depoimento

De quase nada a quase mestre

A história do refugiado angolano que perdeu a visão aos 2 anos de idade, aprendeu a ler no Brasil, cantou para Lula e hoje aguarda o dia de defender seu mestrado

Jacob Cachinga
12jan2021_15h03
FOTO: MARCELO ANDRADE/DIVULGAÇÃO

Oangolano Jacob Cachinga nunca pôde frequentar a escola em seu próprio país. Filho de pais pobres, perdeu a visão aos 2 anos de idade, consequência do sarampo, morou na rua e foi usuário de drogas. Em 2001, quando tinha 11 anos, foi trazido ao Brasil por um convênio firmado entre os governos brasileiro e angolano para o acolhimento de refugiados da guerra civil de Angola, que durou de 1975 até 2002. Com atraso, Cachinga se alfabetizou numa escola de Curitiba, cidade onde vive desde então. Hoje, aos 31 anos, está prestes a defender sua dissertação de mestrado, em que discute políticas de educação inclusiva. Filho de um professor que nunca chegou a conhecer – o pai foi convocado para servir às Forças Armadas durante a guerra, e nunca mais foi visto –, Cachinga também quer ensinar. “No futuro, quero voltar a Angola e criar uma universidade”, afirma. Além de fazer parte de um coral com amigos angolanos, ele criou um projeto que ensina dança a cegos.

Em depoimento a Felippe Aníbal.

Nasci em Moxico, província no Leste de Angola. Quando minha mãe estava grávida de mim, meu pai foi convocado para servir na guerra civil e nunca voltou. Sei que ele se chama – ou se chamava – Henrique Cachinga, mas não sei muito mais do que isso. Nunca pude conhecê-lo. Sem tê-lo em casa, era minha função, como filho mais velho, prover a família. Mas, com 2 anos de idade, contraí sarampo e perdi a visão. A única imagem que eu retive da infância foi o rosto da minha mãe. Naquela época, toda a economia de Angola era voltada para a guerra. A assistência em saúde não existia. Crianças como eu perdiam a visão ou morriam todos os dias por causa do sarampo. Às vezes, as pessoas jogavam a culpa na superstição e diziam que era um feitiço que causava isso. Eu não. Considero que foi a guerra que me cegou.

Quando perdi a visão, minha mãe se desesperou, porque eu era a única esperança dela. A sociedade angolana sempre foi muito machista: as mulheres só podiam trabalhar em casa, cuidando dos filhos. No máximo, conseguiam trabalhar na lavra [lavoura] ou no pequeno comércio. Como não havia ajuda do governo, se uma criança ficasse cega ela se tornava inválida, não saía de casa. Mas, para dar esperanças à minha mãe, eu tentava levar uma vida normal. Brincava com outras crianças, subia em árvores, corria, pulava.



Quando minha irmã mais nova [filha de outro pai] começou a frequentar a escola, ela passou a me ensinar as coisas que aprendia. Assim eu conheci o alfabeto. Eu segurava um pedaço de carvão e ela guiava a minha mão, ensinando o desenho de cada letra. Minha irmã também lia poemas para mim, e eu decorava todos. Isso fazia com que me achassem inteligente. Minha mãe suspirava: “Meu filho é tão esperto… Ah, se ele não fosse cego.”

Enquanto isso, a guerra continuava arrasando o país. Nós éramos forçados a fugir o tempo todo. Quando os guerrilheiros invadiam a região em que morávamos, tínhamos que nos mudar imediatamente. Eu segurava a roupa da minha mãe e ia correndo atrás dela. Lembro que, em uma dessas fugas, acabei tropeçando e caindo num buraco. Um homem se aproximou e encostou o cano da arma na minha testa. Minha mãe interveio, chorando: “Me mate, mas não mate o meu filho!” Ele ordenou que a gente continuasse andando, e que não olhássemos para trás. Na hora, pensei que fosse nos dar tiros pelas costas. Mas acho que ele se compadeceu com o que minha mãe havia dito, e nos deixou seguir.

 

A vida em Angola começa muito cedo. Aos 8 anos de idade, comecei a vender sambapito [pirulito] e rebuçado [bala] nas ruas para ajudar em casa. Havia muitos vendedores e, por isso, muita disputa. Quando os clientes chamavam: “Sambapito!”, os comerciantes tinham que correr até o cliente. Vendia quem chegasse primeiro. Sendo cego, eu sempre levava desvantagem, é claro. Comecei a ficar frustrado. Aos 10 anos de idade, a vida começou a ficar muito pesada. Decidi morar na rua. Disse à minha mãe que eu queria me matar, porque não via sentido na vida: eu não podia estudar, trabalhar, casar, não podia nada…

Morando na rua, eu e meus amigos dormíamos sob as marquises de prédios. A gente vivia de brigas e de drogas: nessa época, fumei maconha e cheirei gasolina. Meu objetivo era morrer. Por causa da guerra, havia tiroteios todos os dias. Eu pensava: “Quem sabe uma bala perdida me acerta e acaba logo com isso.” Acabei ficando famoso em Moxico, porque era o único cego que circulava pelas ruas – e também porque tocava o terror na cidade. Foi assim que o governo ouviu falar de mim e propôs que eu me mudasse para o Brasil, para estudar por meio de um convênio entre os dois países. Foi uma pitada de sorte. Eles achavam que eu precisava mesmo era de estudos e que isso poderia mudar minha vida.

Chegamos ao Brasil em 2001. Éramos 24 crianças e adolescentes angolanos, todos cegos, atendidos por esse mesmo convênio. Num primeiro momento, ficamos hospedados em uma instituição de ensino para deficientes visuais em Juiz de Fora (MG). Mas o responsável pelo lugar era racista e nos maltratava. Botava todo mundo para trabalhar e dizia que a gente tinha que aceitar comer qualquer coisa, porque na África, segundo ele, morávamos em árvores ou em currais. Ele punha as meninas de castigo debaixo da chuva e nos batia. Era uma pessoa ruim. Um dia, alguém o denunciou à imprensa. A história repercutiu, o Consulado de Angola ficou sabendo e onze de nós fomos trazidos para Curitiba. Dali em diante ficamos sob a batuta do Instituto Paranaense de Cegos (IPC), onde fomos muito bem recebidos.

Nos primeiros meses em Curitiba, aprendi braile, informática e tive aulas de mobilidade, nas quais me ensinaram a andar de bengala e a me locomover com autonomia. Eu tinha 11 anos, na época. Foi um período importante para mim. No ano seguinte, fui matriculado numa escola normal, com alunos que enxergam. Cursei ensino fundamental e médio. Só então fui realmente alfabetizado. Eu e meus amigos angolanos continuamos frequentando o IPC até 2011, quando atingimos a maioridade. Naquele momento, decidimos alugar um sobrado no bairro Vista Alegre para morarmos todos juntos, os onze. Nós recebíamos uma bolsa do governo de Angola em parceria com o governo do Paraná, e isso nos ajudava a pagar as contas.

Todos passamos para a faculdade. Eu ingressei como bolsista no curso de educação física na UniBrasil, uma universidade particular, aqui em Curitiba. Entre o fim de 2014 e o começo de 2015, faltando um ano para eu me formar, o governo angolano decidiu nos levar de volta para nosso país. Nós queríamos terminar a graduação, para poder retornar numa condição de vida melhor, mas eles fizeram uma pressão danada. A Uninter e a imprensa nos apoiaram, e por isso nós conseguimos ficar. Ainda assim, o governo cortou a nossa bolsa. Durante algum tempo, enfrentamos sérias dificuldades e, por pouco, não fomos despejados do sobrado onde morávamos. Até que fomos convidados a participar do Caldeirão do Huck, da TV Globo, no quadro “Agora ou Nunca”. Com o dinheiro que ganhamos ali, nós pudemos alugar uma nova casa. Conseguimos nos formar.

 

Uma vez formado, não consegui emprego. As academias de ginástica, onde eu poderia ter estagiado durante a faculdade, nunca me deram chance. Tinham receio de que os alunos não gostassem de ser tocados por mim – já que eu teria que encostar neles para corrigir seus movimentos na musculação.

Sem poder trabalhar, segui outros caminhos. Em 2016, fundei um projeto para ensinar dança a pessoas cegas. Chama-se “Dançar sem Ver” e é o meu xodó. Muitos deficientes visuais, quando vão a uma festa, ficam isolados no canto. Eu gostaria de fazer com que eles se sentissem incluídos. Por isso, dou aulas voluntariamente, em espaços cedidos por academias de dança. Tenho a ajuda de duas professoras voluntárias, a Lilian e a Pâmela. Com a pandemia, as aulas passaram a ser online. Funciona assim: a gente descreve os movimentos de dança para os alunos, e as professoras corrigem a posição de cada um. Eu não ganho um centavo com isso – sinto como se fosse uma forma de retribuir Curitiba por tudo o que a cidade me proporcionou desde que cheguei aqui, quando criança.

Além disso, eu e meus amigos angolanos fazemos parte do coral Vozes de Angola. O grupo se formou em 2001, quando os professores do IPC notaram que nós sabíamos cantar. Isso porque, quando chegamos ao Brasil, cheios de saudades de casa, a música era o que nos conectava ao espírito de nossos familiares. Nós começamos nos apresentando com o nome de Pequenos Cantores de Angola, e fizemos fama. Cantamos no Teatro Guaíra, até mesmo na Sala São Paulo. Em 2005, o presidente Lula ouviu falar do grupo e nos convidou para ir a Brasília, onde nos apresentamos ao lado do então ministro da Cultura, Gilberto Gil.  Cantamos pela última vez pouco antes da pandemia, no dia 3 de março de 2020, na Capela Santa Maria, que fica no Centro de Curitiba. Nosso show se chamava “Tshotsholoza” – um hino famoso em muitos países africanos, e que quer dizer “siga em frente”. O Brasil tem vivido um período de muita intolerância, e nós queremos passar uma mensagem positiva.

Hoje, as coisas têm dado certo para mim. Em meados de 2018, num dia como qualquer outro, fui até a PUC-PR [Pontifícia Universidade Católica do Paraná] rever velhos amigos e procurar por emprego. Contei aos colegas que eu tinha vontade de fazer mestrado, para um dia poder me tornar professor, como meu pai havia sido. Sem que eu soubesse, um senhor ouvia a nossa conversa. Mais tarde, descobri que ele era professor e fundador do programa de pós-graduação em bioética. Seu nome é Mário Sanches. Solidário com a minha história, ele quis me dar uma chance. Comecei a cursar algumas disciplinas isoladas desse programa e, pouco tempo depois, fui contemplado por uma bolsa voltada para imigrantes. Só no segundo semestre eu me matriculei de verdade.

Senti um acolhimento muito grande na faculdade, como poucas vezes tinha sentido. E agora, depois de tanto penar, estou prestes a me tornar mestre. Minha pesquisa se chama “A educação inclusiva à luz da bioética de proteção em Angola”. Eu explico: a bioética é uma área de estudo que mescla biologia, ética e direito, focando no desenvolvimento justo e sustentável da sociedade. Há algum tempo, constatei que Angola é signatária de uma série de tratados internacionais sobre inclusão que até hoje não se converteram em nada, na prática. Os angolanos continuam vulneráveis, como sempre estiveram. Eu defendo que deveria se estabelecer uma delegação de vários países – talvez a própria ONU – que fosse responsável por fiscalizar o cumprimento desses tratados. Senão nada vai mudar.

Agora, resta apenas marcar o dia da banca. Pretendo defender a dissertação entre fevereiro e março. Feito isso, quero virar professor universitário e ajudar a transformar a vida das pessoas pela educação. Um dia ainda voltarei para Angola e fundarei uma universidade. Sigo em frente com meus sonhos. Como gosto de dizer, quem enxerga só com os olhos não vê muita coisa, na verdade. Eu, que sou cego, enxergo com a alma e com o coração.

Jacob Cachinga

Jacob Cachinga é angolano refugiado no Brasil, músico e mestrando em bioética

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