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Foragido, o ex-senador Antonio Carlos Rodrigues se entregou à Polícia Federal. Sem saber, foi enviado para a mesma sala de seu algoz, Joesley Batista

Eduardo Militão
28nov2017_18h59
Enquanto era procurado pela PF, o político (à esquerda) se escondia em um hotel em São Paulo
Enquanto era procurado pela PF, o político (à esquerda) se escondia em um hotel em São Paulo FOTOS ORIGINAIS: FOLHAPRESS / DANILO VERPA_FOLHAPRESS

Às 16h25 desta terça-feira, o empresário Joesley Batista, da JBS, saiu de uma sala no térreo da Superintendência da Polícia Federal de Brasília e entrou na delegacia de plantão, logo depois de prestar um depoimento de cerca de duas horas. Dez minutos depois, o ex-senador e presidente do Partido da República, Antonio Carlos Rodrigues – foragido da Justiça há uma semana, delatado pela JBS por participar de um esquema para irrigar ilegalmente a campanha do ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho –, entrou na antessala que dá acesso ao plantão. Rodrigues não sabia que seu acusador estava do outro lado da porta. Informado pela piauí, o político se surpreendeu e exclamou: “Puta que pariu.”

Ao entrar na sala, por volta das 17 horas, Antonio Carlos Rodrigues deu de cara com Batista. O encontro não foi premeditado, segundo fontes informaram a piauí – o empresário, que está preso na penitenciária da Papuda, em Brasília, é um dos envolvidos na Operação Caixa D’Água, a mesma que investiga o político e que também prendeu o casal Garotinho. Ele havia ido à PF, porém, para prestar depoimento sobre outra operação na qual é investigado, a Bullish. Diante do delegado, permaneceu calado. Rodrigues disse à reportagem que não iria aproveitar a situação para fazer uma espécie de acareação com Batista.

Sobre seu período como foragido, Rodrigues contou que estava em São Paulo, onde passou os dias num hotel. A Polícia Federal não o encontrava para cumprir o mandado de prisão. De lá, foi para Brasília. Acompanhado de Marcelo Bessa, um dos mais requisitados criminalistas da cidade, ele chegou à PF de boné preto, calça escura e camiseta quadriculada em azul sobre branco, tentando manter discrição.

O ex-senador, ex-ministro dos Transportes de Dilma Rousseff e comandante do PR negou que tenha cometido crimes. Ele disse à piauí que apenas fez o papel de “office boy” nas eleições de 2014, conseguindo dinheiro – segundo ele em forma de doação registrada no Tribunal Superior Eleitoral – para a campanha de Garotinho. “Entrei de graça”, afirmou.

O político disse que tratou da doação com o lobista da JBS, Ricardo Saud. “Doação normal. Eu ia saber de onde vinha? Doação mesmo”, explicou.

Rodrigues agora gasta energia para sair o mais rápido possível da cadeia. Na noite de segunda-feira, antes de sua capitulação, o advogado Marcelo Bessa ingressou com um habeas corpus no Tribunal Superior Eleitoral pedindo sua soltura.

O ex-ministro deve passar a noite na carceragem da Superintendência, onde só há celas de passagem, sem chuveiro. De lá, deve seguir para o Rio de Janeiro, onde os Garotinho estão detidos. Uma mala marrom e uma sacola com cobertor, que ele trazia à tiracolo, devem acompanhá-lo.

Batista voltará ao presídio da Papuda.



Eduardo Militão

É repórter em Brasília, com passagens por Congresso em Foco, Istoé e Correio Braziliense

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