questões epidemiológicas

Rumo à quarentena global: a distopia do coronavírus

China criou aplicativo de celular para controlar quem pode sair de casa ou não, de acordo com risco de transmissão do Covid-19; restrições à circulação se espalham por países que tentam imitar o isolamento forçado imposto pelo governo chinês

Amanda Rossi
29fev2020_08h58
Ilustração de Paula Cardoso

Em meados de setembro de 1918, a Filadélfia, nos Estados Unidos, registrou os primeiros casos de gripe espanhola, trazida por marinheiros europeus. Àquela altura, a doença já arrasava a Europa, mas parecia pequena e pouco preocupante na cidade americana. A vida seguiu. No final do mês, 200 mil pessoas ocuparam as ruas da Filadélfia para participar de um desfile tradicional. Cinco dias depois, autoridades determinaram o fechamento de escolas, igrejas e bares e proibiram funerais em locais públicos. O número de casos havia aumentado tanto que centenas de pessoas morriam todos os dias. O pico foi em 12 de outubro: 837 mortes.

Um século depois, o coronavírus faz o mundo reviver as medidas drásticas de isolamento e vigilância. “O novo coronavírus é, provavelmente, uma ameaça tão séria como foi a gripe de 1918, em relação às medidas de contenção que deverão ser postas em prática”, diz Benjamin Cowling, chefe da divisão de epidemiologia e bioestatística da Universidade de Hong Kong, uma das instituições na linha de frente das pesquisas sobre o coronavírus. 

Na China, que saltou de 300 casos identificados em 20 de janeiro para 75 mil em 20 de fevereiro, o primeiro passo para frear o novo coronavírus foi colocar em quarentena toda a cidade de Wuhan. Local de origem da epidemia, Wuhan tem 11 milhões de habitantes – quase a mesma população de São Paulo. O bloqueio se expandiu para mais de uma dezena de cidades próximas. Em fevereiro, o regime chinês introduziu o uso de um aplicativo de celular que indica a ficha de quarentena de cada pessoa: verde para quem pode sair às ruas, amarelo para quem deve se isolar em casa por uma semana e, vermelho, por duas semanas. É uma espécie de passe digital, fiscalizado por autoridades e membros de comitês de bairro – se você não está fichado como “verde”, não pode circular.

“A humanidade usou quarentena para controlar a peste negra na Idade Média, a febre amarela quando ainda não se sabia qual era a causa da doença, a gripe espanhola no início do século XX. E nada mais. Agora aparece um novo vírus e se diz: ‘vamos lá, lembrem-se disso.’ Ninguém está preparado. Ninguém tem experiência com quarentena porque era algo em desuso”, compara o brasileiro Pedro Vasconcelos, epidemiologista que atuou por mais de três décadas no Instituto Evandro Chagas e hoje preside a Sociedade Brasileira de Medicina Tropical.

A semelhança entre o novo coronavírus e a gripe espanhola está justamente na escala e na necessidade de restringir aglomerações e ampliar a vigilância sobre pessoas infectadas. Não há equiparação no número de mortes. Estima-se que a gripe espanhola tenha feito dezenas de milhões de vítimas em todo o mundo, enquanto o novo coronavírus contabiliza menos de três mil mortes em cerca de três meses – um quinto do número de pessoas que morreram somente na Filadélfia, uma das cidades americanas mais impactadas pela gripe espanhola, também ao longo de três meses. 

Mais de cinquenta países já registraram casos. Além da China, a epidemia está se transmitindo internamente (não apenas a partir de viajantes contaminados no exterior) na Coreia do Sul, na Itália, no Irã. Para cientistas como Cowling, o quadro atual do novo coronavírus já se configura como pandemia – quando uma epidemia não pode mais ser contida em um único país e se espalha para diversos lugares do mundo, com transmissão local. Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) resiste em declarar pandemia. “Nós não estamos apenas lutando para conter um vírus e salvar vidas. Também estamos lutando para conter os danos econômicos e sociais que uma pandemia global pode gerar”, declarou Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, em 26 de fevereiro. “Usar a palavra ‘pandemia’ com descuido não traz benefícios, mas sim riscos significativos, em termos de amplificar de forma desnecessária medo e estigma.” 

Para a OMS, a quarentena chinesa é uma prova de que o vírus ainda pode ser contido. Se, por um lado, ajudou o resto do mundo a ganhar tempo, por outro, dificilmente poderá ser replicada em outro país. “Não acredito que nenhum outro lugar do mundo consiga colocar em prática medidas tão extremas quanto as adotadas pela China”, diz Cowling. Ainda assim, um grupo cada vez maior de cientistas defende que todos os locais afetados precisarão implementar algum tipo de medida de contenção. “Dependendo de como forem tomadas, [as medidas de contenção] podem infringir liberdades individuais. Mas também podem ser importantes para salvar vidas”, declarou pelo Twitter o epidemiologista Marc Lipsitch, diretor do Center for Communicable Disease Dynamics (CCDD), da Universidade Harvard. “A cada vez que as pessoas se encontram nas ruas, nas escolas, no transporte público, há oportunidade de transmissão do vírus. A questão é quais medidas de distanciamento social devem ser adotadas e por quanto tempo”, afirma Cowling.

No Brasil, o Ministério da Saúde confirmou na quarta-feira de cinzas o primeiro caso de coronavírus: um brasileiro de 61 anos que estava no norte da Itália e chegou ao país na sexta-feira de Carnaval. O Ministério da Saúde ainda acompanha mais de 100 casos suspeitos. Para Cowling, é possível que o coronavírus já esteja circulando entre os brasileiros. Pesquisa do Center for Global Infectious Disease Analysis apontou que dois em cada três casos de viajantes vindos da China com o vírus não foram identificados. A mesma proporção pode ter ocorrido entre viajantes com origem no norte na Itália. “Você não sabe quem são as pessoas infectadas nem onde estão. Você provavelmente só irá saber dentro de algumas semanas. Eu imagino que, nos próximos meses, estaremos vendo a situação do norte da Itália se repetir em outros lugares do mundo”, afirmou Cowling. “No Brasil, é muito cedo, o pico de casos ainda não chegou. Mas, se demorar muito [para agir], os efeitos esperados também vão demorar mais para aparecer.” Assim como ocorreu na Filadélfia, em 1918.

Os sintomas do novo coronavírus são parecidos com os da gripe: tosse seca, febre, dificuldade de respirar. Casos mais agudos geram pneumonia – apelidada de “pneumonia de Wuhan”. O contágio ocorre pelo ar ou por contato com objetos contaminados por gotículas de saliva ou catarro – por causa de tosse e espirros. A semelhança com a gripe se encerra por aí. Em primeiro lugar, o Covid-19 – como os cientistas denominaram a doença provocada pelo novo coronavírus – é mais contagioso. Enquanto três pessoas com influenza são capazes de contaminar outras quatro pessoas, três pessoas com o novo coronavírus podem infectar de seis a nove. Outra diferença em relação à gripe é que, por ser um vírus novo, “nosso sistema imunológico não necessariamente desenvolveu qualquer tipo de imunidade contra ele”, explica Mauricio Santillana, professor do departamento de epidemiologia da Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard, nos Estados Unidos.

Além disso, o Covid-19 pode ser até dez vezes mais grave que a gripe, diz Cowling, da Universidade de Hong Kong. A severidade do Covid-19 fica evidente no caso do oftamologista chinês Li Wenliang, de 33 anos, considerado um dos primeiros a alertar sobre a gravidade do novo coronavírus. Em janeiro, o médico trocou mensagens com colegas sobre o quadro do coronavírus na emergência onde trabalhava. Dias depois, recebeu uma reprimenda do governo chinês. Em seguida, o próprio Wenliang contraiu coronavírus e foi hospitalizado. Faleceu em fevereiro, gerando comoção entre os chineses. “Nós não ouvimos falar de médicos saudáveis que morrem de gripe”, compara Cowling. “Também não ouvimos falar de hospitais abarrotados de pessoas com gripe”, continua o epidemiologista – esse cenário foi visto em Wuhan e no norte da Itália.

A escala do novo coronavírus também pode ultrapassar a da gripe. Para o epidemiologista Marc Lipsitch, de Harvard, entre 40% e 70% dos adultos do mundo podem acabar contraindo o novo coronavírus no próximo ano. “A não ser que sejam colocadas em prática medidas de contenção muito duradouras (e onerosas)”, pondera. É mais do que a parcela de pessoas que podem ser atingidas por um surto regular de influenza – cerca de um quinto da população mundial – ou a gripe espanhola de 1918 – um terço. Isso não quer dizer que 40% a 70% das pessoas ficarão doentes e precisarão de atendimento médico. De acordo com observações científicas iniciais, um grande número de pessoas não desenvolve sintomas. Outra fatia grande de pessoas pode apresentar sintomas muito leves.

A razão pela qual Lipsitch considera apenas adultos em sua estimativa é que o contágio de crianças pelo novo coronavírus permanece uma incógnita entre os cientistas. Dentre dezenas de milhares de casos registrados na China, poucos são de crianças. Não se sabe se elas são menos suscetíveis a contrair o vírus ou se apenas não manifestam os sintomas. Por isso, também não se sabe qual é seu papel na transmissão da doença. A busca dessas respostas está no centro da pesquisa de Cowling na Universidade de Hong Kong. “Se as crianças transmitirem o coronavírus, mesmo sem sintomas ou com sintomas leves, então o fechamento de escolas será muito efetivo [para combater o avanço do vírus]. Caso contrário, não há porque fechar as escolas”, diz o epidemiologista.

Outra dúvida é o papel das estações do ano na transmissão do coronavírus. No caso da gripe, o número de casos tradicionalmente aumenta no inverno. Uma das explicações é que as pessoas convivem mais tempo em ambientes fechados, facilitando a proliferação do vírus. Já com relação ao novo coronavírus, “não sabemos se o início do inverno vai piorar as coisas”, afirma Mauricio Santillana, de Harvard, que participou de um estudo comparativo da evolução do coronavírus em diferentes partes da China, com diferentes climas. “Na China, observamos taxas maiores de Covid-19 em províncias mais frias e secas.” Se o inverno piorar a situação, o Brasil – e o hemisfério sul em geral – terá um problema a mais para considerar, a partir de junho.

O brasileiro Pedro Vasconcelos chegou a acreditar que o novo coronavírus poderia passar longe do Brasil. Mas, depois de ver a evolução do cenário na Europa e em algumas cidades dos Estados Unidos, mudou de opinião. “O CDC [Centro de Controle e Prevenção de Doenças] já diz que é inevitável uma epidemia de coronavírus nos Estados Unidos. O [presidente francês Emmanuel] Macron também falou que é inevitável na França. Se os EUA e a Europa não conseguem evitar a transmissão do Covid-19 em seus territórios, dificilmente outro país vai conseguir controlar. No Brasil, não vai ser diferente, infelizmente. Estamos entrando em uma pandemia.” 

Já que conter o novo coronavírus parece fora de questão, epidemiologistas defendem que os países discutam como suavizar o avanço da doença em cada lugar. Uma das primeiras ações envolveria limitar a chegada de viajantes doentes, para retardar o início da transmissão local. É uma forma de “ganhar tempo”, diz  Lipsitch, de Harvard. “Ganhar tempo é importante para reunir suprimentos médicos, testar tratamentos, progredir no desenvolvimento da vacina e aprender com a experiência de outros [países] que estão enfrentando o vírus.” 

Uma segunda etapa, quando a transmissão local já estiver em curso, é evitar que os casos aumentem de uma vez só, como ocorreu com a gripe espanhola na Filadélfia, em 1918. Em 26 de outubro daquele ano, apenas duas semanas depois de registrar a data mais mortal, a cidade americana voltou a liberar aglomerações públicas, porque o número de casos caiu tão rapidamente quanto subiu. Picos tão extremos como esse podem levar o sistema de saúde à exaustão, com falta de leitos e suprimentos médicos, esgotamento de equipes de saúde, pânico e descontrole social. Além de prejudicar o enfrentamento do próprio coronavírus, um cenário como esse colocaria em xeque os demais procedimentos de saúde. “Apesar de não podermos impedir que as pessoas sejam infectadas, nós queremos evitar que elas sejam infectadas ao mesmo tempo. O maior risco é que haja muitas pessoas indo ao hospital de uma vez só”, diz Cowling. 

O contraexemplo da Filadélfia é Saint Louis, uma das principais cidades do meio-oeste americano, que começou a restringir aglomerações apenas dois dias depois de registrar os primeiros casos de gripe espanhola. O resultado foi uma epidemia mais duradoura, mas menos letal. A diferença no tempo de resposta entre as duas cidades foi de apenas catorze dias. Parece pouco, mas em momentos de pandemia é tempo demais. Um estudo publicado no periódico científico The New England Journal of Medicine, com a participação de Cowling, mostrou que, nas primeiras semanas da epidemia em Wuhan, a incidência de casos diários de coronavírus duplicava a cada semana. 

No século passado, em meio ao pânico crescente, dirigentes da Filadélfia e de Saint Louis tiveram que se perguntar “se”, “como” e “quando” implementar medidas de isolamento social – fechamento de escolas, interrupção de partidas esportivas, de cultos religiosos, trabalho remoto, troca de horário de entrada e saída de empresas para evitar grandes aglomerações no transporte público… A dúvida deve voltar a rondar autoridades do século XXI. À primeira vista, pode parecer difícil que a sociedade coopere com mudanças tão drásticas no dia a dia, mas, na hora que for necessário, vai seguir as orientações, defende Cowling. “Se você está no meio de um surto de um novo vírus e o governo fala que será necessário fechar as escolas, eu não acho que as pessoas vão discutir. Haverá pânico. O problema não será fazer as pessoas aceitarem, mas coordenar [a operação]”.

Amanda Rossi

Jornalista, trabalhou na BBC, TV Globo e Estadão, e é autora do livro Moçambique, o Brasil é aqui

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