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    Foto: Acervo/Osmar Macêdo

vultos do carnaval

Um legado em disputa

Família de Dodô Nascimento, da dupla Dodô e Osmar, luta na Justiça para que história do homem que ajudou a revolucionar o Carnaval seja reconhecida

André Uzêda, de São Paulo | 28 fev 2025_10h20
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Responder “Dodô e Osmar” equivale, para os soteropolitanos, a dizer “Pedro Álvares Cabral”. Obviamente, a comparação não é pelo teor da pergunta, mas sim pela velocidade da resposta – aquela que vem na ponta da língua, num bate-pronto quase automático. Ou seja, para os baianos haveria duas questões dos sonhos, caso fossem sorteados em programas de auditório, daqueles que dão dinheiro aferindo o nível de conhecimento geral dos participantes: “Quem descobriu o Brasil?” e “Quem são os inventores do trio elétrico?” 

Curiosamente, do mesmo modo que novos estudos problematizam os exploradores portugueses, dedicando maior atenção às etnias indígenas que já habitavam estas terras, o produtor artístico Carlos Nascimento, de 55 anos, quer rediscutir a história da mais revolucionária invenção do Carnaval brasileiro. 

Nascimento é neto de Adolpho Antônio Nascimento, o Dodô, um dos criadores do trio elétrico. Para ele, na verdade, “o” criador do trio elétrico. Carlinhos de Dodô, como é mais conhecido no meio artístico, tem reivindicado um maior destaque para seu avô. Sua tia, Bárbara Rita Nascimento (filha caçula de Dodô), move uma ação judicial contra a família Macêdo – herdeira de Osmar – por direitos de personalidade e autoral.

“Dodô não era apenas um músico. Era também um inventor. Toda a amplificação elétrica do Carnaval partiu dele. Como era um homem negro, precisou ser associado a um branco [Osmar] para não ser apagado da história. Toda sua genialidade precisou ser dividida para que ele não fosse esquecido”, diz Carlinhos.

A ação, protocolada no ano passado, tramita no Tribunal de Justiça da Bahia e pede uma indenização por danos morais, além de divisão em 50% sobre todos os valores recebidos e a receber enquanto utilizarem-se de direitos autorais, acrescido dos juros legais, correção monetária e verba de sucumbência (custos do processo a serem pagos para a parte vencedora). A alegação principal é que a família Macêdo se apropriou da marca Dodô & Osmar, ao patenteá-la em março de 1996 – antes disso, a marca não tinha dono. O nome é usado para batizar a banda Armandinho, Dodô e Osmar, formado pelos irmãos Aroldo, André, Betinho e Armandinho Macêdo, todos filhos de Osmar. 

O conjunto dos irmãos Macêdo é figurinha carimbada no Carnaval de Salvador, se apresentando com uma decoração que remete à fobica, um carro Ford T, primeiro modelo do trio elétrico usado pela dupla Dodô e Osmar. Desde 2008, a BahiaGás (empresa pública que fornece gás no estado) patrocina os desfiles da banda, com cachês que giram em torno de 500 mil reais por Carnaval.

Além disso, a família de Dodô estima que a empresa Terra do Som – Produções Artísticas, que tem Aroldo Macêdo como sócio-administrador, já arrecadou mais de 2,6 milhões de reais em captação de recursos públicos desde 2011, explorando a marca Dodô e Osmar. Na ação, a família de Dodô diz que o nome da dupla foi patenteado usando “estratégias antiéticas, abusivas e irregulares”, pois considera ter havido apropriação indevida do nome artístico de Dodô sem nenhuma compensação.

“Todos os anos nós enfrentamos uma verdadeira batalha para poder levar às ruas de Salvador um projeto que celebra o legado de Dodô, mas as autarquias públicas não compram nossa ideia, porque dizem já patrocinar a marca Dodô no trio dos irmãos Macêdo”, diz Carlinhos, que salienta o fato de sua família estar “perdendo dinheiro”. 

Procurados pela piauí, os Macêdo preferiram não se manifestar. O advogado que representa a família, Rodrigo Moraes, classificou a disputa judicial como “um grande equívoco”. “A família de Dodô deveria ser grata porque a família Macêdo carrega o nome dos criadores do trio e não deixa cair no esquecimento. Se a Justiça conceder ganho de causa a eles, Armandinho e os irmãos vão passar a chamar o trio de ‘Irmãos Macêdo’ e continuarão fazendo sucesso. Aí sim, Dodô pode ser esquecido. É fundamental contar a história de Dodô, mas a família está mirando no alvo errado. Não é a família de Osmar que é o empecilho. Quem tem que fazer isso é o poder público, por meio de homenagens, cursos, escolas e atividades”, disse Moraes.

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Ele também defendeu a maneira como a marca da dupla Dodô e Osmar foi patenteada. “Não houve nenhum tipo de má-fé no registro da marca, que foi feito há quase trinta anos e de forma pública no Inpi, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial. A própria família Nascimento, em 2023, deu entrada em um processo para registrar a marca Dodô e Osmar para venda de instrumentos de som. Ou seja, eles chamam de estratégia irregular e antiética e fazem o mesmo?”, questionou o advogado.

 

Antes de inventar o trio elétrico, Dodô já havia se engajado na carreira musical e alcançado relativo sucesso no começo dos anos 1930. Vizinho de Dorival Caymmi no bairro Santo Antônio, no Centro Histórico de Salvador, eles formaram o grupo Três e Meio, com e os irmãos Zezinho e Luiz. O nome – quase um prenúncio do famoso sitcom Two And a Half Men (Dois Homens e Meio), estrelado por Charlie Sheen – era uma brincadeira com o jovem Luiz, menor de idade, que tocava pandeiro na banda.

Caymmi ainda não era o cantor popular de inestimáveis sucessos, como Samba da minha terra, Maracangalha e A lenda do Abaeté, mas já arregimentava sua legião de fãs liderando o conjunto, que se apresentava fantasiado de marinheiro nos carnavais soteropolitanos. No documentário Dorival Caymmi: O que é que a Bahia tem?, exibido pela TV Cultura nos anos 1990, o compositor baiano comenta que, antes de criar o trio elétrico, seu ex-vizinho já tinha uma “ideia fixa” de eletrificar os instrumentos musicais para expandir o alcance sonoro e, por consequência, atingir um público maior. 

“Quando íamos para o Carnaval (…), Dodô tinha mania de dizer assim: quando a gente toca na Rua Chile ninguém ouve. Na Avenida Sete, ninguém ouve. Dodô tinha aquela ideia fixa de levantar o som dos instrumentos de corda. Sabe o que nasceu daí? O trio elétrico”, diz Caymmi.

Uma das sugestões dadas por Dodô era furar o estimado violão de Caymmi e instalar um alto-falante – um tanto rudimentar – embutido no corpo do instrumento – o que foi prontamente rechaçado pelo cantor, com medo de danificar o objeto. 

“É importante pontuar que o incômodo de Dodô com o baixo alcance do som no Carnaval é também uma crítica ao modelo de festa que era praticado naquele período, com desfile de carros alegóricos e festa restrita aos clubes de ricos”, diz o pesquisador musical Marcus Devolder, que estudou a guitarra baiana em seu trabalho de conclusão de curso na graduação em administração da Universidade Federal Fluminense (UFF). 

Toda essa inventividade era amparada por seus conhecimentos como eletrotécnico profissional. “Ser perito em eletrotécnica e radiotécnica na década de 1930, há quase cem anos, significa que Dodô era versado no que havia de mais avançado em termos tecnológicos”, escreve o pesquisador Edvard Passos, em sua tese de doutorado sobre o Carnaval de Salvador, defendida na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Dodô não era apenas um eletricista, mas também um inventor, trabalhando horas a fio na sua oficina para produzir objetos que facilitassem o cotidiano da família, embora, por completo desconhecimento ou descuido, nunca chegou a patentear suas criações. “Ele se dispôs a criar protótipos de eletrodomésticos, como o cortador de quiabo elétrico, o ralador de coco elétrico, máquina de cortar aipim”, conta Passos, em sua pesquisa. 

 

Em 1938, cinco anos depois de fundar o Três e Meio, Caymmi deixou o grupo e rumou para o Rio de Janeiro – onde sua carreira decolou após fechar um contrato com a Rádio Tupi e emplacar o sucesso O que é que a baiana tem? na voz de Carmen Miranda. 

Dodô, então, tornou-se líder do conjunto e propôs a chegada de novatos para incrementar a formação. O Três e Meio ganhou três músicos talentosos. Entre eles, o jovem bandolinista Osmar Macêdo, de 15 anos. Passos escreve em sua tese de doutorado que é fundamental estabelecer a diferença de idade entre Dodô e Osmar. Quando os dois se conhecem, o primeiro já tinha 24 anos. Além de ter experiência na música, Dodô era casado e trabalhava como eletrotécnico.

“O encontro de Dodô com Osmar é o encontro de um adulto com um adolescente. Esse dado é fundamental para a compreensão da relação entre os dois. Dodô é um homem, Osmar é um garoto menor de idade. Dodô é o líder do conjunto, Osmar é o novato. A considerável diferença entre eles é uma informação difícil de ser percebida, pois são muitos os equívocos das fontes.” 

De fato, na Wikipédia e em tantas reportagens encontradas na internet, é atribuído que Dodô nasceu no dia 10 de novembro de 1920. E Osmar – acertadamente – no dia 22 de março de 1923. Isso coloca a diferença de idade entre eles como de apenas três anos. A piauí consultou o site da Receita Federal, por meio do CPF de Dodô, e lá está cadastrado que ele nasceu em 28 de julho de 1913. Ou seja, a diferença entre Dodô e Osmar é de quase uma década.

“A história é contada como se Dodô e Osmar fossem bebês que nasceram quase na mesma época e, como numa parábola da Bíblia ou num mito grego, se encontraram e criaram o trio elétrico. Há uma diferença fundamental na trajetória de cada um. E não é exagero dizer que Dodô é responsável por 90% da criação do trio elétrico”, defende Devolder.

 

A banda Três e Meio não durou muito sem a presença de Caymmi, mas fez florescer uma bela parceria entre Dodô e Osmar. “O jovem Osmar reunia todas as características de um solista, que gostava de estar em destaque exibindo a virtuose de sua performance ao bandolim. Ele possuía a distinção de dar ouvidos, de acreditar nas ideias que vinham de Dodô. Tornou-se um grande amigo e parceiro entusiasta, cúmplice, capaz de oferecer diálogo às inquietações de Dodô”, pontua Passos.

Em 1942, os dois foram juntos assistir a uma apresentação do violonista Benedito Chaves, conhecido nacionalmente como Guru, no Cine Guarany (hoje Cine Glauber Rocha), na Praça Castro Alves. A grande novidade trazida pelo Guru era o violão elétrico, que rapidamente fisgou a atenção de Dodô.

No dia seguinte, os dois conseguiram se encontrar com o violonista. As atenções do eletrotécnico rapidamente voltaram-se para entender o funcionamento da engenhoca que tanto o fascinava, conforme relatou o próprio Osmar no livro 50 Anos do Trio Elétrico, do professor e pesquisador Fred Góes.

Após o encontro, Dodô correu para sua oficina e desenvolveu uma réplica do violão de Guru para si próprio e um cavaquinho para Osmar. A partir daí, eles passaram a ser chamados de Dupla Elétrica. Perfeccionista, em paralelo às apresentações musicais, Dodô continuou trabalhando na eletrificação sonora com o intuito de acabar com a microfonia – interferência provocada pelo som do instrumento que retroalimenta as caixas acústicas – que tanto o irritava. 

A solução encontrada foi completamente original. Ele retirou o corpo do violão e o manteve eletrificado apenas pelo braço, acoplado a um captador, na parte de baixo. O novo invento ganhou o nome de Pau Elétrico – um protótipo do que, anos depois, viria a ser chamado de Guitarra Baiana (que, anos depois, se tornou marca registrada de Armandinho, filho de Osmar).

Atualmente, além do nome Dodô & Osmar, o termo “Pau Elétrico” e também “Fobica” também estão registradas no Inpi como pertencentes à empresa Terra do Som – Produções Artísticas, dos herdeiros de Osmar.

Embasado por pesquisas de jornais e entrevistas da época gravadas em vídeo, Passos, o pesquisador, diz que há uma incongruência nesse movimento de registro feito pela família Macêdo. “Osmar nunca negou o protagonismo de Dodô na criação do pau elétrico. Ele sempre atribuiu essa obsessão ao seu parceiro.”

 

A ideia por trás do trio elétrico começou a ser gestada no Carnaval de 1951. Influenciados por outras bandas que já estavam desfilando pelas ruas de Salvador, Dodô e Osmar decidiram fazer o mesmo, mas com um diferencial: acoplaram seus instrumentos no carro modelo Ford 1929, da família de Osmar. Como já tinham todo equipamento eletrificado por anos de experiência, a execução não foi difícil. Ligaram os paus elétricos na bateria do veículo e a resposta foi um estrondoso sucesso. 

No ano seguinte, Dodô e Osmar repetiram a dose. Dessa vez, com muito mais estrutura. Receberam o patrocínio da empresa Fratelli Vita (antiga fábrica baiana de garrafas de vidro, cristais e refrigerantes) e convidaram Themístocles Aragão, um antigo colega de escola de Osmar, para ser um novo integrante. Os três saíram tocando os violões eletrificados. 

Com a adição do novo membro, a Dupla Elétrica passou a ser chamada de Trio Elétrico – um movimento que batizou não apenas o conjunto, mas todo e qualquer veículo eletrizado que passaria a promover um Carnaval itinerante pelo mundo afora. Themístocles ficou apenas um ano, perdendo a chance de ser eternizado na história. Os outros dois viraram nome dos principais circuitos do Carnaval de Salvador: Dodô (Barra-Ondina) e Osmar (Campo Grande).

O pesquisador Marcus Devolder defende que, desde que a fobica saiu pela primeira vez, transformou toda a estrutura da festa e também a própria cidade. “Gradativamente, o trio ocupou as ruas, se tornando mais popular, e implodiu o modelo elitista dos carnavais de clube. Ironicamente, depois o capitalismo captura o trio elétrico e volta a elitizar o Carnaval, com os abadás, os blocos, os grandes artistas e os camarotes.”

Nas décadas seguintes, quando os trios elétricos já haviam escalado para um modelo dominante da festa, Luiz Caldas lança o disco Magia, um dos marcos inaugurais daquilo que ficou conhecido como axé music – termo criado pejorativamente pelo jornalista Hagamenon Brito em 1987, como sinônimo para algo brega, e posteriormente ressignificado com a junção de outros ritmos, como o pagodão baiano e o samba-reggae. O movimento musical, que produziu figuras como Carlinhos Brown, Ivete Sangalo, Timbalada, Chiclete com Banana, Léo Santana, Daniela Mercury e tantos outros, completa exatos quarenta anos em 2025.

 

A contribuição da cultura negra para o Carnaval de Salvador é fundamental e transformadora. Em 1974, o Ilê Ayiê saiu pelas ruas do bairro da Liberdade, inaugurando o primeiro bloco afro do país, permitindo que apenas homens e mulheres negras desfilassem no cortejo. A partir dele, outras organizações surgem ou se fortalecem – como o Olodum, criado em 1979, o Malê Debalê (de 1979), ou mesmo o afoxé Filhos de Gandhy, nascido em 1949, mas que atravessava um longo período de crise e renasce nos anos 1970, com a presença de Gilberto Gil (egresso do exílio em Londres) entre os associados. 

Este movimento ficou conhecido como “reafricanização do Carnaval”, trazendo elementos da cultura africana, com instrumentos de percussão (atabaque, timbal e repique), além de palavras e símbolos do candomblé para a festa de rua. 

O trio elétrico, no entanto, não é abertamente defendido como a criação de um homem negro. “Muita gente nem sabe como é o rosto de Dodô”, pontua Devolder. Por uma iniciativa própria, desde o Carnaval de 2023, a banda BaianaSystem tem insistentemente puxado um coro de “Dodô é preto”, para delírio dos milhares de foliões que seguem o grupo liderado por Russo Passapusso – o grupo tem na Guitarra Baiana o instrumento fundamental para suas bases rítmicas.

Somado à questão racial, Passos elenca outro motivo para explicar a perda de protagonismo de Dodô. Ele cita a morte precoce do músico-eletricista (vítima de uma embolia pulmonar, em 1978) comparada à longevidade de Osmar Macêdo, que veio a falecer em 1997, dezenove anos depois. “Osmar pegou o boom da Axé Music, vivendo tempo suficiente para alcançar o invento inserido e consolidado na engrenagem do Carnaval. Seus filhos, pelo talento artístico, se consolidaram como uma segunda geração e, gradualmente, foram produzindo um discurso que os colocava mais ao centro da invenção do trio elétrico.”

Para a família de Dodô, reivindicar o legado do patriarca é um ato de fortalecimento da cultura negra. “A Bahia aceita um preto dançarino, um preto cantor ou um preto artista. Mas quer apagar um preto inventor e cientista. É preciso mostrar quem foi o verdadeiro criador do trio elétrico”, diz Carlinhos Nascimento.