anais do fogo

A expedição dos caciques e o silêncio da floresta

Repórter percorre terra indígena ameaçada por queimadas, desmatamento e pelo avanço da fronteira agrícola no Sul do Amazonas

Rodrigo Pedroso
24set2019_10h23
Felipe Tenharin observa a nascente do rio –
Felipe Tenharin observa a nascente do rio – Foto de Rodrigo Pedroso, com intervenção de Paula Cardoso

A nascente do Rio Marmelos, no Sul do Amazonas, é um fio d’água avermelhado e fraco. Aos 64 anos, Felipe Tenharin, um dos anciões de sua tribo, olha para o leito do rio onde troncos, rochas e bancos de areia ganham espaço sobre a água. Sua voz se eleva sobre o barulho do rio, e ele começa a cantar. Cinco caciques tenharins se agrupam para ouvi-lo, e a voz ressoa, como em um transe, entoando um canto sagrado sobre os antepassados. O lugar também é sagrado: é na nascente do Marmelos, segundo as crenças de seu povo, que habitam os espíritos da floresta e dos que se foram. Depois de quarenta anos sem visitar o lugar, Felipe repete o canto, mas as lágrimas o impedem de terminá-lo. O que viu ao subir o rio foi mais uma ameaça à existência do seu povo. O fogo das queimadas de agosto e setembro esturricou o que pôde até a margem e parou a poucos metros antes de alcançar o rio. Quilômetros e quilômetros de campos amazônicos, bolsões de cerrado na floresta tropical e que também fazem parte da terra indígena Tenharin/Marmelos estão ardendo nesta temporada de queimadas, a mais forte da qual podem recordar os velhos das aldeias.

A reportagem da piauí acompanhou uma expedição de caciques tenharins que percorreu a região de queimadas em suas terras até a nascente do Rio Marmelos. Durante dois dias, duas caminhonetes rodaram 240 km para avaliar a extensão das queimadas e pedir apoio das autoridades para debelar o fogo. A terra dos Tenharin, de meio milhão de hectares, está cercada por madeireiros, grileiros e fazendeiros, e hoje se encontra na fronteira da expansão agrícola e do desmatamento no Amazonas. Abrigava 828 indígenas em 2014, de acordo com os últimos dados do Sistema de Informação da Atenção à Saúde Indígena (Siasi), vinculado à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) do Ministério da Saúde. 

Desde o começo de agosto até 16 de setembro o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou 34 focos de calor na terra dos Tenharin. Em agosto, os incêndios na Amazônia brasileira queimaram o equivalente a uma Bélgica e colocaram o Brasil no centro de uma crise internacional. A questão ambiental brasileira está no centro do discurso do presidente Jair Bolsonaro nesta terça na abertura da sessão das Nações Unidas.

Os dados dos satélites traduzem o fogo visto do espaço. De baixo, o que se vê nos campos amazônicos, alvo da expedição dos caciques, são cortinas de incêndio na restinga que havia sido queimada em agosto, mas que voltou a crescer com a chuva. A reserva indígena tinha uma brigada de incêndio com 29 homens treinados pelo ICMBio entre os tenharins. Mas os cortes de verbas deste ano reduziram o número a dezoito combatentes. Na ida até a nascente, a 135 km da aldeia Marmelos, a principal dos tenharins, uma parede de fogo de 15 km de extensão se avistava ao longe. A altura do fogo vai de meio metro a dois metros de altura, dependendo do porte da vegetação.

O fogo e o rastro e destruição dentro da Terra Tenharin Marmelo – Fotos de Rodrigo Pedroso

 

Na volta, no dia seguinte, o fogo havia avançado até a estrada criada pelos brigadistas para combater as chamas, contidas com o uso de abafadores. À noite, a cena é apocalíptica: o fogo grita e cria pontos vermelhos na escuridão. À luz do sol, os vestígios aparecem: árvores carbonizadas, tocas de tatu incineradas, esqueletos de jabuti e cobras que não escaparam. Não se ouvem pássaros, antes abundantes. Não se avistam mamíferos, que antes se moviam em bando. Aqueles que conseguem fugir escondem-se nos bolsões de floresta, que também estão sendo atingidos. Castanheiras, seringueiras e açaizeiros, fonte de renda para os indígenas, também foram incinerados. Os fiscais dizem não saber quem são os responsáveis pelo fogo.

Depois da expedição, a brigada da reserva pediu ajuda ao Exército para enviar um avião para combater o fogo. Sem tempo de esperar a burocracia, os brigadistas partiram da aldeia na noite seguinte com a caminhonete de que dispunham. O satélite do Inpe mostrou que eles apagaram os focos. No outro dia, mais pontos de calor apareceram na tela. 

“Olha como está fraca essa nascente. É o peixe que segura a água. Sem ele a água seca”, explicou o ancião Felipe, sentado no chão da selva enquanto descansava à noite. Mostrou-se angustiado com o futuro próximo de seu povo. “Nossa aldeia depende do rio. Se os peixes não conseguem subir para cá para desovar, não vai ter [peixe] depois lá embaixo.” Lá embaixo quer dizer cinco dias descendo o rio de barco com motor de popa desde o ponto em que o Marmelos cruza as aldeias, cortadas pela BR-230, a rodovia Transamazônica. O maior medo de Felipe depois que se acercou de uma das paredes de fogo que roçava os campos é que essas labaredas passem para o outro lado da nascente, ainda a salvo.

Bióloga e geógrafa, a professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Viviane Vidal da Silva estuda a dinâmica da região desde que se mudou do Rio de Janeiro para o Sul do estado, em 2006. Explica que o fato de Felipe ter visto nada mais que alevinos na nascente é um indicativo de que a água pode estar secando porque a cobertura vegetal da mata ciliar não está suficientemente protegida. A fuligem das queimadas é levada ao rio pelo vento ou chega ao leito em forma de chuva ácida, avermelhando a água. “Essa vegetação é extremamente diversa e, na seca, pega fogo fácil, o que causa o esgotamento de nutrientes e perda da biodiversidade. Se esse processo for muito grande e prolongado, esses campos podem até virar um areal no futuro.”

Em sua tese de doutorado, a pesquisadora estudou os assentados de Santo Antônio do Matupi, distrito de Manicoré que faz divisa com a reserva indígena. Quase todos os entrevistados eram paranaenses que subiram de Rondônia porque a terra era mais barata. O processo é parecido com o observado em outras regiões da floresta. Primeiro os madeireiros entram em área de manejo legal e, quando acaba a madeira nobre, começam a extraí-la de áreas públicas, reservas ou unidades de conservação. Depois queimam o que sobrou e abrem espaço para a entrada de grileiros que vendem a terra para fazendas de gado ou soja. Com ou sem intenção, o fogo, sem fiscalização ou controle, passa para áreas protegidas.

“O Sul do Amazonas foi demarcado com terras indígenas e unidades de conservação como tentativa de barrar a expansão vinda de Rondônia e Mato Grosso. O avanço dessa fronteira está na base de todos os conflitos e é um processo que está acelerando nos últimos anos”, comenta Vidal em uma sala de aula na sede da Ufam em Humaitá, município a Oeste da reserva Tenharin e que lembra cidades do interior do Paraná, com ruas amplas e casas com quintais e recuos – traços da migração paranaense na região. O calor e a umidade, no entanto, acusam que se está pisando no Norte do Brasil.

Os campos sofrem com queimadas naturais, causadas por tempestade de raios, mas também há um fator humano, diz Vidal. A terra dos tenharins está cercada por madeireiros, grileiros e fazendeiros, espremida, como o Sul do Amazonas, entre o arco do fogo e o arco do desmatamento. As duas expressões, porém, se referem ao mesmo fenômeno: o avanço da fronteira do modelo econômico na região, centrado no extrativismo e na monocultura. 

A última vez em que o Ibama e a Polícia Federal fizeram uma grande operação na zona a pedido dos indígenas, em novembro de 2013, desencadeou-se uma série de eventos que seguem repercutindo na vida dos tenharins e dos moradores de Humaitá e Matupi, outra cidade próxima. No mês seguinte à operação, o cacique Ivan Tenharin foi encontrado inconsciente na margem da Transamazônica e morreu no hospital. Duas semanas depois, três moradores não indígenas de Humaitá desapareceram no percurso entre a cidade e Matupi, dentro dos 55 km de estrada dentro da terra indígena. A população não demorou para acusar os tenharins pelas mortes, como vingança pela morte de Ivan. 

A 123 km da terra indígena dos Tenharin, Humaitá, cidade de 55 mil habitantes, vive da exploração da madeira e do garimpo. Na noite de Natal de 2013, Humaitá ardeu. A população queimou a Casai (Casa de Saúde do Indígena) e a sede, os carros, as motos e o barco da Funai. A cobrança de pedágio ilegal na estrada, praticada pelos indígenas desde 2006 como compensação informal pelos danos da Transamazônica e que aumentou a tensão com os não indígenas, teria sido outro motivo para a revolta. Os 140 indígenas que estavam na cidade naquele Natal tiveram que ir para o Batalhão do Exército para serem removidos em segurança para as aldeias. Uma megaoperação da Polícia Federal com o Exército e as polícias do estado foi montada para debelar o caos na cidade e buscar os desaparecidos. Aqueles que não apareceram foram encontrados no mês seguinte, enterrados na floresta. Em janeiro de 2014, a Polícia Federal entrou no caso e o Ministério Público determinou a prisão de cinco tenharins, que cumpriram pena com o processo em andamento até 2015, quando passaram à prisão domiciliar por decisão de desembargadora do Amazonas. O caso segue em aberto na Justiça do estado. O inquérito local apontou que o cacique Ivan morreu em um acidente de moto. Os tenharins rejeitam essa versão e dizem que ele foi assassinado em represália às denúncias contra madeireiros e grileiros. 

Depois daquele Natal, lideranças tenharins sofreram ameaças de morte. O cacique Antônio Enésio, coordenador-geral da Organização dos Povos Indígenas do Alto Madeira (Opiam), só saía da reserva sob escolta da Polícia Federal e para resolver problemas urgentes. Ninguém deixava o lugar sem autorização, e as forças policiais monitoravam quem entrava ou saía da terra. Os indígenas cogitaram fechar a estrada, o que provocaria uma guerra com os não indígenas. A estimativa dos próprios indígenas é de que existam 3 mil tenharins, somando os que vivem nas cidades e em outras duas áreas de reserva na região. “Aos poucos estamos voltando a ter mais contato com a sociedade em volta, mas sofremos pressão de todos os lados: fazendeiros, madeireiros e, agora, o fogo. E ainda por cima há esse novo governo que quer legalizar o garimpo e rever nossas terras. São muitas frentes de luta ao mesmo tempo”, diz Enésio.

O Ibama e o Instituto Chico Mendes (ICMBio), responsáveis por fiscalizar a terra, foram praticamente enxotados da região. Em 2017, em represália a uma operação do Ibama no Rio Madeira contra o garimpo ilegal, a população de Humaitá ateou fogo mais uma vez na sede e em veículos do Ibama. O Incra e o ICMBio também foram alvo da fúria pirômana. A Polícia Federal investigou o caso e prendeu temporariamente por associação criminosa e dano qualificado o prefeito, Herivâneo Seixas (Pros), e seu vice, Rademacker Chaves (PSD). Ambos estão soltos e respondem ao processo em liberdade.

Seixas e Chaves seguem no cargo. O prefeito nega associação com os garimpeiros, apesar de aparecer em um vídeo caminhando ao lado dos humaitaenses gritando contra os órgãos federais no dia dos incêndios. “Tudo aqui é culpa do prefeito: se queima, se chove, se faz sol. Mas graças a Deus eu estou tranquilo, o processo continua correndo. Não fui eu que queimei”, afirmou à reportagem da piauí

Em 2018, segundo dados do Inpe, o desmatamento nos municípios de Humaitá e Manicoré, pelos quais se estende a Terra Tenharin Marmelo, somou cerca de 130 quilômetros quadrados. Até hoje as sedes do Ibama e do ICMBio em Humaitá continuam queimadas e inutilizadas. O Ibama na cidade será fechado definitivamente, segundo anúncio do governo federal no final de agosto. As operações serão centralizadas em Manaus, a 591 km de distância. O ICMBio diminuiu quase à metade o número de brigadistas em terra Tenharin neste ano e conta apenas com uma caminhonete para chegar aos incêndios. A orientação de Brasília é que eles não devem falar com a imprensa salvo com autorização da diretoria do órgão. Uma fonte, no entanto, relatou à piauí que em 2018 a brigada tinha o dobro de combustível para atuar nas queimadas e que mesmo com a estrutura melhor que a deste ano, foi difícil ser efetivo no combate ao fogo. Para a próxima temporada de seca, ano que vem, a tendência é que a situação se agrave.

Depois de voltar da expedição à nascente do Rio Marmelos, o cacique Antônio Enésio senta para descansar na aldeia cortada ao meio pela Transamazônica. As casas, de madeira, são esparsas e convivem com pés de manga e castanheiras, disputados refúgios de sombra em meio ao calor. A vida corre em ritmo mais lento, interrompido só pelo som e fúria das carretas que passam levantando poeira. O campo de futebol, colado na rodovia, é o centro das atenções nos finais de semana, ao passo que o posto de saúde, atrás dele, funciona dia e noite. A casa de cultura, onde se realizam celebrações e encontros tradicionais, está ao fundo, distanciada da rodovia. Os tenharins despertam cedo e se recolhem cedo. Quando o sol está a pino, a aldeia se recolhe para as redes. Quando amaina, as crianças saem para brincar, e os vizinhos se visitam.

A 40 metros da estrada, Antônio Enésio explica que desde 2013 não há monitoramento da divisa da reserva com o distrito de Santo Antônio do Matupi, pois falta apoio logístico da Funai e do Ibama de Humaitá. Os índios suspeitam de que madeireiros estejam derrubando árvores nobres dentro da reserva e levando-as para oito serrarias instaladas na floresta. Conforme ele conta, um caminhão sem placa carregado de tábuas de madeira passa pela estrada. 

No domingo passado, para quem saía da terra Tenharin, a balsa para atravessar o Rio Madeira tinha uma fila de dezoito carretas, cada uma com cinquenta toneladas de tábuas de madeira cortada na floresta. O sol se punha, dourava os bancos de areia do Madeira e queimava a pele dos motoristas, nervosos com o congestionamento atípico nesta travessia. As cargas rodavam a caminho do Rio de Janeiro, onde serão embarcadas para o exterior. Estudo da MAAP [Monitoring of the Andean Amazon Project, a sigla em inglês] mostra que a maioria das queimadas deste ano no Brasil ocorreu em áreas que foram desmatadas meses antes desta época de seca. É a fronteira em expansão.

O superintendente da Polícia Federal no Amazonas Alexandre Saraiva afirmou à piauí que 98% da madeira apreendida na última grande operação no estado contra madeireiros, em 2017, no porto de Manaus, tinha origem ilegal. Metade iria para a Europa e a outra metade tinha como destino o mercado interno. A PF criou uma base do Grupo de Investigações Ambientais Sensíveis no distrito de Matupi neste ano para desmontar a extração nessa região da floresta. Um grupo será colocado no embarque da balsa para Humaitá no próximo mês, enquanto a inteligência prepara operações. “Ali vai estrangular os madeireiros, não tem como passar por outra rota. Começamos no porto de Manaus, o Sul do estado é o próximo passo. Não chegamos do dia para a noite e não sairemos do dia para a noite”, afirma. “Não é só uma questão de meio ambiente, mas também de economia. Estão roubando madeira que pertence à União, a todos.” 

Na aldeia Marmelos, alheio aos movimentos das autoridades e órgãos de fiscalização, o ancião Felipe Tenharin observa o jogo de futebol entre Juventus e Corinthians, times de jovens tenharins que disputam o campeonato entre aldeias. Sentado em um tronco próximo ao gramado com outros anciãos, Felipe fuma tabaco e observa os chutões de ambos lados. O vento aliviava o sol inclemente, sinal de que a tarde começava a cair. Felipe é irmão de Ivan Tenharin, o cacique encontrado morto. A decisão de ir até a nascente do rio depois de tantos anos teve um sentido: lembrar o irmão e ver mais uma volta no nó que estrangula sua terra, sufocada entre o fogo e o desmatamento. Foi por tudo isso, pelos mortos e pelos vivos, que o velho tenharin cantou e chorou.

Rodrigo Pedroso

É jornalista e mestre em sociologia. Foi repórter do Valor Econômico e hoje é freelancer e escreve sobre temas latino-americanos

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