questões das redes

A era do espólio digital

Como famílias usam as redes sociais, ainda mais infladas com seguidores, após a morte de políticos e artistas 

João Batista Jr.
01abr2021_15h51
Ilustração de Paula Cardoso
Ilustração de Paula Cardoso

O vereador de Salvador Irmão Lázaro (PL) morreu aos 54 anos de Covid no dia 19 de março. Além de mulher, duas filhas e muitos amigos, deixou em luto outros milhões de seguidores. O ex-integrante do grupo Olodum (é de sua autoria o hit I Miss Her, dos anos 1990) e cantor gospel (seu canal no YouTube ultrapassa 108 milhões de visualizações) era o segundo político do Brasil com maior força no Facebook: 8,7 milhões de seguidores. Só perdia para o presidente Jair Bolsonaro, com 10 milhões de seguidores na mesma rede.

Na era das redes sociais, a morte de famosos, seja do mundo da política ou do entretenimento, causa outro efeito além da tristeza: uma corrida de gente seguindo os perfis de quem acaba de partir. “O Irmão Lázaro tinha 1,2 milhão de seguidores no Instagram e, três dias após o sepultamento, esse número saltou para 1,6 milhão”, diz Neinho Silva, cunhado do político e responsável por suas redes sociais. Hoje, já são 1,7 mi.

Foi Neinho Silva quem teve a ideia de criar uma conta de Facebook para o cunhado, então neófito na vida política, que acabara de ser eleito deputado federal no ano de 2014. Apenas o político e Silva tinham as senhas de todas as redes. Com a morte do cunhado, Silva ficou responsável por administrar seu espólio digital. “Ainda estamos com dor e vivendo o luto, mas já é certo que as redes vão seguir ativas e fortes. Até porque temos um grande propósito”, explica.

Irmão Lázaro deixou oito músicas inéditas gravadas, que serão lançadas em suas redes após a fase de pós-produção. Além disso, suas contas vão servir como plataforma para arrecadar recursos para a manutenção da Comunidade Terapêutica Sentimento Novo, centro de apoio para dependentes químicos criado por ele em Feira de Santana. “Para manter essa estrutura, precisamos de ajuda financeira. Os fãs conhecem o trabalho sério que fazemos”, diz o cunhado. Irmão Lázaro, aliás, tinha a sua história de superação: ele próprio havia superado o vício em cocaína.

Morto no dia 18 de março também por Covid, o senador paulista Major Olimpio (PSL), de 58 anos, era da bancada da bala e dos influenciadores. Ele somava 463 mil seguidores no Twitter, 600 mil no Instagram e 1,3 milhão no Facebook. Quando estava intubado na UTI do nono andar do Hospital São Camilo de Santana, em São Paulo, então sem consciência, as redes de Olimpio foram alvo de discussões sobre qual rumo tomar.

Antes de Olimpio morrer, houve um impasse entre a família e a equipe do senador. Sua mulher, Cláudia, nervosa e preocupada por não ver melhora no marido, resistia a falar publicamente do estado de saúde do senador. Já sua equipe estava sendo pressionada por imprensa e seguidores para serem mais transparentes sobre o caso. Internado desde o dia 2 de março, e acostumado a compartilhar muito conteúdo, o político eleito com 9.039.717 votos estava ausente das redes – o que fez com que surgissem especulações sobre a sua morte. A notícia da morte foi veiculada antes de ela acontecer, em mais de uma ocasião. Para evitar ruídos e desinformações, família e equipe chegaram ao acordo: divulgar um boletim por dia, sem dar muitos detalhes, algo que aconteceu a partir do dia 15 de março.

Com a morte de Olimpio no dia 19, a família ficou com as senhas de todas as plataformas também gerenciadas antes, além de pelo senador, por sua equipe. Publicou mensagens convocando para missa online, e nada mais foi postado desde então.

A partida abrupta de Gugu Liberato por um acidente doméstico em novembro de 2019, em Orlando, impulsionou as redes de um dos apresentadores de tevê mais conhecidos do país. Com a morte, ele passou de 1,9 milhão para 3 milhões de seguidores no Instagram. De lá para cá, no entanto, perdeu seguidores e hoje conta com 2,6 milhões de fãs nesta rede.

Gugu terá nova presença no mundo digital. “Batemos o martelo na semana passada, com os filhos dele”, explica Esther Rocha, melhor amiga e assessora de Gugu por três décadas. “Instagram, Facebook e Twitter farão parte da ‘Rede Gugu de Boas Notícias’”, onde publicaremos um conteúdo por dia para divulgar coisas boas e campanhas sociais.” Esther diz que esse projeto era um desejo antigo do apresentador, que agora será colocado de pé.
“Não queremos ganhar dinheiro, mas essa será a base de uma futura Fundação Gugu Liberato, em prol da educação e de outras causas sociais.” A estreia dessa nova fase de Gugu nas redes será no dia 10 de abril, quando o apresentador completaria 62 anos de idade.

Para além de administradores oficiais, comandados por parentes e antigos funcionários, há fãs que criam perfis dedicados aos artistas mortos. Técnico de TI de 21 anos e morador de Barra de Santa Rosa, na Paraíba, Felipe Alencar criou o perfil @MemoriasdoGD no Instagram, que hoje soma 35 mil seguidores. “Eu posto vídeos, fotos e homenagens, tenho alto engajamento e apoio da família dele”, diz. O perfil oficial de Gabriel Diniz, administrado por seu pai, Cizinato, sempre marca o perfil do fã. “Já recebi proposta para fazer publi de mercados e comércios da minha cidade, para aproveitar minha alta audiência, mas não topo. Ganhar dinheiro em cima de um ídolo que morreu não tem o menor sentido.” 



João Batista Jr. (siga @joao_batistajr no Twitter)

Repórter da piauí, publicou A Beleza da Vida: A Biografia de Marco Antonio de Biaggi (Abril)

Leia também

Últimas

“Queima” de cloroquina pré-CPI

Após 337 dias no ar, Ministério da Saúde apagou recomendação para uso da droga às vésperas de comissão ser instalada no Senado

Mais nebuloso e mais conservador

Professores respondem a tréplica de Benamê Kamu Almudras

Pseudônimo para quem?

De que forma um monólogo pode se esconder por detrás de um diálogo

Paulo Gustavo mirava carreira internacional com Amazon a partir de 2022

Humorista estava de saída do Grupo Globo e já tinha assinado contrato de cinco anos com plataforma de streaming

Lava-se de tudo – sangue, pó e propina

Empresa de cobrança virou lavanderia de dinheiro para contrabandistas e PCC; esquema movimentou pelo menos 700 milhões de reais em quatro anos

Valores em desuso

Dois Tempos celebra amizade e afeto ao som de violões

A médica e o burocrata

No Brasil profundo, pequenos poderes se misturam com preconceito e Covid para compor uma tragédia

Mais textos