Imagens da manhã deste sábado (3) mostram o Fuerte Tiuna, o maior complexo militar da Venezuela, em chamas após o ataque americano Foto: STR / AFP
A Venezuela é só o começo
Há razões para acreditarmos que a ofensiva de Trump na América Latina não seja algo passageiro
Este artigo foi publicado originalmente em The Ideas Letter, sob o título Contradições continentais, em novembro de 2025.
Tradução: Isa Mara Lando
No dia 5 de novembro de 2025, completaram-se vinte anos do movimento Não à Alca, que rejeitou a proposta dos Estados Unidos de criar a Área de Livre Comércio das Américas (Alca). A discussão aconteceu durante a Cúpula das Américas, realizada naquele ano em Mar del Plata, na Argentina. Do lado de fora da conferência, cerca de 40 mil pessoas tomaram as ruas, numa manifestação que reuniu sindicatos, grupos de direitos humanos, celebridades como Diego Maradona e líderes em ascensão como Evo Morales. Foi um momento memorável. Ainda assim, a efeméride dos vinte anos parece ter passado batida. Vi poucas pessoas mencionarem a data. Eu mesmo só me lembrei por causa de algumas postagens no Instagram – uma dose controlada de nostalgia.
O Não à Alca foi uma oposição coordenada ao projeto americano de transformar todo o Ocidente, com exceção de Cuba, em uma área de livre comércio. A Alca pretendia eliminar tarifas, integrar mercados, transformar as estruturas produtivas de diversos países e, é claro, garantir aos Estados Unidos acesso privilegiado à América Latina. Era uma ambição típica do governo Bill Clinton (1993-2001), e que continuou com George W. Bush (2001-2009).
Liderado pelos então presidentes da Argentina e da Venezuela, Néstor Kirchner e Hugo Chávez, com a cumplicidade silenciosa de Lula, o Não à Alca virou um marco cultural, simbolizando o fim da intervenção ilimitada dos Estados Unidos no continente. As imagens usadas pelo movimento tornaram-se parte da iconografia da esquerda jovem latino-americana. O rosto de Chávez aparecia em faixas e murais em várias universidades, de Buenos Aires a São Paulo. Fotos de Maradona desafiando gringos inspiravam jovens de Cuba a Nicarágua, como sinais de encorajamento político.
Tudo isso aconteceu ao mesmo tempo em que Bush e seus neoconservadores redirecionavam as atenções ao Oriente Médio. Favorecido pelo ambiente geopolítico, o movimento Não à Alca parecia encerrar simbolicamente os anos 1990, época em que Washington desempenhou papel central em toda a América Latina. Na Cúpula, em 2005, pressionado pelas manifestações nas ruas, Bush admitiu a derrota, paralisando enfim o acordo de livre comércio. Parecia que entrávamos em uma nova era.
Depois daquela vitória, os países latino-americanos tomaram cada um seu rumo. Argentina, Brasil e Venezuela conseguiram materializar sua oposição à dominação comercial dos Estados Unidos fortalecendo o Mercosul, o poderoso bloco fundado em 1991. Na América Central, por outro lado, entrou em vigor uma espécie de mini-Alca – uma realidade que o México já vivia desde meados dos anos 1990, quando foi assinado o Nafta, sigla em inglês para o Acordo de Livre Comércio da América do Norte. Um ano após a Cúpula de 2005, a guerra às drogas, velha conhecida da Colômbia, chegou ao México. Enquanto a Bolívia e o Equador, governados por Morales e Rafael Correa, interrompiam operações do DEA (a Drug Enforcement Administration) e fechavam bases militares estrangeiras nos seus países, outros vizinhos mais ao Norte se aproximavam dos americanos. Seguindo o exemplo de Chávez, políticos se consolidavam no poder com grande apoio popular, tendo legitimidade, em alguns casos, para reformar até mesmo a Constituição. Na América Central, uma espiral de violência e corrupção corroía os sistemas políticos estabelecidos depois de guerras civis, como foi o caso em El Salvador, Nicarágua e Guatemala. Nesses países, os jovens talvez até soubessem de Chávez ou Maradona, mas a maioria queria apenas deixar o país.
A Cúpula das Américas traduziu o novo momento político da América Latina e as novas prioridades de Washington, que, depois de décadas intervindo de forma deliberada no continente, passou a focar em outras regiões do planeta – ainda que sem abrir mão de algumas operações consideradas estratégicas. A percepção de que a hegemonia local dos Estados Unidos estava chegando ao fim era palpável, e se tornou ainda mais forte em 2008, com a crise financeira que paralisou o mundo. O desinteresse ou desprezo de Washington pela América Latina ficou claro naquele momento. Parecia que o continente só era mencionado pelos políticos americanos na hora de fazer cálculos eleitorais – e ainda assim, só o faziam na tentativa de vencer as eleições na Flórida.
A China, enquanto isso, avançou sobre América Latina, tornando-se o principal parceiro comercial de muitos países da porção sul do continente, mas também conquistando aliados diplomáticos na América Central. A presença massiva da China se tornou um dos poucos pontos em comum para todos os países do continente. Várias instituições políticas de caráter regional foram criadas nesses anos, como a União das Nações Sul-Americanas (Unasul) e a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), focadas em aprofundar a integração entre os países da região.
Nos anos que se seguiram à cúpula, governos e partidos de esquerda continuaram a invocar o Não à Alca como o marco fundador de uma nova era em que o predomínio dos Estados Unidos chegaria ao fim. Eles não estavam totalmente errados. Houve, de fato, uma ruptura. A questão é que ela não parece ter sido definitiva. Ao menos é o que concluímos hoje, vendo as investidas de Donald Trump e a reação tímida da esquerda latino-americana. Em nenhuma outra região do planeta Trump interveio de forma tão veemente desde que iniciou seu segundo mandato, em fevereiro de 2025. Os Estados Unidos estão a um passo de realizar uma intervenção armada na Venezuela*. É possível que o México seja o próximo alvo, sob o mesmo pretexto de combater o crime organizado. A Colômbia também não está imune, e seu presidente, parte de uma nova geração de líderes de esquerda, já foi chamado de traficante pelo próprio Trump.
O presidente americano também já flertou com a ideia de intervir no Canal do Panamá. O socorro financeiro que Trump concedeu a Milei foi fundamental para a vitória eleitoral do argentino, e sua solidariedade com Bolsonaro balançou o governo de Lula – que, aos 80 anos, continua no poder e, em vez de negociar uma resposta regional coordenada (como fez em 2005), optou até aqui por uma declaração comedida, para não afetar as negociações bilaterais que abrandaram o tarifaço.
Essas duas realidades contrastantes – a da cúpula de 2005 e a de hoje – refletem a fragmentação regional e a falta de rumo dos projetos de esquerda no continente, que perderam seu horizonte e suas referências em comum. O fechamento do regime na Venezuela, a improvisação de novos líderes como Gustavo Petro na Colômbia e a falta de mudanças no Brasil são manifestações diversas dos desafios que a esquerda latino-americana tem de enfrentar, e que a intervenção de Trump promete exacerbar. O avanço dos Estados Unidos se dá sob a justificativa da segurança pública, e muitas medidas drásticas propostas por Trump já não são consideradas uma aberração. Pelo contrário: têm se tornado cada vez mais populares entre os próprios latino-americanos.
Mesmo sabendo que essa fragmentação da América Latina não se restringe à esquerda, e que na verdade reflete a relação de cada país com os Estados Unidos, o silêncio das lideranças progressistas é um fato notável, com poucos paralelos históricos.
Tomemos como exemplo a cúpula mais recente da Celac, a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos. Esse é o único fórum que reúne todos os países da região, incluindo o Caribe, sem a presença dos Estados Unidos. Apesar de tudo o que vem acontecendo no continente, a cúpula realizada em 2025 foi um anticlímax. Terminou com um comunicado que sequer mencionava Trump ou os Estados Unidos: “Abordamos a importância da segurança marítima e da estabilidade regional no Caribe”, disse o texto final do encontro, anódino. A Venezuela se absteve de assiná-lo, porque o documento condenava a guerra na Ucrânia. A China também não foi mencionada. “Parece um comunicado feito em outro planeta”, comentou a professora de ciência política Sandra Borda, da Universidad de Los Andes, em um texto publicado no seu Substack.
Não existe uma forma única de lidar com Trump, que fez do intervencionismo uma marca de seu segundo mandato. Mesmo os líderes que têm tido mais habilidade em calibrar sua relação com a Casa Branca, como a presidente mexicana Claudia Sheinbaum, vivem uma espécie de ciclo diplomático: quando um problema parece resolvido, surge outra frente de conflito, ou uma questão que parecia encerrada volta a se abrir. Isso tem gerado hesitação entre os presidentes latino-americanos.
Fiel ao seu estilo, Sheinbaum criticou os ataques de Trump a navios no Caribe, mas de forma comedida – um caminho que Lula também seguiu. Ambos priorizaram suas próprias relações com os Estados Unidos, abdicando de qualquer tipo de liderança em uma eventual iniciativa conjunta para rejeitar abertamente o avanço americano. Na maioria dos casos até aqui, prevaleceram as repreensões tímidas ou o mero silêncio. O colombiano Gustavo Petro é um dos poucos líderes da região que adotaram um tom mais confrontador, mas sua estratégia parece ser baseada em cálculos domésticos, apenas. E há ainda o grupo de líderes que recebeu positivamente a intervenção armada de Trump, numa frente de direita que vai da Argentina até Trinidad e Tobago.
Seria difícil encontrar um defensor mais eloquente da intervenção trumpista do que Milei, que disse, em entrevista ao Financial Times: “Os Estados Unidos decidiram ser o país líder da região, atitude que apoio decididamente. Antes, os Estados Unidos se preocupavam em ajudar os que não eram seus aliados, alimentando seus próprios inimigos. Hoje, fizeram uma mudança copernicana, o que é fabuloso. Ou seja: para os aliados, todo o apoio; para os não aliados, nada de apoio. Eu acho isso brilhante.”
A fragmentação regional espelha a fragmentação interna dos países, agravada, em alguns casos, pelo aumento da polarização ideológica. Não só não existe uma posição unificada dentro de cada país, como essas posições muitas vezes são opostas. Não por coincidência, é justamente nesses cenários polarizados que Trump intervém, buscando ajudar seus aliados ideológicos. A Argentina é o exemplo mais visível dessa tendência, mas o caso do Brasil talvez seja o mais ilustrativo. Lula é o único líder que, vinte anos após o movimento Não à Alca, está no poder novamente, depois de ser reeleito para um terceiro mandato com o apoio decisivo da Casa Branca de Joe Biden. Mas Lula nunca teve tantos problemas para governar como está tendo agora. Suas habilidades inatas de negociador e equilibrista não produzem hoje os resultados de antigamente.
Em 2005, enquanto trabalhava discretamente para rejeitar a Alca, Lula ainda tentava cultivar boas relações com os Estados Unidos – um parceiro comercial de importância vital –, ao mesmo tempo em que apostava no Mercosul para fortalecer a indústria brasileira. Hoje, no entanto, a estrutura produtiva do Brasil é dominada pelo agronegócio, aliado e promotor da extrema direita, que alterou o equilíbrio do sistema político brasileiro, dificultando a governabilidade. O crescente poder do agronegócio está diretamente relacionado à ascensão comercial da China e sua fome por matérias primas. A dificuldade de Lula em governar, portanto, se deve menos à sua idade avançada (outro problema que a esquerda não consegue resolver desde 2005: a sucessão) do que à transformação do cenário geopolítico nos últimos vinte anos.
O que mais aconteceu de 2005 para cá? A Venezuela se tornou uma autocracia, causando um êxodo de mais 7 milhões de pessoas e uma crise migratória sem precedentes na América Latina. Muitos blocos regionais entraram em colapso, em alguns casos devido a decisões tomadas por partidos de centro-direita. A Colômbia chegou a um acordo com as Farc, mas o conflito armado não foi resolvido, apenas se fragmentou. Em parte por isso, o crime organizado começou a se alastrar pela região.
E aí surgiu Trump. Um grande problema para a esquerda latino-americana está no fato de que a ênfase de Trump à segurança pública está ficando mais popular no continente. Numa pesquisa recente da Atlas Intel encomendada pela Bloomberg, a maioria dos latino-americanos apoiava uma intervenção armada na Venezuela. Para 33% deles, Trump estava “muito comprometido” em “levar a liberdade” ao povo venezuelano. Apenas 17% disseram o mesmo de Lula. No caso de Gustavo Petro, foram 16%.
É claro que não se deve tirar grandes conclusões de uma única pesquisa, e a imagem dos Estados Unidos, apesar de tudo, não está das melhores na América Latina. Trump não é uma figura popular, ao contrário de Nayib Bukele, de El Salvador, com seu índice esmagador de aprovação. Mas a ameaça de intervenção da Casa Branca surge num momento em que muitos latino-americanos estão dispostos a embarcar em soluções radicais para garantir a segurança e o combate ao crime organizado. A narrativa de Trump sobre o “narcoterrorismo” – uma fusão da guerra às drogas com a guerra ao terror, ambas equivocadas – já havia sido utilizada antes por líderes latino-americanos, como Daniel Noboa, do Equador, e o próprio Bukele. A recente operação policial que deixou mais de 120 mortos no Rio de Janeiro, entre eles civis, resume bem a situação. Foi a maior matança da história da cidade, nenhum chefão do crime foi capturado, mas, mesmo assim, a maioria da população local, incluindo moradores das favelas afetadas pelo massacre, apoiou a operação, demonstrando que preferem isso à criminalidade.
Nas investidas recentes dos Estados Unidos na América Latina, há duas crises que se entrelaçam. A primeira delas diz respeito à expansão do crime organizado. Seria errado culpar a esquerda por esse problema histórico, que se formou com uma boa ajuda dos Estados Unidos. Por outro lado, é verdade que até hoje nenhuma liderança política da esquerda conseguiu construir uma resposta coerente ao problema. A direita, como era de se esperar, explora a crescente onda de criminalidade para seus próprios fins.
A segunda crise é a consolidação do autoritarismo na Venezuela. Nesse caso a responsabilidade da esquerda é maior. Uma parte significativa dos líderes progressistas da região têm hesitado em condenar Maduro. Os principais porta-vozes do peronismo argentino, por exemplo, ainda não o fizeram. Ainda não foi apresentada uma solução negociada para o declínio venezuelano, nem sequer uma narrativa razoável para explicá-lo. Depois das últimas eleições no país, Brasil e Colômbia tentaram fazer uma mediação entre Maduro e a oposição, mas a ideia logo naufragou (ao que parece, por obra de Maduro). No contexto atual da América Latina, a crise da segurança e a da migração caminham de mãos dadas: a maioria das propostas de repressão dura ao crime organizado também inclui a deportação ou restrições à migração de cidadãos venezuelanos.
E não se trata apenas de segurança. A intervenção de Trump também ocorre em um momento de fragilidade econômica, quando os eleitores estão suscetíveis à ameaça de desestabilização vinda da Casa Branca. As recentes eleições legislativas na Argentina são um exemplo: os eleitores entenderam perfeitamente que, se Milei perdesse, Trump deixaria de apoiar economicamente o país, o que provavelmente resultaria num desastre. No Brasil, a maioria da população pode até ser contra as tarifas impostas por Trump, mas os eleitores vão penalizar Lula caso concluam que os problemas da economia foram resultado de sua inabilidade. O mesmo pode acontecer na Colômbia.
Existe, hoje, uma parte da esquerda que supõe que a intervenção de Trump pode ser um presente eleitoral, capaz de reativar um sentimento anti-imperialista adormecido. Isso aconteceu, em parte, no Brasil. É improvável que se espalhe por outros países.
A estratégia de Trump para a América Latina não é clara, e talvez nem exista. Mas os dias em que os Estados Unidos faziam vista grossa para o continente parecem ter acabado. A intervenção americana até aqui apresentou diferentes linhas de ação. Em primeiro lugar, o que está claro é que o governo Trump está dando prioridade ao Ocidente na sua política de defesa, bem como às ameaças internas, como o crime organizado. Esse posicionamento condiz com o que foi divulgado da nova Estratégia Nacional de Defesa do governo americano. Ela mostra que os Estados Unidos pretendem ampliar sua presença na América Latina e reduzi-la no restante do mundo. É uma ruptura com o padrão de antagonismo com a China que vigorava até então.
Uma intervenção direta na Venezuela, um dos poucos países da região que têm vínculos militares com a China e a Rússia, pode inaugurar uma nova política americana para o hemisfério (Thomas Barnett desenvolveu essa hipótese em um artigo recente no site Politico). Mas para entender esse novo momento, é preciso também observar as concessões que Trump está conseguindo obter de presidentes como Milei e o próprio Lula, que vão desde o acesso a minerais e terras raras até, como no caso da Argentina, a possível abertura de bases militares. Esses movimentos, segundo pesquisadores como Bernabé Malacalza, são consistentes com uma nova doutrina que se baseia em alcançar autossuficiência em minerais e terras raras e impedir que a China aproveite sua vantagem econômica e comercial na região para alcançar um predomínio militar.
Há também um componente doméstico. Embora Trump tenha uma visão equivocada sobre as raízes do problema e como combatê-los, seus ataques a navios e até a grupos armados fazem parte de uma campanha publicitária voltada para o eleitorado americano, preocupado com a epidemia de fentanil. Por outro lado, e talvez mais importante, essas ações refletem o lugar da América Latina no universo Maga, a sigla do nacional-trumpismo. A importância do continente para a retórica da direita americana se deve, em parte, à ascensão de Marco Rubio, o secretário de Estado de Trump.
Segundo vários relatos, foi Rubio quem defendeu uma postura mais agressiva diante da Venezuela, em contraponto à estratégia mais branda preconizada por Richard Grenell, o encarregado de missões especiais do governo Trump. Entre os que concordam com Rubio está o vice-presidente J.D. Vance, o conselheiro de Segurança Interna dos Estados Unidos, Stephen Miller, e a chefe de gabinete de Trump, Susie Wiles, que conhece Rubio há mais de uma década e é uma das responsáveis por transformar a Flórida em um estado de maioria republicana. A Flórida se tornou o centro do trumpismo. É onde o chefe mora e faz negócios, e onde operam figuras como Rubio e Wiles, além da procuradora-geral Pam Bondi e, claro, do governador Ron DeSantis. É também o estado de origem de vários embaixadores que Trump nomeou para países importantes da América Latina, como México, Argentina, Colômbia e Panamá.
O intervencionismo americano, no entanto, não se explica apenas pelas aspirações presidenciais de Rubio e pelo microcosmo da Flórida. A última eleição nos Estados Unidos demonstrou a importância e a complexidade do voto latino, cada vez mais decisivo em estados onde nem democratas nem republicanos têm maioria garantida. Soma-se a isso um outro fator que não costuma ser lembrado: o peso crescente da migração sul-americana para os Estados Unidos. Embora ainda seja pequena quando comparada a outras, ela tem aumentado rapidamente. A variedade de nacionalidades também cresceu. Além da Venezuela, há migrantes do Brasil, Argentina, Colômbia, Equador e Peru, que podem ter um papel importante no futuro da política americana.
Embora seja difícil imaginar Trump traçando planos de médio e longo prazo, há razões para acreditarmos que a intervenção dos Estados Unidos na América Latina não será um fenômeno passageiro. É importante nos perguntarmos, neste momento, se a esquerda latino-americana subestimou a importância do continente para o governo americano ou se ela continua a ver os acontecimentos recentes como uma aberração trumpista que, eventualmente, será corrigida por um governo democrata. Diplomatas e intelectuais insistem que, no longo prazo, as intervenções de Trump só vão beneficiar a China. Parecem nutrir uma fantasia em que o país asiático desempenha o papel de messias, sempre pronto para salvar o continente do predomínio dos Estados Unidos.
Alguns anos após a Cúpula de 2005, o então presidente Hugo Chávez revelou qual havia sido a estratégia diplomática para derrotar os americanos. “Hugo, vamos derrotar essa gente pelo cansaço”, teria lhe dito Néstor Kirchner, da Argentina. “Quando eu precisar que você fale, fale e fale sem parar para cansá-los. Eu lhe darei a palavra.”
Na época, o foco dos Estados Unidos estava em outro lugar. Era mais fácil vencê-los pelo cansaço. Hoje, em tempos de retirada imperialista em outras partes do planeta, cabe à América Latina refletir sobre o seu papel em termos leninistas: “O que fazer?”
* O artigo foi publicado originalmente em novembro de 2025, antes do bombardeio americano a Caracas.
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