intrigas palacianas

Um governo contaminado

Em livro sobre sua gestão na Saúde, Mandetta conta bastidores dos embates com Bolsonaro e revela que o presidente não foi o único a negar a gravidade da pandemia

Malu Gaspar
25set2020_09h45
Bolsonaro, Caiado e Mandetta na inauguração de um hospital de campanha em Goiás –
Bolsonaro, Caiado e Mandetta na inauguração de um hospital de campanha em Goiás – Marcos Corrêa/PR

Em 11 de abril de 2020, poucos dias antes de deixar o cargo, Luiz Henrique Mandetta entrou num helicóptero da Marinha com Jair Bolsonaro para irem juntos a Goiás. Pretendiam visitar as obras de um hospital de campanha construído pelo governo federal no estado.  Os dois se sentaram frente a frente na aeronave, mas, durante os quinze minutos de voo, o presidente não trocou uma palavra com seu ministro da Saúde. Antes de embarcar, Mandetta e os demais integrantes da comitiva tinham combinado de evitar aglomerações. Bolsonaro vinha participando de manifestações sem usar máscara e sem manter uma distância segura das pessoas, o que irritava o ministro. A combinação, porém, foi esquecida assim que o presidente desceu do helicóptero e se embrenhou no  meio do povo que o esperava. Quando finalmente chegou ao lugar onde Mandetta, o governador Ronaldo Caiado e os outros se encontravam, Bolsonaro ria, satisfeito: “Agora, sim, está todo mundo contaminado.”   

O episódio, descrito em Um Paciente Chamado Brasil,  livro que Mandetta lança hoje pela editora Objetiva,  funciona como alegoria do governo nos primeiros meses da pandemia de Covid-19. Não é segredo para ninguém que Bolsonaro negou a gravidade da crise e boicotou sistematicamente o isolamento social proposto pelos governadores e pelo Ministério da Saúde. Mas saber em detalhes o que ocorria nos bastidores enquanto o presidente se comportava dessa maneira pode nos levar a conclusões interessantes.
A primeira: a julgar pelo que conta o autor do livro, a atitude pública confrontadora de Bolsonaro se convertia em uma postura evasiva durante os embates cara a cara com Mandetta. No início de abril, antes da viagem a Goiás, o presidente havia dito à porta do Palácio da Alvorada que poderia usar a caneta para trocar ministros que “viraram estrelas e falam pelos cotovelos”. Enfurecido, Mandetta foi para cima de Bolsonaro numa reunião ministerial: “O senhor tem que me demitir. Seria mais leal de sua parte. O senhor quer cobrar lealdade, mas lealdade é uma via de mão dupla. O senhor está sendo desleal, porque o senhor fala uma coisa e faz outra.”  Nessa hora, o presidente ficou sem reação,  “como um lutador que foi nocauteado em pé”.  Coube ao ministro-chefe da Casa Civil, Walter Braga Netto, botar panos quentes: “Vamos encerrar essa reunião.” 

Poucos dias depois, logo de manhã, a CNN Brasil divulgou o áudio de uma conversa entre o ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni, e o deputado anti-isolamento social Osmar Terra, em que os dois comentavam a atitude de Mandetta. Na gravação, quando Lorenzoni disse que “teria cortado a cabeça” do ministro da Saúde,  seu interlocutor se animou: “Eu ajudo, Onyx. E não precisa ser eu o ministro, tem muita gente que pode ser.”  Naquela tarde, o presidente recebeu Mandetta em seu gabinete com a tevê sintonizada no noticiário que exibia a reportagem. Depois de se negar a pedir que o filho Eduardo baixasse o tom das críticas à China para ajudar o Brasil a liberar uma carga de equipamentos médicos no país asiático, Bolsonaro dispensou o ministro e  soltou uma informação enigmática, em meio a risadas de auxiliares: ele,  presidente, iria comer um sonho no dia seguinte.  De fato, a promessa se cumpriu numa padaria de Brasília a mesma em que, dias antes, Mandetta tinha comprado pão com a mulher e tirado fotos com populares. “Entendi, então, o motivo daquela visita: se eu reclamasse que o presidente estava saindo e causando aglomeração, apareceria em seguida uma foto ou vídeo meu no mesmo local.” O autor afirma que isso o fez acreditar que estava sendo monitorado pelo serviço de informação de Bolsonaro. “Aquilo foi um recado para me dizer que ele sabia dos meus passos, da minha vida.”


A segunda conclusão que se extrai de Um Paciente Chamado Brasil é que o negacionismo de Bolsonaro se tornou tão contagioso quanto o coronavírus. Com exceção do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que Mandetta diz ter entendido a gravidade da crise sanitária desde o início, o resto do governo parecia imerso na mesma onda de negação. Um dos que aparecem no livro recusando-se a enfrentar o problema é o ministro da Economia, Paulo Guedes, que esbravejou contra o tabelamento de preços de certos remédios em uma reunião com a equipe da Saúde, demonstrando não saber que, por lei, medidas dessa natureza são definidas em um conselho do qual seu próprio ministério participa. 



Quando Mandetta comunicou a Bolsonaro que pretendia fazer uma recomendação aos estados sobre os procedimentos a serem adotados em velórios de vítimas do novo coronavírus, o presidente vetou. Argumentou que era mórbido demais. A recomendação acabou sendo feita tempos depois. Nos primeiros dias da crise, quando o secretário nacional de Vigilância em Saúde, Wanderson Oliveira, publicou um boletim proibindo partidas e chegadas de cruzeiros na costa brasileira, Bolsonaro quis que a ordem fosse cancelada. O ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, e o próprio Lorenzoni reforçaram a pressão.  Mandetta obedeceu. 

O general Braga Netto despistou quando o titular da Saúde perguntou se era verdade que o secretário de Comunicação, Fabio Wajngarten, estava com Covid, o que levaria o núcleo duro do presidente, incluindo Bolsonaro, a ter de cumprir a quarentena. O próprio secretário negou ter contraído o coronavírus em suas redes sociais. Só confirmou depois que sua mulher, Sophie, revelou a doença em um grupo de WhatsApp. Já curado, Wajngarten entrou em conflito com Mandetta ao propor uma campanha publicitária ufanista,  que exaltaria o Brasil durante a pandemia. Mandetta disse que não aprovava a iniciativa, mas Wajngarten alegou que a propaganda não custaria praticamente nada, já que seria feita de forma voluntária por artistas e atletas alinhados com a gestão de Bolsonaro. Tempos depois, Wajngarten teria procurado Mandetta para pedir dinheiro do Ministério da Saúde. Explicou que não havia conseguido fazer as peças de graça e que seria preciso pagar. Mandetta negou e a campanha não saiu. Pelo jeito, nenhuma figura pública aceitou associar sua imagem ao negacionismo governamental.

 

Recomenda-se, claro, encarar o relato do ex-ministro com o devido desconto. Ele não é nenhum neófito. Foi secretário de Saúde de Campo Grande e deputado federal pelo Mato Grosso do Sul em dois mandatos. Apoiou Jair Bolsonaro desde a campanha à Presidência. No livro de 227 páginas, até chega a afirmar que foi um erro de seu partido, o DEM, não ter aceitado a filiação do ex-capitão antes das eleições de 2018. Ao sair do governo, com a popularidade turbinada pela atuação no ministério, Mandetta declarou que participará dos pleitos de 2022 e admitiu que poderá se candidatar a presidente ou a vice-presidente da República.

O ex-ministro demonstra ter plena consciência da disputa que travou com Bolsonaro e não esconde que buscou o conflito em vários momentos inclusive ao dar, em abril, a entrevista ao Fantástico que precipitou sua demissão.  Na ocasião, Mandetta reclamou do duplo comando por parte do governo em relação à pandemia e disse que o brasileiro não sabia se escutava o presidente ou ou ministro.

O autor tampouco faz questão de esconder as pequenas vinganças. Um exemplo: em janeiro, pouco antes de viajar a Davos, na Suíça, para participar do Fórum Econômico Mundial, o presidente tentou trocar os quatro principais secretários do ministério por aliados do filho Flávio “gente nossa”,  teria dito o pai. “Quem articulou as exonerações e impôs novos nomes mirava o controle de mais de 80% do orçamento do Ministério da Saúde”, escreve Mandetta. O ministro resistiu. Propôs uma solução alternativa, ele e o presidente ficaram de conversar na volta, veio a pandemia, e o assunto ficou pendente. 

Mas a história mais picante do livro, que deve provocar frisson em Brasília, não tem relação com o novo coronavírus. É a de como o então deputado Onyx Lorenzoni chantageou vários colegas de Congresso em 2016, ao ser ameaçado de perder a relatoria do projeto de lei que propunha dez medidas contra a corrupção. Segundo Mandetta, às vésperas de apresentar seu relatório, o parlamentar teve uma reunião bastante tensa com líderes de diversos partidos que o pressionaram a tirar do projeto as cláusulas que transformavam caixa dois de campanha em crime inscrito no Código Penal e previam a concessão de um prêmio em dinheiro para delatores. Como Lorenzoni não concordou com as alterações, a reunião deu em nada. Mandetta recebeu, então, a missão de tentar chegar a um acordo com o correligionário. Se o ministro não conseguisse avançar, o DEM iria destituir o deputado do cargo e apresentar outro relatório.

No meio das tratativas, Lorenzoni sacou o celular do bolso e mostrou a gravação de toda a reunião anterior, em que os colegas detonavam a Lava Jato e as dez medidas.  “Quero ver eles aguentarem a mídia em cima deles”, desafiou o relator. O deputado foi mantido na função, mas se transformou em um pária na Câmara, até colar em Jair Bolsonaro e acabar no Planalto. O episódio ajuda a explicar a antipatia de vários líderes do Congresso pelo ex-ministro da Casa Civil. Mandetta e Lorenzoni continuaram aliados até a pandemia. Não fosse a chegada do vírus, que tumultuou o governo, desfez alianças e expeliu o próprio Mandetta do ministério, essas e outras histórias poderiam ter ficado em segredo para sempre.

Malu Gaspar (siga @malugaspar no Twitter)

Repórter da piauí, é autora do livro Tudo ou Nada: Eike Batista e a Verdadeira História do Grupo X, da editora Record

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