depoimento

“A gente fica sem ação diante de tanta dor”

A rotina de uma assistente social encarregada de acolher as famílias dos mortos pela Covid

Luciana Holanda Maia
01mar2021_15h54
A assistente social Luciana Maia já chegou a dar notícia de cinco óbitos em um plantão de doze horas
A assistente social Luciana Maia já chegou a dar notícia de cinco óbitos em um plantão de doze horas Foto de arquivo pessoal

Diante da ocupação de quase 90% dos leitos para coronavírus e 11.280 mortes causadas pela doença, o Ceará voltou a endurecer as medidas de isolamento social. Em todo o estado, as ruas devem ser esvaziadas às 20 horas durante a semana e às 19 horas aos finais de semana. A assistente social Luciana Maia, funcionária de uma unidade estadual referência para a doença, contou à piauí sua rotina exaustiva de dar notícias de morte às famílias dos pacientes de Covid. Num único plantão noturno de doze horas, chegou a notificar cinco mortes. Durante a pandemia, ver cenas de reconhecimento de corpos e parentes revoltados se tornou mais comum do que já era – e se manter sã no meio disso tudo é um desafio cada vez maior.

Em depoimento a Lianne Ceará

 

Sou assistente social e atuo na área da saúde desde 2019 e, há um ano, a minha rotina é bem mais corrida que o normal. Faço plantões de 12 horas, ao chegar, pego a demanda com a colega do plantão anterior. Todos os óbitos e pendências ficam registrados no livro de ocorrências. Precisamos preencher informações de cada paciente e conhecer a dinâmica sociofamiliar através da ficha de acompanhamento. Caso tenha tido algum óbito, a assistente do plantão anterior já deixa a gente ciente. Algumas vezes os familiares chegam sem saber que o paciente morreu e nós precisamos dar essa notícia, então a gente pergunta se a família já sabe… Algumas famílias não sabem que a pessoa morreu, mas já sentem. Quando as famílias chegam ao hospital vão diretamente para o nosso setor. Somos nós quem dá o suporte. Sempre há dúvidas por parte das famílias, acham que o paciente ainda está na unidade… Mas assim que o óbito acontece, ele é retirado de lá para um outro setor do hospital. 

Atendemos às dúvidas da família. O telefone do nosso setor não para de tocar o dia inteiro, principalmente porque na ala Covid não há visita de jeito nenhum. São muitos questionamentos, é totalmente compreensível e apaziguamos os ânimos dessas pessoas. Às vezes elas querem ver o exame, conversar com o médico para ter a confirmação da causa… Quando ligamos para notificar e percebemos que a família realmente não estava preparada, a gente recomenda a ida imediata ao hospital para falar diretamente com a equipe médica.

Estamos nos dividindo para atender as demandas de todos os setores. Uma plantonista fica na ala Covid, outra fica responsável pelas demandas da sala de reanimação, outra para as internações breves, pacientes de corredor, e assim vai… Para a Covid em específico estamos com o que chamamos de Anexo Covid, um hospital-tenda que fica do outro lado da rua, lá era um estacionamento, mas desativaram uma parte para fazer essa estrutura de hospital de campanha. Recentemente, como as demandas aumentaram, tivemos que fazer uma emergência Covid. Tivemos que restringir o número de visitas e de acompanhantes nos outros setores do hospital; antes eram diárias, agora são três vezes na semana e só uma pessoa pode entrar. 

Quando há óbito, um maqueiro traz a notificação de óbito até o nosso setor para preenchermos. Dependendo do plantão, ainda dá tempo de a equipe do setor onde esse paciente faleceu ligar para nos avisar. Quando está tudo muito cheio e corrido, a gente só se depara com o maqueiro batendo na nossa porta, aí sabe que teve uma morte. Essa notificação de óbito é preenchida na “área limpa”, ou seja, na área que supostamente não tem pacientes da Covid. Tudo isso para evitar que um médico, talvez contaminado, preencha o papel que depois vai para a área limpa e acabe contaminando alguém – a gente tem esse cuidado. Quando a funerária chega, um ou dois integrantes da família vão reconhecer esse corpo. Os corpos das vítimas de Covid são embalados num saco preto com zíper na parte do tronco e pernas, mas na parte do rosto é um material transparente que facilita o reconhecimento. A família só vê o rosto.

É sempre uma cena muito difícil que se repete muito todos os dias, e a gente acha que já está acostumado… mas não devia ser assim. A família sofre muito por não poder velar esses corpos. Também há muitos questionamentos quanto às altas, as pessoas ficam inseguras. Hoje eu notifiquei quatro altas. Numa delas, liguei para uma filha e avisei que o pai já estava de alta, e ela disse: “Mas meu pai continua tendo febre, tossindo muito. Como é que ele já vai ter alta?” A gente está tendo que mandar essas pessoas menos graves para casa. Conversei com a enfermeira e ela me explicou que mesmo que dê positivo e o paciente esteja com poucos sintomas e nada grave, o certo é ir pra casa e ficar de quarentena. 

Uma das coisas que deixam as famílias muito revoltadas é quando um paciente dá entrada com outro diagnóstico no hospital e sai morto por Covid. Hoje acolhi a família de uma vítima em que a viúva ficou desesperada e questionou isso várias vezes: o marido dela havia entrado com uma necrose no pé e veio a óbito por complicações da Covid sem ao menos ter saído do hospital. Ele entrou pro corredor, foi para a ala de internação breve, depois, acabou positivando e foi para o anexo Covid; poucos dias após, veio a óbito pelas complicações da doença e já não tinha mais nada a ver com a ferida no pé. A esposa dizia que se tivessem feito logo o procedimento dele, ele teria saído logo e não seria contaminado, ela repetia muito: “Perdi meu marido, e agora?” A gente escuta esses relatos de revolta e tristeza dos familiares e fica sem ação diante de tanta dor. Outra vez, escutei de um familiar que o parente havia dado entrada com um quadro de AVC e dias depois foi positivado para o coronavírus. É um cenário muito triste porque realmente nem todo paciente que entra com o vírus vem a óbito, mas pessoas que entram no hospital com outro diagnóstico, de repente adquirem lá e morrem. A gente atende o telefone, e o familiar de um paciente que está sem Covid pergunta “mas ele não vai ficar na ala Covid não, né?”, e mesmo sem ele estar na ala Covid, perguntam se o paciente pode pegar Covid… e pode. Sempre pode, né?

Tem um horário certo pro médico ligar para a família dando o retorno, mas às vezes está tendo ocorrência com algum paciente e o médico, claro, vai dar assistência e acaba atrasando. Se passa um minuto já tem parente ligando aflito, o estresse é grande, mas a gente tem que manter a calma. 

Há dias em que precisamos acolher muitas famílias. Na semana passada, uma colega minha precisou notificar, em um plantão de doze horas apenas, seis óbitos na ala Covid. Já tive plantões noturnos em que, em doze horas, precisei notificar cinco, quatro mortes. Isso sem falar na UTI (Unidade de Terapia Intensiva)… e esses dias são os dias de maior cansaço, a gente chega em casa com a cabeça pesada, sabe? Agora a gente já sabe lidar melhor com o vírus, mas isso não tira a gravidade da segunda onda. Nossa situação é parecida ou até mesmo igual à da primeira onda, e já era previsível que isso tudo acontecesse. Mas na primeira onda sabíamos pouca coisa sobre o Sars-CoV-2, a gente se assustou muito, tudo era muito novo. Lá, dividíamos a responsabilidade de comunicar as mortes com outros setores. A enfermeira ligava pro serviço social, nós preenchíamos a notificação e repassávamos para outro órgão do Hospital. Eram muitos, muitos, muitos óbitos, tanto que criaram a sala de acolhimento desses familiares que, posteriormente, foi desativada. Agora não pretendemos trabalhar com ela pois já sabemos lidar melhor.

Mesmo trabalhando na área limpa do hospital, ficamos com medo de contrair o vírus, de levar pra casa. A gente se protege de tudo que é jeito, mas vai que, né? Infelizmente o hospital não fornece a máscara N95 para a assistência social, porque a gente não tem contato direto com os pacientes, mas usamos a máscara normal, higienizamos tudo e o tempo todo, fazemos de tudo pra não ter contato com os documentos dos pacientes, mantemos o distanciamento… apesar disso tudo, fomos uma das primeiras a receber as vacinas, e eu me senti tão lisonjeada! Eu achava que apenas os profissionais da linha de frente, médicos e enfermeiros, iam receber as primeiras doses da vacina. Mas nós, assistentes sociais, também estamos nessa luta. Parece que essa vacina fez valer a pena o trabalho. Mas ela não chegou para toda a população, então ainda temos que tomar todos os cuidados. Fiquei feliz com a primeira dose, e a segunda parece que me aliviou totalmente. Quero que todos tenham logo essa sensação.

A gente acaba se colocando no lugar da família do paciente. Não temos contato com o paciente em si, mas só pelo aperreio dos parentes, a gente sente tanto! Atendi dois filhos que tiveram a mãe transferida para a UTI do hospital que trabalho, e ela estava consciente, bem;  mas o outro irmão deles, mais novo e que ainda morava com ela, havia sido contaminado também e morrido de Covid dias antes. No outro hospital a equipe médica fazia chamadas de vídeos com eles, e ela sentia falta do filho mais novo, sempre perguntava por ele e os outros dois não sabiam o que responder. Ela não sabia que o filho dela havia falecido, e eles não sabiam o que fazer pra contar a ela, porque não tinham coragem. Planejavam mobilizar a equipe de psicólogos e a equipe médica quando ela recebesse alta para contar. Semanas depois, ela morreu com complicações da mesma doença que havia matado seu caçula. Eu só pensava que podia ser eu, podia ser qualquer um dos meus filhos.



Luciana Holanda Maia

Assistente social, atua num hospital estadual do Ceará desde 2019

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