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    Two Figures with a Monkey (1973), de Francis Bacon, em exibição no MASP Foto: The Estate of Francis Bacon/2024/All rights reserved

pitacos da redação

Um romance, uma exposição, um livro-reportagem…

As dicas culturais da Redação da piauí

| 20 abr 2024_10h58
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Quinzenalmente, os leitores da newsletter cultural da piauí recebem uma cuidadosa seleção de filmes, livros, séries, exposições e álbuns feita pelos jornalistas da redação com a curadoria do editor Alejandro Chacoff. Abaixo, o conteúdo da última edição. Clique aqui para receber as próximas gratuitamente.


A prosa brasileira ganha uma novidade original com o lançamento de Contra fogo, romance de estreia do biólogo paulista Pablo L. C. Casella. Lançado em março de 2024, no final de um fenômeno El Niño que turbinou a temporada de incêndios florestais em vários biomas do Brasil, o livro retrata como a crise ambiental está sendo vivida no sertão da Bahia, especificamente numa brigada voluntária de combate a incêndios florestais na Chapada Diamantina. É um local que Casella conhece bem, pois ele chegou a atuar na linha de frente do combate ao fogo na região, ainda que nos últimos anos venha se dedicando mais a tarefas de gestão.

A trajetória do autor e a sua vivência são a matéria-prima para a narrativa, mas Contra fogo não é um livro de autoficção. O protagonista é um nativo – Dejanir de Oliveira Dourado, ou Deja, o líder dos brigadistas, que conta a história em primeira pessoa. Casella optou por uma narrativa dominada pela oralidade, com o vocabulário e a gramática da fala dos brigadistas. É pelo olhar de Deja que enxergamos as táticas e a divisão de tarefas para controlar o fogo. E é também a partir de sua perspectiva que vivemos sua dificuldade de conciliar a dedicação à brigada, um trabalho que ele enxerga como uma missão, e a vida familiar.

A tensão do brigadista entre se entregar ao fogo ou cuidar da família atravessa todo o romance. Deja tem questões importantes para resolver com a mulher, com os filhos e consigo mesmo. Mergulhar de cabeça no combate aos incêndios florestais é como ele expia suas culpas e exorciza os fantasmas do passado. Se alguns colegas se entregam ao álcool, a brigada é a sua cachaça. Os dilemas do protagonista sustentam as mais de trezentas páginas de narrativa, mas o ponto forte do livro são as cenas de combate ao fogo, que transportam o leitor para as matas da chapada em chamas e são descritas com uma minúcia que deixa cheiro de fumaça no ar.

A emergência climática é o pano de fundo sobre o qual se desenrola a ação dos brigadistas. Os moradores experimentam na pele as transformações ambientais que estão deixando algumas regiões da Chapada mais quentes e secas e, portanto, mais propensas ao fogo. Em dado momento, Deja se espanta com cinco ou seis incêndios simultâneos dentro do parque nacional. “A gente não tá num tempo normal”, ele diz a um colega. Contra fogo se soma a exemplos recentes da ficção brasileira que refletem ou são inspirados pela emergência climática, elevando o nível desse gênero em ascensão.


Desde 22 de março, o Masp apresenta uma exposição inédita com obras de Francis Bacon (1909-92), composta por 23 pinturas, vindas de coleções europeias e americanas. Na exposição, a leitura da produção do irlandês a partir de um enfoque fundamentalmente queer consiste num pioneirismo. Na narrativa montada pela curadoria, as relações amorosas de Bacon se entrelaçam às fases de sua carreira. Olhar deste modo para o pintor não é usual. Em 2009, o Metropolitan Museum of Art, em Nova York, escolheu fazer uma retrospectiva em que a vida pessoal e amorosa do pintor eram secundárias.

O primeiro núcleo, no qual aparece a pintura Man at a Washbasin (circa 1954), se concentra na importância que Bacon teve para a pintura do século XX ao renovar a figuração – coisa que ele faz flertando com a abstração, por meio da geometria.

É a partir do segundo núcleo que o entrelaçamento entre vida pessoal e obra fica mais claro. A boca – um orifício muitas vezes examinado em suas pinturas –  aparece com destaque no assustador Estudo após retrato de Velázquez do Papa Inocêncio X (1953) e nos Trípticos negros (1972-1974), feitos após a morte trágica de um dos seus companheiros, George Dyer (1934-1971). No núcleo seguinte, dois quadros – Walking Figure (1958-1960) e Seated Figure on a couch (1959) – mostram diferentes formas em que o pintor representa a nudez masculina. Uma das telas de destaque é Man in Blue I (1954), que traz um homem num ambiente de cor preta. Uma das façanhas de Bacon é combinar agilidade e concisão na reprodução de expressões faciais intensas que, ao mesmo tempo, aparecem sob uma espécie de veladura. “Como ele faz isso?”, o visitante se pergunta.

O quarto núcleo parece de certa forma uma resposta a essa questão, ao nos depararmos com distintos modos do pintor pensar a representação do volume. Já o quinto núcleo é o menos amarrado à narrativa geral da exposição. Em duas das obras da seção, Bacon faz autorretratos lançando mão de elementos que não são usuais em suas outras pinturas. Uma estampa de blusa que não fazia parte do seu figurino, por exemplo, ou seu rosto chapado, como se fosse uma tela. Talvez ele já estivesse ciente que tinha se tornado uma referência em si.


De agosto de 2023 a março deste ano, o Museu Histórico Nacional de Santiago, no Chile, recebeu uma exposição sobre os cinquenta anos da ditadura militar do país, instaurada em 11 de setembro de 1973 e que durou dezessete anos. Nós brasileiros também andamos à volta com reflexões sobre o período ditatorial de 21 anos que enfrentamos entre 1964 e 1985, como provou o último 31 de março e as hesitações do governo em como agir diante da data do golpe. Com as devidas especificidades e diferenças de cada caso, todo o continente latino-americano ainda lida com as formas apropriadas de rememorar as rupturas democráticas, e de dar às restaurações democráticas posteriores seu devido valor.

Em Apenas uma mulher latino-americana: em busca da voz revolucionária, Bruna Ramos da Fonte investiga um aspecto específico dessa construção memorialística, concentrando-se nas canções de protesto produzidas durante as ditaduras. Dez anos de pesquisas, viagens e conversas da autora com artistas da América Latina estão condensados neste belo livro-reportagem que explora relatos e histórias de personagens que viveram a experiência ditatorial em países do cone sul entre os anos 1960 e 1980. O livro traz ainda relatos autobiográficos de Fonte, uma mulher que nasceu e cresceu imersa numa família com forte intercâmbio cultural, que mesclam raízes de origem pernambucana, negra e indígena de um lado, e sérvia, alemã e cigana do outro.

Muito inspirada nos lemas de resistência da Nueva Canción Latinoamericana, a jornalista fez da música a sua principal bandeira. Durante alguns meses de sua investigação, Fonte esteve no Chile e conviveu de perto com Tita Parra – neta de Violeta Parra, uma das mais importantes cancioneiras do país e representante da Nueva Canción. Tita assina o prefácio do livro e num trecho diz: “Ela [Bruna] não caminha por onde todos caminham, e certamente caminha muito mais pois percorre lugares aos quais ninguém vai.” Dentre as histórias visitadas por Bruna está a do pianista Tenório Jr., que sumiu misteriosamente numa noite em Buenos Aires em meio a uma turnê que fazia com Toquinho e Vinícius de Moraes em 1976, época da junta militar liderada pelo general Jorge Rafael Videla.

Mas o centro das atenções de  Fonte são as canções em si. Ao longo das páginas, as letras de músicas diversas vão sendo combinadas como se fossem peças de um quebra-cabeça que, ao final do livro, formam um grande painel sonoro dessa viagem que ela propõe. É como se ela nos guiasse numa grande playlist, na qual é possível acompanhar a história com fones de ouvido.

Na última sala da exposição na capital chilena, enquanto se ouve pelos alto-falantes Chile, la alegría ya viene (Chile, a alegria já vem) –  jingle da campanha contra o ditador Augusto Pinochet –, o visitante é deixado com uma pergunta: ¿Cómo hacemos futuro con un golpe en la memoria? (Como fazemos um futuro com um golpe na memória?). Não há uma resposta clara, mas o livro parece oferecer boas pistas.

“A minha depressão era como o clima: ninguém sabia se o inverno viria forte ou suave, se ia chover fininho ou cair uma tempestade. Apenas acontecia.” Assim a protagonista de Quem nasce no inverno, uma ficção publicada na edição de abril da piauí, descreve seus episódios depressivos. A alusão do título à estação do ano não é casual, e nem apenas metafórica: a narradora tem séria dificuldade de enfrentar dias nublados. Da mesma forma, a relação da protagonista com seu filho pequeno e as dificuldades da gravidez  são matéria-prima para o texto da escritora Vanessa Barbara, que investiga uma aflição ainda pouco compreendida, e frequentemente romantizada pela literatura. “Minha depressão é unipolar, o que significa que, ao contrário de outros poetas e escritores, nunca tive períodos de mania alternados com os episódios de desalento. Para essas pessoas, as fases de baixa energia podem ser circunscritas, delimitadas no tempo, e cedem o espaço a fases mais eufóricas. Confesso que já cheguei a pensar que a bipolaridade seria artisticamente ‘preferível’; o fato de esse pensamento ter passado pela minha cabeça me envergonha muito.” Intercalando confissões da narradora – que visita inúmeros terapeutas de correntes distintas, sem sucesso – e as biografias de escritoras como Sylvia Plath e Clarice Lispector, que também tinham episódios depressivos prolongados, a autora traça um retrato múltiplo da aflição que acomete a protagonista. Um retrato sem o intuito ou sequer a esperança de chegar numa resposta clara, e por isso mesmo mais sincero.

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