda muito o que faz”, diz Pasqualino.
Mais do que apenas fazer um bom trabalho atrás das câmeras, receber uma indicação ao Oscar também envolve muita sola de sapato e viagem de avião. “Passei os últimos três meses entre Nova York, Londres e Los Angeles. Fazer campanha é muito surreal, ainda mais para mim, que sou uma pessoa totalmente introvertida”, afirma Veloso. “O problema agora não é só falar, mas são os almoços e jantares que oferecem para promover o filme. É como ir na sua festa de aniversário, só que você não conhece ninguém”, brinca ele, que afirma gastar nos encontros o pouco que lhe resta de sua bateria social.
Para recarregar as baterias, o paulistano tem passado muito tempo em silêncio. “Às vezes chego em casa e viro para minha namorada: ‘vamos passar umas quatro horas sem falar nada?’” Até nessas situações, o audiovisual entra em cena. “Sou fã de reality show ruim”, afirma Veloso, que, para se distrair, gosta de assistir Casamento às Cegas e A Batalha dos 100. Outra predileção nessas horas são os vídeos em que o youtuber Casimiro Miguel, o Cazé, comenta atrações como Show do Milhão. “Deixa a cabeça lisinha, lisinha.”
Em janeiro, a primeira fase da campanha de divulgação aconteceu até o dia 18. Além da indicação ao Oscar, a jornada rendeu uma lembrança no Bafta, prêmio máximo do cinema inglês, na categoria de Melhor Fotografia. O prêmio será entregue em 22 de fevereiro.
Na primeira chance de folga, Veloso voltou para casa em Lisboa, onde assistiu à cerimônia de revelação dos indicados ao Oscar com a namorada. “Algumas pessoas queriam assistir junto, mas não deixei. Sabia que se o resultado fosse ruim, eu ia querer passar o resto do dia em posição fetal”, brinca. Não aconteceu – e a vizinhança do bairro de Marvila, na Zona Leste da capital portuguesa, teve de ouvir mais uma vez os gritos de “vai,Corinthians”.
Com a indicação, Veloso resolveu vir ao Brasil para comemorar com os amigos e a família por uma semana, antes de retomar as atividades de campanha pelo Oscar até o dia 15 de março, quando será entregue a premiação. Na semana em São Paulo, além de ver mãe, irmã e sobrinha, pediu a Breno Bidon e Yuri Alberto, estrelas de seu time do coração, que permaneçam no clube alvinegro por um bom tempo. Para Veloso, assistir aos jogos do time alvinegro é uma obrigação até mesmo em meio às filmagens. “Não é só por gostar muito, mas também porque é um ponto de rotina numa vida completamente sem rotina. Além disso, me orgulho muito do que o Corinthians representa.”
Celebrou com os amigos e, em uma festa, encontrou máscaras com seu rosto e até uma réplica do Oscar. “Não toquei pra não zicar. Não dá pra gritar gol antes, é zica, cara. Quem é do futebol sabe.” Ele não acha que vá ganhar o Oscar – para o brasileiro, só a indicação já é uma “conquista muito incrível”. “O Darius Khondji, de Marty Supreme, é meu favorito como fotógrafo, mas não acho a melhor fotografia. Todas as análises falam que quem vai vencer é o Pecadores, ainda que meu preferido seja o Uma Batalha Após a Outra pela cena de perseguição final”, comenta.
Já os amigos e colegas não têm tanta certeza sobre a impossibilidade de vitória. Para José Padilha, que trabalhou com Veloso no curta publicitário American Cancer Story, de 2024, o brasileiro fez “a melhor fotografia” entre os indicados. “Em cabeça de jurado e fralda de neném, nunca dá para saber o que vai sair”, afirma o cineasta Dhalia. Na visão do jornalista Rodrigo Salem, não dá para descartar nenhuma possibilidade. “Ele não é favorito, mas tem chances – e o filme tem ganhado muita força ao longo da temporada”, avalia o crítico. “Hoje é muito mais difícil avaliar a cabeça da Academia, porque ela se tornou muito mais diversa e internacional”, diz. Ao todo, o colégio eleitoral do Oscar soma 10.136 pessoas – destes, 63 são brasileiros.
Certo é que a indicação já muda o paulistano de patamar dentro do mercado hollywoodiano. Veloso tem recebido uma série de roteiros para analisar, mas diz que ainda não teve tempo de lê-los com a devida atenção. Entre seus próximos trabalhos está Remain, novo projeto do diretor M. Night Shyamalan (O Sexto Sentido, Sinais). “Ele é um cara muito legal e desenha storyboards para o filme inteiro. É uma experiência completamente diferente do Sonhos de Trem.” Outra estreia prevista para os próximos meses é Queen at Sea, que será estrelado pela francesa Juliette Binoche e o americano Tom Courtenay.
Antes de voltar a filmar, Veloso tem dois desejos: descansar e acompanhar os jogos do Brasil na Copa do Mundo dos Estados Unidos, México e Canadá in loco. “Acho que não preciso me afobar para escolher um novo trabalho.” Anseia produzir algo no Brasil e reeditar a parceria com Bentley. “É incrível trabalhar com ídolos, mas não tem nada que eu queira mais no mundo do que trabalhar com ele de novo.”
Faltando menos de um mês para a cerimônia do Oscar, Veloso diz que não vai preparar discurso. Ele ainda está pensando em um jeito de levar algum item do Corinthians para o Teatro Dolby – ainda que a Academia proíba que ele troque o black-tie por uma camisa do clube paulista. Assim, não será surpresa se, diante do púlpito e com a estatueta na mão, o diretor de fotografia gritar um “vai, Corinthians”.
Leia Mais
Assine nossa newsletter
E-mail inválido!
Toda sexta-feira enviaremos uma seleção de conteúdos em destaque na piauí
