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Villa-Lobos tem toda sua obra revista

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Villa-Lobos tem toda sua obra revista

Compositor das Bachianas brasileiras também será tema de duas novas biografias

| 13 fev 2026_15h51
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Em junho do ano passado, a pianista brasileira Sonia Rubinsky, que vive em Paris, desembarcou em São Paulo trazendo na bagagem um raro exemplar mimeografado da partitura original do Concerto nº 4 para piano e orquestra, de Heitor Villa-Lobos. A partitura é a pista mais valiosa para corrigir imprecisões e erros da versão editada, trabalho que vem sendo realizado por ela e uma equipe de musicólogos e musicistas.

A revisão dos cinco concertos para piano de Villa-Lobos – escritos entre 1945 e 1954 – são a última etapa de um ambicioso projeto de correção de toda a obra do mais celebrado compositor clássico brasileiro.

O projeto começou há pouco mais de dez anos. Já foram corrigidos as Bachianas, as sinfonias, os choros, os concertos para violoncelo, as fantasias, as peças para balé – tudo com o apoio da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) e da Academia Brasileira de Música (ABM), sediada no Rio de Janeiro. O projeto envolve ainda uma editora dedicada à música clássica, uma gravadora multinacional e um estúdio especializado em sonoridade imersiva. Quando for encerrado esse trabalho, todas as partituras de Villa-Lobos terão ganhado uma forma final e definitiva.

Muito focado em criar, o compositor poucas vezes revia suas anotações, deixando-as às vezes indecifráveis e sem orientações precisas. Dúvidas sobre as partituras inquietam os especialistas há anos. As imprecisões resultam em geral da pressa com que ele costumava trabalhar, mais empenhado que estava em esboçar novas ideias do que em cuidar do acabamento formal. “Ele não tinha tempo de rever nada, se olhasse para trás não daria para escrever a enorme quantidade de obras que deixou”, diz o maestro Roberto Duarte, decano dos estudiosos de Villa-Lobos no Brasil.

Anedotas reforçam a imagem que o autor das Bachianas brasileiras projetava: a de um criador que, por ter mais o que fazer, era displicente com detalhes. Certa vez, a pianista Anna Stella Schic perguntou a ele como dedilhar determinado fraseado. “Faça como você quiser”, ouviu, em resposta.

Além da dimensão artística de Villa-Lobos, o aspecto econômico da revisão tem papel fundamental no futuro da divulgação da obra do compositor, sobretudo no exterior. A questão é que o custo de uma orquestra, que já é elevado, sobe ainda mais quando os ensaios têm que ser interrompidos por causa de partituras com erros de notação musical. O músico e executivo Antonio Carlos Neves Pinto conta uma conversa que teve com o maestro americano Michael Thomas, da Sinfônica de San Francisco. “Eu amo tocar Villa-Lobos”, disse o regente. “Mas não tenho mais paciência para corrigir nota errada. O tempo da orquestra vai embora.”

Com as partituras corrigidas e novas gravações na praça, a esperança dos executores do projeto é que a obra de Villa-Lobos ganhe mais espaço nas salas de concerto. Por um acordo entre as partes envolvidas, as revisões são doadas para a ABM, instituição criada em 1945 pelo próprio compositor e que detém seus direitos autorais. A ABM digitaliza o material e o coloca à disposição da editora da maior parte das partituras, a Max Eschig (hoje uma divisão da Universal Music). As gravações das peças corrigidas estão sendo feitas pela Naxos Records.

A revisão de Villa-Lobos não está limitada à sua obra: duas biografias do compositor estão sendo preparadas. Os autores são Camila Fresca, violinista com formação em história e jornalismo, que escreve para a editora Todavia, e o músico e pesquisador Rodrigo Alzuguir, que deverá publicar pela Companhia das Letras.

Assinantes da revista podem ler a íntegra da reportagem neste link.

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