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Kwai pagou por fake news, clonou contas e impulsionou presidenciáveis no Brasil

As artimanhas da rede social chinesa no caminho para fazer do país seu maior mercado internacional, com 48 milhões de usuários

| 05 jan 2024_08h55
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Em uma manhã de junho de 2022 os executivos brasileiros do Kwai, uma rede social de vídeos curtos, chegaram à sede da empresa em São Paulo para a primeira tarefa do dia: discutir os relatórios enviados durante a madrugada pela matriz, situada em Pequim, onze horas à frente do horário brasileiro. Naquele dia, o relatório de seis páginas, escrito em inglês e mandarim, trazia um título quase burocrático: “Riscos com os KwaiCuts e a eleição brasileira de 2022.” Mas o assunto era delicado e vinha sendo tratado em sigilo. Sua leitura mostrava o lado obscuro da rede social no Brasil.

KwaiCuts, ou cortes do Kwai, é o nome interno que designa todo material que a rede social encomenda a agências de conteúdo. Na guerra para aumentar sua audiência, o Kwai compra delas conteúdos capazes de despertar interesse e aumentar o tempo de permanência do usuário na rede. Às vezes, o Kwai diz às agências o que quer. Em 29 de dezembro de 2022, por exemplo, encomendou vídeos sobre Pelé, que acabara de morrer. Na maioria das vezes, porém, o Kwai não especifica nada, simplesmente quer conteúdo viralizante – mesmo que seja falso e mentiroso.

O relatório daquela manhã trazia uma mostra dos conteúdos produzidos pelas agências nas duas semanas anteriores e apontava 26 vídeos “problemáticos”, todos sobre a eleição presidencial que se aproximava. Os vídeos correspondiam a 22% de tudo que fora publicado como KwaiCuts na rede sobre política. O documento não detalhava o conteúdo dos vídeos. Dizia, genericamente, que continham “desinformação política”.

Uma série de medidas enérgicas para barrar posts com mentiras poderia ser tomada, mas o próprio relatório expunha a dúvida: a empresa deveria excluir os vídeos da rede e, assim, evitar penalidades e eventuais multas de autoridades brasileiras? Ou deveria ignorar deliberadamente as falsidades e, assim, aproveitar o potencial dos conteúdos para atrair mais e mais audiência?

Os executivos sabiam o que estava em jogo e tinham clareza sobre a conduta irregular que a rede vinha adotando. Um trecho do relatório, ao qual a piauí teve acesso, deixa isso evidente: “Se descobrirem que as contas KC [KwaiCuts] têm relação com a empresa, isso pode impactar severamente nossa operação no Brasil.” Em outra parte, o documento alertava que “a imprensa brasileira está fazendo mais investigações sobre aplicativos de redes sociais que espalham desinformação”.

O relatório listava cinco possíveis estratégias, que iam desde interromper a produção de “KwaiCuts sobre política até a eleição” até “manter o status quo”, o que incluía – dizia o documento – “tolerar todos os riscos”, lidar “com a cobertura negativa da imprensa” e analisar “os processos caso a caso”. A solução adotada não foi única, nem uniforme. Em alguns casos, os conteúdos foram banidos. Em grande parte deles, porém, a desinformação seguiu correndo solta na rede, sem embaraços. 

Na piauí de janeiro (assinantes podem ler o texto integral aqui), o repórter Pedro Pannunzio relata as irregularidades cometidas pela plataforma no caminho para se tornar em poucos anos um gigante no Brasil, com 48 milhões de usuários, o dobro do X (ex-Twitter), em especial das classes C e D, do Norte e do Nordeste.

A assessoria de imprensa do Kwai diz que a plataforma zela pelo bom conteúdo, que “utiliza mecanismos de segurança que atuam 24 horas por dia” e conta com “canais de denúncia nos quais os usuários podem relatar comportamentos impróprios dentro do app”. As entrevistas e os documentos obtidos pela piauí apontam para uma política deliberada de estímulo a irregularidades em busca de audiência. 

Uma das práticas irregulares foi o impulsionamento de candidatos na eleição presidencial de 2022. O TSE só permite que os próprios candidatos e suas campanhas façam isso, de forma transparente. Quando Bolsonaro estreou na plataforma, porém, em maio de 2022, a empresa sigilosamente turbinou a distribuição. Diante dos protestos da equipe brasileira da rede social, o então candidato Lula também recebeu o boost quando seu perfil foi criado. 

Outra tática é a clonagem deliberada de contas de usuários de outras plataformas – há quem descubra, do dia para a noite, que há um perfil em seu nome no Kwai. “Diversos produtores de conteúdo se queixavam da situação de encontrarem contas copiadas, achando que isso era prática de hackers ou criminosos digitais. NUNCA IMAGINARAM que a autoria de tais contas era do próprio KWAI”, relatou uma ex-executiva da plataforma em um processo trabalhista contra a empresa.

Leia aqui a reportagem completa.

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