questões de saúde

A ciência da propaganda

Em meio à polêmica da vacinação em massa contra a Covid-19, ministro astronauta alardeia vantagens de vermífugo ainda sem eficácia comprovada diante da doença

Marta Salomon
23out2020_17h36
O ministro Marcos Pontes e pesquisadora Patricia Rocco  –
O ministro Marcos Pontes e pesquisadora Patricia Rocco – Foto: Neila Rocha /ASCOM-MCTI

O salão nobre do Palácio do Planalto foi preparado com antecedência para o anúncio da maior contribuição do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) no enfrentamento à pandemia de Covid-19. Voz impostada, o locutor da cerimônia declamou que a missão dada fora cumprida. “A nitazoxanida é eficaz. Comprovado”, disse, repetindo a legenda de um gráfico fake exibido num telão.  A cerimônia, na tarde da segunda-feira, 19, terminou com mais um pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro contra a vacinação obrigatória da população.

Para a missão de combate ao coronavírus, o ministro Marcos Pontes contou com quase meio bilhão de reais de gastos extraordinários autorizados de março a maio deste ano. Entre os investimentos possíveis para enfrentar a pandemia, o ministro elegeu como projeto prioritário os testes clínicos da nitazoxanida, o princípio ativo de um vermífugo, no tratamento precoce da doença. A eficácia do medicamento para reduzir a multiplicação do vírus do organismo e atenuar sintomas como febre e mal-estar em casos mais leves, no entanto, ainda aguardava comprovação. 

A pesquisa só teve os resultados reportados na sexta-feira, 23. A versão prévia do artigo científico relata que não houve diferença nos sintomas apresentados após cinco dias de terapia entre os pacientes que tomaram e os que não tomaram a nitazoxanida. O texto, que ainda depende da aprovação de outros cientistas para ser publicado, destaca a redução da carga viral entre os pacientes que tomaram o vermífugo. Testes aplicados após o final da terapia mostraram resultados negativos em 29,9% dos que tomaram a nitazoxanida, contra 18,2% de testes negativos entre os demais integrantes da amostra. 

Para o ministério, a publicação da pesquisa em revista científica é um detalhe burocrático. O anúncio antecipado, segundo o ministro, teve como objetivo “salvar vidas”. Coordenadora dos testes clínicos da nitaxozanida, a médica Patrícia Rocco, pesquisadora do Laboratório de Investigação Pulmonar da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), disse em entrevista no Planalto que o estudo já havia sido submetido a uma revista internacional que impedira a divulgação antecipada dos resultados. O ministério não quis divulgar o nome da publicação a que o estudo havia sido submetido. 



A piauí consultou o banco Clinical Trials, mantido pela Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, de registro de estudos clínicos conduzidos no mundo. A página aponta 3.706 testes em curso sobre a Covid-19, 23 deles com uso da nitazoxanida. O estudo, intitulado Effects of Early Use of Nitazoxanide in Patients With COVID-19 e patrocinado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia, foi registrado apenas em 17 de setembro, mais de três meses após seu início, em 8 de junho, com o código NCT04552483. Nenhum resultado foi reportado na página.

Um último registro nessa base foi feito em 22 de outubro, três dias após a cerimônia no Planalto. Foi anotado o critério adotado para dimensionar o tamanho da amostra, de 392 pacientes, dos quais 196 receberiam doses de nitazoxanida a cada oito horas durante cinco dias, e outros 196 receberiam placebo. Como principais resultados esperados da administração da nitazoxanida, o estudo listava a redução do período de febre, tosse e fraqueza (astenia) na fase precoce da doença. A diminuição da carga viral e de dias de internação aparecem como desfechos secundários pretendidos pela terapia.

Com base nas informações registradas, o doutor em microbiologia e imunologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Alison Chaves avalia que o estudo não vai mudar a conduta clínica para os casos leves da Covid-19. “Se o objetivo é reduzir o mal-estar, faz mais sentido usar um antitérmico, por exemplo”, disse o autor de um artigo crítico ao estudo, publicado no dia seguinte à cerimônia pela revista virtual Questão de Ciência.  No artigo, Chaves manifestou estranheza pelo registro tardio dos testes clínicos com a nitazoxanida. O registro é recomendado pela Organização Mundial da Saúde e exigido por publicações científicas de maior impacto. Chaves também chamou a atenção para o desencontro de informações sobre o estudo. No Planalto, Patrícia Rocco informou a participação de 1.575 voluntários, número quatro vezes maior do que o registrado no Clinical Trials.

A divulgação de uma versão prévia dos resultados da pesquisa na sexta-feira esclareceu em parte a diferença no número de participantes do estudo. O texto explica que parte deles foi excluída do estudo, por exemplo, por terem sido internados. A amostra considerou, finalmente, 392 participantes: 194 tomaram nitozoxanida e 198 tomaram placebo – número diferente do registrado na plataforma de testes clínicos. No que seria o principal objetivo da terapia, a redução dos sintomas, o texto relata que não houve diferença entre os dois grupos nos cinco dias de tratamento. Por telefone, após uma semana, 78% dos que tomaram a medicação reportaram ausência de sintomas, contra 57% no grupo que tomou placebo. Mas o resultado, segundo Alison Chaves, não é significativo do ponto de vista estatístico. “Foi uma propaganda falsa”, sustenta.

Questionado nos quatro dias seguintes ao anúncio no Planalto, o Ministério da Saúde não havia se movimentado até sexta-feira para alterar as orientações de uso de medicamentos contra a Covid-19 e incluir a nitazoxanida entre os procedimentos recomendados. A mais recente nota informativa foi publicada em agosto e incluiu o uso da cloroquina tanto em casos leves como em pacientes internados, depois de o governo gastar mais de 1 milhão de reais na fabricação de 3 milhões de comprimidos no Laboratório do Exército. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou a exigência de estudos regulatórios para incluir uma eventual indicação do vermífugo para casos de Covid-19 na bula do medicamento Annita e dos oito equivalentes disponíveis no mercado com o mesmo princípio ativo.

 

Sem resultados comprovados ou orientação formal para o uso da nitazoxanida, o maior efeito do anúncio antecipado por Marcos Pontes pode ser o estímulo à automedicação. A exigência de receita médica especial, com duas vias, adotada em abril para evitar uma corrida ao medicamento, foi abolida em setembro pela Anvisa. O Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma) não faz previsões sobre vendas futuras de medicamentos. À piauí, relatou um aumento de apenas 2,1% nas vendas dos medicamentos à base na nitazoxanida entre janeiro e setembro de 2020, em relação ao mesmo período do ano passado.

A queda da exigência de receita médica especial coincidiu com a contaminação de Marcos Pontes pelo vírus. Em 30 de julho, o ministro anunciou que recebera o diagnóstico de Covid-19 e participaria dos testes clínicos do vermífugo. Nove dias depois, também em sua conta no Twitter, anunciou que estava curado. E escreveu: “Para quem estiver curioso se tomei ou não NITAZOXANIDA, a resposta é SIM. Participei como voluntário do estudo clínico. Também estou ansioso pela conclusão e resultado.”

Pontes já havia atuado antes como garoto-propaganda de travesseiros que emulavam o nome da agência espacial norte-americana. Vestido de astronauta, Pontes foi escolhido por uma empresa de Santa Catarina para aparecer na embalagem do produto depois que o governo brasileiro pagou 10 milhões de dólares por uma carona para Pontes na nave russa Soyuz até a base da estação espacial internacional, em 2006.

Pontes entrou na propaganda do vermífugo, inicialmente sem revelar o nome, ainda em abril. No começo do mês, o ministro visitou o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas. Lá, ouviu os resultados de uma pesquisa de reposicionamento de fármacos, que testou as chances de medicamentos já disponíveis no mercado no combate ao novo vírus, a partir de uma amostra colhida entre os primeiros casos da doença registrados no Brasil. “De tudo o que a gente estudou, a nitazoxanida se destacou”, contou o diretor-geral do Centro, José Roque.

Nos estudos em laboratório, o medicamento apresentava efeitos semelhantes aos da cloroquina, sem seus efeitos colaterais. Os dados eram suficientes para recomendar os testes clínicos com o vermífugo. Em maio, o MCTI autorizou gastos de 45 milhões de reais no CNPEM. No início de junho, a pesquisadora Patrícia Rocco foi beneficiada com 5 milhões de reais para conduzir os testes clínicos da Nitazoxanida. Antes disso, a Fundação Coppetec, ligada à UFRJ, havia sido beneficiada com mais 6 milhões de reais para o estudo de novas estratégias terapêuticas em pacientes com pneumonia grave e que tinha por objetivo evitar a intubação e a ocupação de leitos em UTI. A responsável por esse estudo também é Rocco. Procurada novamente depois do anúncio no Planalto, Rocco informou que apenas o ministério falaria sobre o estudo. 

O destino no dinheiro reservado para o combate à pandemia está registrado em sistema do Tesouro Nacional. Um dos registros do MCTI no Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi) revela pagamento de 1,4 milhão de reais a uma pesquisa sobre o efeito da cloroquina na prevenção à Covid-19. A pesquisa teria início finalmente em agosto, quando a eficiência do medicamento já era contestada. A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) chegou a convocar profissionais da área de saúde em Belo Horizonte a participar como voluntários. “Vamos dar uma última chance para a cloroquina”, disse o médico e pesquisador da UFMG Unaí Tupinambás na ocasião. Em outubro, recrutamento foi suspenso por falta de interessados.

Os registros do MCTI não permitem acessar detalhes de todos os gastos feitos com o dinheiro do enfrentamento à pandemia. Questionado, o ministério não respondeu sobre os resultados de investimentos em vacinas e testes para diagnóstico da Covid-19. Marcos Pontes não respondeu às perguntas encaminhadas pela piauí. Em postagem no Instagram na quinta-feira, 22, o laboratório da UFRJ que comandou os testes com a nitazoxanida reiterou as supostas vantagens da nitazoxanida, mas ressaltou que o medicamento não substitui a vacina.

Marta Salomon

Jornalista especializada em políticas públicas e doutora em Desenvolvimento Sustentável (UnB), trabalhou na Folha de S. Paulo e no Estado de S. Paulo.

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