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Truman – O cinema vive

O oitavo filme do catalão Cesc Gay é prova cabal de que o cinema não morreu

Eduardo Escorel | 12 maio 2016_15h56
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Truman é prova cabal de que o cinema não morreu, desmentindo o que teria ocorrido, segundo alguns autores, em consequência de uma suposta “revolução digital”. O oitavo filme do catalão Cesc Gay, de batismo Francesc Gay i Puig, nascido em 1967, é uma demonstração de vitalidade, independente dos meios tecnológicos usados em sua feitura e exibição. É verdade, porém, não se poder negar que certas condições sine qua non – inteligência e sensibilidade, acima de tudo –, para alcançar semelhante patamar de excelência, vêm se tornando cada vez mais escassas em meio à enxurrada do que chega às telas.

No caso, a perícia de Gay começa no título, escolhido como despiste inofensivo. Não, não se trata de uma biografia do ex-presidente americano, Harry S. Truman (1945-53), célebre por ter aprovado o uso de bombas atômicas, na Segunda Guerra Mundial, no ataque aéreo a Hiroshima e Nagasaki, causando a morte estimada de 130 a 230 mil pessoas nas duas cidades para obter a rendição do Japão. Foi esse Truman, ex-presidente, quem afirmou que “a bomba atômica é mais um arsenal da Justiça.”

O Truman de Gay é outro, pacífico e bonachão. Seu nome, usado como título, não provoca danos ao espectador e encobre habilmente o verdadeiro tema do filme – a morte, ou mais precisamente a aceitação do inevitável. Velho, grande e cansado, ainda assim Truman parece ter mais tempo de vida do que seu dono, o ator Julian (Ricardo Darín) cuja principal preocupação, de início, é como dispor do seu melhor amigo.

A morte, dada sua recorrência, pode ser considerada um tema banal, sem deixar por isso de ser de abordagem difícil. Um dos méritos de Truman é o de se manter, do começo ao fim, em equilíbrio estável, a meia distância do drama e do humor. “Despedidas são tristes”, declarou Gay depois de Truman receber, em fevereiro, cinco Goyas, principal prêmio do cinema espanhol. E completou: “Era preciso acrescentar um certo humor. Modulamos tudo. Demos ao filme o tom adequado.”

Cesc Gay, diretor de <i>Truman</i>
Cesc Gay, diretor de Truman

Falar da morte é duro, Gay admite. Segundo ele, “é preciso ajudar o espectador a olhar. Um filme é um convite ao público. Eu vou ao cinema e faço um esforço para ir. Gasto dinheiro com quem cuida dos meus filhos e pago o ingresso, de maneira que quero ser levado em consideração. Vivo em Barcelona, ao lado do [cinema] Verdi. Mas tenho amigos que para irem ao cinema pegam o carro e andam vários quilômetros. Meus espectadores podem gostar mais ou menos dos meus filmes, mas seria doloroso se me dissessem: ‘Cara, perdi meu tempo no cinema.’ É como quando você vai a um restaurante. Podes ter gostado mais ou menos da comida, mas tens que sair satisfeito.”

Assistindo a Truman, ninguém perde seu tempo e tem tudo para ficar satisfeito. Gay estabelece um elo forte com o espectador, o que é atestado pelo resultado comercial do filme na Espanha. Entre outubro de 2015, quando estreou, e início de fevereiro deste ano, teve 491.213 espectadores, correspondendo a 1.04% da população total do país. No Brasil, esse mesmo percentual corresponderia a 2.080.000 espectadores, resultado incomum entre nós, tanto para produções nacionais, como para estrangeiras, só alcançado no momento, excetuando Capitão América: Guerra Civil, da Disney, e Batman vs Superhomem: A Origem, da Warner, por quatro das vinte maiores bilheterias, todas também produzidas por grandes estúdios americanos – uma da Marvel, outra da Warner e duas da Disney.

Em cartaz há 4 semanas no Brasil, exibido em 35 salas, Truman até o momento teve 98.171 espectadores, 0,05% dos brasileiros  – desproporção gritante em relação ao resultado na Espanha, reveladora do perfil adverso do mercado brasileiro para filmes fora do padrão dominante das milionárias produções americanas.

Outra peculiaridade de Gay, que o diferencia do cineasta padrão, é, nas suas próprias palavras, “viver no anonimato máximo, sem qualquer interesse em que as pessoas saibam suas opiniões [políticas]. Não tenho nem Twitter, nem Facebook”, ele declarou. “Sou assim em relação à autonomia da Catalunha e outras questões. Dar uma entrevista já é para mim uma concessão, me custa muito trabalho. Não me dou nada bem com a exposição pública, nem a minha, nem a dos outros. Me parece que vivemos em um mundo com excesso de opiniões. Para mim, as pessoas inteligentes são as que mudam de opinião de quatro em quatro dias, de modo que sacar o mastro e a bandeira quando sequer sabes o que vais pensar no mês seguinte me parece perigoso.”

Truman resulta da atração de Gay pelo momento em que está vivendo e pela realidade que o rodeia. É um filme realista, sem grandes inquietações formais. Procura “encontrar o extraordinário no cotidiano”. “Por que ir longe quando o conflito está ao lado”, pergunta Gay. “O cotidiano é infinito. Como espectador, preciso me reconhecer na tela. Olhar o cotidiano é o mais duro que há.”

Partindo do pressuposto de que há uma linguagem do cinema consolidada, através da qual é possível se exprimir com simplicidade e eficiência, Gay conta com a colaboração da dupla de atores excepcionais, Ricardo Darín e Javier Câmara,  este o memorável enfermeiro Benigno de Fale com ela (2002), de Pedro Almodóvar, entre inúmeros filmes. É do ponto de vista do personagem de Câmara, Thomas, que Truman é narrado. Afinal, “ele não vai morrer” explicou Gay, o que serve de apoio para o espectador.

Darín, Câmara e Gay
Darín, Câmara e Gay

Através de Thomas, o sub-tema da amizade é tratado através da relação dele e Julian, seu amigo de infância, assim como da relação de Julian com Truman. É Thomas quem permite ao espectador observar o comportamento inusual de Julian, quebrando tabus, para espanto e revolta dos seus amigos próximos ou não, além do seu próprio médico.

Outro subtema, igualmente tratado com finura, é o da reserva pessoal ou contenção das emoções própria dos catalães, segundo Gay, abordado através da relação de Julian com seu filho, estudante em Amsterdam. Durante a visita relâmpago, feita a pretexto do aniversário do filho, Julian não menciona que está desenganado, desconhecendo que o filho, na verdade, já sabia de tudo através da sua mãe. Pai e filho não falam da morte iminente e só deixam a emoção aflorar no abraço de despedida.

“O silêncio, o pudor, parecem valores cada vez mais em desuso”, declarou Gay. “Na ficção, é claro; na vida real, creio que menos. Aqui na Catalunha somos assim, retraídos e sérios. Não se exprimem os sentimentos ou é mais custoso expressá-los. Eu ao menos sinto assim. É uma generalização, mas acredito que corresponda a uma realidade.”

As entrevistas completas de Cesc Gay estão disponíveis nos links abaixo:

Cesc Gay: “Este mundo regido por las redes sociales me parece lo peor”

Cesc Gay: “‘Truman’ me ha enseñado a tener paciencia”

Cesc Gay: “En la vida somos mucho menos dramáticos que en el cine”

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