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Torre das Donzelas – Alerta de um passado remoto

Vulgaridade e vilania que emanam hoje da Presidência da República contrastam com dignidade de mulheres presas pela ditadura

Eduardo Escorel
25set2019_08h55

A pequena sala de 55 lugares estava quase lotada na sexta-feira passada, para a única sessão do dia de Torre das Donzelas. Um ano depois de estrear no Festival do Rio onde recebeu dois prêmios de Melhor Documentário, um atribuído pelo júri oficial, outro pelo júri popular, além do prêmio de Melhor Direção, o filme de Susanna Lira chegou, finalmente, ao circuito comercial no Rio de Janeiro, em três cinemas com quatro sessões diárias ao todo.

A boa acolhida no Festival do Rio, e outros prêmios recebidos na Mostra de São Paulo e no Festival de Brasília não foram suficientes para assegurar lançamento mais amplo para Torre das Donzelas. E, ao estrear só agora, no nono mês do mandato presidencial, o documentário chega às telas parecendo vir do passado remoto de outro planeta.

A principal causa da sensação de estranheza é o contraste acentuado entre a vulgaridade e a vilania que emanam da Presidência da República, e a dignidade exemplar do grupo de mulheres que rememoram no filme o tempo em que estiveram presas no alto da ala feminina do Presídio Tiradentes, em São Paulo, no início da década de 1970.

Ao contrário do que seria possível imaginar, Torre das Donzelas não é agressivo, muito menos panfletário. Seu tom é comedido. Não se trata de fazer acusações, nomear torturadores, instituições ou regimes responsáveis pelo sofrimento do passado, embora uma das participantes do filme, por exemplo, tenha mostrado coragem para dizer, há alguns anos, que foi torturada exatamente por quem o atual presidente da República considera um herói.

 

Conforme noticiado pelo Estado de S. Paulo em 2011, a paisagista Leane Ferreira de Almeida, participante de Torre das Donzelas, além de outras testemunhas, relatou em audiência no Fórum João Mendes, no Centro de São Paulo, atos de tortura atribuídos ao então major Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do DOI-Codi, unidade do II Exército: “Ele me torturou pessoalmente, atiçava os outros torturadores”, disse Leane.

A premissa de Torre das Donzelas, porém, é outra. O que Lira procura resgatar é a memória da experiência coletiva traumática e colher os diversos relatos sobre como as ex-prisioneiras conseguiram resistir, sobrevivendo à tortura e à prisão. Dessa maneira, a diretora evita o risco do esquematismo e, pelo contrário, torna o documentário capaz de causar forte impacto emocional.

O dispositivo deflagrador dos testemunhos adotado em Torre das Donzelas consiste em reconstituir o espaço do presídio onde o grupo ficou preso, demolido no final de 1972 em função das obras do metrô paulistano. A partir de esboços e desenhos feitos a giz, além das descrições de algumas mulheres do grupo, o local ressurge, com a escadaria de acesso, os beliches e alguns outros elementos básicos. Nesta cenografia, linguagem documental e ficcional se alternam sem delimitação nítida entre as duas formas de registro. As personagens reais e as atrizes descrevem ou reencenam a vida na prisão, vencendo o silêncio, que uma das ex-prisioneiras aponta como sendo o grande inimigo. Revela-se dessa maneira que a apropriação do espaço e do modo de usar o tempo foi a tática decisiva da resistência. “É preciso não ter medo”, afirma outra mulher do grupo.

“Fui presa lutando por um ideal”; “As recordações são boas porque lutei”; “Nós ganhamos” – essas frases são uma pequena amostra do que as ex-prisioneiras pensam e dizem em Torre das Donzelas. Não há por que duvidar da sinceridade dessas declarações. Mas, quase meio século depois, essa visão constitui caso típico de idealização do passado. A responsabilidade por isso cabe, em última instância, a Lira, mais do que ao próprio grupo de protagonistas. A visão do passado é privilegiada pela diretora, em detrimento de quaisquer considerações atuais sobre a opção pela luta armada feita na juventude ou a respeito do contexto político do período em que foi feita a gravação e edição, entre 2014 e 2017.

Para uma das participantes, “as recordações são boas porque lutei”. “Lutamos por um ideal”, afirma outra. Pelo fato de ter sobrevivido, uma terceira chega a ponto de dizer que “nós ganhamos” – vitória pessoal ilusória que revelou seu lado efêmero diante da opção eleitoral majoritária do ano passado.

Creio que Torre das Donzelas ganharia substância se cada uma das mulheres do grupo fosse vista também em sua casa ou no ambiente de trabalho. Restritas ao cenário recriado da torre onde procuram resgatar sua experiência do passado, o espectador fica sem saber o que fazem e como estão hoje essas mulheres. As informações sumárias dadas nas legendas em que são apresentadas no final do filme não chegam a suprir satisfatoriamente essa carência.

Terminada a sessão em que assisti ao documentário Torre das Donzelas, a pequena plateia de pouco menos de sessenta pessoas aplaudiu e gritou palavras de ordem quando a ex-presidente Dilma Rousseff foi apresentada entre as participantes do filme. E no fim dos créditos, houve novos aplausos.

Custo a crer que o respeitável sofrimento da jovem Dilma releve o desastre que sua Presidência foi para o país e a torne merecedora de aplausos, destacando-a das demais integrantes do grupo. Quanto aos aplausos dirigidos ao filme e ao conjunto das participantes, que tive notícia vêm se repetindo em outras sessões, parecem-me plenamente justificados.

Em entrevista publicada há um ano (CartaCapital, 29/9/2018), Lira declarou que via “o filme como um alerta” e advertiu: “Precisamos reagir e a história de luta dessas mulheres inspira.” Mas, ao contrário da expectativa que afirmou ter naquele momento, as mulheres não foram capazes de “barrar a ascensão do conservadorismo de Bolsonaro”. Não estava ao alcance de Torre das Donzelas, nem de qualquer filme, mudar o curso da história.

Não me parece correto deixar de nomear as valentes participantes de Torre das Donzelas, algumas já falecidas. São elas: Rose Nogueira, Elza Lobo, Dilma Rousseff, Dulce Maia, Nair Benedicto, Leslie Beloque, Eva Teresa Skazufka, Robêni Baptista da Costa, Guida Amaral, Marlene Soccas, Maria Luiza Belloque, Nair Yumiko Kobashi, Ieda Akselrud Seixas, Lenira Machado, Ana Mércia, Ilda Martins da Silva, Iara Glória Areias Prado, Ana Maria Aratangy, Darci Miyaki, Vilma Barban, Telinha Pimenta, Sirlene Bendazzoli, Nadja Leite, Leane Ferreira de Almeida, Maria Aparecida dos Santos, Lucia Salvia Coelho e Janice Theodoro da Silva.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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