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A baleia branca de Rodolfo Landim

O ex-executivo de Eike Batista julga ser responsável por parte considerável do sucesso empresarial do homem mais rico do Brasil. Agora, com a obstinação de quem não gosta de perder nem pelada, parte para buscar o que considera seu

Luiz Maklouf Carvalho
Depois de 26 anos na Petrobras, o engenheiro, empresário e investidor Rodoldo Landim trabalhou quatro anos para Eike Batista e ganhou 200 milhões de reais. Demitido, processa o milionário: “Ele não honrou o combinado.”
Depois de 26 anos na Petrobras, o engenheiro, empresário e investidor Rodoldo Landim trabalhou quatro anos para Eike Batista e ganhou 200 milhões de reais. Demitido, processa o milionário: “Ele não honrou o combinado.” FOTO: ACERVO PESSOAL DE SÉRGIO BANDEIRA DE MELLO

Tem pai que coloca filho em aula de artes marciais para que ele aprenda a lutar. Com o engenheiro Jaderico Machado foi diferente. “Você vai entrar no jiu-jítsu para perder o medo de apanhar”, disse ao filho do meio, Rodolfo, quando este tinha seus 8 anos. Era ali pelo meio dos anos 60, no Rio de Janeiro. Duas vezes por semana, até os 13, Rodolfo foi à academia dar a cara para bater. Hoje, com seus bem dispostos 53 anos, olhos azuis irrequietos e a voz quase sempre alguns tons acima, o engenheiro especializado em petróleo, empresário e investidor Luiz Rodolfo Landim Machado, mais conhecido pelos dois nomes do meio, diz: “Aprender a não ter medo de apanhar, como eu aprendi, impede você de ser covarde.” Depois de dois goles na limonada que a empregada acabou de servir no terraço do apartamento de São Conrado, Zona Sul do Rio, completou: “Não existe situação na vida em que eu vá me acovardar. Se passar a mão na minha bunda, vai tomar uma porrada. Seja do tamanho que for.” 

Referia-se ao 1,80 metro de altura e 40 bilhões de dólares no bolso do empresário Eike Batista, seu ex-patrão e atual desafeto, com quem ficou rico e a quem está processando. Ficará estimados 270 milhões de dólares mais rico se ganhar a causa – mas afirma que não é esse o busílis. “A questão é de honra, de princípio, e eu sou um homem de princípios”, disse, grifando os termos. Era um fim de tarde de dezembro.   

Em outro fim de tarde do mesmo mês, o advogado Flávio Godinho se sentou numa confortável poltrona na sala de reuniões de seu patrão, o empresário Eike Batista. Fica no 10º andar de um edifício na Praia do Flamengo e parece que a Baía da Guanabara está ali dentro. Godinho é um dos executivos mais próximos do dono do grupo EBX, que reúne cinco empresas de capital aberto – OGX (petróleo e gás), MPX (energia), LLX (logística), MMX (mineração) e OSX (estaleiros) – e valia em dezembro, na Bolsa de Valores, coisa de 82 bilhões de reais ou 48 bilhões de dólares. (Quando o mercado estimava em 27 bilhões de dólares o valor do grupo, Eike Batista entrou na lista dos homens mais ricos da revista Forbes em oitavo lugar. Achou que merecia mais e protestou, por carta, dizendo que a revista tinha usado critérios de avaliação errados.) De costas para a paisagem, Godinho deu uma risada quando ouviu a frase de Landim sobre honra e princípio. Depois disse, falando grosso: “A questão do Rodolfo é só dinheiro, a que não tem nenhum direito. O Eike o fez milionário. Ele devia estar na praia, curtindo a vida, muito grato, e não cuspindo no prato que comeu.” 

O que não está em disputa é o fato de o conglomerado de Batista ter aumentado exponencialmente de valor durante os anos em que ele e Landim trabalharam lado a lado. Quando se juntou a Batista, a empresa pioneira do grupo, MMX, estava cotada em 600 milhões de reais. Quando Landim rompeu com Batista, quatro anos depois, o conglomerado estava estimado em 82,4 bilhões de reais, uma valorização de 13 700%. 

Como se sabe, o capitão Ahab jura não dar trégua a Moby Dick, a grande baleia branca que lhe arrancou a perna no livro homônimo de Herman Melville. A energia e convicção com que Landim se dedica a reaver o que considera seu mostram que Eike Batista virou a sua baleia branca. Ao ouvir a comparação, o engenheiro deu um sorriso, pensou um pouco, e afirmou: “Eu é que sou a baleia branca. O Eike quer me destruir.”

Por trás da disputa judicial em torno de uma verdadeira fortuna, está uma briga tão ou mais crucial para os contendores, e muito mais difícil de ser arbitrada pois envolve valores intangíveis, medidos não em moeda sonante, mas em reconhecimento frente aos pares: de quem, afinal, é o mérito pelo sucesso de Eike Batista?



Os Landim Machado eram uma família de classe média alta. Moravam num bom apartamento em Copacabana, na quadra da praia, e tinham sítio em Araras, na região serrana do estado. Jaderico Pires Ferreira Machado – com senadores na árvore genealógica – era dono de uma ativa firma de construção civil. Perfil conservador, do tipo daqueles pais que diziam, rabugentos, “primeiro o dever de casa, depois a diversão”. Dona Maria Augusta, a mãe, foi professora de francês e de literatura. O avô materno, José Ferreira Landim, era diretor de liceu, e o neto vivia lá, cercado de livros e do entusiasmo do avô por um time que não o Fluminense de sua casa. Foi assim que acabou flamenguista fanático. O pai se foi em 1993, com 72 anos. Com a mãe, de 82, ele fala todo dia, e às vezes mais de uma vez. 

Em 1975, segundo ano da ditadura Ernesto Geisel, Landim entrou para a Faculdade de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ. Colou grau em 1979, primeiro ano de Figueiredo. Mais estudou do que fez política estudantil. “Eu sempre fui de centro”, diz. Bom aluno, foi monitor na cadeira de Hidráulica, com estágios na Eletrobrás e em Furnas. Tinha um carro – “Se aquele Passat falasse…” –, e do que gostava mesmo era viver a vida e jogar bola. “Fui da seleção da UFRJ”, conta, de peito estufado.

Homem de muitas amigas fiéis, não foi de muitas namoradas. Casou-se com uma delas, Denise Provenzano, também da engenharia da UFRJ, um ano depois de formado, em 1981. Foram morar em Copacabana, num apartamento presenteado pelo pai dela. Depois de trabalhar numa firma de engenharia, a Promon, Landim já tinha entrado para a Petrobras, por concurso público, em fevereiro de 1980. Faria 23 anos no mês seguinte. A estatal vivia o 27º ano de monopólio na exploração, produção, refino e transporte do petróleo. Pelos próximos 26 anos, o engenheiro ficaria lá.

Landim fez o curso de engenharia de reservatório, ministrado por especialistas que a Petrobras trazia do exterior. Cabe ao engenheiro de reservatórios simular, através de modelos matemáticos, como se dará a vida produtiva da jazida, e o número de poços que maximizam a rentabilidade do projeto de produção. Os estudos gerados por esses profissionais são a base para o dimensionamento adequado das instalações, aí incluído o número de plataformas. Foi isso que ele fez nos primeiros anos. Em 1985, a estatal o mandou para Alberta, no Canadá, fazer outro curso de especialização. 

O casamento não resistiu à crise dos sete anos. Acabou, por inanição e sem maiores dramas, em 1988. Flávio, o filho, ia fazer 2 anos. O ex-casal cuidou para que o choque fosse o menor possível. Seu chefe, na companhia, era um Gabrielli (Milton Luiz, já falecido), que ele admirava e considerava um segundo pai – de um outro, que é o presidente atual, já não gosta tanto, como se verá adiante. De chefe da Engenharia de Reservatórios, foi promovido a superintendente de Produção da Região Nordeste. Com campos em terra (onshore) e no mar (offshore), representava a terceira área mais produtiva da estatal, com 70 mil barris por dia. A missão de Landim era revitalizar os campos algo declinantes, para otimizar a produção. Sentou praça na sede de Aracaju.

Um pôster de uma plataforma marítima no Campo Marlim Sul, Bacia de Campos, diminui a insipidez de uma sala de reuniões no Ministério de Minas e Energia. É um dos lugares onde despacha o engenheiro Marco Antônio Martins Almeida, secretário de Petróleo, Gás natural e Combustíveis Renováveis. Landim foi chefe de Almeida nos tempos de Aracaju, quando era engenheiro de produção do então maior campo de terra do país, em Carmópolis. “Ele trouxe um novo estilo – aboliu o terno, por exemplo – e novas ideias de gestão, com destaque para a franqueza e a cobrança de metas, muito rigorosa”, lembrou-se o secretário. “O Rodolfo é muito determinado nas coisas que faz. Sabe ouvir, mas é difícil demovê-lo de uma coisa quando ele está convencido.” Landim encontrou sua segunda mulher, Ângela, a Gita, em Aracaju. Ela dirigia uma pousada da família na praia do Atalaia. Recebeu Flávio como filho e não teve crise com a primeira mulher Denise (nem vice-versa).

Três anos e meio depois, em julho de 1992, a Petrobras o promoveu mais uma vez. Ele foi despachado para a região Norte, como superintendente-geral. Gita o acompanhou. A base foi Belém, com um frequente vaivém de Landim para as longínquas regiões de produção, entre elas o Campo de Urucu. “Era que nem macaco namorando girafa: sobe para dar um beijinho, e desce pra pegar na mão. Uma canseira.” Numa região em que as distâncias e a infraestrutura carente dificultavam e encareciam a logística, o desafio era principalmente o de cortar custos operacionais. Não se furtou a trombar com a área sindical. “Eu defendia com empenho os interesses da companhia – e era o cara que dizia não. Como é que eles iam gostar de mim?”, explicou.

Landim voltou para a sede, no Rio de Janeiro, em março de 1994. A estatal já ia pelo seu 28º presidente – Joel Mendes Rennó, em seu primeiro mandato (governo Itamar Franco). Já soava mais alto a batucada contra o monopólio. Como a grande maioria de seus colegas, Landim não dava ouvidos. Continuava passivamente monopolista – muito diferente de técnicos ferrenhamente nacionalistas como, por exemplo, Guilherme Estrella, àquela altura já se aposentando para começar uma militância no PT. Landim participou de um grupo técnico que discutiu, pioneiramente, a exploração do petróleo em águas profundas, abaixo de 500 metros, na Bacia de Campos. Os três primeiros campos que foram implantados – Marlim, Albacora e Barracuda – começaram a nascer aí. Claramente valia a pena investir naquele jovem engenheiro. No segundo semestre de 1994, a companhia o mandou para um MBA de seis meses na Harvard Business School.

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Luiz Maklouf Carvalho

Luiz Maklouf Carvalho, jornalista, é autor de "O Coronel Rompe o Silêncio", da Objetiva, e coautor de "Vultos da República", da Companhia das Letras.

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