chegada

A vacina

A batalha de Bolsonaro para chegar imunizado em 2022

Malu Gaspar
CRÉDITO: ALLAN SIEBER_2020

Foi assim nos dois primeiros anos de mandato de Jair Bolsonaro. A cada atentado ao bom senso, à ciência e à harmonia entre os poderes da República, proclamava-se: a crise é grave, a queda é iminente. Eis que, de crise em crise, com a ameaça de um processo de impeachment sempre à espreita, terminamos outubro com Bolsonaro desfrutando das mais altas taxas de popularidade de seu governo e supostamente domesticado, depois de uma aliança com o Centrão. Representante desse bloco de partidos que integrou a base política de todos os governos desde a redemocratização, o deputado Fábio Faria (PSD-RN) assumiu o Ministério das Comunicações, em junho, defendendo a pacificação dos ânimos no Palácio do Planalto, porque “ninguém aguenta briga todos os dias”.

O coroamento dessa conjuminância – ou casamento, para usar uma metáfora ao gosto presidencial – foi a indicação do desembargador Kassio Nunes Marques para o Supremo Tribunal Federal, no início de outubro. Apesar de amplamente aceita por todas as correntes políticas, a nomeação também foi atribuída ao Centrão. Nos últimos tempos, a influência do bloco sobre os rumos do governo parecia tão grande que alguns analistas começaram a dizer que o Centrão havia fagocitado Bolsonaro. Para outros, mais benévolos e mais otimistas, a nova fase do presidente demonstrava que ele finalmente entendera a importância de dialogar e preservar a harmonia entre os poderes.

E então veio a polêmica da vacina. 

“O povo brasileiro NÃO SERÁ COBAIA DE NINGUÉM”, postou o presidente, com letras maiúsculas, em suas redes sociais, na manhã de 21 de outubro. Era uma reação aos protestos de apoiadores do governo contra o anúncio do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, de que o governo federal compraria 46 milhões de doses da CoronaVac, vacina em produção pela chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, do governo de São Paulo. Na postagem, Bolsonaro negou ter decidido adquirir a “vacina chinesa de João Doria”. Explicou: “Não se justifica um bilionário aporte financeiro num medicamento que sequer ultrapassou sua fase de testagem.”



Falácias, claro. Pazuello agiu com a autorização de Bolsonaro. O próprio governo federal já empenhou 1,9 bilhão de reais na compra antecipada de doses de outra vacina, a do consórcio entre o laboratório AstraZeneca e a Universidade Oxford, que tampouco “ultrapassou sua fase de testagem”. Doria, por sua vez, já prometeu diferentes datas para o início da vacinação sem que a vacina tenha sequer sido aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Mas o que mais surpreendeu foi a guinada de Bolsonaro. Num dia, Pazuello foi aplaudido por governadores e líderes do governo escolhidos pelo Centrão ao declarar orgulhoso que a CoronaVac seria uma “vacina brasileira”. No dia seguinte, Bolsonaro insinuou que seu ministro da Saúde cometia “traição”, disse que não abria mão de sua autoridade e chamou Doria de “ditador”.

 

É certo que Bolsonaro sentiu-se pressionado a dar uma satisfação ao seu eleitorado radical, que vinha esbravejando nas listas de WhatsApp contra o fisiologismo, os “bandidos do STF” e o abandono do combate à corrupção. Já tinham tido que engolir a aliança com o Centrão, a nomeação de Nunes Marques e o flagrante do vice-líder do governo, Chico Rodrigues (DEM-RR), com alguns milhares de reais escondidos entre as nádegas. Com tudo isso, ainda impor aos seguidores “a vacina chinesa de Doria” era demais.

Há, porém, outras interpretações para a inflexão do presidente. A mais óbvia é a seguinte: João Doria, que corre pela direita ou centro-direita, é o adversário – inimigo, no dialeto bolsonarista – que mais tira do sério um presidente que só pensa na reeleição em 2022. Auxiliares próximos contam que, na noite em que Bolsonaro viu os vídeos de Doria celebrando a compra de sua vacina nas redes sociais, a irritação do presidente pôde ser ouvida em mais de um andar do Palácio do Planalto.

A razão menos óbvia para o retorno do presidente aos discursos belicosos, no entanto, é também a mais desafiadora. Se Bolsonaro resolveu voltar a tumultuar o ambiente político e a buscar crises em série, depois de meses simulando bom comportamento, é porque ele agora sente que pode fazer isso sem colocar em risco sua permanência no Planalto.

Recordemos que, entre maio e junho, seu mundo parecia prestes a desabar, diante dos conflitos com o STF, sua tentativa de intervir militarmente na Corte Suprema e a prisão de Fabrício Queiroz, o miliciano das rachadinhas. Na primeira semana de outubro, em Brasília, alguns dos coadjuvantes desses episódios relembravam o período como um momento tenso, em que Bolsonaro esteve a ponto de cair – ou, pelo menos, acreditou que estivesse.  O presidente achava que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estava promovendo uma manobra para derrubá-lo quando decidiu manter vivas, no final de junho, as ações que pedem a cassação da chapa Bolsonaro-Mourão pela contratação de disparos em massa de mensagens de WhatsApp na campanha de 2018. Mesmo considerando os indícios frágeis, os ministros do TSE aprovaram a continuidade das investigações por 4 votos contra 3. Foi nesse contexto que Bolsonaro aceitou as sugestões do novo ministro Fábio Faria e de outros interlocutores pela harmonia e pela conciliação.

 

A briga com Doria acontece num momento diferente, em que o Planalto não é assombrado pelo risco de impeachment. A popularidade recorde de Bolsonaro, turbinada pelo auxílio emergencial, deixa-o numa situação mais confortável. Até políticos que lhe faziam oposição ultimamente agora fazem agrados, como Renan Calheiros, do MDB de Alagoas. Calheiros celebrou a escolha de Nunes Marques como mais um sinal do “desmonte do Estado policialesco”, como ele se refere à Lava Jato.

É sintomático que, depois de Bolsonaro atacar Doria e desautorizar Pazuello de forma pública e humilhante, os mesmos integrantes da base governista que antes apregoavam as vantagens da pacificação tenham submergido. Passaram a manifestar-se apenas nos bastidores, justificando a atitude do presidente com uma crítica necessária a Doria e seu uso oportunista da “vacina chinesa”.

Como das outras vezes em que desafiou a ciência e o interesse público ao longo da pandemia, a ofensiva de Bolsonaro não é imune a riscos. Além de São Paulo, a CoronaVac está em teste em outros cinco estados e no Distrito Federal, cujos governadores vão querer oferecê-la à sua população, caso seja aprovada. Soma-se a isso uma expectativa disseminada, até em locais onde ela não está sendo testada, de que a CoronaVac poderá ser autorizada e distribuí-da antes da “vacina de Oxford”, na qual a gestão Bolsonaro  apostou todas as suas fichas até agora. Se de fato a dianteira da CoronaVac se confirmar, a pressão dos governadores e da própria população pela liberação será grande, e pode redundar em ações judiciais contra o governo federal.

Bolsonaro tem provado, nos últimos meses, que sabe virar o jogo das narrativas e sair ileso das incoerências e barbaridades que comete no meio do caminho. Não à toa, ele já começou a desviar o foco do debate para a obrigatoriedade da vacina, tema que já chegou à pauta do STF, e a reforçar que, se a CoronaVac for aprovada pela Anvisa, o governo irá comprá-la e distribuí-la. Assim, deixa aberta a brecha para, se necessário, voltar atrás sem qualquer constrangimento – e, de preferência, faturar politicamente, vendendo a imagem de governante responsável e cuidadoso. Com a guerra da vacina, Bolsonaro busca reassumir o comando do jogo político para a segunda metade de seu mandato, manejando seus radicais conforme a conveniência e mantendo o Centrão como rede de proteção, à custa do fisiologismo de sempre. O resultado da batalha irá nos dizer se foi o Centrão que fagocitou Bolsonaro, ou se foi Bolsonaro quem fagocitou o Centrão.

Malu Gaspar

Repórter da piauí, é autora do livro Tudo ou Nada: Eike Batista e a Verdadeira História do Grupo X, da editora Record

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