questões educacionais

Lição de desigualdade

Aluno que desiste das aulas por não ter celular, aluna que liga porque apanha em casa, pais  desempregados que ou pagam a internet ou o gás – histórias da sala de aula em tempos de pandemia

Mariana Ceci
28abr2021_10h22
Ilustração de Carvall

De segunda a sexta-feira, a rotina na casa da professora Andreia Regina Mendes, de 43 anos, começa às seis da manhã. Enquanto seus filhos Diana, de 6 anos, e Giordano, de 7, tomam café, ela prepara a bolsinha que cada um levará na mochila, além de livros e cadernos: duas máscaras de pano e um pote de álcool em gel. Antes de sair, as crianças colocam os faceshields e a primeira máscara do dia. Ao chegarem à escola, mãos e bolsas são limpas. A circulação de responsáveis no colégio foi proibida para evitar aglomerações. Diana e Giordano estudam em uma escola particular em Parnamirim, município da Região Metropolitana de Natal. No Rio Grande do Norte, as aulas nas instituições particulares recomeçaram, no formato híbrido, em setembro de 2020, quando o número de casos e óbitos provocados pela Covid-19 começou a cair pela primeira vez desde o início da pandemia. Andreia, professora de história, não optou pelo ensino presencial de imediato para os filhos. A família passou quase um ano inteiro em casa, saindo apenas para atividades essenciais. 

Com as crianças na escola, Andreia inicia a segunda parte de sua rotina. Ela dá aulas na Escola Municipal Alzelina De Sena Valença, em Parnamirim. Leciona para estudantes de 11 a 15 anos de idade. Há um ano, seus alunos estão sem aulas presenciais. As aulas na rede pública estavam previstas para voltar no dia 1° de fevereiro, após quase onze meses de interrupção. Com o agravamento da pandemia no estado após as festas de fim de ano, no entanto, a possibilidade se desfez. O contato entre professores e estudantes foi drasticamente reduzido e, na maior parte das vezes, acontecia de maneira informal, com estratégias criadas pelos docentes. As primeiras orientações sobre o ensino remoto para os professores da rede pública começaram a chegar apenas no segundo semestre de 2020.

A professora Andreia Mendes em seu local de trabalho – Foto: acervo pessoal

 

Por conta própria, Andreia criou uma conta no Instagram, na qual postava vídeos curtos com alguns dos conteúdos estudados por suas turmas. “Muitos já têm perfil no TikTok ou Instagram, mas não têm acesso à conexão de internet. Além disso, não foi ensinado a eles o potencial educativo que existe no mundo digital. Eu não conseguia chegar a pelo menos 40% dos meus alunos”, conta. A entrega de atividades impressas foi a solução encontrada para aqueles estudantes que não tivessem acesso à internet. Municípios como Natal e Parnamirim, além da rede estadual, adotaram modelos de teleaulas para tentar chegar aos estudantes. Alguns municípios ofereceram aulas pelo rádio.

Andreia viveu, como mãe e professora, duas realidades bem diferentes. A casa da professora de história é um microcosmo da desigualdade que a pandemia ajudou a escancarar: a diferença na forma pelas quais as redes públicas e privadas enfrentaram a suspensão das aulas. Enquanto na rede privada os desafios estavam mais relacionados à adaptação ao ensino remoto, a rede pública ficou sem plano capaz de alcançar todos os estudantes. O Ministério da Educação apostava em um retorno breve às salas de aula, ignorando a realidade dos milhares de escolas com infraestrutura precária, sem ventilação adequada nem acesso a itens básicos como água e sabão – o que contribui diretamente para a disseminação do vírus.

Para muitos alunos da escola pública, a alimentação na escola é a principal do dia. Sem merenda, houve fome. A aquisição de alimentação para estudantes afastados das escolas foi um dos pontos de embate entre secretários de Educação e o MEC, que demorou a autorizar que os 36 centavos de real diários por aluno pagos pelo Plano Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) fossem utilizados para a compra de kits de alimentação para serem enviados às famílias.

“Tivemos que batalhar para conseguir a liberação dos recursos para os kits alimentares porque ele [o Ministro Abraham Weintraub] dizia que, se déssemos alimentação em casa, demoraríamos mais a voltar presencialmente”, disse o secretário de Educação do estado, Getúlio Marques. No Rio Grande do Norte, foram distribuídos três kits de alimentação ao longo de toda a pandemia para os alunos da rede – alguns dos quais chegavam a fazer até duas refeições por dia nas escolas antes da pandemia –, um deles pago integralmente com recursos do Estado.

 

Na escola onde estudam os filhos de Andreia, apenas cerca de 30% dos pais optaram pelo retorno presencial até o primeiro semestre de 2021. De acordo com o Sindicato das Escolas Particulares do Rio Grande do Norte, essa é a média de comparecimento na rede particular. É a opção de pais que precisam trabalhar em tempo integral ou cujos filhos, após um ano de pandemia, começaram a apresentar problemas decorrentes do isolamento. Na casa de Andreia, Diana se adaptou bem ao ensino remoto, mas Giordano sofria. “Com o passar do tempo, ele foi ficando irritadiço e tendo problemas de comportamento. Chorava para não ter aula, porque não conseguia acompanhar”, relatou a mãe. Só “aos trancos e barrancos”, segundo ela, se alfabetizou. Em 2021, uma psicopedagoga sugeriu a volta às aulas presenciais. “Não foi uma decisão fácil. Temos medo do contágio. Mas, após ouvir especialistas, conversar com a escola e ver que não havia casos registrados lá em 2020 após o retorno, decidimos colocá-lo no presencial”. A filha mais nova de Andreia, Diana, voltou apenas mais de um mês depois do irmão.

Giordano não é um ponto fora da curva. Muitos alunos tiveram dificuldade em se adaptar às plataformas digitais. Pedagogos, médicos e psicólogos afirmam que ainda não é possível dimensionar o impacto que a interrupção das aulas terá nos estudantes. Dentre as várias preocupações estão aquelas relacionadas à sociabilidade e ao desenvolvimento cognitivo, principalmente entre os mais jovens, fase na qual o vínculo é essencial para o aprendizado. “Temos visto um desalento profundo entre todos. As crianças estão irritadas, angustiadas, algumas com quadro de tédio generalizado”, diz a professora e psicopedagoga Erika Andrade, do Departamento de Fundamentos e Políticas Educacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Outra preocupação, diz Andrade, está relacionada ao atrofiamento cognitivo. “Ao tentar se adaptar às lógicas da mídia eletrônica, nossos cérebros tendem a diminuir sua capacidade”, explica.

Professores não passaram ao largo dos problemas de adaptação ao ensino digital. “De forma geral, não tínhamos a habilidade técnica para fazer as aulas remotas que estamos fazendo desde o ano passado”, conta a diretora do Sindicato dos Trabalhadores da Educação Pública do Rio Grande do Norte (Sinte-RN), Fátima Cardoso. “Além de terem que usar as próprias ferramentas, do computador à conexão, havia a dificuldade em fazer com que o aluno desse um retorno mínimo de aprendizagem. Muitos não tinham conexão, foi preciso fazer redes de solidariedade com porteiros e pais que viviam nos bairros para deixar as atividades impressas”, completa.

O Rio Grande do Norte foi um dos primeiros estados a anunciar que as aulas não retornariam em 2020. “Fizemos uma opção pela vida”, declarou o secretário de Educação do estado, Getúlio Marques. Até o ano de 2019, das 581 escolas estaduais, 225 encontravam-se “em condição precária”, segundo a Secretaria de Estado da Educação, da Cultura, do Esporte e do Lazer (SEEC). Dessas, 105 foram reformadas em 2019 mas, em 2020, quando chegou a pandemia, mais de 100 escolas tinham problemas de infraestrutura. “Hoje, a maioria das nossas escolas encontra-se em condições para o retorno, porque conseguimos atacar esses problemas.” Outro obstáculo para o retorno presencial é a quantidade muito maior de alunos da rede pública. De acordo com o Censo Escolar 2020, para cada aluno matriculado na rede privada no estado, há quatro na rede pública. Muitos deles dependem do transporte público. “Como é que eu vou colocar alunos nas escolas com os ônibus lotados? A escola pode não ter problemas, mas como esse menino chega à escola?”, indaga Marques.

 

Na rede privada, as aulas chegaram a ser suspensas em março, diante do agravamento da pandemia, mas retornaram pouco depois. Ao ver o impacto do retorno às aulas no filho, “que passou a acordar mais cedo, feliz e a valorizar tudo que aprendia em sala”, a professora Andreia Mendes não pôde deixar de pensar em seus alunos. Muitos deles também apresentavam dificuldades com o ensino remoto. Não tinham quem os auxiliasse nos exercícios, faltava uma boa conexão em casa e, muitas vezes, até um dispositivo eletrônico através do qual pudessem acessar as aulas.

Em Natal, a professora Lilian de Arruda, de 40 anos, conta que a sobrecarga e o estresse passaram a fazer parte de sua rotina. Lilian é professora na sala de Recursos Multifuncionais no Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) Maria dos Martírios Lisboa de Menezes. Ela trabalha com alunos com deficiência, mas seu trabalho não está restrito às aulas. Segundo a professora, parte dos pais chega à escola sem saber como ter acesso a benefícios sociais e auxílios aos quais têm direito por terem filhos com deficiência, e ela tem que ajudar. “Acabamos fazendo também essa parte de assistência social, porque as pessoas não possuem acesso às informações mais básicas sobre seus direitos”, explica.

A professora Lilian Arruda: “Vi alunos dedicados abandonando a escola” – Foto: acervo pessoal

 

Desde o começo da pandemia, Lilian não tem mais horário fixo de trabalho. “Recebo ligações de pais às 22 horas, às sete da manhã. Não tem horário, porque eles estão desamparados”, diz. Além da necessidade de atender os pais, ela viu com preocupação a escalada da violência cometida contra seus alunos. “Já aconteceu de uma aluna me ligar chorando porque a mãe tinha jogado o chinelo nela. Eu tenho que agir a partir daí, e é muito difícil a distância. É claro que quero voltar para junto deles, porque vejo o quanto eles estão sofrendo sem a escola”, desabafa.

Mãe de dois filhos, um deles matriculado na rede particular e outro na rede pública, ela conta que viu a diferença nas rotinas dentro de casa: o mais novo tem aulas remotas diariamente online, das 7 horas às 11h30. O mais velho, matriculado na rede estadual, não tem uma rotina de aulas virtuais, apenas atividades entregues remotamente pela escola.

“Muitas vezes tenho que estudar o conteúdo que eles estão vendo em sala para ajudá-los, porque os professores sozinhos não conseguem dar conta e, com o mais velho, não há o contato cara a cara com o professor, apenas as atividades. Eu fico pensando nos pais dos meus alunos, alguns que não sabem ler nem escrever. Como eles vão ajudar nesse processo, tirar uma dúvida de uma atividade?”, diz. Não há perspectivas de mudança em breve para a situação da professora. Seu filho mais velho e sua cunhada, que mora com a família, integram grupos de risco para a Covid-19. “Só podemos voltar com a vacina”, afirma Lilian. Em sua avaliação, a educação pública foi deixada de lado na pandemia. “Por mais que nós, professores, estivéssemos tentando chegar perto do aluno, tudo que foi feito foi por iniciativas pontuais, esporádicas e sem apoio das instâncias que concentram a maior parte dos recursos.”

No sábado (17/4), o Laboratório de Inovação e Tecnologia em Saúde (Lais), vinculado à UFRN e cujos membros integram o Comitê Científico do Estado, emitiu relatório recomendando o retorno gradual em formato híbrido para a rede pública, sem citar datas. Os pesquisadores reconhecem que a pandemia ainda passa por um momento crítico no estado, mas afirmam que a educação foi uma das áreas mais afetadas pela paralisação. O epidemiologista Ion de Andrade, que assina o documento, diz que é preciso garantir infraestrutura necessária para que as aulas possam voltar quando o cenário epidemiológico for favorável. “Estamos em um platô elevado no Rio Grande do Norte. É um indicador de que não é momento para flexibilizar”, disse. Ele afirma que as escolas públicas precisam entrar “com urgência” no rol de prioridades para o retorno pelas autoridades. “O que está acontecendo é um apartheid que terá consequências graves, e que só é possível graças à enorme pobreza do nosso país. Enquanto no ensino privado as crianças conseguem acompanhar as aulas online mesmo com as dificuldades por terem o básico, que é o acesso, para os alunos da rede pública muitas vezes sequer há essa opção”, destaca. 

Na primeira semana de abril, o Ministério Público do Rio Grande do Norte entrou com ação civil pública pedindo o retorno das aulas presenciais em todas as instituições públicas ou privadas, “de forma híbrida, gradual, segura e facultativa”. À piauí, a assessoria de comunicação do MPRN informou que o pedido não objetiva “que as aulas presenciais retornem hoje ou amanhã”, mas que trata da falta de prioridade dada à educação em detrimento de outras áreas não essenciais, como bares e restaurantes. A Câmara de Vereadores de Natal e a Assembleia Legislativa aprovaram projetos transformando educação em atividade essencial.

Os professores sentem a pressão cada vez maior pelo retorno e cobram vacinação em massa. “É claro que queremos voltar, mas não ao custo de nossas vidas e das de nossos alunos”, afirmou Fátima Cardoso. Ainda não há previsão de quando a categoria será vacinada, apesar de a governadora Fátima Bezerra (PT), também professora, ter pleiteado a inclusão desses profissionais como categoria prioritária no Plano Nacional de Imunização (PNI). O governo do estado afirmou que não pretende retomar as atividades presenciais sem o aval do Comitê Científico. No sábado (24/4), a 2ª Vara da Fazenda Pública da Comarca de Natal atendeu parcialmente ao pedido do MPRN, e deu 48 horas para que o estado autorizasse a volta às aulas presenciais nas redes pública e privada. O governo e o Sinte-RN pretendem recorrer da decisão. 

 

A professora Andreia Regina diz que, apesar de suas iniciativas e da tentativa de alcançar todos os alunos, sabe que não conseguiu. “Tinha um aluno ano passado que era fantástico. Gostava de ler, ver documentários. Em uma reunião pedagógica, um professor perguntou se alguém sabia dele, porque não estava enviando as atividades. Outra professora disse que ele não tinha como, porque em sua casa só havia um celular, e a mãe precisava levá-lo para o trabalho. Os danos são incalculáveis”, diz.

Ao invés de ver crescer ao longo do ano a quantidade de alunos com acesso às plataformas digitais, a professora de artes Cristiane Moura, de 35 anos, viu cair o número de estudantes conectados à internet. Ela dá aula em três escolas da rede estadual do Rio Grande do Norte, para turmas que vão do Ensino Fundamental ao Ensino de Jovens e Adultos. Seja com as crianças ou com os mais velhos, viu a pobreza invadir os lares de seus alunos. “Ao longo do ano, as pessoas foram perdendo seus empregos e o acesso foi diminuindo. Muitos pais tiveram que optar entre pagar a internet ou o gás, por exemplo”, conta a professora. 

Por iniciativa própria, Cristiane passou a levar pessoalmente as atividades quinzenais enviadas pela escola nas casas dos alunos que moravam perto dela. “Os professores estão sendo obrigados a agir por conta própria e se arriscar”, destaca. Ela reitera que iniciativas isoladas são incapazes de conter os efeitos da pandemia na educação, e que a evasão escolar, principalmente entre os estudantes mais velhos, têm se tornado cada vez mais comum. “A evasão aumentou muito. Os alunos perderam seus empregos, muitos estão vivendo de bicos. Vi alunos dedicados abandonando a escola. Isso me dói profundamente, porque cresci na periferia e sei a importância que a educação teve em minha vida.” 

Para a professora, faltou uma estratégia nacional capaz de coordenar o tripé que compõe a escola: pais, trabalhadores da educação e comunidade. “Não são apenas professores e alunos. É preciso considerar os pais, as condições de vida, o entorno.” Ela mesma tem sentido os efeitos psicológicos provocados pelo medo de retorno sem vacinas e sem estrutura sanitária adequada em todas as escolas. “Só de pensar tenho crise de ansiedade. Não é porque não queremos voltar. É que não queremos morrer.”



Mariana Ceci (siga @marianaceci_ no Twitter)

Jornalista potiguar, vive em Natal. Escreve sobre educação, gênero e direitos humanos.

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