questões epidemiológicas

Governo Doria omitiu 11 mil casos de Covid-19 em São Paulo

Dados oficiais do estado estão subnotificados em relação aos da prefeitura; plano de redução do isolamento social ignorou diferença

Camille Lichotti
19jun2020_18h13
Ilustração de Paula Cardoso

Nos últimos 70 dias, o governo do estado de São Paulo deixou fora das estatísticas oficiais de Covid-19 pelo menos 11.060 casos confirmados da doença na capital desde 7 de abril. A subnotificação se revela na comparação entre os boletins epidemiológicos apresentados pelo estado e os boletins do município de São Paulo. O governo de João Doria (PSDB) já havia se pronunciado em meados de abril sobre o que considerou um atraso na atualização dos dados estaduais, mas a diferença aumentou ainda mais nas últimas semanas. O mesmo acontece em outras cidades do estado. Até ontem (18), Santos contabilizava 528 casos a mais que os atribuídos à cidade no boletim estadual; em Osasco, na região metropolitana de São Paulo, a diferença era de 1.030 casos.

Pelos dados oficiais da Prefeitura de São Paulo, também comandada pelo PSDB, a cidade tinha 109.192 casos até o dia 17 de junho. Pelo boletim do estado, a capital tinha 98.132 casos até a mesma data. Essa discrepância nos dados afeta tanto o número total de casos quanto a evolução diária de novos registros da doença. Essa evolução é um dos critérios utilizados no plano de flexibilização das medidas de isolamento do estado de São Paulo, iniciado no dia 1º de junho. Depois dessa data, a diferença observada entre os boletins estadual e municipal para os casos de Covid-19 na cidade de São Paulo ficou cada vez maior. De 1º a 17 de junho, mais de 6 mil novos casos de coronavírus foram ignorados pelo governo Doria na capital. 

O Plano São Paulo, anunciado no dia 27 de maio pelo governo, divide as regiões do estado por fases. A fase 1 representa alerta máximo, ou seja, todos os serviços não essenciais devem permanecer fechados. A fase 4 representa a liberação de praticamente todos esses serviços, incluindo academias, salões de beleza, restaurantes etc. Cada fase intermediária representa um passo em direção à reabertura total. Para avançar para a fase seguinte, a região precisa apresentar, por duas semanas, uma melhora nos indicadores. O primeiro balanço, apresentado no dia 3 de junho, colocava a cidade de São Paulo na fase 2, em que shoppings, comércio e outros serviços já estariam autorizados a funcionar, com algumas restrições. Mas nas duas semanas anteriores à data da publicação do primeiro balanço, os dados do estado deixaram de incluir pelo menos 2.443 novos casos de Covid-19 na capital. No dia 10 de junho, a cidade de São Paulo continuou na fase 2, com autorização para o funcionamento de vários serviços  – nesse período de uma semana, pelo menos mais 532 novos casos foram ignorados no município. 

O epidemiologista Otavio Ranzani, pesquisador da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, explica que essa diferença atrapalha a análise correta da situação epidemiológica no estado. “É um atraso injustificável”, diz. Ele explica que, na realidade, a melhor forma de verificar o atual estágio da epidemia seria verificar a curva de casos baseada nos dias em que os pacientes sentiram os primeiros sintomas da doença. Isso porque o tempo que leva desde a infecção até a confirmação do resultado do exame pode ser muito longo. “Como o dia que você desenvolve sintomas é mais próximo da data de infecção, esse seria o melhor indicador para observar se a curva da epidemia está de fato caindo”, explica Ranzani. Mas os boletins epidemiológicos do estado e do município de São Paulo não apresentam esse dado, e nada indica que o estado, epicentro da epidemia no Brasil, esteja no fim da primeira onda de contaminação.



“O que está acontecendo em São Paulo podem ser novos surtos epidêmicos que alimentam ainda mais essa onda”, analisa Ranzani. Ou seja, mesmo que a taxa de transmissão diminua, as chances de novos surtos continuam sendo altas. Como a prevalência no estado de São Paulo ainda é baixa – ou seja, poucas pessoas apresentam o anticorpo para a doença –, e o vírus é muito transmissível, o risco de perder o controle da epidemia é alto. “O número de casos pode voltar a subir exponencialmente de novo, principalmente se as medidas de prevenção e isolamento forem deixadas de lado”, explica Ranzani. 

A retomada das atividades no estado acontece em um momento em que não é possível observar uma queda nos novos casos de contaminação. Na verdade, os números não pararam de crescer. No dia 17, entretanto, o boletim epidemiológico estadual apresentou uma queda de 86% no número de novos casos – comparado ao dia anterior. No dia 18, esse número caiu ainda mais. O secretário de Saúde do estado, José Henrique Germann, em entrevista coletiva, alegou que nesses dias o e-SUS – sistema online gerenciado pelo Ministério da Saúde onde são registrados os casos de Covid-19 – não estava funcionando adequadamente. A queda de dois dias consecutivos no número de novos casos não era sinal de melhora, mas um erro. A justificativa do secretário, entretanto, não explica os mais de dois meses de incongruência dos dados. 

A Prefeitura da cidade de São Paulo e o governo do estado de São Paulo afirmaram que a confirmação dos casos de coronavírus é notificada pelo serviço que realizou o atendimento do paciente à prefeitura local. A gestão municipal é responsável por abastecer o sistema oficial do Ministério da Saúde – o e-SUS –, de onde o governo estadual extrai os dados. A Secretaria de Saúde do estado de São Paulo não soube explicar por que há essa subnotificação crescente dos dados da capital em seu boletim. Por telefone, a assessoria afirmou apenas que essa diferença se dá por conta do atraso na atualização dos dados. 

*

Após a publicação da reportagem, a Secretaria de Estado da Saúde enviou a seguinte carta à piauí:

A reportagem “Governo Doria omitiu 11 mil casos de COVID-19 em São Paulo”, erra logo no título ao desconsiderar inúmeros fatores referentes às estatísticas. É completamente errado falar em omissão, sendo que a Secretaria de Estado da Saúde divulga os casos e óbitos oficialmente cadastrados pelos 645 municípios do Estado.
O Governo do Estado de São Paulo tem como premissa fundamental a transparência em todas as suas ações, inclusive com relação às estatísticas e medidas de enfrentamento à COVID-19.  É importante lembrar que a COVID-19 é de notificação compulsória, portanto os municípios, responsáveis pela vigilância e investigações dos casos, obrigatoriamente devem notificar em sistema oficial todos os casos e óbitos.
Logo, é incorreto falar em subnotificação e comparar dados publicizados pela Secretaria aos divulgados individualmente pelas prefeituras. Cada uma delas, assim como os serviços de saúde, utilizam dois sistemas federais de notificação (E-SUS e SIVEP). Priorizando a transparência, a Secretaria extrai de ambos os sistemas os dados preenchidos por todas as cidades, fornecendo-os para consulta pública no site www.saopaulo.sp.gov.br/coronavírus. Assim, é fundamental que os gestores no âmbito hospitalar e municipal atualizem e abasteçam corretamente os sistemas, contribuindo para o monitoramento de todas as esferas de governo – incluindo Estado e Ministério da Saúde.
Cabe acrescentar que a instabilidade no E-SUS, verificada desde o dia 17 de junho, impactou no número total de casos e isso também informado à população e aos veículos de comunicação. Hoje, com ajustes feitos pela equipe de Tecnologia da Informação, os números foram integralmente atualizados e chegaram a 211.658 casos confirmados e 2.232 óbitos no estado. Em nenhum momento, o Governo do Estado associou os números registrados nestes dois dias a um enredo de diminuição de casos.
Além disso, visando aprimorar as notificações, o Estado também publicou Resolução que obriga os serviços de saúde a notificarem testes e seus resultados às Vigilâncias Epidemiológicas Municipais, sujeitando o responsável, inclusive, à multa de até R$ 276 mil e penalidades previstas no Código Sanitário Estadual.
A Piauí também erra ao dizer que o Plano São Paulo “ignorou a diferença”, e desconsiderou explicações publicamente fornecidas em entrevista coletiva na tarde desta sexta-feira (19). O vídeo pode ser conferido integralmente (https://www.youtube.com/watch?v=n3lBNHPoVtg). Durante a apresentação dos critérios analisados foi deixado clara a situação com relação aos números e o compromisso de monitoramento contínuo de todos os critérios. A reportagem falha mais uma ves (sic) ao não explicar que o Plano é multifatorial e leva em conta aspectos epidemiológicos e cenários regionalizados sobre a COVID-19 no estado. Não configura uma situação estática e há monitoramento contínuo e diário, permitindo inclusive intensificação das medidas de isolamento social se necessário.
*
Nota da Redação: Em seus seis parágrafos, a nota do governo Doria segue sem explicar por que os casos de Covid-19 reportados pela Prefeitura de São Paulo são mais numerosos do que os publicados pelo governo estadual. Consultados às 12h30 deste sábado (20), o boletim da prefeitura registra 109.192 na cidade de São Paulo, e o boletim estadual contabiliza 98.530 casos na capital – uma diferença de 10.662 casos.

Camille Lichotti (siga @camillelichotti no Twitter)

Estagiária de jornalismo na piauí

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