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    CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2022

esquina

A alma da espada

Forjador samurai fez catanas para Moro e Bolsonaro

Felippe Aníbal | Edição 195, Dezembro 2022

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Todo início de tarde, Edson Suemitsu adentra a oficina instalada na garagem de sua casa no bairro Cachoeira, no extremo Norte de Curitiba, como se fosse um espaço sagrado. Acende um incenso, presta reverência a fotos de seus antepassados japoneses penduradas na parede e faz uma oração silenciosa. Depois de aumentar o volume dos mantras budistas que tocam sem parar em seu aparelho de som, ele veste o avental jeans e busca as ferramentas guardadas entre máscaras de teatro Kabuki, imagens de divindades orientais e santos católicos (apesar de batizado católico, Suemitsu não se filia a nenhuma religião). Então retoma o ofício a que vem se dedicando nos últimos dezoito anos: forjar catanas, as espadas samurai.

O trabalho se desenrola como um rito. Enquanto forja as catanas, Suemitsu entoa mantras mentalmente, invocando três elementos: Kami (Deus), kokoro (coração) e kimōchi (sentimento). Ele acredita que os espíritos de seus mentores e antepassados acompanham todo o trabalho. “Sem o ritual, a espada não passa de uma lâmina afiada. Katana tem que ter alma. É um trabalho espiritual”, assegura o forjador.

As catanas demoram até um mês para ficar prontas, em um processo minucioso, executado por Suemitsu de ponta a ponta. Após superaquecer as barras de aço importadas da Áustria, o artesão trabalha com martelo e bigorna, dando forma às lâminas, definindo a curvatura e os chanfros – entalhes no metal. Posteriormente, o material é temperado, em um processo de reaquecimentos seguidos de resfriamentos bruscos, e passa por um tratamento com argila. Só então a lâmina é polida com esmero, antes de ser encaixada na empunhadura, importada do Japão. Por fim, Suemitsu se dedica ao acabamento, que contempla materiais como seda e pele de arraia.

Cada catana custa de 12 mil a 30 mil reais, dependendo dos detalhes e do acabamento exigidos pelo cliente, que, em regra, compra o artefato para fins de decoração ou como colecionador. Parece caro? Pois a fila de espera chega a se estender por três meses. A aquisição inclui um ritual de entrega, em que Suemitsu se paramenta com quimono samurai e declama a Oração da Grande Harmonia, da doutrina japonesa Seicho-No-Ie, antes de passar com solenidade a catana às mãos do comprador.

Até um tempo atrás, o forjador também restaurava catanas antigas – arrematadas em leilões ou antiquários –, mas deixou de fazê-lo por questões espirituais: “As espadas vinham com uma carga energética muito pesada. Imagine quantas pessoas, justa ou injustamente, elas já mataram? Uma catana que já bebeu sangue não serve para nada.”

 

Aos 64 anos, Suemitsu se considera o último katana kaji (forjador de catanas) da América Latina que faz espadas conforme os preceitos tradicionais. “Tem bastante gente por aí que faz réplicas. Mas espada com alma, de acordo com a tradição japonesa, eu não tenho conhecimento de outro que faça”, explica o forjador, que diz pertencer a uma linhagem de samurais devotada à fabricação de artefatos marciais desde o período Muromachi (entre os séculos XIV e XVI).

Nos últimos cinco anos, a fama de Suemitsu se difundiu graças a figurões da política que ganharam o privilégio de possuir uma de suas catanas. Em 2017, quando ainda era juiz da Operação Lava Jato, o hoje senador eleito Sergio Moro (União-PR) adquiriu uma espada forjada pelo katana kaji paranaense. Em 2018, durante uma agenda de campanha em Curitiba, o então candidato à Presidência Jair Bolsonaro também recebeu uma espada de presente. “Um assessor veio aqui. Não tinha tempo de eu fabricar uma especialmente para Bolsonaro, mas tinha uma feita para mim mesmo, com detalhes em verde e amarelo”, diz. A espada foi entregue pessoalmente ao futuro presidente em um jantar no Madalosso, tradicional restaurante italiano de Curitiba.

Vez ou outra, Suemitsu recusa clientes que carregariam “energias ruins”. O caso mais emblemático ocorreu sete anos atrás, quando um deputado federal de um partido de esquerda o procurou. O forjador, homem de direita, negou-se a prestar o serviço. Meses depois, o katana kaji recebeu uma foto pelo WhatsApp que mostrava o deputado (cuja identidade ele não quer revelar) com a almejada espada. “Ele mandou um assessor fazer o pedido”, conta. “Mas aí não adianta. Eu fiz a katana pensando no assessor e fazendo as orações para ele, não para o deputado.”

 

Suemitsu nunca visitou o Japão. Nascido em Bandeirantes, interior do Paraná, ele começou a se interessar por lâminas aos 4 anos, quando ajudava o avô a forjar lanças para matar cobras urutu-cruzeiro, comuns no sítio em que moravam. “Eu ficava acionando o fole para atiçar o fogo. Achava linda a lâmina incandescente”, lembra. Já em Curitiba, Suemitsu exerceu a profissão de mecânico por trinta anos, até começar a se dedicar à forja de catanas – aprendendo o ofício por tentativa e erro, em livros japoneses antigos.

“As catanas foram criadas no século XIII, durante a primeira invasão mongol. Os japoneses precisavam de uma espada que fosse mais resistente, para perfurar a armadura do inimigo. Por isso, a catana tem a lâmina mais grossa e curva e não é tão afiada”, ensina Suemitsu. A ideia muito difundida de que o fio da catana pode cortar ao meio um lenço lançado no ar é apenas um mito, esclarece o forjador.

Com calma, ele começa agora a ensinar seu ofício ao filho, Guilherme Suemitsu, de 33 anos, que até pouco tempo atrás era analista na área de tecnologia da informação. Em 2020, após o fim de seu casamento, decidiu dar uma guinada na vida profissional, se aproximando do trabalho do pai. É Guilherme quem hoje se responsabiliza pelas redes sociais e pela agenda da oficina. “A pandemia nos fez olhar para a nossa essência. A minha está aqui. Eu ainda não faço as catanas, mas já ajudo”, afirma o aprendiz. “A ideia é aprender, herdar a tradição”.