anais das ruas

Um protesto histórico, menos na tevê

Ao reunir dezenas de milhares, #EleNão provoca maior manifestação liderada só por mulheres no Brasil mas é quase ignorado na tevê

José Roberto de Toledo
29set2018_22h35
Manifestantes do #EleNão ocupam o Largo da Batata, no sábado à tarde, em São Paulo
Manifestantes do #EleNão ocupam o Largo da Batata, no sábado à tarde, em São Paulo FOTO: EDUARDO ANIZELLI/FOLHAPRESS

Dezenas de milhares de mulheres saíram às ruas para bradar #EleNão neste sábado, em cidades de todas as regiões do Brasil. Juntas, produziram as maiores manifestações populares desta eleição presidencial, de longe. Não se sabem números exatos porque a polícia, sintomaticamente, não contou na maioria das cidades. Mas as manifestantes ocuparam densamente amplas áreas da Cinelândia, no Rio, e do Largo da Batata, em São Paulo, para citar só duas. Em uma campanha na qual rarearam os comícios, tamanha aglomeração de gente contra um candidato é notícia. E foi: em inglês, francês, árabe. Mas o brasileiro que passou o dia na frente da tevê não ficou sabendo. A menos que tivesse um celular na mão.

O episódio sintetiza todas as principais marcas da eleição presidencial de 2018 no Brasil. Em lugar da propaganda eleitoral televisiva, quem mobilizou os eleitores contra e a favor de candidatos foram as mídias sociais, notadamente o WhatsApp. Foi uma hashtag distribuída via Twitter, Facebook e Instagram que levou as maiores multidões à rua, não foram anúncios de tevê.

Os efeitos mais profundos dessa mudança são potencialmente revolucionários, pois todo o jogo de poder dentro dos partidos políticos gira em torno da distribuição do tempo de propaganda eleitoral e das verbas públicas. Se a tevê perde influência, perdem junto os caciques partidários que controlam a distribuição de tempo de câmera entre seus correligionários. Também perdem poder de barganha partidos que só existem para negociar minutos de tevê ao formarem coligações eleitorais.

Principal propaganda desse novo jeito de fazer campanha política é o candidato que lidera as pesquisas de intenção de voto e tem menos de 10 segundos por dia de propaganda na tevê. Perca ou ganhe, Bolsonaro é o personagem do ano por ter sido o único candidato capaz de surfar até o fim a onda de conservadorismo que tomou o país como um tsunami, e numa prancha de isopor: sem propaganda de tevê, sem marqueteiro, sem partido. Mas o fez destilando tanto ódio contra tantas minorias que a reação a ele acabou provocando a maior manifestação de rua de toda a eleição.

Não é de agora o movimento de mulheres contra Bolsonaro. Desde o começo da campanha, o capitão reformado sempre teve muito mais dificuldade de vender suas ideias repressivas ao eleitorado feminino do que ao masculino. O #EleNão catalisou o sentimento contra Bolsonaro e transformou algo difuso em uma ação simultânea e concreta de dezenas de milhares de mulheres. Só não foi maior porque a cobertura da campanha eleitoral na tevê é deliberadamente omissa e limitada. Não faz reportagem, entrevista; não investiga, divulga agendas.

Se parte dessa omissão pode ser explicada pelas limitações impostas pela legislação eleitoral que tange o direito à informação dos telespectadores, nem tudo, porém, cai nessa conta. A falta de cobertura ao vivo dos atos do #EleNão e, mais grave, a ausência de contextualização e ênfase nas raras reportagens sobre a mais importante manifestação de rua da campanha eleitoral de 2018 até agora não se deve ao departamento jurídico das emissoras. O movimento não é partidário nem promove nenhuma candidatura específica. É contra um candidato, sim, mas não prega que é melhor votar neste ou naquele outro.

O resultado dessa omissão e falta de contextualização é que coisas diferentes são tratadas como iguais. Uma manifestação de dezenas, no máximo centenas de pessoas em um lugar é apresentada da mesma maneira e com a mesma magnitude que dezenas de milhares de mulheres em dúzias de cidades. Na tela da tevê, o ato solitário pró-Bolsonaro em Copacabana foi equivalente à maior manifestação popular capitaneada por mulheres na história do Brasil. Felizmente, a internet provê o que a tevê omite.

José Roberto de Toledo (siga @zerotoledo no Twitter)

Jornalista da piauí, foi repórter e colunista de política na Folha e no Estado de S. Paulo e presidente da Abraji

Leia também

Últimas Mais Lidas

O governo inconstitucional

Professora de direito constitucional escreve que decreto de Bolsonaro fere a autonomia universitária prevista na Constituição

Foro de Teresina #51: Moro no STF, o sigilo de Queiroz e Flavio e os protestos contra o governo

Podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Ministro toma caldo no #TsunamiDaEducação

Maia viaja, governo escorrega e Centrão deixa Weintraub falando sozinho na Câmara enquanto protestos tomam conta do país

A javaporquice de Bolsonaro

Presidente opta pela pior oposição que poderia escolher e enfrenta protestos inéditos para um recém-empossado

Varda por Agnès – narcisismo encantador

Interação é a pedra angular na obra da cineasta

A escolinha anarcocapistalista do Ancapistão

Vacina e cinto de segurança são inimigos eleitos pelos ancaps, que já têm representante no governo Bolsonaro

Uma motosserra na mão e um projeto na cabeça

Proposta de Flávio Bolsonaro extingue reserva legal obrigatória; espaço sob risco de desmatamento equivale a seis vezes a área do estado de São Paulo

A história e os bastidores do Foro de Teresina

Apresentadores relembram início do programa, que completa um ano esta semana

Conteúdo patrocinado e anunciantes estão entre os principais modelos de financiamento

Diretor da CBN diz que programas em áudio são caminho para formar novos ouvintes

Mais textos
2

A escolinha anarcocapistalista do Ancapistão

Vacina e cinto de segurança são inimigos eleitos pelos ancaps, que já têm representante no governo Bolsonaro

3

A javaporquice de Bolsonaro

Presidente opta pela pior oposição que poderia escolher e enfrenta protestos inéditos para um recém-empossado

5

Uma motosserra na mão e um projeto na cabeça

Proposta de Flávio Bolsonaro extingue reserva legal obrigatória; espaço sob risco de desmatamento equivale a seis vezes a área do estado de São Paulo

7

Generais agora miram chanceler

Presidente do Senado também engavetou nomes sugeridos por Araújo para embaixadas

8

O governo inconstitucional

Professora de direito constitucional escreve que decreto de Bolsonaro fere a autonomia universitária prevista na Constituição

9

Juventude bolsonarista

A extrema direita sai do armário no Brasil

10

Quatro em cada dez internautas já ouviram podcast no Brasil

Pesquisa inédita do Ibope foi divulgada neste sábado na Maratona Piauí CBN de Podcast