tribuna livre da luta de classes

A polarização voltou

A disputa pela riqueza e a nova face do conservadorismo democrático

Marcos Nobre
A batalha decisiva ocorreu no meio da tabela de classes, na faixa insegura em relação à posição social recém-conquistada; são pessoas que muitas vezes veem a si mesmas como intrusas
A batalha decisiva ocorreu no meio da tabela de classes, na faixa insegura em relação à posição social recém-conquistada; são pessoas que muitas vezes veem a si mesmas como intrusas ILUSTRAÇÃO: SHOUT

Um espectro rondou a eleição: a luta de classes. Foi assim que uma disputa presidencial rotineira se transformou em batalha épica. A campanha do medo foi feita pelos dois lados, mas os rituais de exorcismo foram bem diferentes. No imaginário eleitoral de oposição, Dilma Rousseff representou o projeto de uma redistribuição de renda e de riqueza para quem está embaixo à custa de quem está em cima. Era a ameaça de uma redistribuição de fato – e não apenas a melhoria geral dos padrões de vida sem concentração de renda, o pacto estabelecido por Lula. Do lado governista, a oposição foi carimbada como um retrocesso, uma ameaça de perda dos avanços dos últimos dez anos. O imaginário eleitoral da situação grudou em Aécio Neves a pecha de “playboy” e “filhinho de papai”, representante secular da exclusão.

O que está em jogo é uma conta simples de fazer. Não está mais à vista a possibilidade de que alguém melhore sem que alguém piore. A economia mundial patina. E o governo não tem mais condições de continuar se endividando para compensar a falta que faz um PIBÃO. No grande acordo estabelecido no governo Lula, alguém só pode ganhar se todo mundo ganhar. E agora? Se esse acordo foi inviabilizado, o que garante que uma ex-guerrilheira não vá querer “quebrar o contrato” e alterar na marra a grade de classes? Esse o medo real que alimenta as fantasias delirantes de cubanização do país.

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Marcos Nobre

É presidente do Cebrap e professor de filosofia da Unicamp. Publicou Imobilismo em Movimento e Como Nasce o Novo

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