questões de segurança

Às vésperas de protestos, polícia associa “antifas” à violência

Apresentação da Secretaria de Segurança de Minas usa símbolos e bandeiras do movimento antifascista para “reconhecimento de  possíveis manifestantes violentos”

Malu Gaspar e Luigi Mazza
05jun2020_21h19
Foto: Bárbara Dias/AGIF via AFP

As manifestações contra o governo convocadas para o final de semana colocaram as Polícias Militares de vários estados em alerta máximo, preparando-se para um dia de radicalização e conflito. Um desses estados é Minas Gerais, onde a Secretaria de Segurança Pública convocou uma operação especial de comando e controle que tem como foco o mapeamento de possíveis locais de conflito e o “reconhecimento de possíveis manifestantes violentos”. Segundo uma apresentação interna a que a reportagem da piauí teve acesso, a operação foi convocada em razão de “manifestações violentas que assolaram o país e o mundo nos últimos dias”, e que, segundo a mesma apresentação, já provocaram 787 atos no país desde o início da pandemia de Covid-19.  Mas a própria  base de dados citada no material, a Armed Conflict Location & Event Data Project, mostra que apenas 17% dos protestos tiveram registro de violência. Ainda assim, o material distribuído aos órgãos envolvidos no planejamento da ação de domingo em Minas dedica três slides a um “estudo técnico” em mídias sociais que ensina a reconhecer um manifestante violento. 

O material traz fotos que mostram manifestantes com visual camuflado, usando o símbolo antifascista disseminado nos atos do último fim de semana, agredindo pessoas e queimando uma bandeira na rua (a foto da bandeira não tem relação com os protestos e foi tirada em 2016, durante um ato do Movimento Passe Livre). A apresentação informa ainda que uma tatuagem específica está na “moda” entre os “anarquistas”: a sigla A.C.A.B, que em inglês quer dizer “all cops are bastards”, ou “todos os policiais são bastardos”. “Ao encontrar a tatuagem sendo usada por algum indivíduo, poderá identificar o mesmo como membro de facção criminosa”, diz o texto. Apesar da evidente preocupação com o surgimento de um fenômeno semelhante ao dos black blocs nas manifestações de 2013, não há no material nenhuma orientação ou protocolo sobre como lidar com as situações retratadas no “estudo técnico”.  Procurada pela reportagem, a Secretaria de Segurança Pública de Minas Gerais informou, por meio da assessoria de imprensa, que não comenta detalhes de seus planos operacionais. Apenas ressaltou que, “em toda previsão de maior aglomeração de pessoas, é rotineiro se antecipar sobre como se dará a distribuição do policiamento e o funcionamento das demais estruturas de segurança”. A Polícia Militar de Minas Gerais afirmou que, embora tenha participado do planejamento da operação, a autoria da apresentação não é da PM e sim da Secretaria de Segurança. “A PMMG esclarece que garante e respeita todo e qualquer ato que seja democrático e se programa para a manutenção da ordem pública em qualquer situação.”

Imagens de manifestantes violentos que constam em apresentação da Secretaria de Segurança mineira

 

Os protestos do último fim de semana no Rio de Janeiro e em São Paulo foram marcados por momentos de conflito entre a PM e os manifestantes, que na ocasião se dividiam entre favoráveis e contrários ao governo de Jair Bolsonaro. Nos dois casos, a PM sofreu críticas e foi acusada de ter sido truculenta apenas com os opositores do governo federal. Em  São Paulo, ganhou as redes sociais a imagem de uma manifestante bolsonarista que levava um taco de beisebol com a inscrição “rivotril” e ameaçava agredir um dos integrantes do grupo contrário sendo gentilmente afastada do local. Momentos depois, a PM dispersou um conflito entre manifestantes com bombas de gás lacrimogêneo. No Rio de Janeiro, repercutiu mal a imagem do policial apontando um fuzil para um dos manifestantes que afirmava não estar armado e nem jogando pedras nos policiais. Um outro vídeo mostrava o deputado federal do PSL Daniel Silveira, que é ex-PM, incitando um policial do cordão de isolamento a provocar manifestantes de uma das torcidas organizadas que participava do protesto. “Deixa eu pegar um, caralho!”, diz o deputado. O PM responde: “Não, meus amigos estão lá já, já mandei queimar aquela bandeira ali.” O deputado responde: “Aí sim!”  

Em conversas reservadas, membros das Polícias Militares de estados de Santa Catarina, do Distrito Federal e de Minas Gerais disseram à reportagem que o ânimo nas corporações contra os protestos do próximo domingo está exaltado. 



Esses interlocutores atribuem o espírito beligerante em alguns grupos de PMs ao temor de que se repita aqui algo semelhante ao que se viu nos últimos dias nos Estados Unidos, com conflitos entre manifestantes antirracismo e policiais de vários estados. Outro fator seria o apoio majoritário ao presidente Jair Bolsonaro entre os soldados de baixa patente nas PMs de todo o Brasil.  O coronel Giovanne Gomes da Silva, que até a semana passada era comandante-geral da corporação em Minas Gerais, foi nomeado para a Presidência da Fundação Nacional de Saúde do governo federal. As recentes declarações do presidente da República de que tais manifestantes são “marginais, terroristas, desocupados e maconheiros” também podem funcionar como um estímulo à ação violenta de policiais no domingo. Num evento em Goiás, nesta sexta-feira, o presidente sugeriu o uso da Força de Segurança Nacional para atuar no domingo, pediu que os bolsonaristas  – “o outro lado, que luta por democracia, que quer o governo funcionando”, segundo ele – não saiam às ruas para que as PMs “façam seu devido trabalho porventura estes marginais extrapolem os limites da lei”.

O temor de que as cenas do último domingo se repitam, porém, acendeu alertas em São Paulo e no Rio de Janeiro. Procurada, a assessoria da PM de São Paulo não se pronunciou até as 20h40. No Rio, segundo o porta-voz da PM, Mauro Fliess, os policiais não vão usar armamento mais pesado, só “instrumentos de menor potencial ofensivo”: pistola, bastão, bomba de gás lacrimogêneo e gás de pimenta. Fliess afirmou que haverá um comando de controle, monitorando imagens de drones e de helicóptero – mesmo esquema adotado em Minas. Os drones vão produzir fotos para identificar, posteriormente, “manifestantes que excederem seu direito de protestar de forma pacífica”. A corregedoria da PM deve enviar representantes à manifestação, devidamente identificados, para ficar de olho em eventuais abusos. 

No Distrito Federal também existe o temor de que os protestos descambem para o conflito. A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos, Cidadania, Ética e Decoro Parlamentar da Câmara Distrital recebeu denúncias de que grupos de policiais militares estavam incitando os colegas a partirem para a violência no domingo, e o Ministério Público do DF anunciou que vai fiscalizar a ação da polícia nos atos. Segundo o deputado que preside a Comissão, o psolista Fábio Felix, o comandante-geral da PM, Julian Pontes, garantiu que a orientação à tropa é manter o clima pacífico. Para o antropólogo Robson Rodrigues, que já foi chefe do Estado-Maior Geral da PM do Rio e hoje está no Laboratório de Análise da Violência da Uerj, análises de inteligência que desconsiderem a diversidade de perfis entre os manifestantes podem levar a erros como os cometidos durante os protestos de 2013.  “A gente lembra de 2013, quando as polícias agiram equivocadamente e não souberam separar bem as coisas, como se fosse todo mundo black bloc. Tal simplificação leva à radicalização e cria a  imagem perfeita para alimentar os discursos dos dois lados. O ideal  seria ter uma análise de inteligência completa e uma estratégia de prevenção que incluísse o contato com esses grupos, para desarmar os espíritos”, resume Rodrigues. “Sem isso, o policial fica à mercê da pouca informação e da informação enviesada, e acaba agindo de forma voluntarista e violenta.”

*

Nota: Esta reportagem foi atualizada às 16h15 de domingo (7/6) para incluir o esclarecimento da Polícia Militar mineira afirmando que a autoria dos slides não é sua, mas da Secretaria de Segurança. 

Malu Gaspar (siga @malugaspar no Twitter)

Repórter da piauí, é autora do livro Tudo ou Nada: Eike Batista e a Verdadeira História do Grupo X, da editora Record

Luigi Mazza (siga @LuigiMazzza no Twitter)

Repórter da piauí, produtor da rádio piauí e diretor do podcast Foro de Teresina

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