anais da criminalidade

Conversão na fé ou na marra

Diante da ameaça de facção criminosa no Acre, integrantes de grupo rival têm de optar entre aderir a invasores ou entrar para igrejas evangélicas – e gravar vídeos como prova

Fabio Pontes
04dez2019_12h02

A fila de bicicletas na frente da igreja Assembleia de Deus, às quatro horas da tarde de segunda-feira, 25 de novembro, chamava a atenção dos moradores da cidade de Tarauacá, município distante a cerca de 450 km da capital do Acre, Rio Branco. Nem mesmo em dias de culto a entrada do templo ficava tão agitada assim. As bicicletas se espalhavam pelos dois lados da Avenida João de Paiva, Centro da cidade. Dentro da igreja, de joelhos, dezenas de jovens aceitavam Jesus Cristo “como o único Senhor e salvador de suas vidas”. Era uma espécie de mutirão da conversão. Cada conversão era registrada em vídeo e divulgada nas redes sociais do convertido. A decisão de buscar uma nova vida nos caminhos de Jesus, porém, não era espontânea – mas uma imposição de uma facção criminosa para que continuassem vivos. 

Tarauacá tem 42 mil habitantes. É conhecida no Acre por produzir os maiores abacaxis (fruto) do estado, e por isso é chamada de cidade do abacaxi gigante. Naquela segunda-feira, o abacaxi gigante ali era outro. Tarauacá foi a melhor (ou talvez a pior) representação da crise de violência que o Acre enfrenta nos últimos anos, por conta da guerra entre facções criminosas formadas no Sudeste do país, principalmente o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital. O objetivo delas é controlar a rota da droga produzida na Bolívia e no Peru. Vizinho desses dois países, o Acre tem posição geográfica estratégica para os grupos criminosos que têm no tráfico sua principal fonte de financiamento. E o município de Tarauacá está justamente na rota de passagem da droga. Por isso, controlar Tarauacá é essencial para o sucesso do negócio.

No Acre o grande inimigo do Comando Vermelho é a facção local Bonde dos 13 (B13), que é aliada da facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) e  dominava Tarauacá. Na segunda-feira, 25, o Comando Vermelho (CV) enviou o recado para os “soldados” da facção rival para que se rendessem, pois eles estavam a caminho da cidade para dominar a área. Como é comum entre essas facções, o ultimato só previa duas formas de sair vivo: render-se e passar a ser um “soldado” da facção invasora ou se arrepender de todos os pecados, aceitar Jesus e frequentar uma igreja evangélica. 

Entre os criminosos, as igrejas protestantes são a única instituição respeitada. Ser membro de uma delas é o salvo-conduto para deixar de ser um soldado de facção e não morrer. Quem deserta ou vai para o grupo rival tem um fim trágico: é torturado até a morte, tendo a cabeça cortada. Diante do aviso do Comando Vermelho, dezenas de jovens de Tarauacá que mantinham alguma relação, seja de atuação criminosa, colaboração ou apenas de simpatia com a facção B13 correram para o templo evangélico em busca da salvação – em seu sentido mais literal. Os que não estavam dispostos a ser crentes se converteram ao Comando Vermelho. 



Nestes dois casos, é preciso provar a lealdade. Quem escolheu o caminho da santidade tem que gravar o depoimento ao lado de um pastor. O pastor José Geraldo Borges foi um dos que mais gravaram vídeos ao lado de jovens recém-convertidos. Ele é pastor da Assembleia de Deus, aquela que ficou com a entrada tomada de bicicletas. De acordo com ele, apenas em seu templo 250 pessoas aceitaram Jesus entre aquela tarde e noite de segunda e a manhã de terça (26). O religioso afirmou que a conversão em massa foi uma “intervenção de Deus”. “Foi por esse momento que estivemos orando para que Deus tomasse providência e fizesse alguma coisa, chamasse a atenção da comunidade de Tarauacá para se converter ao Evangelho. Foi um momento muito impactante e muito vibrante para a Assembleia de Deus aqui em Tarauacá”, disse Borges à piauí

Assembleia de Deus em Tarauacá

 

Nos vídeos que circularam nas redes sociais, Borges se apresenta e diz que o jovem está ali para começar uma nova vida e que não mais fará parte de organizações do crime. Então o jovem diz seu nome, a senha (a matrícula que eles recebem ao entrar na facção) e o vulgo, o nome pelo qual é conhecido no crime. A senha serve para abrir portas ao soldado: poder entrar no bairro sem risco de ser confundido com o inimigo e ir aos pontos de venda de droga fazer a contabilidade. Informar um número errado implica morte. 

Ao lado de um dos recém-convertidos, o pastor Borges afirma que estava gravando o vídeo por uma situação de emergência. O recém-convertido conta, então, que quer viver uma vida na igreja e, em seguida, cita seu vulgo e senha. “Eu faço parte de uma facção, fazia, agora eu quero andar com Cristo e seguir em frente com Deus”, declara. 

Até mesmo aqueles que formalmente não fazem parte do B13 – pois não possuem a senha – se veem obrigados a aceitar Jesus, com medo de sofrer alguma represália. “Eu fazia parte não como uma integrante, mas eu era uma companheira leal e disciplina da quebrada da feminina, não tenho senha, só sou companheira, mas eu tinha um responsável e hoje não tenho mais. E eu quero dizer aqui aos meus irmãos que me perdoem, mas a partir de hoje eu tô me desligando e eu vou seguir minha vida com Jesus”, diz uma mulher em vídeo gravado ao lado de outro pastor. 

Em outra gravação, uma jovem grávida, aparentando menos de 20 anos, identifica-se apenas pelo primeiro nome e pede para ter sua decisão de virar evangélica respeitada. “Meus irmãos eu quero que vocês respeitem a minha decisão, que eu vou entregar a minha vida ao Senhor Jesus, estou carregando uma criança e eu quero que ela nasça nas mãos de Deus porque a vida que estamos vivendo, lhe garanto, não é boa para nenhuma pessoa.” 

Durante a tarde, a igreja liderada pelo pastor Borges não tem cultos. Durante este horário ele geralmente realiza trabalhos missionários de visitas aos fiéis. Mas, a partir das 15 horas, seu telefone passou a receber chamadas de pessoas que diziam precisar falar com ele pessoalmente. A partir daí abriu a porta do templo. Antes de reconhecer Jesus Cristo como o Senhor de suas vidas e prometer seguir seus ensinamentos, os jovens ouviram uma breve palestra e a palavra de Deus, ministrada pelo pastor. “Não chegou bem a ser um culto porque não houve o canto de hinos. Só ministramos a Palavra mesmo porque não dava tempo. Eles estavam muito apreensivos e queiram logo confessar a Cristo. Muitos deles entraram chorando, pareciam que iam morrer. Muito desespero de arrependimento, desejando uma mudança”, contou o pastor. 

Encerrada esta etapa, era necessário gravar o vídeo. “A gente fez o trabalho necessário, irmão. Aquilo que eles pediram: para aceitar Jesus Cristo e dizer que não pertenciam mais a organização nenhuma. A gente fez o trabalho”, resumiu Borges. Perguntado sobre qual avaliação fazia de todo aquele momento vivido por Tarauacá, o pastor Borges definiu como “muito produtivo para a sociedade”. “São jovens que estão deixando o mal e vindo para Cristo. Então acredito que para a comunidade foi um ganho muito grande. Não aconteceu aquilo que a comunidade esperava, que era uma briga, uma confusão. Mas a intervenção de Deus, pois quem tocou no coração deste povo para vir para a igreja foi Deus [e evitou o pior]”, analisa. 

Segundo o pastor Borges, a comunidade tarauacaense ficou “maravilhada” com a conversão em massa dos jovens. Os vídeos que circulam pelas redes sociais revelam bem o perfil destes novos evangélicos: jovens e moradores de periferia. 

Já quem saiu de um lado para o outro precisa dizer que está deixando a facção rival (e de preferência falar um pouco mal dela), declarando estar à disposição do grupo invasor. Os que optaram por aderir ao Comando Vermelho também gravaram vídeos assumindo a virada. Com o rosto coberto ou ou mesmo de cara limpa, falavam da adesão. “Nós estamos aqui gravando nosso vídeo, que a gente analisou bem a situação que o certo sempre prevalece e a gente tá fechando no certo, tá entendendo, meus irmão? Aqui agora é tudo dois, tá dominado. Tá ligado, mano? Vamo que vamos e é nós até o final”, diz um jovem, de cara limpa, em um vídeo com outras nove pessoas. 

O dois é uma referência ao número de dedos usados para formar o V do vermelho da facção carioca. Em outros vídeos, os novos convertidos do CV preferem esconder o rosto com as camisas e mostram suas armas. Um dos que mais chamam a atenção é o feito apenas por garotas. “Estamos saindo do B13 e indo para o CV, nós não precisamos mais do B13. Então aqui agora é tudo dois, tá ligado? Não passa nada”, diz a “apresentadora” do vídeo. Jovens são a base desse mundo violento das facções, que tem também a participação de mulheres.

Quando o aviso do Comando Vermelho chegou, divulgado pelo WhatsApp, muitos jovens estavam na sala de aula, em escolas públicas de Tarauacá. Um professor de uma escola estadual de ensino médio, sob a condição de não ser identificado, contou o que viveu naquela tarde: “A partir das três horas foi um pânico na escola. As alunas procuraram a coordenação dizendo que precisavam sair, que precisavam gravar um vídeo, estavam chorando. Já perto das quatro horas a direção da escola achou melhor encerrar a aula tanto à tarde quanto à noite. Outras escolas fizeram o mesmo.” 

O clima da cidade foi de pânico, com a notícia de uma possível invasão por parte dos soldados do CV. Na semana anterior, a facção já realizara outra proeza: a conquista do território de Cruzeiro do Sul, a segunda maior cidade do Acre. O município é a terra-natal do governador do estado, Gladson Cameli (PP). Após alcançar a vitória, o alvo era Tarauacá, vizinha a Cruzeiro do Sul. As duas cidades estão separadas por 230 km da BR-364, que corta o Acre de um extremo ao outro. Ter o controle da rodovia é crucial para a passagem da droga produzida no Peru. A BR-364 é a única ligação terrestre entre o Acre e o restante do país. 

Encontrar fiscalização policial ao longo dos mais de 600 km entre Rio Branco e Cruzeiro do Sul é uma raridade. Quando não é levada por estrada, a droga vai por embarcações pelos rios da Amazônia. Os rios que passam pela região entram no Amazonas e vão se encontrar com o Solimões e este, por sua vez, segue destino até Manaus. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2017, o Acre teve a segunda maior taxa de homicídios do país: 63,9 assassinatos por 100 mil habitantes. O estado só ficou atrás do Rio Grande do Norte (67,2 mortes por 100 mil pessoas). Em todo o país essa taxa foi de 30,9. 

Em 2017, Rio Branco foi a capital mais violenta do Brasil: 83,7 assassinatos por 100 mil moradores. Em seguida ficaram Fortaleza (77,2) e Belém (68,1). Foi há exatos dois anos que a capital acriana viu explodir o número de mortes violentas provocadas, sobretudo, pelas disputas de territórios entre as facções. Outra estratégia dos criminosos foi o ataque a bens públicos, como colocar fogo nos ônibus.

Em 2018 o estado teve redução de 25,1% em sua taxa de homicídio, que baixou para 47,9 assassinatos por 100 mil habitantes. Entre 2018 e meados deste ano os acrianos viveram uma certa situação de tranquilidade, numa espécie de pacto de não-agressão entre as facções, desde que os limites territoriais de cada um fossem respeitados. Pelos muros dos bairros das cidades é fácil encontrar as pichações com as iniciais do CV e do B13 mostrando quem manda na área.

Esse possível cessar-fogo entre os dois grupos parece ter sido interrompido pelo avançar do CV sobre a região do Acre que faz fronteira com o Peru, eliminando a influência do B13 e do PCC. De acordo com o promotor Bernardo Albano, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), os vales do Juruá e Tarauacá/Envira eram tradicionalmente dominados pelo B13. Para o CV, era estratégico tomar o território para ter exclusividade na comercialização da droga peruana, já que a da Bolívia tinha como cliente preferencial o B13/PCC. 

“Tanto Tarauacá quanto Feijó sempre foram redutos tradicionais muito fortes das facções locais e do PCC, do que com o Comando Vermelho. Eu diria que para aquela região [a tomada de Tarauacá e Cruzeiro do Sul] representa um avanço do Comando Vermelho”, diz o promotor. 

Não houve mortes na tomada de Tarauacá pelo Comando Vermelho. A Secretaria de Segurança Pública abriu inquérito para apurar o caso. A investigação da Polícia Civil tem o objetivo de identificar as pessoas que aparecem nos vídeos de “cara limpa” e denunciá-las por participação em organização criminosa. A assessoria não esclareceu, porém, se serão investigados apenas os que aderiram ao CV ou também os recém-convertidos, já que eles confessam ter integrado a facção rival. Se presas e condenadas, o destino dessas pessoas será o presídio Moacir Prado. 

As unidades prisionais acrianas já estão sob controle das facções criminosas, separadas por diferentes pavilhões para evitar uma carnificina nos moldes das ocorridas em Manaus este ano e no início de 2018. Depois da tomada de Tarauacá, a direção do Instituto de Administração Penitenciária (Iapen) decidiu suspender por seis dias as visitas íntimas e familiares no fim de semana que passou. “A suspensão tem caráter preventivo em decorrência da instabilidade ocasionada pelos conflitos de organizações criminosas”, informou o diretor-presidente do Iapen, Lucas Gomes. 

O secretário de Segurança Pública, Paulo Cézar Rocha, afirmou que as pessoas que aparecem nos vídeos “são bandidos e têm que ser tratados como tal”. “Essas pessoas que estão usando as redes sociais para dizer que migraram de uma organização criminosa nós temos que lembrar que são bandidos, que fizeram uma escolha pelo crime. Todos serão investigados por participar de organização criminosa”, declarou ele. 

Segundo o secretário, as ações feitas pelas facções são uma reação às operações feitas pelo governo de combate ao narcotráfico. Entre elas está a criação do Grupamento Especializado em Fronteiras, cuja atribuição será garantir uma maior presença policial nas áreas que servem como rota para o tráfico. 

 

Fabio Pontes (siga @fabiospontes no Twitter)

Jornalista acriano, cobre questões amazônicas. Colabora com vários veículos brasileiros.

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