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    Ben Smith, fundador do Semafor, um dos convidados do festival deste ano Foto: Marcelo Saraiva

festival piauí de jornalismo

A tecnologia como aliada e ameaça no combate à desinformação

Em sua oitava edição, evento reuniu jornalistas de sete nacionalidades em São Paulo para falar sobre trabalhos notáveis na luta contra a opressão de governos, a disseminação de ódio em redes sociais e notícias falsas cada vez mais críveis

Luigi Mazza | 05 dez 2023_13h45
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As potencialidades e armadilhas do jornalismo de dados, a autocensura na Índia, as agruras da imprensa venezuelana, o pânico da inteligência artificial. Esses foram alguns dos assuntos discutidos no oitavo Festival piauí de Jornalismo, que reuniu profissionais de sete nacionalidades e diferentes expertises na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, nesse final de semana. Além das mesas de entrevista, o evento teve uma programação paralela de workshops que ensinaram desde a metodologia do jornalismo satírico até cavar pautas no Google Trends.

O tema do Festival, este ano, foi Desinformação, redes e inteligência artificial na era da verdade sintética. A primeira entrevistada, Lam Thuy Vo, alemã de família vietnamita, é repórter do The Markup, site de notícias fundado em 2018 nos Estados Unidos e que se propõe a investigar o impacto da tecnologia na vida das pessoas. Ela contou a história de algumas de suas maiores reportagens e alertou, com exemplos, para os riscos que o jornalismo corre quando se fia cegamente em estatísticas. Todo dado tem um viés, ela pontua.

A jornalista Mara Luquet, entrevistada na segunda mesa do Festival, contou por que decidiu trocar a televisão pelo Youtube. Depois de dez anos no telejornalismo, ela pediu demissão da GloboNews em 2017 e fundou o MyNews, um canal independente que inovou ao ser o primeiro veículo noticioso exclusivo do YouTube. E Marina Guevara, editora-executiva do Pulitzer Center, explicou sua visão sobre a inteligência artificial. Para a jornalista argentina, estamos tratando de um universo quase totalmente desconhecido, e por isso é preciso cautela. Guevara defende que veículos do mundo inteiro atuem de forma colaborativa para investigar as empresas de IA, seus métodos, suas falhas e seus interesses financeiros.

Ainda no sábado, Ben Smith, um dos jornalistas americanos mais bem-sucedidos de sua geração, falou sobre a criação do Semafor, site de notícias que estimula seus repórteres a expressarem opiniões nos textos que escrevem. Ele também comentou as controvérsias que cercam esse projeto. Fundado há pouco mais de um ano, o Semafor contou com um investimento do empresário do ramo de criptomoedas Sam Bankman-Fried, recentemente preso por fraude. O site, diz Smith, devolveu os 10 milhões de dólares injetados por ele.

Na última mesa do dia, o jornalista indiano Kumar Sambhav descreveu como o governo de Narendra Modi está sufocando a imprensa livre. Os veículos de comunicação na Índia são muito dependentes de verbas de publicidade do governo, o que os leva a ser, em geral, lenientes com as autoridades. Repórter experiente, com passagens pelo The Times of India, Hindustan Times e Al Jazeera, Sambhav contou que descobriu um furo de reportagem em 2016 sobre corrupção em licitações do governo, mas demorou sete anos até conseguir publicá-lo. O motivo? Nenhum órgão de imprensa queria o risco de se indispor com Modi.

Enquanto isso, na programação paralela, estudantes, curiosos e apreciadores do humor tiveram a oportunidade de aprender os segredos do The piauí Herald. Num workshop que durou seis horas (com intervalo para almoço), Roberto Kaz e Afonso Cappellaro, redatores da seção de humor da piauí, ensinaram os dez mandamentos do humor satírico. O primeiro deles: “Não aceitarás a primeira piada” (afinal, convenhamos: as primeiras ideias não costumam ser as melhores). Os participantes do workshop se dividiram em grupos e escreveram suas próprias notícias satíricas, que no final foram debatidas pela turma.

 

O segundo dia de festival começou com Patricia Muratori, diretora do YouTube para a América Latina. Há dez anos no Google, empresa dona do YouTube, Muratori enumerou as medidas que a plataforma de vídeos vem tomando para evitar a propagação de discursos de ódio. Em cinco anos, disse ela, o YouTube reforçou sua equipe com 20 mil pessoas que trabalham como moderadoras, checando tudo o que é publicado. Muratori, no entanto, defendeu que a empresa não pode ser responsabilizada por cada vídeo que veicula.

Na mesa “Conversa com a Fonte”, a repórter da piauí Angélica Santa Cruz entrevistou o epidemiologista Carlos Augusto Monteiro, perfilado pela revista em outubro do ano passado. Monteiro foi quem criou o termo “alimentos ultraprocessados” para se referir à comida industrializada que prolifera nas prateleiras de mercados. O conceito mudou a forma como especialistas em saúde pública, no Brasil e no mundo, lidam com o assunto. No festival, o médico explicou como chegou a essa formulação, o que mudou de lá para cá, e comentou sua dieta pessoal. Não toma refrigerante e não tem simpatia por chocolates como KitKat.

O britânico Henry Collis, ex-funcionário público e atual diretor do Centro de Resiliência da Informação (CIR), explicou os métodos que usa para checar estatísticas e evitar, com isso, a desinformação. Tão importante quanto ter dados é saber organizá-los e situá-los em contexto. Ele listou técnicas que ajudam nesse processo, como geolocalização, cronolocalização e cruzamento de dados com origens em diferentes plataformas.

Max Fisher, autor do livro A máquina do caos: Como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo, participou da quarta mesa no domingo e de uma sessão de autógrafos na Cinemateca. Tornou-se, com isso, o primeiro convidado a participar de duas edições do Festival piauí. Referência no debate sobre mídias digitais, Fisher explicou como os algoritmos hackeiam a mente humana e, em situações extremas, podem resultar em tragédias – caso do genocídio ocorrido em 2017, em Mianmar, quando milhares de pessoas do povo rohingya foram assassinadas. Nos meses que antecederam à matança, discursos de ódio contra essa minoria muçulmana se espalharam por meio do Facebook. Mesmo assim, pouca coisa mudou na plataforma desde então, diz Fisher. Questionado sobre a eleição americana do ano que vem, o jornalista disse estar preocupado com o papel que o TikTok pode ter na campanha. A rede é hoje a principal fonte de informação dos jovens.

O encerramento do Festival ficou por conta do venezuelano Joseph Poliszuk, que ajudou a fundar o site Armando.info em 2014, num momento em que Nicolás Maduro avançava contra os jornais mais tradicionais do país. Poliszuk se viu obrigado a deixar Venezuela depois de ter feito uma investigação que revelou segredos da gestão Maduro, e, desde então, não voltou para lá. Como não pode apurar localmente, Poliszuk se especializou no uso de ferramentas digitais, como imagens de satélite, que lhe permitem encontrar pautas mesmo à distância. A tecnologia é uma aliada dos jornalistas que vivem em exílio.

Na programação paralela, um trio de jornalistas – Sérgio Lüdtke, editor-chefe do Projeto Comprova, Luisa Alcantara e Silva, colaboradora da Folha de S.Paulo e integrante do Comprova, e Pedro Prata, editor-assistente do Estadão Verifica – fez uma oficina de checagem, ensinando a descobrir, analisar e verificar conteúdos de desinformação. Em seguida, teve início um workshop do Google Trends, que deu dicas de como cavar pautas na plataforma. A oficina foi apresentada por Marco Túlio Pires e Gabriela Caesar, da equipe do Google, com participação de Fabio Brisolla, coordenador das redes sociais da piauí, e Daniel Bergamasco, editor-executivo da piauí. O último workshop do Festival, no fim da tarde de domingo, tratou do uso de inteligência artificial por jornalistas. Quem deu a aula foi Allen Chahad, chefe de Parcerias Estratégicas e Transformação e co-fundador da Vibra, empresa spin-off de Tecnologia e estrategista digital do Grupo Bandeirantes.

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