anais da pandemia

Desespero e solidariedade em Manaus

Rapaz que perdeu três parentes para a Covid relata os dias em que lutou para que sua mãe pudesse ter oxigênio 

Eduardo Souza Cruz
27jan2021_10h51
Eduardo Souza Cruz na fila em busca de oxigênio –
Eduardo Souza Cruz na fila em busca de oxigênio – Foto: Arquivo pessoal

 Quando Manaus entrou em colapso em janeiro por causa da Covid, com hospitais lotados, muitas famílias tiveram que comprar oxigênio para os parentes internados. Nas redes sociais, ecoou o apelo de Eduardo Souza Cruz por oxigênio para socorrer sua mãe-avó, a aposentada Terezinha de Souza Cruz, que o criou como filho. Na fila à espera de oxigênio, Eduardo, de 28 anos, autônomo, técnico em rádio, postou vídeos e fotos das famílias dos pacientes. Apelos como os dele mobilizaram a ajuda de artistas, jornalistas, famosos e anônimos, gente que, em todo o país, se comoveu com o sofrimento da capital amazonense. Neste diário, escrito a pedido da piauí, Eduardo conta os dias em que lutou para que sua mãe pudesse respirar. O Amazonas vive uma situação trágica em meio à pandemia de Covid, e uma variante do Sars-Cov-2 foi identificada na região. A Covid já matou mais de sete mil pessoas no Estado.

(Em depoimento a Fernanda da Escóssia) 

 

Quinta-feira, 31 de dezembro de 2020 

Uma das minhas tias já havia tido Covid na primeira onda e vinha desde o Natal gripando. Ela resolveu fazer o teste, que deu positivo. Ela ligou para minha mãe pedindo que ela fizesse o exame, pois tinham ficado juntas. Minha mãe estava gripada e dizia que era sinusite, porém foi fazer o exame e, quando chegou em casa, me falou até sorrindo, no seu modo divertido: “Putz, deu positivo, meu filho.” Fiquei preocupado, mas confiante de que ela ia sair dessa: tinha 76 anos mas parecia uma jovem, saía, se divertia, era viciada em limpar a casa todos dias. 

No Réveillon e em todas as festas, minha mãe era acostumada a reunir a família. Mas aquele foi o primeiro Réveillon apenas com quem já vivia na casa: minha mãe, de máscara, e meu tio, que mora em Porto Velho e veio passar as festas. Foi estranho, um Réveillon sem minha mãe brindar, pois já tinha tomado aqueles medicamentos que os médicos passam no começo quando se descobre a Covid-19. Foi sem abraços e sem beijos, mas eu quebrei as normas e abracei minha mãe. Três dias antes tínhamos tirado uma fotografia, mal eu sabia que seria minha última fotografia com ela.

Eduardo e sua última foto com a mãe – Foto: Acervo pessoal

 

Sexta, 1º de janeiro de 2021

Amanheci sentindo cansaço, espirrando e percebi que estava perdendo o olfato. Minha prima Caroline Dinelle (neta de minha mãe) chega em casa e se preocupa ao ver minha mãe deitada de dia. Quando mamãe sentia dor, podia ser a pior dor do mundo, mas ela dizia que estava tudo bem. Minha prima, já esperta nisso, chamou um médico, junto com uma fisioterapeuta. Eles disseram que minha mãe ia precisar de oxigênio e também começaram a me tratar, porque eu já estava com sintomas. Nunca fiz o teste, mas, se peguei, creio que fiquei quase assintomático, pois logo os sintomas sumiram. Começamos a tratar minha mãe em casa.

Segunda, 4 de janeiro de 2021

Minha mãe estava indo bem, mas a partir do quarto dia já não aguentava mais ficar sem oxigênio. Era um cilindro de oxigênio por dia, com acompanhamento de médicos e fisioterapeutas. Minha prima Caroline se mudou aqui pra casa pra ajudar a cuidar de minha mãe, junto com minhas duas tias que já estavam aqui. Improvisamos o quarto da minha mãe na sala, pois a casa é de três andares e o cilindro de oxigênio cheio é muito pesado pra subir as escadas. As noites começaram a ser tensas, minha mãe não conseguia dormir, a gente demorava a encontrar posição pra ela. A gente também não dormia, preocupado, de olho na saturação dela, que até então estava já em 89, 90.

Terça, 5 de janeiro de 2021

Minha irmã (por parte de pai) Clícia Menezes liga dizendo que meu pai e minha madrasta não estavam bem. Eles tinham testado positivo para Covid-19. Ela os levou a um hospital particular, e eles foram internados após muitas horas de espera, porque estava difícil conseguir vagas em qualquer ambiente em Manaus, tudo já estava lotado. A situação do meu pai se agravou. Ele precisava de UTI, só que não tinha vaga nem pra leito normal, muito menos pra UTI. Meu pai e minha madrasta conseguiram vagas numa área improvisada do hospital, que era o almoxarifado e eles transformaram em leitos.

Sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Acordo com uma das minhas tias abrindo a porta do meu quarto. Não foi preciso dizer nada. Peguei meu celular e tinha mensagem de minha irmã dizendo “Papai faleceu.” Subimos até o quarto do meu pai-avô para dar a notícia a ele, de que o filho dele tinha morrido. Contei pra minha tia que, na noite anterior, tinha visto em sonho um anjo da morte me rondando e me mandando escolher quem da família deveria morrer. Tínhamos que manter a calma, porque mamãe não poderia jamais saber que o filho dela tinha morrido. Ficamos com medo de a pressão dela baixar e optamos por não contar. Fui ao enterro com minha tia sem que minha mãe percebesse.

Segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

A cada dia dentro de casa ficava mais difícil. Minha mãe seguia com acompanhamento de médicos e fisioterapeutas, a gente ia comprando oxigênio. Eu já não dormia mais.
Fazíamos jejum pela vida da minha mãe, rezávamos pelo WhatsApp de joelhos de madrugada. Minha prima Caroline Dinelle avisou que precisava ir em casa, pois tinha deixado o marido e os filhos e também estava se sentindo muito mal. Ficamos eu e minha tia Jandeci cuidando da nossa mãe. Ela não conseguia dormir, não achava posição, eu a ajudava a sentar na poltrona pra dormir, depois colocava ela um pouquinho na cama; isso a noite toda até o amanhecer do dia, e sempre controlando a velocidade do oxigênio e a saturação dela.

Terça-feira, 12 de janeiro de 2021

A saturação da minha mãe estava baixa demais, em 75, 77. Os fisioterapeutas chegaram e perceberam que a situação tinha se agravado, que ela não conseguiria ficar mais nem meio minuto sem o oxigênio. Disseram que tinha de ir para o hospital. Ela falou: “Meu filho, não é pra se desesperar.” Perguntei: “A senhora quer ir para o hospital?” Ela disse: “É melhor, né, meu filho?” Eu chorava. Ela me falou: “Para, meu filho, eu vou ficar boa, eu vou voltar.” Desde que descobriu a doença, ela nunca falou palavras negativas, nunca falou a palavra “morte”. Dizia sempre que ia ficar boa.

Manaus estava um caos, sem vagas em nenhum hospital. Já tínhamos gastado tudo o que podíamos. Não tínhamos dinheiro para hospital particular. Minha tia ligou para um de nossos primos, enfermeiro em um dos maiores hospitais públicos da cidade, e ele disse que não aconselhava levar pra lá, pois não tinha vaga e estava cenário de filme de terror, faltando material, cadáveres próximos aos pacientes, funcionários sobrecarregados. Mas ele conseguiu uma vaga para nossa mãe em um hospital pequeno, Joventina Dias, que funciona como uma SPA (Serviço de Pronto Atendimento). Foi preciso trocar de oxigênio, pois o cilindro que minha mãe usava em casa era o grande, de 50 litros, e pra ela ser transportada no carro era necessário um pequeno, que tínhamos de reserva. Nessa hora a saturação dela caiu pra 45 e eu me desesperei. Fiz massagem no peito da minha mãe, e melhorou um pouco.

Fomos direto para o hospital em uma corrida contra o tempo, pois o cilindro de oxigênio estava pela metade. Na porta do hospital o oxigênio acabou. Colocaram minha mãe na cadeira de rodas, e eu nem consegui me despedir. Foi a última vez que vi minha mãe com vida. 

Só tenho a agradecer à equipe do hospital, pois deram toda assistência e mandavam notícias toda hora, até com fotografias. Mas deixaram bem claro que ela precisava de uma UTI.

 

Quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Manaus entrou em colapso geral. Por volta das 18h30, recebemos uma ligação do hospital falando que já não tinha mais oxigênio para todos os pacientes, e que poderia acabar e a nossa mãe morrer. Se a gente conseguisse oxigênio era só levar. Isso estava acontecendo em todos os hospitais.

Fui ao hospital e peguei dois cilindros secos, com a ajuda dos meus amigos Jussara e Anderson. Fomos até a fábrica Nitron, que estava fornecendo oxigênio para o governo e para hospitais particulares. No caminho, postei em minhas redes sociais que estava precisando de oxigênio para minha mãe e que se alguém pudesse me ajudar de qualquer forma, era só falar. Na fábrica, tinha uma fila de carros para abastecer, gente desesperada também querendo oxigênio para seus familiares, gente que já tinha pago na semana passada e ainda não tinha recebido o produto… Muita coisa eu vi ali… Começo a descobrir qual o valor da recarga. Diziam que estava por 1200 reais, e entrei em desespero, pois não sabia se teria limite suficiente no cartão de crédito, já que havíamos gastado o que tínhamos e o que não tínhamos com nossa mãe dentro de casa. Uma amiga viu meu post e avisou a assessoria da cantora Preta Gil, e então entraram em contato comigo perguntando de quanto eu precisava. Depositaram 2400 reais na minha conta. Outra artista, a cantora Joelma, com ajuda de sua assessora, convocou 250 fãs-clubes do país inteiro para ajudar a comprar oxigênio.

Na fila, era um desespero, pois precisava que chegasse logo minha vez. O oxigênio da minha mãe poderia acabar. Comecei a pensar que na minha vida sempre tive tudo que eu quis, realizei todos meus sonhos e desejos de infância, não tenho nada a reclamar da vida. Tinha até comentado isso dias antes com minha irmã, e questionava: será que Deus me deu tudo isso e no final vai querer tirar meu bem mais precioso, a minha mãe? 

Já por volta das duas da manhã, consegui entrar na fábrica e abastecer apenas um cilindro do pequeno, pois eles só deixavam um por pessoa e tinham parado de abastecer cilindro do grande de 50 litros — uma válvula do equipamento tinha quebrado. Manaus estava com o decreto de toque de recolher das 18h às 6 horas da manhã. Nenhum aplicativo estava funcionando. Quando saí da fábrica, veio uma moça cujo irmão estava no mesmo hospital de minha mãe  e ofereceu carona. Minha tia ligou chorando e pedindo que eu fosse logo. Acreditei que Deus estava colocando anjos em minha vida. Cheguei ao hospital e levaram o oxigênio para minha mãe.

 

Sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Por volta das 4 horas da manhã, na porta do hospital, minha tia falou pra eu tentar conseguir cilindro de oxigênio do grande. Voltei a pedir ajuda nas minhas redes sociais. Minha tia disse que um rapaz doou um cilindro de oxigênio para minha mãe, pois o pai dele tinha acabado de falecer ali do lado dela, no mesmo leito. Eu não sabia se ficava triste ou feliz.

Voltei com meus amigos Jussara e Anderson à fábrica da Nitron. Ao amanhecer, a fila de carros era enorme. Uma amiga disse que o primo tinha conseguido um cilindro cheio, era só pagar o valor e se encontrar com ele na Manaus Moderna (Porto de Manaus). Conseguimos o cilindro.

Vi a movimentação nas minhas redes sociais, com o apoio de inúmeras pessoas e dinheiro entrando na conta por doações. A jornalista Cristina Tardáguila disse que estava disposta a ajudar. Muitos jornalistas me procuraram, e marquei com eles no hospital e depois na porta da fábrica da Nitron. A assessoria do youtuber Whindersson Nunes me procurou e pediu uma lista de hospitais, porque ele iria mandar uma carga alta de cilindros com oxigênio — aquele no qual minha mãe estava internada seria o primeiro. A Cristina Tardáguila foi um anjo na minha vida. Ela disse que tinha uma galera no Twitter disposta a ajudar financeiramente, e sugeriu que eu verificasse as pessoas que estavam precisando de grana, fotografá-las, mandar nome, telefone e a foto. Conseguimos ajudar dezesseis pessoas. Fiquei muito feliz. 

No final do dia, consegui mais um cilindro grande cheio para minha mãe – clandestinamente, por um preço bem alto, nessa hora eu já não queria mais saber o que estava certo ou errado. Queria a saúde da minha mãe. Minha tia pediu para eu ir pra casa descansar, e perguntei se podia ficar na porta do hospital com elas. Disseram que era melhor não, que era como um filme de terror, os médicos noticiando aos familiares as mortes dos pacientes, cada vez que o médico vinha era aquela aflição.

 

Sábado, 16 de janeiro de 2021

De madrugada, consegui três cilindros por 2700 reais. De manhã cedo fui buscá-los. Nas redes sociais, agradeci pelas doações, disse que era um dinheiro que entrava rápido e ia embora muito rápido. As doações do Whindersson Nunes iriam chegar naquele dia. No  WhatsApp, várias pessoas mandavam mensagens para doar materiais para o hospital Joventina Dias, onde minha mãe se encontrava. Meu cunhado e minha tia, de plantão na porta do hospital, ligaram dizendo para eu ficar aliviado, pois as doações estavam chegando, tanto o oxigênio do Whindersson Nunes, como os materiais da galera das redes sociais.

Então minha tia mandou um áudio, desesperada. Os médicos falaram que minha mãe precisava de UTI, estava intubada havia cinco dias, e os órgãos dela já poderiam parar. Um juiz autorizou e deu quatro horas pra minha mãe ser removida, mas faltava uma última autorização. Às 21 horas, minha mãe teve uma parada cardíaca. Os médicos tentaram reanimá-la por meia hora, mas não houve jeito. Eu tinha ficado sem bateria no celular, não sabia de nada. Meus amigos foram me buscar para eu receber a notícia no hospital, mas, dentro do carro, liguei meu celular e vi mensagens de pêsames. No hospital, pedi pra ver o corpo da minha mãe, e consegui, então me despedi. Contei que eu tinha movimentado o país inteiro por ela.

 

Terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Vivo na mesma casa que meu pai-avô. Estou em isolamento social, sem contato com ninguém dentro de casa, devido à proximidade que tive com o vírus. Estou sem ânimo para nada, sem vontade de assistir à tevê ou ouvir alguma música, sem vontade de nada. Não sei se o tempo vai me curar, não sei se foi um propósito de Deus em minha vida, como muitos dizem. Sei que sofro a cada dia. Estou decidindo se vou entrar com um processo por causa da demora para conseguir UTI pra minha mãe.

Minha madrasta também morreu de Covid. Na minha família, estava virando rotina semanal enterrar alguém.

Manaus continua vivendo dias de terror. Cemitérios lotados, gente em busca de vaga nos hospitais, em busca de oxigênio, mais gente morrendo por um vírus que não sabemos ainda até quando vai durar. Vivemos na incerteza de não saber quando nossas vidas voltarão ao normal.

Eduardo Souza Cruz

É autônomo, tem curso técnico de rádio e tevê e mora em Manaus.

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