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“Eu sou a bicha medonha”

    João Victor Uliana na boate ZigDuplex, em São Paulo, depois de um infeliz acontecimento Foto: Acervo pessoal

vultos da internet

“Eu sou a bicha medonha”

A humilhação pública e a volta por cima de um jovem estatístico capixaba

Tiago Coelho | 06 fev 2026_08h47

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Eu sei que você, conhecendo ou não a história da “bicha medonha”, veio aqui atrás de uma fofoca. E vai tê-la, no tempo certo. O vídeo de sunga na Itália, o balde de vômito na boate ZigDuplex, a turba impiedosa do Twitter, hoje X. Você também deve ter achado a frase do título incomodamente autodepreciativa. Mas ela me foi dita pelo próprio. O nome dele é João Victor Uliana, um rapaz de 29 anos. Perguntei: “Posso colocar essa frase no título?” Ele respondeu sem titubear: “Pode sim. Estou num processo de ressignificação do apelido.”

Quando conversamos, já fazia alguns meses que João Victor vinha sendo alvo de chacota na internet e estava disposto a transformar a experiência em algo proveitoso. Ele me contou os detalhes do que viveu. Mas, antes de chegarmos a eles, é essencial que você saiba que a história de João Victor não se resume a constrangimentos online. E que há muito tempo ele encara os desafios de ser um garoto gay neste mundo. Então vamos começar pelo começo.

 

I – Uma criança viada em Cariacica

 

A infância de toda criança viada é marcada por traumas e rejeições que a acompanham desde cedo. João Victor nasceu em Cariacica (ES), município da Grande Vitória, no fim dos anos 1990. Família de classe média baixa: a mãe era atendente de uma pizzaria e o pai, cinegrafista. “Nunca passei dificuldades, mas também nunca tivemos luxo”, diz João Victor. Ele era um garoto magérrimo e comunicativo. Daquelas crianças que não passam despercebidas e cujo nome é decorado pelos professores no primeiro dia de aula. “A magreza é genética, tenho um metabolismo muito acelerado”, ele explica. “E nunca tive vergonha de nada. Meu sonho era ser ator, mas no Espírito Santo eu não teria muita oportunidade.”

Diferentemente das crianças que se encaixam nos padrões de gênero e sexualidade, uma criança queer pode passar a infância toda sendo incomodada, maltratada, rotulada, observada, reprimida e discriminada por ser quem é. Nunca lhe é permitido ser simplesmente uma criança. “Desde muito pequeno eu pensava: ‘Nossa, tem alguma coisa diferente em mim que incomoda as pessoas.’ Sabia que eu tinha algo diferente dos outros meninos, mas o quê?”

Não demorou para se dar conta. “Desde sempre eu fui uma criança viada”, ele diz. E uma criança viada incomoda muita gente…

 

II – Na escola

 

“Eu sofria muito bullying na escola. Tipo, muito mesmo. Me chamavam de viadinho ou de magricela. Ou as duas coisas ao mesmo tempo”, diz João Victor. Mas o que mais doía era ser desprezado por quem deveria protegê-lo. “Um professor de matemática era amigo dos meninos que faziam bullying comigo, e ele ria das piadas que faziam.” A crueldade ficou mais elaborada com o passar do tempo. Os garotos acharam divertido prender João Victor numa caixa de papelão enquanto chamavam-no de viadinho e palito de fósforo. Ele era afeminado e jamais deixou de sê-lo. Não por falta de esforço. “Eu juro que tentei, mas simplesmente não conseguia”, ele diz. “Se um dia eu realizar meu sonho de virar ator, não vou conseguir interpretar um hétero. Vou ter sempre que fazer o papel da bicha.”

Nos idos de 2010, Lady Gaga, Orkut, Glee, Gossip Girl, calça skinny, status no MSN: “ninguém me entende”, se apaixonar pelo melhor amigo hétero, sofrer em silêncio, postar foto triste do Tumblr, tudo isso compunha o mundinho de um garoto gay. João Victor estava entrando na adolescência e não aguentava mais tanta chacota. Precisava de uma saída. Decidiu se aproximar de alguns primos mais velhos que estudavam na sua escola e percebeu que, no grupinho de amigos deles, não enfrentava a mesma rejeição. Em parte, porque os garotos eram mais tolerantes com aquele menino pequeno e inofensivo. Mas também porque João Victor era carismático e engraçado. “Fiz amizade com uma galera mais velha e eles me defendiam.” A companhia dos adolescentes o protegia, mas João nunca deixou de ser insultado. “Tudo isso me chateava, mas eu erguia a cabeça e seguia. Até porque eu via que os adultos responsáveis da escola não faziam nada contra toda aquela perseguição.”

E foi assim que ele aprendeu, como um menino gay, a se levantar das quedas com mais brilho e purpurinas do que mágoas.

 

III – Na igreja

 

João Victor foi uma criança viada e católica. Assim como John D’Emilio, Gregory Maguire, Pedro Almodóvar, Andy Warhol, Rock Hudson, Ricky Martin, Pasolini, Sam Smith e Renato Russo. Por volta dos 11 anos, já tinha clareza de que era gay e se sentia mal pelo que ouvia na igreja. “Me lembro que eu rezava pedindo: ‘Deus, tem como você me curar? Tipo, eu não quero ser assim, eu quero ser igual aos meus primos que são héteros.’”

Na primeira eucaristia, ouviu das catequistas que beijar sem intenção de namorar era pecado. E essa foi uma das advertências mais leves. Com frequência os clérigos tocavam o terror citando trechos do Levítico, livro do Antigo Testamento. Passavam recados como “um homem não pode deitar-se com outro homem”. João Victor aprendeu essa regra também na missa e no Encontro de Jovens com Cristo, um programa para a evangelização de jovens. “Falavam muito em sodomia. Eu pesquisava no Google e pensava: ‘Vou pro inferno, acabou para mim.’” O garoto ficava apavorado e triste. Desejava ardentemente não ser o que era. 

Aos 14, João Victor foi fazer a crisma, um ritual de confirmação da fé. Catequistas instruíram-no a confessar ao padre todos os seus pecados. E sem mentir, porque Deus, segundo elas, não tolerava mentiras. O garoto se sentiu pressionado. Tinha aprendido que o seu desejo pelo sexo masculino era pecado. “Passei semanas em pânico pensando no que diria ao padre.” 

Mas, se era para encarar a cólera divina, achou melhor que fosse pela verdade do que pela mentira. Quando se sentou diante do padre, disparou: “Oi, padre, então, eu gosto de meninos.” Esperava uma bruta reprimenda que não veio. Dando de ombros, com enfado, o pároco respondeu: “Tá, né? Fazer o quê?” Em seguida orientou que João Victor fosse até o Santíssimo (o ostensório onde são consagradas as hóstias) e rezasse dez ave-marias e dez pai-nossos. “Pensei: ‘Então tá tudo certo, né?’ Achei que ele fosse me passar um sermão, fazer o maior drama, e ele nem tchum.”

Depois disso, João Victor se afastou da igreja. “Naquela época, me assumi, vi que não havia nada de errado e cheguei à conclusão: sou assim, não é pecado e não acredito no que a igreja diz.”

 

IV- Na família

 

De um jeito ou de outro, os pais sempre sabem ou desconfiam quando um filho é gay. Os pais de João Victor o matricularam no karatê, judô, handball… Ele sempre saía um mês depois, porque não se adequava. Nas artes marciais, apanhava. Nos esportes coletivos, ninguém passava a bola para ele. 

Há algumas perguntas insistentes que as famílias fazem aos adolescentes quando há uma mínima suspeita de que são gays. Parecem revestidas de inocência, mas não são. A pressão esconde um incômodo. “Cadê a namoradinha?”, “Quando vou conhecer a minha nora?”, “Qual o nome da garota que você gosta?”

“Minha família já sabia que eu era gay. Ainda assim minha mãe me perguntava: ‘Quando você vai trazer uma namoradinha aqui em casa?’ Aquilo ia me enchendo, me matando aos poucos por dentro”, diz João Victor. Aos 16, ele abriu mão de se esconder. Certo dia, confrontado com as cobranças da mãe, respondeu: “Eu não vou trazer namorada, não. Vou trazer um namorado.” A mãe reagiu: “Nossa, sério?” Ele retrucou: “Olha, não se faz de boba, não, porque você já sabia há muito tempo.” E foi assim que João Victor se revelou.

Ele diz que a mãe lhe fez um pedido: “Não fala isso para ninguém ainda, não. Deixa só entre a gente por enquanto.” Um pedido que ela mesmo não cumpriu. “No outro dia minha madrinha me ligou: ‘Fiquei sabendo de uma história aí…’ Família italiana bocuda. Minha própria mãe espalhou.” João Victor lembra do conselho que ouviu de um parente: “Você sabe que, sendo assim, vai ter que se esforçar três vezes mais do que os seus primos.” Ainda hoje João Victor acha que ele não disse por mal. Estava apenas lhe adiantando uma verdade cruel da vida.

Mesmo com os atritos, João Victor diz que nunca deixou de se sentir amado pelos pais. Depois da revelação, se sentiu apoiado. “Nunca cheguei a falar abertamente da minha sexualidade com meu pai. Mas ele sabe e não se incomodou.” Ninguém na família jamais levantou uma bandeira de arco-íris ao saber de sua orientação sexual. Mas pequenas coisas faziam-no se sentir amado. Quando era criança, brincava de boneca com as primas e ninguém o reprimia. “Apesar do jeito deles, a minha família me permitiu ser quem eu era. O bullying na escola me afetava, mas ao mesmo tempo eu sempre fui uma criança muito feliz em casa.”

Além da família, havia outra instância que reconfortava João Victor: a música pop. Ele é parte de uma geração que cresceu ouvindo Lady Gaga. “Foi escutando as palavras dela, nas músicas, que consegui me aceitar e dizer: ‘Eu nasci desse jeito, não é um problema, não é pecado e não acredito que Deus me veja como um pecador.’ Me aceitei e nunca mais tive conflitos com minha sexualidade.” João transformou os limões da vida numa pink lemonade.

 

V- O primeiro amor

 

Sim, você quer saber da treta da internet e do apelido “bicha medonha”. Segura, os refrescos já serão servidos. Mas não fique achando que a vida de João Victor Uliana se resume a bafões em redes sociais. Ele, como muitos garotos homossexuais no início da vida amorosa, desejou viver um bonito romance. Mas, entrando na adolescência, se ressentia por não gozar da mesma liberdade que suas amigas heterossexuais. Ter um namoradinho, tomar sorvetinho, andar de mãos dadas na praça, essas coisas de casal. “Eu sofria muito. Sentia inveja das meninas recebendo flores na escola, namorando no pátio, e eu não podia.”

João Victor era um aluno excelente, sobretudo em matemática. Logo percebeu, matematicamente, a impossibilidade de ter um namoradinho na escola. Porque: na escola X em que ele estudava, o conjunto (G) representava todos os alunos gays assumidos. João era o único elemento desse conjunto, ou seja, (G = {João}). 

Pergunta: João poderia formar um par apenas com elementos de (G)? 

A resposta: G={João}, G=1. Para formar um par seria necessário G ≥ 2. João estava lascado. O número um representa singularidade absoluta. Isolamento.

Quando João Victor era pequeno, um de seus primos foi atropelado. Sua mãe, por isso, tornou-se protetiva em excesso, temendo que algo parecido acontecesse com seu filho. João Victor só foi atravessar a rua sozinho pela primeira vez aos 12 anos. Mas, por volta dos 16, teve acesso à janela que todo adolescente recluso abre para respirar: a internet. Conheceu outros meninos em comunidades do Orkut e do MSN. Era assim que os adolescentes gays faziam nos anos 2000. Era onde se conhecia gente com as mesmas afinidades e os mesmos problemas. Assim João Victor se deparou com um menino chamado Gabriel e, conversa vai, conversa vem, marcou de conhecê-lo pessoalmente no cinema.

“Foi a primeira vez que beijei”, diz João. “Lembro que senti coisas que nunca tinha sentido. Aí eu cheguei inocente pro Gabriel e perguntei: ‘É assim mesmo? Tipo, você também tá sentindo isso?’ Eu não sabia o que era aquilo.”

Mas o que havia de tão estranho no que João estava sentindo?

“Eu posso falar com todas as letras na piauí?”, ele me perguntou.

“Claro”, respondi.

“Então, eu senti o meu $@& ficar #%&*, saca?”

“Tesão”, resumi.

“Isso.”

A excitação sexual é uma sinfonia cerebral. Tudo começa com um estímulo: um toque, um olhar, um cheiro, um som, uma fantasia. Posicionado no centro do cérebro, o sistema límbico rege a orquestra: a amígdala toca as notas do prazer e da atração (e também gera alguma ansiedade); o hipotálamo acende o fogo do desejo, regulando hormônios que fazem o corpo vibrar; o hipocampo resgata memórias de prazeres antigos, como ecos de melodias conhecidas; o núcleo accumbens libera dopamina, a pulsação da música; e o córtex cingulado anterior interpreta o compasso do parceiro, guiando cada gesto e cada escolha. É um concerto natural, intenso e delicado, pelo qual passam todos, heterossexuais e LGBTQIA+. Um balé de sensações que transforma estímulos em desejo. É muita coisa acontecendo. Era natural que João Victor ficasse confuso sendo tão inexperiente.

Naquela época, para passar por essa aventura, ele precisou dizer à mãe que estava indo ao cinema com “amigos”. Bem, João e Gabriel de fato ficaram amigos. Até hoje são. Mas não rolou nada mais do que o beijo cheio de tesão no cinema. E foi difícil para João Victor ter uma vida romântica com a marcação cerrada da mãe. Só voltou a beijar na faculdade.

 

VI – A desilusão

 

João Victor era um ano adiantado na escola, e por isso entrou na faculdade com 17. Passou para o curso de estatística na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), que fica em Vitória, na capital. Ele sempre soube que era um curso difícil, que muita gente abandonava, mas que os profissionais da área, uma vez formados, recebiam salários relativamente bons. João levava mais ou menos uma hora de ônibus para percorrer o trajeto de sua casa, em Cariacica, até o campus. Acordava às cinco da manhã para a aula das sete.

Quando um adolescente entra para a universidade, por mais zelosos que sejam os seus pais, já não há muito o que controlar. É um momento de inevitável individuação. Durante o primeiro período, João, sempre comunicativo, quis participar de festas e chopadas das calouradas. Mas, por vezes, foi barrado por ser menor de idade. Passou então a usar a tática dos tempos de escola: fazia amizade com veteranos e assim era colocado para dentro. A voltagem homofóbica no ambiente universitário é mais baixa do que no ambiente escolar.

Ele sentia que não demoraria muito a ter sua primeira relação amorosa e sexual. “Naquela época, eu tinha na minha cabeça uma certa… sei lá, uma culpa cristã? Não, não. Uma idealização de que minha primeira vez tinha que ser com um namorado, alguém que eu amasse. Tinha que ser especial. E aí o tempo foi passando, tipo, 16, 17, 18, e essa pessoa não vinha nunca.” 

Foi com 19 anos que João Victor passou a ter um crush num carinha da faculdade. “Ele me deu uma moral um dia. Foi com ele a oportunidade de perder minha virgindade e perdi. Foi a minha primeira vez e foi horrível.” A decepção não parou ali. “Depois ele me largou e não quis nada comigo. Eu não significava mais nada para ele. Então toda a minha idealização romântica de um príncipe encantado caiu por terra.” A certa altura, enquanto relembra a história, o estatístico troca o tom sorumbático por um mais confiante: “Enfim, caí na real que as coisas eram assim, e isso me deu um pouco mais de maturidade para entender como funcionava a vida adulta e alguns relacionamentos em parte do mundo gay onde as relações são mais frívolas.”

Mais cedo ou mais tarde, de um jeito ou de outro, é triste, mas todo mundo cai nas estatísticas da rejeição. 

 

VII – A depressão

 

O ano de 2016 foi difícil. Os pais de João Victor se separaram. Tudo aconteceu numa época próxima à da desilusão amorosa na faculdade. A rotina acadêmica, enquanto isso, ficava gradativamente exaustiva. João vivia suas primeiras experiências profissionais e logo teria que entregar o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). “Comecei a reprovar em algumas matérias por causa da rotina muito pesada. Desenvolvi um quadro de ansiedade e depressão.” Para lidar com a situação, passou a tomar remédios. “Descobri que minha depressão também passava pela genética. Minha avó e minha mãe também têm depressão. E um diagnóstico médico mostrou que eu tinha um tipo de depressão resistente a medicamentos.”

Perguntei se todo o histórico de rejeição, na escola, na igreja, contribuiu para o seu adoecimento. Ele respondeu que sim. “Ser um homem gay, afeminado, no mercado de trabalho, é muito desafiador. Ouvi de um amigo que, na empresa em que a irmã dele trabalhava, o pessoal colocava um carimbo com uma carinha feliz no currículo de candidatos gays que faziam entrevistas, para que eles não fossem chamados. Isso me preocupava.”

Prestes a se formar, João Victor conseguiu um estágio numa fintech em Vitória. Saía de casa às cinco da manhã e só voltava às onze da noite. Ralava muito para ganhar 1.600 reais trabalhando no setor de identificação de fraudes. Com o tempo, se valeu de seu carisma para ganhar a confiança dos veteranos. Aproveitava cada chance que tinha no elevador ou no cafezinho da empresa para fazer networking. “Eu enchia o saco das pessoas da área de dados: ‘Vamos tomar um café?’, ‘Estou me formando, tem uma vaga para mim?’ Eu ia pedindo para todo mundo, até que o meu primeiro chefe gostou de mim e me contratou como analista de dados. Passei a ganhar 3.500, depois fui promovido e meu salário dobrou.” Ele tinha 23 anos. Consegui mudar completamente o meu padrão de vida e também o da minha mãe.”

Mas quando a pandemia chegou, em 2020, João Victor mergulhou de volta na tristeza. “Eu tinha muito medo de a minha mãe ou alguém da minha família morrer. Eu trabalhava de home office e passava o dia trancado em casa. Voltei aos tempos de reclusão e solidão da adolescência. Minha vida era jogar LoL [League of Legends] com meus amigos na internet. Fiquei ainda mais deprimido. Ao longo dos anos, cheguei a tomar mais de doze remédios e a depressão não passava. Eu continuava caindo num buraco cada vez mais fundo.”

 

VIII – Uma história de filme de terror e uma virada de sorte

 

Eu sei que você já veio longe demais para saber da fofoca. Mas, para sua informação, a vida do João Victor é cheia de outras boas fofocas. Quer saber do date assustador que ele teve num cenário de filme de terror?

Quando acabou a pandemia, João ganhou uma bolsa para fazer um curso de verão de três semanas em Ohio, nos Estados Unidos. O objetivo era estudar gerenciamento de projetos na Ohio University. “Fiz muito networking por lá, conheci gente de tudo quanto é lugar.” Bem longe de casa, ele podia experimentar uma liberdade que jamais tivera. A universidade fica numa cidade pequena e rural no interior do estado. João Victor baixou o Tinder e deu match com um rapaz local. “Super bonito! Era um típico american boy, loiro do olho azul.”

Os dois combinaram de se encontrar no cinema. Depois do filme, o american boy convidou João Victor para esticarem a noite. E mandou a famosa senha: “Meus pais não estão em casa.” João Victor aceitou: “Ok, let’s go!” Partiram no carro do bofe americano. Tudo em volta da pista era escuridão. Eles já estavam há mais de quarenta minutos na estrada e nada de chegar. Passavam por lugares rurais ermos, onde o farol do carro iluminava apenas trechos de plantações. Do lado de fora, o barulho dos animais noturnos. Uma hora depois, chegaram. Entraram por uma estradinha de terra ladeada por um milharal. Uma neblina espessa encobria a plantação. Os sons dos animais eram vívidos, pareciam próximos. João Victor, numa tensão crescente, olhou o celular. O sinal não pegava ali. O farol iluminou um corpo disforme no meio da plantação. João Victor sentiu um calafrio.

Lembra do sistema límbico que agiu no cérebro do João Victor quando ele estava com tesão? O mesmo sistema é acionado quando estamos com medo. Medo e excitação operam lado a lado. No cérebro do João, a amígdala disparou o alarme do medo. O hipotálamo acionou as reações fisiológicas: aumento da frequência cardíaca, arterial e respiratória, dilatação das pupilas e transpiração acima do normal. O córtex pré-frontal fica em alerta e decide se o alarme é real ou exagerado. Depois de todo o alarde, ele constatou que o corpo na escuridão era apenas um espantalho com roupas humanas largado na plantação para espantar aves intrusas. Alívio, mas não muito.

Mal deu para João se recuperar do susto com o espantalho. De dentro da casa, saiu um cão enorme, uma raça que ele nunca tinha visto. “Meu Deus, é agora que vou dessa pra uma melhor”, pensou. Ele já havia avisado a uma amiga sobre o date no cinema, mas ela não sabia do after. João Victor achou que, se desaparecesse naquele fim de mundo, ninguém jamais o encontraria. Os sons enigmáticos dos animais noturnos aumentavam a tensão.

Contíguo à casa, havia um enorme celeiro, bem típico dos filmes de Hollywood. Aquela construção de madeira tão familiar o assustou ainda mais que o cão. Ele sabia que, nas histórias de terror, ninguém que entrava naquele tipo de barracão saía vivo. Assim que viu uma barrinha de sinal na tela do celular, João Victor tirou discretamente uma foto do celeiro e mandou para a amiga, junto com sua localização em tempo real. O boy perguntou se João Victor queria entrar. “Bom, é agora que eu vou morrer”, ele pensou.

Medo e tesão operando o mesmo sistema. O segundo prevaleceu. Os dois entraram na casa, e a noite foi ótima. “Ele não era nenhum psicopata, era um cara muito legal. A gente ficou. Depois ele me levou até meu dormitório na cidade universitária, às quatro da manhã.” Ao descer do carro, ainda na penumbra, João Victor levou uma carreira de um veado (o cervídeo), que o fez correr em disparada. “Eu olhei para ele, ele olhou para mim e veio na minha direção. Saí correndo, subi uma escada, esperei ele sair, depois fui para o meu dormitório.”

Nem tudo foi perrengue, é claro. João Victor viajou pelos Estados Unidos. Em Nova York visitou o Joanne Trattoria, restaurante de comida italiana no Upper West Side que é comandado pelo pai da Gaga. “Ele estava lá. Contei para ele que eu sou o maior fã da Gaga no mundo. Mostrei a tatuagem que fiz do álbum Artpop. Contei que já tinha ido vê-la em Chicago e num deserto da Califórnia, e que mato e morro por ela. Ele perguntou se eu tinha gostado da comida, disse que era receita da família. Tiramos uma foto juntos.”

João Victor em Venice Beach, durante sua temporada americana (Crédito: Acervo pessoal)

 

 

IX- A solidão em São Paulo

 

João Victor, desde a escola, é um networkeiro de primeira. Fez bons contatos nos Estados Unidos e voltou de lá com um convite para uma entrevista numa multinacional com sede em São Paulo, capital. Passou para o cargo de analista de dados, com um belo salário. Mudou-se para a cidade no início de 2024.

Foi difícil. Nunca havia morado sozinho, e teve que aprender a fazer comida, lavar banheiro, roupa, cuidar de si. São Paulo se mostrava grande, indecifrável e taciturna mesmo para um garoto sociável como João. O bom salário vinha em troca de uma rotina maçante de trabalho. A afetação workaholic da cidade lhe sugava as energias.

Desde o fim da pandemia, a depressão estava relativamente sob controle. Mas o baque da mudança fez com que ela acenasse novamente para o garoto. “Eu não tinha vontade de sair. Dormia um fim de semana inteiro.” É difícil formar uma rede de amizades quando se chega, de uma hora para outra, num lugar com 11,9 milhões de habitantes. Mas João Victor continuou fazendo tratamento psicológico. Depois de alguns meses, a vida lhe sorriu de volta. “Comecei a fazer aula de teatro, que era meu sonho desde pequeno. Comecei a andar em parques, museus, sair, conhecer pessoas, lugares, restaurantes, bares, festas queer.” 

Uma festa LGBTQIA+ nunca é só um espaço de lazer e entretenimento. Ela tem uma função de acolhimento muito importante para um jovem gay solitário numa cidade como São Paulo. Essas festas reduzem a sensação de isolamento, o estresse do cotidiano, e são uma rede de apoio para um grupo que ao longo da vida precisa lidar com a rejeição. São, muitas vezes, espaços de cuidado emocional.

João Victor forjou na São Paulo cinza e introspectiva um El Dorado queer. Tudo ia bem, até que dois eventos o derrubaram. Chegou o momento que você estava esperando.

 

Fofoca #1: Um momento feliz é estragado

 

A rotina de trabalho era exaustiva, mas o salário de João Victor lhe permitia rodar o mundo. Em fevereiro de 2024, ele foi esquiar em Aspen, nos Estados Unidos. Se acidentou na neve e rompeu um ligamento no joelho. Pagou cerca de 2 mil dólares por um raio-x, que foi coberto pelo seguro-viagem. O exame apontou que ele precisaria se submeter a uma cirurgia, o que ele fez já de volta ao Brasil. Como precisaria andar de muletas por duas semanas, seu melhor amigo, Lucas, viajou de Vitória a São Paulo para acompanhá-lo.

“Só que eu tenho um fogo no cu muito grande”, explica João Victor. “Não consigo ficar parado. Eu tinha que permanecer de repouso, mas depois de uma semana ia ter uma festa muito legal no Ephigenia. E eu falei para o meu amigo que queria ir.” O Ephigenia é uma balada cool na cobertura de um prédio no centro histórico de São Paulo. Mesmo com o joelho mais esfarelado que o da Gaga, João foi.

“Arrumei um banquinho, na pista mesmo, e fiquei lá sentado, bebendo, curtindo. E nisso, a gente fez amizade com um grupo do Sul, não lembro de qual estado. Eles ficaram todos em volta de mim, dançando, me incluindo no rolé. E a gente batendo o maior papo.” Uma menina do grupo foi particularmente simpática com João. Eles conversaram e ela desabafou, dizendo que tinha uma empresa com o marido e que ele havia passado a perna nela. “Ela estava tendo que se reconstruir, quase chorou enquanto contava. Dei meu ombro para ela, ouvi com carinho”, lembra o rapaz. “A gente se seguiu no Instagram e ela me mandou uma mensagem: ‘Amei sair com você, já quero de novo.’ Ela sempre respondia meus stories dizendo ‘lindo’, ‘amei’… Então, na minha cabeça, ela era uma pessoal muito legal.”

Depois, com o joelho já recuperado, João Victor, o primo e a namorada do primo planejaram uma viagem pelo Sul da Itália. Era agosto de 2024, verão europeu. “Essas férias eram para me dar um refresh, para eu esquecer um pouco dos meus problemas, sabe? Eu estava realmente feliz. Muito feliz.”

João Victor, feliz, em suas férias na Itália (Crédito: Acervo pessoal)

 

João Victor postava fotos e vídeos da viagem nos stories do Instagram. Num desses vídeos, ele apareceu de sunga. Ao fundo, via-se uma vila italiana encarapitada num rochedo, um mar cristalino repleto de banhistas e muita luz natural. João Victor é um rapaz muito alto, de pernas compridas e magro. A gravação foi feita de um ângulo que realçou o seu contorno esguio e deixou braços e pernas alongados. Foi feita espontaneamente. Dá pra ver que ele foi pego de surpresa.

Algumas horas depois de postar o vídeo, João Victor estava no hotel se arrumando para voltar à praia, em Palermo, quando abriu uma notificação no celular. A tal garota do Sul que ele conheceu na boate e que considerava amiga havia feito dois comentários reagindo à postagem.

“Meu Deus que bicha medonha”

“Eu sigo seguindo ele só porque não posso deixar de acompanhar como ele é estranho”

João Victor leu e ficou chocado. “Meu olho encheu de água. Fiquei muito mal. Era como se alguém tivesse me apunhalado no coração. Aparentemente, ela tentou compartilhar o story com alguém, falando mal de mim, mas acidentalmente mandou para mim mesmo.”

A única reação de João Victor foi responder: “Acho que você esqueceu de compartilhar, amor.”

As palavras da falsa amiga fizeram-no lembrar dos tempos da escola. Das crianças zombando de sua aparência. Então ele ficou ali, com o celular na mão, chorando baixinho. “Acabou com o meu dia de viagem. Depois a gente foi turistar, mas eu não queria mais tirar ou postar fotos. Eu nem queria sair do hotel. Fiquei muito, muito mal mesmo.” Quando voltou para o quarto, João Victor releu as mensagens. Ainda esperava que a menina enviasse um pedido de desculpas, explicando que fora tudo um engano. Mesmo uma justificativa inventada amenizaria o seu mal-estar. “Mas ela não falou nada. Foi maléfica mesmo. Talvez ela tenha mandado para o meu direct de propósito, por ser uma pessoa má.” 

Como em tantos outros momentos de sua vida, João tentou dar a volta por cima e rir da situação. Tirou um print da conversa vexatória e postou no X dizendo apenas “Bom dia”. Depois foi passear. Quando pegou de novo no celular, viu que a postagem tinha mais de 40 mil curtidas, 7 milhões de visualizações e uma infinidade de comentários, risadas e memes.

“Aquilo me provocou um misto de sentimentos. De certa forma, me senti vingado porque teve gente que ficou do meu lado e foi lá tentar derrubar o perfil da falsa no Instagram. Fizeram um escarcéu, um balança-caixão. Por outro lado, muita gente fez body shaming, criticando meu corpo, dizendo que eu era medonho mesmo. Tinha gente que chamava a garota falsa de diva por ter debochado de mim. E aí fiquei muito mal. Virei chacota.”

João Victor relembra o momento em que o tal vídeo foi gravado. Por que causara tamanha reação? “Eu estava com meu primo e a namorada dele, e falei: ‘Me filma, que eu vou pular na água.’ E era um vídeo onde eu pulava na água. Só isso. Um vídeo inocente, para os meus amigos. Eu estava estranho, meio corcunda naquele frame que viralizou. E era essa a imagem que as pessoas tinham de mim. Foi assim que começou a história da bicha medonha.”

Na escola, João havia sido vítima de chacota de algumas crianças, dezenas talvez. Agora tinha virado motivo de piada de milhares. Parecia o Brasil todo. “Tudo o que eu tinha construído de autoestima foi por água abaixo. Voltou à estaca zero.” João Victor levou o episódio para a terapia. O analista perguntou: “Você se acha medonho?” João respondeu que não. “Então simplesmente não ligue para a opinião dos outros”. Mas não era simples. Um rapaz no Tinder o reconheceu e certo dia mandou mensagem perguntando: “Você é a bicha medonha?” 

 

Fofoca #2: Outro momento feliz é estragado

 

Não havia muito que João Victor pudesse fazer além de deixar o tempo passar e torcer para que as pessoas esquecessem o apelido. Aos poucos, teve a impressão de que elas estavam mesmo esquecendo. Até que numa noite de sábado, em junho do ano passado, as coisas mudaram de rumo. João Victor estava em casa jogando Fortnite com os amigos. Ele andava numa fase sossegada. Não saiu na sexta-feira e pretendia passar o sábado no aconchego doméstico. Mas se você é jovem, gay e extrovertido numa cidade como São Paulo, com um punhado de amigos, dificilmente passará o fim de semana sem que um convite lhe bata à porta. À uma da manhã, Madson, amigo de João Victor, mandou uma mensagem:

“Vamos pra Zig, tá tendo festa da Sophie.”

“Nossa, amigo, mas eu estou com sono, já é uma da manhã.”

“Vamos!”

“Me dá dez minutos para eu pensar e te respondo.”

Em três minutos João Victor já estava se aprontando.

A ZigDuplex é uma balada queer no centro de São Paulo. E Sophie é uma DJ escocesa que produziu Madonna e Charli XCX. Foi a primeira transgênero a ser indicada ao Grammy. A festa seria uma homenagem a ela, que havia morrido havia pouco tempo.

Algumas semanas antes, João Victor tinha ido a Londres para assistir à turnê Cowboy Carter, da Beyoncé. Ganhou, no show, uma amostra grátis da máscara capilar Cécred by Beyoncé, que no Brasil chega a custar mais de 500 reais. E comprou de presente para si uma camiseta listrada da Holland Esquire, marca britânica de luxo. Decidiu ir para a ZigDuplex com a camisa listrada, uma calça preta largona da Urban Outfitters e um tênis Converse com salto. Hidratou o cabelo com o produto da Beyoncé e passou uma base no rosto.

“Meu cabelo ficou perfeito. Fiquei com cheiro de rico, cheiro de Beyoncé, e muito bonito”, conta João. Ele finalizou a produção com algumas gotinhas de Gucci Flora Gorgeous Gardenia. Um perfume de cheiro doce e frutado. E partiu. Em meia hora estava na festa. Feliz, pegou uma Skol Beats, dançou, conversou. A ZigDuplex tem um mezanino cujo piso é vazado com grades e onde funciona um bar. Quem está embaixo, na pista, vê quem está em cima.

O garoto fervia na pista quando de repente… Lembra da cena do filme Carrie, a Estranha em que um balde de sangue de porco cai na cabeça da protagonista? Foi igualzinho. Talvez pior. Lá de cima, do mezanino, caiu o equivalente a um balde de vômito na cabeça do João Victor. A balada toda fez um círculo em volta dele, todo mundo olhando assustado o garoto encharcado no caldo quente.

“Era muito. Não consigo lembrar o cheiro porque entrei em pânico. Digo que era um balde porque era um volume tão grande que só podia ter sido armazenado num balde. Quando percebi que era vômito, olhei pro chão e fiquei imóvel. Minha máscara capilar, minha camiseta… Caiu vômito dentro da minha Skol Beats. O mundo parou, me desconectei do universo.”

O amigo de João Victor o pegou pela mão e o levou ao banheiro, onde limpou com papel toalha tudo o que pôde. João, ainda bastante sujo, estava catatônico. Até que se olhou no espelho. “Nesse momento voltei à vida e pensei: ‘Cara, eu tô muito feliz. Tipo, não vou deixar isso estragar minha noite. Se eu for para casa agora, vou ficar chorando as pitangas. Mas não vou, amor. Não vou. Nada vai estragar minha noite.’ Eu sou muito resiliente.”

João saiu do banheiro e avisou ao pessoal da portaria da boate: “Segura meu nome que daqui a pouco eu tô voltando.” Foi para casa, tirou a roupa, botou de molho as peças vomitadas, tomou banho, lavou o cabelo duas vezes e retornou para a ZigDuplex. De novo na pista, ganhou outra Skol Beats como cortesia da casa. As pessoas ficaram de queixo caído: “Você voltou?!” Ele havia triunfado mais uma vez. Mas não por muito tempo.

Quando chegou em casa, de madrugada, João Victor resolveu publicar um tuíte direcionado à ZigDuplex, pedindo esclarecimentos sobre o incidente. Escreveu no calor da emoção. E o calor da emoção que bate na madrugada não é um bom companheiro para quem tuíta. É nesse horário que as almas mais fofoqueiras da internet ficam de butuca, esperando o vacilo de algum emocionado. “Quando fui ver, já tinha cem curtidas. Me desesperei. Não queria viralizar de novo. Ainda estava traumatizado. Então apaguei o post.”

Tarde demais. Já tinham feito um print do tuíte, que começou a circular em diferentes postagens. No dia seguinte, uma delas já tinha mais de 20 mil curtidas. Vinha acompanhada de uma frase: “Nossa, estou em choque com a história da bicha que foi vomitada na Zig.”

João Victor tinha virado a bicha vomitada. Não demorou até que alguém ligasse os pontos. “E vocês não vão acreditar”, escreveu um usuário. “A bicha vomitada é a bicha medonha.” Quarenta mil likes no post do querido. “Lá estava eu, mais uma vez, viralizando com situações esdrúxulas. E novamente reconhecido como a bicha medonha”, lamenta João.

A situação chegara ao limite. João Victor resolveu então gravar um vídeo. “Botei minha cara a tapa para que as pessoas me vissem, ouvissem e soubessem que eu não sou medonha. Expliquei quem eu era. E viralizou. Mas dessa vez, de uma maneira muito positiva. Eu meio que virei o jogo.”

 

X – Virando o jogo

 

As pessoas comentaram: “Meu Deus, a bicha medonha não é medonha”; “A bicha medonha é bonita”; “A bicha medonha é um fofo”; “Queria ser amigo da bicha medonha.” 

João Victor descansou, exultante. “As pessoas viram que eu tinha muita história, começaram a me seguir, engajar e falar comigo, pedindo mais conteúdos. Foi uma virada total.” Ele viu que seu engajamento estava altíssimo, com milhares de likes e visualizações a cada nova postagem. “Então pensei: vou virar o jogo ainda mais. Vou usar esse engajamento para falar de adoecimento mental. Vou fazer algo de útil para as pessoas.”

Hoje, o jovem capixaba de Cariacica produz vídeos falando sobre o tratamento que fez para superar a depressão refratária. Os fãs parecem gostar quando ele posta fotos de suas aventuras pelo mundo: a turnê da Beyoncé em Londres, os shows da Gaga em Copacabana, encontros com Inês Brasil, com Gretchen, a vida como voluntário nas Olimpíadas do Rio. “A bicha medonha vive demais!”, vibram. A fanbase da bicha medonha se autointitula medonhers.

“Estou num momento de remissão da depressão. Meus vídeos com mensagens positivas viralizam. Eu sempre quis ser famoso, mas eu não tenho talento nenhum. Não sei cantar, não sei dançar, não sei tocar um instrumento. O meu talento é ser eu. Por isso que era meu sonho entrar no BBB, porque aí eu ia mostrar o meu talento, que é ser eu.”

Quando voltou à ZigDuplex algumas semanas depois, João Victor foi recebido como uma celebridade: “Que tudo! Tô conhecendo a bicha medonha!”, celebrou um jovem rapaz. “Foi aí que abracei esse rótulo”, diz João Victor. “Eu sou a bicha medonha. Ressignifiquei o xingamento. Mas não vou largar a carreira de cientista de dados, porque não foi fácil chegar até aqui.”

João ainda nutre aquele velho sonho de viver um grande romance. E quer conhecer a pessoa que vomitou em sua cabeça. Com fins pacíficos, esclarece. “Se ela quiser se manifestar ao ler essa reportagem, eu adoraria conhecê-la. Ela acabou gerando um plot twist na minha vida.” Já a mona que o menosprezou no Instagram, dela a bicha medonha quer mesmo é distância.

*

A vida é cheia desses altos e baixos, como os tantos da trajetória de João Victor. Quando conversou com a piauí pela primeira vez, em julho do ano passado, ele estava numa fase muito feliz, positiva, otimista. Tinha conhecido um novo amor, um cara sensível que lhe escrevia cartas e poesias. Em outubro, porém, João Victor perdeu esse amor, que passava por uma depressão. Suicídio. O capixaba reforça a necessidade de se buscar ajuda diante de um quadro de depressão. No momento, está sendo bem doloroso. Mas ele vai dar mais uma volta por cima e voltar a ver as coisas boas da vida. Como tem feito desde criança. 

Tiago Coelho
Tiago Coelho

Repórter da piauí e roteirista de cinema

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