minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
Jogos
piauí jogos
De volta à Venezuela

    Um manifestante vestido como Simón Bolívar protesta na ponte entre a Colômbia e a Venezuela depois da captura de Maduro Foto: Cristopher Rogel Blanquet/Getty Images

questões latino-americanas

De volta à Venezuela

A saga para entrar em um país onde a imprensa continua sendo considerada antagonista — só não se sabe de quem

Pedro Pannunzio, de Caracas | 02 fev 2026_09h21
A+ A- A

“Você acabou de chegar né? Se prepare. Estou aqui há quase quatro horas”, reclamou uma colombiana. Achei o chá de cadeira previsível, mas não esperava o que estava por vir. Era 7 de janeiro, quatro dias depois de as Forças Armadas dos Estados Unidos bombardearem a Venezuela e sequestrarem o então presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores.

No salão de espera do Serviço Administrativo para Identificação, Migração e Estrangeiros (Saime), na cidade venezuelana de Tienditas, que faz fronteira com Cúcuta, na Colômbia, eu era uma das pessoas que aguardavam resposta para pedidos de ingresso na Venezuela, onde moro atualmente e de onde havia saído antes do Natal para passar as festas de fim de ano no Brasil. Apesar de ter visto para residir e trabalhar como jornalista no país, esse papel não era mais suficiente – as regras haviam mudado.

Depois de uns quarenta minutos, um agente do Dgcim, o departamento de contrainteligência militar, se comunicando apenas com gestos, indicou que eu entrasse na sala que ficava no meio do corredor. Ele se sentou atrás de uma mesa de escritório e apontou para a cadeira posicionada em sua frente. O rapaz, de cara amarrada e um cabelo curto milimetricamente espetado para cima com gel, era acompanhado por dois agentes da migração — um senhor de cabelos brancos e uma mulher jovem — que permaneciam de pé e desempenhavam um papel discreto. 

A dupla ficou o tempo todo na sala, mas quase não falou. O rapaz da migração me pediu para ficar de pé contra a parede, para tirar uma foto frontal, no estilo 3×4. Depois sua colega fotografou minha documentação, que seria enviada, pelo celular, para um apressado superior do outro lado da linha. Em dado momento, ele ligou para o homem de cabelos brancos cobrando celeridade. “Estamos mandando, chefe, estamos mandando”, disse o agente da migração, meio acuado. 

“Agora desbloqueie seu celular”, ordenou o agente da contrainteligência, depois de perguntar o motivo da visita ao país. Em silêncio, ele começou a analisar mensagens trocadas por WhatsApp. Durante o escrutínio, ouvi minha própria voz. Ele havia dado o play em um áudio que eu enviara para um amigo no dia anterior: “Está difícil de entrar mesmo, acho que eles estão travando um pouco a entrada de jornalistas.” Curiosamente, ele não ouviu o áudio até o final, tampouco fez qualquer comentário.

Em seguida, o agente perguntou “quem é esse Alberto?”, citando o nome do proprietário do apartamento que alugo em Caracas. Horas depois, quando retomei a posse do aparelho, entendi o motivo daquele questionamento. “Tenha cuidado. Boa sorte”, era a última mensagem da nossa conversa, em que eu relatava que iria tentar cruzar a fronteira novamente. 

Foram quinze minutos de análise de áudios e mensagens de texto, até que ele abriu a biblioteca de fotos e cismou com um vídeo gravado na véspera. Repetidas vezes, com o celular na orelha, ele ouviu uma gravação de 7 segundos para tentar captar o que era falado. “O que é isso?”, perguntou, quando finalmente desistiu de tentar decifrar por conta própria. Expliquei que se tratava apenas de um vídeo gravado na estrada a caminho de Puerto Santander, um outro ponto de fronteira entre a Colômbia e a Venezuela, e que não passava de um diálogo corriqueiro com outras pessoas que estavam comigo no carro. A cena de fato não mostrava nada de mais: apenas uma filmagem feita do banco de trás, mostrando a estrada pelo vidro dianteiro, com os dois bancos da frente ocupados pelas pessoas que conversavam. 

Sem responder nada, ele deixou de lado aquela fixação momentânea e começou a rolar o aparelho com o dedo indicador para ver outros registros fotográficos. Nada mais o interessou e, então, ele passou para a última etapa de análise: o Telegram. 

Na Venezuela, o aplicativo é uma das melhores ferramentas para acompanhar pronunciamentos e aparições públicas das principais figuras do chavismo, com reprodução de vídeos oficiais. Quando o agente viu que eu havia recebido conteúdos de gente do alto escalão do governo, franziu o cenho, com cara de desconfiado. A desconfiança só foi, enfim, externalizada quando ele encontrou o canal de notícias oficial de Nicolás Maduro. “Como é que o presidente abriu uma transmissão ao vivo depois de ter sido sequestrado?”, perguntou. Expliquei que se tratava de um canal abastecido pelo Estado, não necessariamente por Maduro em pessoa. Ele pareceu ter ficado satisfeito com a resposta e encerrou o interrogatório depois de cerca de 30 minutos.

“Agora vamos ter que esperar a resposta de Caracas para o seu pedido. Enquanto aguardamos, seu passaporte e celular vão ficar aqui.” O agente não pediu a senha do celular, o que me deu certo alívio. Voltei para a sala ao lado, onde outros estrangeiros também aguardavam. A minha impressão é de que o escrutínio aplicado aos jornalistas é mais cerrado. A começar pela posse do celular. A colombiana, que mais cedo tinha reclamado comigo da demora no atendimento, contou que seu aparelho também havia sido inspecionado, mas devolvido depois da entrevista. Ela o utilizava livremente na sala de espera.

John Omaña, o motorista que fielmente me esperava do lado de fora, disse que trabalha como taxista em Cúcuta há quase cinco anos. Como parte do trabalho, ele leva passageiros até a fronteira com alguma frequência. Ele contou que a fiscalização reforçada para todos os estrangeiros tinha começado alguns meses antes, quando o governo Donald Trump deslocou parte da frota naval dos Estados Unidos para o Mar do Caribe, perto da costa venezuelana. 

 

Comecei a planejar a volta para casa em Caracas logo que acordei no sábado, dia 3 de janeiro, com a notícia da captura de Maduro. Cheguei à cidade de Cúcuta, na Colômbia, três dias depois. No dia seguinte, entrei em território venezuelano pela Ponte Internacional Atanasio Girardot, que liga Cúcuta, na Colômbia, à cidade de Tienditas. 

“Bom dia. Documentos, por favor.” Ainda dentro do carro, em um posto de controle que lembrava uma praça de pedágio, entreguei o passaporte ao agente de migração. “Com o que você trabalha?”, perguntou, ao ver meu visto de residência estampado no documento. “Sou jornalista.” Naquele momento, o rapaz, que parecia tranquilo, fechou a cara e coçou a cabeça, num sinal de que ele teria mais trabalho do que imaginava. “Acompanhe-me, por favor.”

Segurando o meu passaporte, o agente da migração caminhou até a entrada do Saime, sem se preocupar em verificar se eu o seguia. Por um momento, o perdi de vista. Quando o localizei, ele já estava dentro da repartição, que fica em frente ao estacionamento. Meu documento tinha passado de mãos. Uma agente da migração tirava uma cópia do meu passaporte na impressora na sala que servia como uma espécie de segunda triagem. Em silêncio, aguardei novas orientações sentado em um sofá preto de dois lugares. 

Eu havia pedido Omaña que me esperasse com o carro no estacionamento à beira da estrada e deixasse o taxímetro ligado. Apesar da enorme estrutura viária, havia mais carros estacionados do que trafegando. Sem ter muito o que fazer, de tempos em tempos eu ia até a parte externa do posto migratório para conversar com o motorista, que me tranquilizava, pero no mucho: “Não se preocupe, geralmente quando dá algum problema com a documentação, eles mandam os passageiros pagar a corrida e tirar as malas do carro”, dizia. 

Enquanto aguardava ansiosamente por uma resposta, vi que todos os outros estrangeiros que dividiam comigo aquele mesmo espaço insólito, iluminado apenas por algumas lâmpadas brancas que não davam conta do recado, tiveram seus pedidos deferidos. Depois de umas duas horas e meia, o rapaz pouco afeito à comunicação verbal fez um novo gesto com os dedos para que eu voltasse para a mesma sala em que a entrevista tinha sido feita. “Me desculpe, mas você não vai poder entrar”, disse, agora num tom mais cordial. Os dois agentes da migração estavam, em teoria, em sua zona de influência. Mas, novamente, quem ditava os rumos da exposição era o agente do Dgcim. 

Ao justificar a negativa, ele explicou que, desde o ataque americano, a análise das solicitações de estrangeiros estava nas mãos do Ministério do Interior, Justiça e Paz, que controla os serviços de inteligência e contrainteligência no país. Portanto, continuou o rapaz, para ingressar no país, o Ministério do Poder Popular para Comunicação e Informação deveria entrar em contato com a pasta comandada por Diosdado Cabello e, além disso, contatar o Ministério de Relações Internacionais para, então, emitir uma carta que me autorizasse a cruzar a fronteira. “Por conta do momento do país, apenas o seu visto de trabalho não é mais suficiente para garantir sua entrada”, concluiu. 

 

Já fazia um tempo que as tensões americanas eram sentidas na Venezuela. Desde o dia 21 de novembro, os voos internacionais para o país não eram realizados com regularidade. Naquela data, a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos emitiu um alerta de risco para o sobrevoo em espaço aéreo venezuelano, o chamado Notam. Já nesse momento, companhias aéres como Gol, Latam e Avianca cancelaram seus voos para a Venezuela.

Alguns dias depois, Donald Trump afirmou em uma publicação nas redes sociais que “as companhias aéreas, pilotos e traficantes de drogas” deveriam considerar “o fechamento completo do espaço aéreo acima e ao redor da Venezuela”.  O governo Maduro classificou o anúncio como uma violação de sua soberania. A publicação do presidente americano “pretende aplicar extraterritorialmente a ilegítima jurisdição dos EUA na Venezuela ao ameaçar a soberania do espaço aéreo nacional, a integridade territorial, a segurança aeronáutica e a soberania plena do Estado venezuelano”, disse uma nota publicada no mesmo dia.

O espaço aéreo venezuelano, dali em diante, passou a ser ocupado apenas por empresas de aviação nacionais. “A gente até entende que pode haver uma questão política, mas não vamos correr nenhum risco. Enquanto o Notam estiver vigente, os nossos voos ficarão suspensos”, me disse, sob condição de anonimato, o representante de uma companhia aérea que operava no país.

Depois da captura de Maduro, quando precisei planejar minha volta a Caracas, eu sabia que voos diretos para a capital estavam suspensos e entendi que a alternativa para entrar no país seria por terra. Ainda que o Brasil faça fronteira com a Venezuela, Cúcuta, na Colômbia, oferece um trajeto com mais infraestrutura, menor tempo de viagem e até mesmo alguns voos breves, que saem de aeroportos localizados a uma curta distância da fronteira. 

Eram mais ou menos 11 horas do dia 6 de janeiro quando, depois de uma escala no Panamá, desembarquei no aeroporto de Cúcuta. Eu vinha de São Paulo, tendo partido na madrugada. Na cidade colombiana, me encontrei com dois jornalistas brasileiros e, dividindo um táxi, fomos a Puerto Santander, uma cidade ligada a Boca de Grita, do lado venezuelano, pela Ponte Internacional de La Unión. A cerca de 1 mil km de distância do epicentro dos bombardeios, a pacata cidade fronteiriça seguia em ritmo normal.

“Está tudo tranquilo. O movimento continua o mesmo, não mudou nada”, disse uma senhora que, sentada debaixo de um guarda sol que amenizava o calor daquela tarde, vendia cigarros, doces e acessórios eletrônicos de procedência duvidosa. 

Era a minha primeira tentativa de entrar no país. Tudo nela parecia mais tranquilo que a segunda, que relatei no início do texto.

Com residência fixa na Venezuela e visto de trabalho estampado no passaporte desde o dia 26 de dezembro, viajei à cidade com a certeza de que poucas horas após deixar o aeroporto estaria em casa. Minha única dúvida era se os dois colegas brasileiros que me acompanhavam também conseguiriam entrar, já que eles ainda não tinham conseguido o aval do governo para trabalhar no país. 

Mas tínhamos um plano que parecia infalível. 

Do outro lado da ponte, nos esperavam um venezuelano e um integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, que trabalha há alguns anos na Venezuela. Eles vieram de carro nos buscar, e nos levariam até um ponto em que pudéssemos pegar um ônibus com destino a Caracas. Ainda que eles não tivessem qualquer gerência sobre o controle fronteiriço, nossa aposta era que o apoio dos rapazes pudesse deixar os agentes da migração mais simpáticos ao nosso pedido de ingresso no país.

Depois de uma rápida triagem inicial já no lado venezuelano da ponte, três simpáticos militares da Força Armada Nacional Bolivariana da Venezuela, a Fanb, nos receberam. Um deles, um homem sorridente de cabelos brancos, sentado na ponta da cadeira, com o corpo meio jogado, pediu nossos passaportes. “Qual a profissão de vocês?”, perguntou. Ele solicitou nossos registros profissionais e, em seguida, com os documentos em mãos, caminhou em direção ao posto do Saime. Menos de cinco minutos depois, ainda com um sorriso no rosto, ele indicou que deveríamos entrar ali, e voltou à sua estação. 

O espaço mal iluminado, os rostos sisudos e as ordens ríspidas das autoridades deixavam tenso o ambiente dentro da pequena sala. “Deixem todos os celulares em cima da mesa e sentem-se ali”, foram as primeiras palavras ouvidas ao entrar naquele lugar. O contraste com a calmaria do lado de fora era notável. Em silêncio, nos sentamos enfileirados em cadeiras presas ao chão, posicionadas rente à parede, à espera das perguntas. 

Não era um clima amigável, mas não houve desrespeito ou agressividade por parte dos agentes que faziam o controle fronteiriço. Enquanto o agente do Dgcim fazia uma devassa do nosso histórico na internet, uma agente da migração nos perguntava o motivo da visita ao país agora comandado por Delcy Rodríguez.

“Por que vocês estão escondendo que são jornalistas?”, perguntou, aborrecida. “Nós falamos desde o início que somos jornalistas, não estamos escondendo nada”, rebateu um dos meus colegas. Em seguida, ela viu meu visto de trabalho e, ao se dar conta de que ninguém ali a tentava enganar, adotou uma postura cordial. 

O agente da contrainteligência, porém, continuava arredio. Na sua camiseta lia-se a frase “dudar es traición” (“duvidar é traição”). Essa é a mesma frase estampada em bonés usados por Diosdado Cabello, ministro do Interior, Justiça e Paz, apontado como o número dois do chavismo antes do sequestro de Maduro. Considerado um militar linha dura, Cabello é responsável por chefiar parte das forças de segurança venezuelanas, incluindo o Dgcim. 

Depois da pesquisa sobre o nosso histórico profissional, o agente subordinado a Cabello fez uma bateria de perguntas, muitas delas repetidas, em busca de algum sinal de contradição. Em seguida, pegou os telefones que estavam em cima da mesa e, um a um, ordenou o desbloqueio dos aparelhos. Os rapazes que tinham vindo nos buscar na fronteira foram poupados dessa verificação. Sem fazer nenhum comentário, ele leu, durante cerca de dez minutos, as mensagens de WhatsApp de cada um dos jornalistas presentes na sala. Enquanto isso, a agente da migração analisava os nossos passaportes. 

Depois de algum tempo, ela emitiu o veredito. “Vocês não vão poder passar. Como são jornalistas, nem como turistas vocês podem entrar, por conta do momento do país.” Ainda assim, ela não nos mandou embora e continuava a trocar mensagens com seu superior. Argumentei que tinha visto válido de trabalho. Ela concordou e disse que iria consultar o “chefe” mais uma vez. 

No meio desse rolo, sobrou até para o integrante do MST, que por pouco não foi jogado para o lado colombiado da fronteira. “Você também vai ter que ir embora com eles”, disse a funcionária do Saime. O rapaz arregalou os olhos. “Pelo amor de Deus, eu moro aqui faz dois anos. Minha casa é aqui, minhas coisas todas estão aqui. Eu só vim buscar eles”, respondeu o rapaz que levava consigo nada mais que a roupa do corpo. Diante da aparente irredutibilidade da agente, ele ficou desesperado. Com a fala meio atropelada, explicou que não era jornalista, nada tinha a ver com nossas pretensões profissionais e estava com a documentação em dia. Por fim, apelou para o lado emocional: “Minha namorada mora aqui. O que vou dizer para ela?”

Os agentes pareceram se compadecer. Analisaram minuciosamente os carimbos de seu passaporte e, como sequer havia um registro de saída do país, desistiram de deportar o rapaz, que respirou aliviado e voltou a sorrir. O clima distensionou. Pela primeira vez desde que entramos ali, o agente do Dgcim sorriu. “Você quase teve que procurar uma nova namorada na Colômbia”, disse, entre algumas risadas. 

A negativa foi confirmada para nós depois de três longas horas de espera. A agente da migração, por algum motivo, parecia ter simpatizado com meu caso. Tive a genuína impressão de que ela gostaria de ter me deixado passar. Seus superiores, no entanto, não tiveram a mesma afabilidade. “Pedro, me desculpe, mas você também não vai poder entrar. Está tudo certo com sua documentação e, por mim, você entrava, mas são ordens de cima. Por causa do momento vivido pelo país, o controle da entrada de jornalistas está muito rígido”, disse a mulher. Perguntei se deveria ir atrás de alguma documentação complementar. “Não precisa. Está realmente tudo certo. Eu sugiro você tentar outra vez amanhã, por alguma outra fronteira.”

Nos despedimos dos rapazes que tentaram nos ajudar na empreitada e esperamos até que um motorista chamado pelo agente da contrainteligência viesse nos buscar para nos levar de volta a Cúcuta. Colocamos as malas no porta-malas e caminhamos a pé até a Ponte Internacional La Unión, onde tivemos que, os três jornalistas juntos, tirar uma foto, para registrar a saída do país. Mais cedo, dentro da sala, fomos fotografados individualmente. 

O relógio passava das 17h30 e o Sol já estava se pondo. A duração do trajeto de Puerto Santander até Cúcuta é de mais ou menos duas horas. Mas o motorista parecia apressado. Em uma estrada esburacada, sem nenhuma iluminação, o rapaz acelerava o carro de forma um tanto quanto inconsequente. Felizmente conseguimos chegar ao destino final sem grandes sustos. Com a cidade infestada de jornalistas, ainda rodamos por mais uma hora até conseguir encontrar um hotel com disponibilidade para ao menos uma noite. 

A Associação de Jornalistas Independentes da Colômbia (Apic, na sigla em espanhol) estima que, na primeira semana após o ataque, mais de 350 jornalistas passaram por Cúcuta. Muitos deles, senão todos, viajaram até lá na expectativa de cruzar a fronteira. Quase todos saíram frustrados.

Perguntei a um integrante do alto escalão chavista sobre o porquê da dificuldade de se obter uma autorização de trabalho. “A dificuldade é muito clara, a meu ver. Acabamos de ser bombardeados”, respondeu. 

A Apic estima que ao menos catorze jornalistas tentaram, sem sucesso, entrar no país como turistas. Também sem sucesso, muitos profissionais solicitaram o visto de trabalho no consulado venezuelano em Cúcuta. 

 

Ainda em Cúcuta, solicitei ao Ministério do Poder Popular para Comunicação e Informação a documentação complementar mencionada pelos agentes da migração no posto de Tienditas. Dois dias depois, uma representante da pasta sentenciou o fim da aventura na cidade colombiana. Ela me disse algo como: “Acho melhor você esperar esse documento no Brasil. Não consigo te dar uma previsão de quando vou conseguir te enviar, porque temos muitos pedidos para analisar neste momento.”

Para a minha surpresa, a documentação chegou poucos dias depois do retorno ao Brasil. Como algumas companhias aéreas já haviam retomado suas operações na Venezuela, desta vez comprei uma passagem de São Paulo a Caracas. Desembarquei na capital da Venezuela com a certeza de que, novamente, passaria por um longo processo de entrevista. Para minha surpresa, ainda que houvesse um efetivo considerável de agentes do Sebin no aeroporto de Maiquetía, o controle de entrada de estrangeiros estava a cargo dos agentes de migração. Não demorou 15 minutos para que eu fosse liberado e, enfim, pudesse entrar na Venezuela. 

Do aeroporto, que fica em La Guaira, outra cidade que foi atingida pelos ataques americanos, até Caracas, o tempo de trajeto é de mais ou menos meia hora. A estrada parecia estranhamente normal. Não havia bloqueios, tampouco efetivo policial reforçado. “Está tudo tranquilo”, garantiu o taxista que me conduzia até a capital por vias menos movimentadas que o normal.

As diferentes instâncias envolvidas no controle fronteiriço revelam apenas uma pequena parte do momento de incertezas que a cadeia de comando chavista atravessa após o sequestro de Maduro. Por ora, Delcy Rodríguez tem conseguido manter a unidade na base governista e, mais importante do que a adesão partidária e institucional, preservar o apoio de Diosdado Cabello e de Vladimir Padrino López, o ministro da Defesa. Juntos, os dois são responsáveis por controlar o aparato repressor, militar e paramilitar venezuelanos. 

Ao mesmo tempo, o regime dá sinais de mudanças, tanto interna quanto externamente. Desde que assumiu a presidência interina, Rodríguez promoveu uma série de trocas em postos-chave, o que resultou no escanteamento de figuras próximas a Maduro. Em uma mensagem para fora, a guinada mais visível ocorreu menos de uma semana após o sequestro do então presidente, quando o governo anunciou a liberação de presos políticos, em um processo que, a bem da verdade, se iniciou no fim do ano passado, em ritmo mais lento. As mudanças no plano externo também incluem o desbloqueio de vários veículos de imprensa que só podiam ser acessados dentro da Venezuela com o uso de VPN, a ferramenta que permite ao usuário mascarar sua geolocalização. Esse processo, porém, foi feito de uma forma, no mínimo, tímida.

“Não temos informação oficial de que tenham levantado os bloqueios. O que nós sabemos, a partir do que usuários nos disseram, é que agora conseguem acessar nosso site sem usar VPN. Assim como nunca tivemos resposta oficial às reclamações que fizemos quando nos bloquearam, também não nos informaram nada oficialmente agora”, me disse Luz Mely Reyes, cofundadora do Efecto Cocuyo, um dos principais veículos do país, que, por medida de segurança, não publica reportagens assinadas.

Reyes, que vive fora do país também por motivos de segurança, é cética quanto à recuperação de liberdade de imprensa e o futuro de seu país. “Não sabemos se essa ação faz parte de uma decisão política, ou apenas de alguma situação técnica. Acho que ainda é muito cedo para dizer que estamos vivendo um novo momento no jornalismo venezuelano. Para começar, porque ainda há muitos jornalistas que estão no exílio. Eu me incluo entre eles.” 

No cotidiano da cidade, Caracas, aos poucos, retoma seu ritmo de normalidade. Mas é possível sentir uma tensão ao circular pelas ruas da cidade. A motorista de aplicativo Andreina Campos define esse momento usando uma expressão conhecidas dos caraquenhos: “tensa calma.” “É possível sentir a tensão, é como se estivéssemos em uma ‘tensa calma’. Há um certo medo, mas, ao mesmo tempo, temos que seguir em frente. Temos que seguir trabalhando, seguir lutando no nosso dia a dia. Ainda temos contas para pagar.”

Neste mês, no entanto, vai ser mais difícil fechar a conta. Com menos pessoas circulando nas ruas, há também menos solicitações de corrida. Antes do ataque de 3 de janeiro, ela conta que fazia, em média, doze viagens por dia. Agora, diz que os chamados caíram pela metade. “Vai ter conta que eu vou pagar e conta que eu vou jogar pra frente. Até que o movimento seja reestabelecido.”

Mari Briceño, dona de um pequeno restaurante italiano no bairro de Chacao, afirma que, desde os bombardeios, o movimento no restaurante caiu bastante. “Temos uma clientela quase familiar que, como você pode ver, continua vindo aqui na hora do almoço. Mas, de noite, as pessoas estão mais recolhidas.”

Assim como milhões de venezuelanos, ela também tem dúvidas sobre o futuro. Mas, apesar da incerteza, se diz otimista por uma melhora na economia e comemora que, nos últimos dias, os preços de proteínas vendidas ao restaurante tiveram uma queda significativa. “Temos vontade de seguir adiante e estamos na expectativa de coisas melhores. Nós, venezuelanos, somos resilientes, temos sempre vontade de seguir em frente com bom ânimo.”

Assine nossa newsletter

Toda sexta-feira enviaremos uma seleção de conteúdos em destaque na piauí