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ficção

Qu4tro figuras (e mais 2)

Agora só tem o Homem de Ferro em Blu-ray, a privada virou "poltrono", a moça penteia o bigode e Stálin está no armário

Nuno Manna | Edição 34, Julho 2009

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DENILSON

Um dia alguém disse a Denilson que café solúvel não tinha cafeína. Denilson ficou tão entusiasmado com a teoria que tomou quatro xícaras depois de jantar. Só conseguiu adormecer às oito da manhã. Não se importou; pelo menos derrubara a teoria. Acordou às nove da manhã do dia seguinte. Denilson não percebeu que saltara um dia. Desde então, vem experimentando um sentimento de estranhamento frente às coisas, como se houvesse um descompasso entre ele e o mundo. Apesar de nunca ter se considerado conservador, passou a sentir um mal-estar diante de idéias avançadas com as quais vem se deparando, tais como cirurgia de reconstituição do hímen, pizza em cone e a Patrícia Poeta. Não entende por que provoca risos quando diz “tá ligado” ou “fraga”, ou por que hesita quando escuta um simples “sou do corre”, “é casca” e “ontem fiz uma fita mil grau”. Descobre que, se ouve Rihanna, o resto já está no Rihanna Cinderella remix feat, Jay-Z & Chris Brown. Nota que, ao contrário dele, os amigos já não usam o topete cuidadosamente esculpido a gel, mas longas franjas caídas sobre os olhos; e quando finalmente cresce uma franja bacana, encontra os outros de moicano. Quando foi na loja comprar o DVD do Homem de Ferro para a sua coleção, disseram-lhe que só tinham em Blu-ray. Perplexo, Denilson tenta compreender o que aconteceu. Às vezes pára diante do vidro de café solúvel e se concentra por alguns minutos tentando desvendar o mistério.

 

JULITO

Julito tem o hábito banal de ler no banheiro. No início, não era tão exigente quanto à seleção da literatura. Já sentado, pegava o que estivesse ao alcance da mão. A lata de desodorizador de ar, o frasco de antitranspirante ou a garrafa de desinfetante encontrada atrás do vaso. Com a prática e o consequente refinamento da sua sensibilidade, passou a procurar fontes literárias mais interessantes, mesmo que a distância para alcançá-las exigisse um esforço contraperistáltico. Passou a investigar o que havia no armário do espelho, na pia e dentro do box. Encontrou preciosos originais, como gel microesfoliante facial, enxaguante bucal com lâminas branqueadoras e o curiosíssimo frasco de body splash com um pot-pourri de cítricos e frutas aromáticas. Familiarizando-se cada vez mais com o mundo que acabara de desvelar, viu-se diante de questões que até então não haviam lhe ocorrido. Qual a razão de ser do creme dental com ação tripla se a mesma marca acabara de lançar um dentifrício capaz de combater doze aflições bucais? Curiosa, a namorada de Julito percebeu que ele incorporara a seu vocabulário expressões como “exfo-smoothing“, “cor Coral Magia” e “polissorbato 20”. Ficou preocupada quando, certo dia, ouviu Julito se referir ao vaso sanitário como “poltrono”. Mas foi o próprio Julito que decidiu pôr freios no hábito ao notar que passara a escolher sabonetes em função da prolixidade das embalagens. Depois disso, decidiu tentar livros. Dois dias atrás, Julito entrou no banheiro segurando Fausto. Tomos um e dois.

 

LINDALVA

Lindalva limpou a umidade do espelho e esperou. A pele alva e os traços delicados confundiam-se com o vapor do banheiro. Alguns poucos indícios do seu rosto marcavam sua presença. Dedicou-se com desvelo ao exame da sua figura, que se revelava aos poucos, à medida que a umidade fugia pela porta aberta. Já completamente exposta, substituiu a feição inexpressiva por um sorriso sereno, o qual, ainda que sutil, compôs os contornos da sua profunda graça. Com um gesto delicado, liberou seus cabelos da toalha que os envolvia. Os fios ainda molhados deslizaram nuca abaixo e afagaram com suavidade seus ombros e suas costas. De cima da pia Lindalva pegou uma escova leve, de cerdas naturais, e a levou à cabeça. Desceu cuidadosamente a escova pelas mechas, deixando o cabelo sedoso por onde passava. Repetiu a operação e devolveu a escova a seu lugar. Em seguida, com a ponta dos dedos, apanhou um pequeno pente de osso, de dentes finos, cor creme. Lindalva aproximou o rosto do espelho e levou o pente até o bigode espesso e bem cultivado. Com o mesmo cuidado, penteou os curtos fios hirsutos. O agradável aroma do xampu de Aloe vera ainda chegava a seu nariz. Colocou, então, o pente de volta na pia e se olhou mais uma vez. O exame minucioso revelou discretas linhas de expressão. Sem hesitar, abriu a gaveta e encontrou um pequeno frasco lacrado de creme antirrugas. Retirou o frasco do armário e removeu o lacre. Com precisão, Lindalva pôs o frasco em cima da pia, ao lado da sua escova de cabelos e do seu pequeno pente de bigode.

 

 

IVÂNIA

O emprego que Ivânia conseguiu na cidade grande paga o suficiente para que ela possa manter uma vida sem luxos e enviar um dinheiro para os pais. Além de sentir muita falta da família e dos amigos que ficaram no interior, Ivânia tem dificuldade em fazer novas amizades. No trabalho, só no segundo mês foi se juntar aos colegas na hora do lanche. E assim mesmo porque, a pedido do RH, o grupo veio convidá-la. Até hoje a maioria ainda a chama de Ivone ou, simplesmente, não a chama. Ela fica quieta assistindo a conversas, ou rindo quando a situação exige. Certa vez abriu a boca para dizer alguma coisa, mas desistiu. Como não tem amigos na cidade, Ivânia passa quase todo o tempo livre em casa, assistindo tevê ou lendo a coleção de Seleções que sua avó lhe deixou. Numa determinada noite, ouviu um ruído estranho vindo do armário. Ao checar, descobriu alguém acomodado lá dentro. Stálin. Aquele. Por alguns segundos os dois trocaram olhares. Perturbada, Ivânia fechou as portas e decidiu se deitar. De manhã, ela abriu o armário e ele continuava lá, olhando-a. Ela fisgou uma peça de roupa e fechou a porta rapidamente. O encontro se repetiu toda vez que Ivânia voltou ao armário. A vida seguiu assim até o dia em que ela abriu o armário e se sentou na cama. Os dois dividiram um silêncio longo e profundo. Desde então, Ivânia passou a ler sentada na cama, de frente para o armário aberto. Resolveu até trazer a televisão para o quarto e posicioná-la de maneira que os dois pudessem assistir. Certa noite ela colocou um prato de estrogonofe dentro do armário. Achou que seria uma delicadeza.

 

BARTOLOMEU E ISMAEL

Sentado no banco do ônibus, Bartolomeu sentia-se esgotado. Trazia no colo uma sacola que lhe lembrava do dia conturbado que levara. Numa das paradas, entrou no ônibus um rapaz, Ismael, que passou pela catraca e se dirigiu para o banco livre ao lado de Bartolomeu. Ismael sentou-se, mergulhado nas próprias preocupações. Bartolomeu não prestou atenção no estranho. O ônibus continuou no seu ritmo enfadonho. Bartolomeu quase caía no sono quando o rapaz lhe dirigiu a palavra: “Se você pudesse escolher, você seria ninja ou samurai?” Bartolomeu franziu as sobrancelhas, pensou alguns segundos e respondeu: “Não sei.” Ismael recolheu-se ao silêncio. Bartolomeu, reflexivo, ficou pensando na pergunta. Passado algum tempo, Ismael voltou a falar com Bartolomeu: “E esse tempinho, hein?” Bartolomeu olhou placidamente pela janela e respondeu com precisão: “É.”

Nuno Manna

Jornalista e professor na Universidade Federal de Uberlândia, é autor de Jornalismo e o Espírito Intempestivo e A Tessitura do Fantástico.

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