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    O goleiro Marcos de Mendonça observa um ataque do Exeter City no primeiro jogo da Seleção, nas Laranjeiras. Deu Brasil: 2 x 0 FOTO: ACERVO FLU-MEMÓRIA

chegada

A seleção da elite branca

O primeiro escrete brasileiro faz 100 anos 

Renato Terra | Edição 94, Julho 2014

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O estádio das Laranjeiras, com capacidade para 8 mil torcedores, há onze anos não recebe jogos oficiais do Fluminense, seu proprietário. O espaço hoje obsoleto guarda a memória de partidas históricas. “Aqui nasceu a Seleção Brasileira”, lembra, em tipos garrafais, uma faixa verde e amarela pendurada na arquibancada vazia.

Localizado no bairro homônimo da Zona Sul do Rio de Janeiro, o estádio foi a casa do escrete nacional até 1932 – foram, ao todo, treze vitórias e cinco empates. O jogo de estreia da Seleção foi realizado em 21 de julho de 1914. Naquela longínqua terça-feira de inverno, um combinado de atletas que atuavam no Rio e em São Paulo entrou em campo para enfrentar o Exeter City Football Club, mais tarde descrito como um “esquadrão profissional da terceira divisão da Inglaterra”.

Fundado em 1904, o time britânico tem um uniforme com listras verticais vermelhas e brancas que lembra o do Náutico de Pernambuco. Em 1914, seus dirigentes armaram uma excursão pela América do Sul. As primeiras partidas foram em Buenos Aires. Venceram sete amistosos, perderam apenas um jogo contra combinados locais. O Exeter quase abandonou uma partida depois que um dirigente portenho sacou uma arma para ameaçar o juiz.

 

Ao desembarcar no Rio, os jogadores da esquadra inglesa tiveram tratamento de astros. Uma pequena multidão se aglomerou em frente ao Hotel dos Estrangeiros, no bairro do Flamengo, onde se hospedavam os britânicos. Um português leiloou os assentos de seu bar, subitamente valorizados depois que os atletas ali sentaram.

Foram três os amistosos disputados nas Laranjeiras. No primeiro, o Exeter venceu por 3 x 0 um combinado de ingleses. No dia seguinte, derrotou por 5 x 3 a seleção carioca. “Exeter tem sérias dificuldades para vencer o combinado carioca”, destacou o Correio da Manhã, que criticava as jogadas faltosas e as reclamações dos europeus para depois decretar a vitória moral dos brasileiros.

 

O  futebol no Brasil vivia seus dias de “amadorismo elitista”, conforme a expressão de José Miguel Wisnik em seu livro Veneno Remédio. Os jogadores não recebiam salários e tinham outros empregos – o primeiro goleiro da Seleção, Marcos Carneiro de Mendonça, pai da crítica teatral Bárbara Heliodora, era engenheiro e historiador diletante.

 

Coube à Federação Brasileira de Sports (FBS) – que mais tarde se transformaria na famigerada CBD, depois CBF – convocar na véspera do jogo os atletas que defenderiam o Brasil para o terceiro amistoso. A própria FBS havia sido criada em junho de 1914, fruto da articulação da Associação Paulista de Esportes Athléticos (Apea) com a Liga Metropolitana de Sports Athléticos do Rio de Janeiro.

De uniforme branco, a Seleção entrou em campo com Mendonça, Píndaro e Nery; Lagreca, Rubens Salles e Rolando; Abelardo, Oswaldo Gomes, Friedenreich, Osman e Formiga. Apenas Friedenreich, o craque do time, era mulato.

“As archibancadas do ground do Fluminense Foot-Ball Club começaram desde cedo a encher-se de inúmeras famílias pertencentes à mais distincta sociedade”, relatou o Estado de S. Paulo na resenha da partida.

 

Aos quinze minutos, Oswaldo Gomes, do Fluminense, marcou o primeiro gol da Seleção Brasileira. “O público prorrompeu em acclamações verdadeiramente delirantes”, escreveu o Estadão. “As senhoras e senhoritas agitavam os lenços, levantando hurrahs à equipe brasileira.” Aos 36 do primeiro tempo, Osman fez o segundo e selou o placar final – 2 x 0. Durante a partida, a habilidade dos brasileiros se sobressaiu ao profissionalismo dos ingleses, que abusaram da força: Friedenreich perdeu dois dentes.

O jogo foi fundamental para a autoestima nacional, na avaliação do historiador do futebol Heitor D’Alincourt. “Ali o brasileiro se identificou com alguma coisa e falou: ‘Nisso nós somos bons.’” Logo a seguir, a Seleção recém-nascida venceria a Argentina, em Buenos Aires, na disputa da Copa Roca. O período do “amadorismo elitista” se estenderia até 1919, culminando na conquista do Sul-Americano daquele ano, que teve, segundo Wisnik, “o efeito exaltante de confirmar a capacidade competitiva do futebol brasileiro diante de argentinos e uruguaios, projetando-o pela primeira vez num imaginário panorama internacional”.

 

O  Exeter City vai voltar ao Rio de Janeiro 100 anos depois. A chegada é aguardada com ansiedade por Robert Shaw, possivelmente o único torcedor do clube na cidade. Com pele clara e olhos azuis, Shaw, de 43 anos, nasceu e foi criado na cidade de Exeter, no sudoeste da Inglaterra. Poderia optar por algum time menos acanhado, mas permaneceu fiel às origens.

Guia turístico e jornalista freelancer, Shaw viveu seus tempos áureos de torcedor na adolescência, quando o Exeter chegou a disputar a terceira divisão* – hoje está na quarta. Ele se lembra de uma derrota de 6 x 0** para o Liverpool, no fim dos anos 70. “A torcida só não vaiou porque estava curtindo ver um grande adversário em casa. Somos realistas”, comentou, resignado.

Depois da excursão à América do Sul em 1914, o Exeter City voltou para casa. Alguns dos atletas morreram em combate durante a Primeira Guerra Mundial. O clube passou por várias dificuldades financeiras, quase foi extinto. Mais recentemente, em 2002, o entortador de garfos Uri Geller tentou ajudar o clube e fez de Michael Jackson seu diretor honorário. Não deu muito certo. Mas os torcedores, depois disso, se mobilizaram e assumiram o controle do Exeter, que hoje tem gerenciamento coletivo.

No amistoso que vai celebrar o centenário da partida inaugural da Seleção, no próximo dia 20, os ingleses não jogarão contra a Seleção Brasileira de Neymar e companhia. Enfrentarão, numa modesta peleja nas Laranjeiras, o time Sub-23 do Fluminense. Shaw não esconde a ansiedade para ver pela primeira vez o seu Exeter jogar no país em que mora. “Não sei se os ingressos já estão à venda. Se necessário, pulo o muro.”

* Correção em relação à edição impressa onde se lia “segunda divisão”
** Correção em relação à edição impressa onde se lia “9 a 0”

Renato Terra
Renato Terra

Documentarista e escritor. Dirigiu O Canto Livre de Nara Leão, Narciso em Férias, Uma Noite em 67, entre outros. Escreve o Diário do Geraldo na piauí

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