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    Samantha Almeida: "Meus pais construíram a minha autoestima e a minha capacidade de sonhar. Quando você é uma garota negra, pobre e periférica, essa talvez seja sua maior ferramenta de sobrevivência." MAURÍCIO FIDALGO/GLOBO

depoimento

Da Rocinha à Rede Globo

Como uma garota negra criada na favela virou diretora de Diversidade e Inovação da maior empresa de comunicação do país

Samantha Almeida | 21 dez 2022_11h06
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Aos 7 anos de idade, Samantha Almeida foi acordada de madrugada pela mãe e teve que pular a janela do barraco onde elas viviam na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, que corria o risco de desmoronar. “Chovia forte e a enxurrada invadiu a nossa casa. Só deu tempo de pegarmos os documentos, minha mochila, meu tênis e meu uniforme escolar”, conta. Hoje, aos 42 anos, Samantha dirige a recém-criada área de Diversidade e Inovação em Conteúdo para os Estúdios Globo. No relato a seguir, ela conta sobre a infância pobre como bolsista em escolas particulares, a ascensão profissional por meio do olhar atento à diversidade e a tarefa de descobrir novos talentos que sejam capazes de ampliar a conexão dos brasileiros com as novelas, as minisséries e os realities da maior empresa de comunicação do país.

Em depoimento a Lia Hama 

Nasci na Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Ali passei os primeiros doze anos da minha vida, que, hoje entendo, deram o repertório para eu me tornar quem eu sou. Era um ambiente de ambiguidades, onde a ausência e a abundância se entrelaçavam. Se dizem que eu venci na vida, minha vitória nasceu ali: no reforço escolar do Brizolão, nas fugas para o baile do Emoções, nos domingos ao som de Genival Lacerda que tocava alto pelos becos, no medo das águas das chuvas. 

Minha mãe, Tânia Maria, tinha 19 anos, e meu pai, Rogério, 21, quando ela engravidou. Logo após meu nascimento, eles se separaram, e eu fui criada pela minha mãe, hoje falecida. Ela, uma mulher branca, criada por uma família de pastores evangélicos, chegou pequena no Rio. Minha avó materna havia partido com os três filhos de Minas Gerais, fugindo de um relacionamento abusivo. Quando chegou, foi resgatada por missionários e levada para um lugar no alto da Gávea, famoso por suas frutas e legumes. 

A Rocinha nasceu como abrigo de migrantes, entre eles, minha avó. Por anos, ela trabalhou como empregada doméstica em apartamentos da Zona Sul.

Meu pai é negro, de uma das famílias sobreviventes do incêndio da favela da Praia do Pinto, em 1969. Desabrigados, foram levados para uma igreja e depois realojados na Cruzada São Sebastião, um conjunto habitacional no coração do Leblon. Ele fez um curso de elétrica e, ainda adolescente, foi trabalhar na famosa Rede Globo, como parte de um núcleo que absorvia jovens recém-formados em escolas técnicas. 

 

Quando completei 8 anos, ganhei de presente de aniversário um banheiro, com privada e chuveiro, dentro de casa. Até então usávamos um banheiro comunitário fora de casa. Desde cedo, minha mãe entendeu que minha chance de prosperar estava na educação – à qual ela não tivera acesso. A partir de muitos artifícios, ela construiu uma ponte para um outro mundo. E, confesso, não sei se eu estou vivendo a minha vida ou o plano mirabolante criado por ela. Não sei, mas desconfio que seja a segunda opção.

Minha mãe começou a trabalhar muito cedo e só conseguiu terminar o segundo grau com 50 anos. Para complementar a renda, dona Tânia fez de tudo: foi faxineira, cabeleireira, garçonete e babá. Meu nome, Samantha, veio de uma dessas meninas que mamãe ajudou a criar. Era uma garota bonita, inteligente e branca, que se parecia com a Samantha, da série norte-americana de tevê A Feiticeira. Apesar de os traços dela não terem nada a ver com os meus, minha mãe imaginava que aquele nome me daria sorte, pois aquela criança tinha uma vida boa, morava numa casa confortável e podia ter uma babá. A Samantha da série ainda era feiticeira por tabela, alguém capaz de coisas incríveis. 

Nos anos 1980, mamãe trabalhava num salão de cabeleireiro em Copacabana cheio de artistas, e esse contato deu a ela o vislumbre de outros mundos e possibilidades. Ela me dizia: “Sabia que essas pessoas viajam para outros países e voltam com histórias maravilhosas? Elas falam outras línguas, moram em casas com cinco banheiros.” Aquele mundo de viagens, de sonhos e de muitos banheiros ficou no meu imaginário. Minha mãe dizia: “Estude muito, que você vai ter o que quiser.” Tudo era um aguardo para o grande sucesso que seria a minha vida. 

Minha formação escolar básica foi muito boa porque estudei em escolas particulares com bolsas oferecidas pelo trabalho do meu pai. Se não cobrisse 100% do valor, minha mãe dava um jeito de pagar o restante, fazendo bicos para cobrir a diferença. Ela bolava planos para conseguir as coisas. Dizia que eu precisava estudar inglês porque, para viajar para fora, era preciso falar inglês. Então ia nas escolas e negociava. Contava que não tínhamos dinheiro para a mensalidade, mas poderíamos fazer um serviço em troca da bolsa. Dizia que eu era muito inteligente e merecia uma chance: “Faz um teste com a Samantha, você vai ver como ela é esperta.” Aprendi o que pude graças às gambiarras da dona Tânia. 

Ela trabalhava o dia todo e enchia a minha agenda de compromissos. Eu ia da escola para a aula de inglês, da aula de inglês para a natação, da natação para casa. Aprendi a andar de ônibus sozinha, aos 6 anos de idade. “Sente sempre do lado de uma mulher; se houver uma cobradora, fique do lado dela. Se você se perder, peça ajuda a uma senhora. Mostre esse papel com esse endereço e diga que precisa chegar ali”, me ensinou. 

 

Em 1988, uma forte chuva alagou o córrego em frente ao barraco onde a

gente morava na Rocinha. Quando estava sol, o local servia como depósito de lixo. Os moradores que não tinham banheiro em casa deixavam os dejetos ali. O cheiro de esgoto era constante. Quando chovia, aquilo virava um rio. Acordei de madrugada com a minha mãe assustada dizendo: “A gente precisa sair daqui.” A água lamacenta tinha invadido a nossa casa e não parava de subir. Só deu tempo de pegarmos os documentos, minha mochila, meu tênis e meu uniforme escolar. Pulamos a janela dos fundos, fomos para o ponto de ônibus e ficamos esperando amanhecer. Minha mãe trocou a minha roupa, me colocou no ônibus e disse: “Agora você vai para a escola e depois segue direto para a casa dos seus avós. Assim que estiver tudo bem, eu vou te buscar.”

Lembro que assisti à aula e não comentei com ninguém sobre o que tinha acontecido, como se aquilo fosse normal. Depois segui para a casa dos meus avós paternos na comunidade da Cruzada, no Leblon. Choveu a semana inteira, e minha mãe ligava para minha avó para se certificar de que eu estava indo à escola. Minha avó lavava meu uniforme e secava atrás da geladeira para que eu pudesse usar no dia seguinte. “Aconteça o que acontecer, não perca a aula”, dizia minha mãe. Anos de terapia depois pude entender que ela fez o que precisava fazer, não o que queria fazer. O Brasil é do tamanho das mães como a minha.

Meu pai me levava para conhecer o emprego dele nos estúdios Globo. Ele trabalhou como técnico de elétrica na emissora por mais de vinte anos até ser convidado para um cargo na TV Manchete, em São Paulo. Animado, ele andava pelos estúdios conversando com todo mundo e apresentando a filha dele. Assim como a minha mãe, ele fazia questão de me elogiar: “Você é uma garota linda, brilhante, cheia de luz.” 

Meus pais construíram a minha autoestima e a minha capacidade de sonhar. Quando você é uma garota negra, pobre e periférica, essa talvez seja sua maior ferramenta de sobrevivência. Nas escolas particulares onde estudei, quase sempre fui a única aluna negra e bolsista, todos os anos eleita a garota mais feia da classe e recebendo os piores apelidos. Mas a Cinthya Rachel, com seu comercial de suco, me fez a “menina do Tang” e isso mudou a minha vida escolar.

Desde que me formei em moda na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, onde fui bolsista, passei por empresas como Levi’s, Avon, Mynd e Twitter. Em todos esses lugares, minha busca foi apresentar uma perspectiva inclusiva. Em 2015, minha equipe na Avon lançou a primeira campanha da marca estrelada por uma mulher trans, a Candy Mel, da Banda Uó. Depois fizemos campanhas memoráveis com artistas como Elke Maravilha, MC Carol, Karol Conká, As Bahias e A Cozinha Mineira, Liniker, Iza e Pabllo Vittar, que, na época, ainda não estavam no radar de marcas. Isso deu visibilidade ao meu trabalho. 

Em outubro de 2021, assumi o cargo de diretora de Criação e Conteúdo dos Estúdios Globo. Fui chamada inicialmente para dirigir essa área responsável por fazer propostas de novos projetos como novelas, realities, documentários e minisséries em parceria com as áreas de Gêneros comandadas por Boninho, José Luiz Villamarim e Mariano Boni. Para que a gente consiga ter maior sinergia com o público, é obrigatório trazer novos repertórios para contar essas histórias.

No primeiro dia de trabalho, fiz um tour para conhecer os estúdios e imediatamente fui tomada pelas memórias da infância. Reconheci aquele ambiente do switcher, a sala de controle das gravações onde ficam os diretores e operadores de tevê, e o cheiro cítrico da madeira usada para construir os cenários dos programas.

Começamos um trabalho de construção de salas de criação diversas, colocando talentos promissores junto com talentos consagrados. Trouxemos novos olhares de autores jovens, negros e consultores criativos para parcerias com os talentos já consolidados da casa. Porque, dependendo da raça, do gênero, da classe, da faixa etária, o herói da história é diferente, a saga pela qual ele passa é diferente, as intempéries que enfrenta são outras, assim como suas formas de amar. Então é preciso formar talentos capazes de nos ajudar a entender esses diferentes universos e traduzir o tempo e os anseios que vivemos. 

Como diretora de Diversidade e Inovação em Conteúdo para os Estúdios Globo, minha atuação será ampliada: ela será dirigida não apenas para o trabalho dos autores, mas também para outros públicos, como produtores e diretores da casa. É um desafio imenso. Por meio de um veículo de comunicação de massa poderoso como a Globo, acredito que seja possível trazer outras perspectivas de futuro para as pessoas que nos assistem, assim como meus pais fizeram comigo quando eu era criança. Um capítulo de novela da Globo tem o poder de impactar 100 milhões de pessoas. Uma final de Big Brother é vista por 150 milhões de espectadores. Meu trabalho é contribuir para que essa máquina de sonhos traga novos pontos de vista, mais diversos, inclusivos e conectados com a realidade da maioria dos brasileiros. É construir um imaginário no qual pessoas como eu possam se sentir seguras, confortáveis e amadas. Esse é o meu indicador de sucesso. Se, em alguma medida, eu contribuir para isso, o esforço dos meus pais não terá sido em vão. 

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