questões de saúde

Cara a cara com o SARS-CoV-2: 7 mil brasileiros são voluntários para testar vacina

Em busca de imunização contra a doença, cientistas discutem riscos médicos e éticos de infectar voluntários 

Amanda Rossi
15maio2020_14h51
Intervenção de Paula Cardoso sobre ilustrações de Abscent e emojoez_- Shutterstock

Quando João Paes Neto completou 18 anos, convidou os amigos para um rolê só para maiores de idade. Foram até a estação de trem de Jandira, cidade na Grande São Paulo onde moravam, e embarcaram em direção a Osasco. Pelo caminho de cerca de 15 km, havia lojas de bebidas, de carros, salões de diversão para garotos. Mas não era nisso que o grupo estava interessado. Ao desembarcarem, caminharam até o hemocentro e pediram para doar sangue. “Eu estava super a fim de virar doador. A enfermeira perguntou: ‘Não tá com medo?’ Não, não tenho medo”, lembra Neto sobre o episódio ocorrido em maio de 2006. Quatorze anos e muitas doações de sangue depois, em maio de 2020, prestes a completar 32 anos, Neto sentiu o ímpeto voluntarista aflorar outra vez. Em isolamento social, pegou o computador e incluiu seu nome em um site que cadastra quem está disposto a ser contaminado com o SARS-CoV-2, o vírus da Covid-19, para tentar acelerar o desenvolvimento de uma vacina. “É um risco que eu posso correr, já que a chance de eu ajudar é maior que de a de eu me prejudicar”, fala Neto, que é roteirista.

Enquanto doar sangue não oferece risco algum, ser exposto ao SARS-CoV-2 é uma experiência incontrolável. A taxa de mortalidade em adultos jovens é baixa – entre 3 e 8 a cada 10 mil, semelhante à da gripe na população em geral. Mas, caso algum voluntário fique gravemente doente, ainda não existe remédio. Além disso, ninguém sabe se a doença pode trazer sequelas de longo prazo. Ainda assim, mais de 7 mil brasileiros aceitaram correr o risco. Esse número faz do Brasil a principal origem dos voluntários, à frente até dos Estados Unidos, onde surgiu iniciativa de cadastramento, chamada “1DaySooner” (um dia antes, em português). Em cerca de quarenta dias, até 13 de maio, o site reuniu 16 mil nomes, de 102 países. “Estamos entusiasmados com a disposição dos brasileiros de dar um passo à frente e se voluntariar para ajudar seus colegas humanos”, diz o grupo responsável pela iniciativa. 

Não é certo que isso vá acontecer. A contaminação de pessoas saudáveis durante uma pesquisa de vacina – prática chamada de “teste de desafio” – envolve um debate ético e precisa receber aprovação especial das agências de regulação de pesquisas. “Valorizo demais quem está se voluntariando, é bonito de ver. Vai reduzir o tempo de duração de algumas fases de produção de vacina, de alguns anos para alguns meses. Mas mesmo assim há várias questões éticas que precisam ser discutidas. Você pode se voluntariar e isso te matar”, diz o brasileiro Daniel Mucida, especialista em imunologia e professor da Rockefeller University, nos Estados Unidos, onde lidera um laboratório de pesquisa. 

O debate está ganhando força à medida que o número de mortes pela Covid-19 não para de crescer – já são mais de 300 mil vítimas de uma doença que surgiu há apenas cinco meses. A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um documento com critérios para que o “teste de desafio” seja eticamente aceitável. “Se voluntários saudáveis, plenamente informados sobre os riscos, estão dispostos a ajudar a combater a pandemia ao participar de pesquisas promissoras, há fortes razões morais para, com muita gratidão, aceitar essa ajuda. Recusá-la significaria, implicitamente, sujeitar os demais a um risco ainda maior”, escreveram no final de abril Peter Singer, professor de bioética em Princeton, e Richard Chappell, professor de filosofia na Universidade de Miami. Neto diz estar ciente dos riscos. Pior, diz ele, é o que está acontecendo no mundo. “Quando eu vi as primeiras notícias sobre o coronavírus na China, eu pensei: ‘Será que chega aqui?’ Não pensei: ‘Será que a gente nunca mais vai sair de casa?’ Um momento que me marcou foi a cena do cemitério de São Paulo abrindo covas com escavadeiras. É praticamente do lado da casa da minha vó. Pode ser ela a ir para uma dessas covas.” 



As previsões mais otimistas são que uma vacina contra a Covid-19 esteja disponível em um prazo de um ano a um ano e meio. Para um leigo, pode parecer muito tempo, mas é um tempo nunca antes visto na história da ciência. “Uma vacina que sai do zero até ser produzida e distribuída nunca chegou nem perto desse tempo. Mesmo dois anos seria um prazo otimista. Depende de muita coisa dar certo. A da caxumba, uma das mais rápidas, levou quatro anos. Já a maioria das vacinas leva de dez a quinze anos”, diz Mucida. Ainda assim, os cientistas acreditam que a imunização contra a Covid-19 vai quebrar esse recorde. Já há 110 iniciativas em curso, segundo levantamento da OMS de 11 de maio. Dessas, pelo menos oito já iniciaram as fases de ensaios clínicos – a aplicação em seres humanos. A primeira fase visa verificar se a vacina é segura, ou seja, se não gera a própria doença ou outros efeitos colaterais. É preciso observar quem recebeu a vacina por algum tempo, já que algumas consequências podem demorar para aparecer. Já nas fases dois e três, metade dos participantes recebe a vacina em desenvolvimento, enquanto a outra metade recebe um placebo. Ninguém sabe quem recebeu o quê.

No processo tradicional, os participantes são vacinados e seguem vida normal. Os pesquisadores, então, ficam esperando, até que um número suficiente de participantes tenha pegado o vírus naturalmente. Aí, os resultados são comparados: quem tomou a vacina ficou menos doente do que quem recebeu placebo? Em caso afirmativo, outra pergunta importante a responder é quanto tempo dura a imunidade obtida com a vacina. Já com o “teste de desafio”, as pessoas seriam infectadas propositalmente com o coronavírus, eliminando o tempo de espera. “O vírus da Covid-19 é bastante agressivo para fazer o challenge trial (nome em inglês do teste de desafio). A não ser que a gente consiga, com o tempo, identificar e isolar uma variação do vírus que não gere uma doença tão grave [para infectar os participantes]. Como o coronavírus está agora, eu não faria”, diz Jorge Kalil, que lidera a primeira iniciativa brasileira para produção de vacina contra a Covid-19, no Laboratório de Imunologia do Incor (Instituto do Coração) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. 

Para limitar os riscos, a OMS indica que os estudos devem selecionar participantes jovens, sem comorbidades, monitorar seus quadros de saúde e garantir atendimento médico caso fiquem doentes. “Não fico preocupado em pegar Covid-19 em um ambiente controlado. Fico preocupado em pegar na rua”, fala Neto. Jandira, onde vive, não tem leitos de UTI para os seus 125 mil habitantes.

João Paes Neto de máscara no supermercado – Foto: acervo pessoal

 

Os testes de desafios e, consequentemente, os riscos que podem ser impostos a voluntários como o brasileiro João Paes Neto seriam desnecessários se já houvesse uma vacina contra coronavírus antes de a pandemia eclodir. Outros seis coronavírus humanos eram conhecidos, nenhum deles com vacina ou tratamento. Houve diversos alertas de que uma nova cepa de coronavírus poderia emergir e gerar uma pandemia. “Essa pandemia poderia ter sido prevenida. Desde a Sars, que acabou em 2003, sabíamos que morcegos chineses carregam coronavírus, alguns deles com potencial de gerar uma pandemia. O que deveríamos ter feito era isolar alguns desses vírus e criar medicamentos antivirais e talvez até vacinas que poderiam inibir um grande número de coronavírus”, afirmou Vincent Racaniello, professor do Departamento de Microbiologia e Imunologia da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, na última edição do podcast que é hit entre virologistas, This Week In Virology.  

Mesmo se uma vacina anterior não se mostrasse eficiente contra o novo coronavírus, pelo menos ofereceria o caminho das pedras para a pesquisa atual. “Se já houvesse vacina contra coronavírus, poderíamos economizar tempo. Uma das dificuldades atuais é que nós não sabemos que tipo de vacina pode funcionar contra a Covid-19 e precisamos testar todas as possibilidades”, afirma Benjamin Cowling, chefe da divisão de epidemiologia e bioestatística da Universidade de Hong Kong. Todas as plataformas de vacinas conhecidas estão sendo pesquisadas: vírus atenuados, vírus inativados, vetores virais (outros vírus inofensivos, combinados com parte do material genético do vírus que se pretende combater), vacinas de ácidos nucleicos (trechos de DNA ou RNA que produzem parte do vírus, como a coroa de espinhos do coronavírus) e vacinas baseadas em proteínas (sem o vírus, apenas com uma proteína usada por ele). 

O principal motivo para ainda não existir uma solução médica contra os coronavírus, diz Cowling, é a falta de interesse comercial. “A maior parte do desenvolvimento de vacinas é financiado por empresas farmacêuticas, que estão de olho em um mercado potencial. Não existe mercado para vacina contra a Sars, porque a doença acabou, e contra a Mers, que afeta poucas pessoas hoje”. A Sars e a Mers, citadas por Cowling, foram as primeiras coronaviroses graves conhecidas. A primeira matou cerca de oitocentas pessoas (10% dos infectados), mas foi controlada e desapareceu. Já a Mers foi descoberta em 2012, também fez cerca de oitocentas vítimas (34% dos infectados) e ainda tem alguns casos isolados no Oriente Médio. Na época, as doenças foram bastante estudadas, mas depois os recursos foram embora. “Quando há um pico da doença, há mais recursos para pesquisas. Quando diminui o pico, diminui o recurso, [os financiadores] acham que problema está resolvido”, aponta Jorge Kalil, que também coordenou o desenvolvimento da vacina da dengue quando foi diretor do Butantan, de 2011 a 2017.

Diminuir o pico não significa diminuir o risco. Nos últimos anos, diversos estudos sinalizaram a importância de se preparar para uma nova epidemia de coronavírus. Um dos últimos foi publicado em março de 2019, por cientistas do Instituto de Virologia de Wuhan, o mais importante da China. “Acredita-se que coronavírus originados em morcegos vão reemergir e causar a próxima epidemia. A este respeito, a China é uma ‘zona quente’”, escreveram. “O desafio é prever quando e onde isso vai acontecer”. Bastaram nove meses para, ali mesmo em Wuhan, hospitais começarem a receber pacientes com uma pneumonia até então misteriosa. “O estudo chinês parece profético”, diz Nancy Bellei, virologista da Unifesp e uma das poucas brasileiras que já tinham experiência em coronavírus antes da Covid-19. “A emergência de uma pandemia de coronavírus não era uma possibilidade tão remota. Mas não era muito divulgada”, diz Bellei. 

Por isso, “os cientistas chineses apontaram que os coronavírus mereciam ser mais estudados”, fala a virologista. Em primeiro lugar, para monitorar os coronavírus que tinham mais possibilidade de se adaptar em seres humanos. É algo já feito, por exemplo, em relação ao vírus da influenza, quando vigiamos as gripes aviárias. Em segundo lugar, para desenvolver soluções médicas. Enquanto a influenza conta com vacinas anuais e um antiviral eficiente, o Tamiflu, contra os coronavírus não havia nada. Além da Sars e da Mers, eram conhecidos quatro tipos de coronavírus humanos, todos causadores de resfriados comuns. Genericamente chamados de HCoVs, são transmitidos tão facilmente que se espalharam pelo mundo todo, inclusive pelo Brasil. A maior parte dos casos é leve, mas os pacientes podem precisar de internação ou mesmo morrer, se tiverem outras comorbidades. Parte das mortes por Síndromes Respiratórias Agudas Graves sem causa determinada no Brasil é por HCoVs, mas não é possível determinar quantas porque o Brasil não testa esse tipo de vírus, diz Bellei, que estudou esse tipo de vírus. “Nós deveríamos ter ficado de olho nos dois, influenza e coronavírus.” 

Já em 2013, cientistas da Universidade da Carolina do Norte, Estados Unidos, alertaram para a urgência de soluções médicas contra os coronavírus. “Não há nenhuma vacina ou antiviral contra nenhuma dessas infecções [por coronavírus]. O desenvolvimento de uma terapêutica e estratégias de prevenção que possam ser rapidamente aplicadas a novas cepas é uma prioridade de pesquisa”. Sem isso, “o manejo clínico das infecções severas [por coronaviroses] é limitado ao cuidado paliativo”, lamentaram os pesquisadores. Sete anos depois, o cenário continua o mesmo. Por ora, resta às equipes de saúde tratar os sintomas da Covid-19 e esperar que o corpo do paciente consiga derrotar o vírus sozinho.

A corrida atual da ciência contra a Covid-19 evidencia como soluções anteriores poderiam ter antecipado o combate à pandemia. Uma das vacinas mais promissoras, é a da Universidade de Oxford, na Inglaterra, uma das poucas que já iniciaram ensaios clínicos. Foi desenvolvida a partir de um protótipo de vacina contra a Mers. A ideia é combinar um vírus de chimpanzé atenuado, inofensivo a seres humanos, com parte da sequência genética do coronavírus, especificamente a que produz a capa de coroa de espinhos. Uma vez dentro do corpo humano, o vírus de chimpanzé se reveste com essa capa. Em outras palavras, é como se vestisse uma fantasia de coronavírus. Outro exemplo é o antiviral remdesivir, recém-aprovado nos Estados Unidos para uso em casos graves de Covid-19. O medicamento, que já havia se provado eficiente em estudos de laboratório contra Sars e Mers, foi capaz de reduzir o tempo de internação de pacientes com Covid-19 de quinze para onze dias, em média. Está longe de ser a cura da doença, mas ajuda a liberar leitos dos hospitais. “Estamos orgulhosos que nossos estudos anteriores com o remdesivir na Sars e na Mers abriram o terreno para esse tratamento potencial contra a SARS-Cov-2”, celebrou a Universidade da Carolina do Norte, uma das responsáveis pela pesquisa original. 

Tanto a vacina de Oxford como a pesquisa da Universidade da Carolina do Norte não tinham objetivos comerciais. “A lição que fica é que precisamos de investimento em ciência básica. Eu não tenho que prever qual será o novo bicho. Eu tenho que ter um sistema eficiente para que, quando aparecer o bicho, eu consiga produzir de forma acelerada um tratamento contra ele”, explica Fred Fernandes, pneumologista do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. Mas esse modelo não tem como prosperar sem investimento público em ciência e tecnologia, já que “a filosofia comercial que temos atualmente não consegue justificar um grande gasto financeiro com algo que não aconteceu ainda”, diz Fernandes. 

A falta de ações anteriores deixa o voluntário João Paes Neto “desapontado com as lideranças”. “Entendo que não são todos os países que poderiam se dispor a enfrentar um inimigo que ainda não conhecíamos, mas a ONU, a União Europeia, EUA e potências asiáticas poderiam ter prestado mais atenção aos alertas dos especialistas. Não que a pandemia não acontecesse, mas algumas mortes talvez fossem evitadas e o tempo para a vacina poderia ser significativamente menor”, reflete Neto, enquanto espera sua hora de entrar em campo e ficar cara a cara com o coronavírus.

Amanda Rossi (siga @amanda_rossi no Twitter)

Jornalista, trabalhou na BBC, TV Globo e Estadão, e é autora do livro Moçambique, o Brasil é aqui

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