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Artur Avila ganha a Medalha Fields

Prêmio é o mais importante já conquistado por um cientista brasileiro

O matemático brasileiro Artur Avila se arruma no quarto do seu hotel em Seul, quarenta minutos antes do início da cerimônia em que recebeu a Medalha Fields.

O matemático Artur Avila é o primeiro brasileiro a ganhar a Medalha Fields, o prêmio mais prestigioso da disciplina, frequentemente comparado ao Nobel. O anúncio foi feito em Seul, na abertura do Congresso Internacional de Matemáticos, pouco após as 22h de terça (manhã de quarta, dia 13, na Coreia do Sul). Avila foi premiado “por suas profundas contribuições à teoria dos sistemas dinâmicos, que mudaram as feições do campo”. O site da piauí trará notas e vídeos sobre Avila feitos por João Moreira Salles, editor da revista, que acompanhou a cerimônia em Seul.

Doutor pelo Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada – o Impa, com sede no Rio de Janeiro –, Avila é o primeiro ganhador da medalha formado numa instituição do hemisfério Sul. A Fields é o maior prêmio já conquistado por um cientista brasileiro de qualquer área do conhecimento. (Avila também tem nacionalidade francesa e vínculo com o CNRS, Centro Nacional de Pesquisa Científica daquele país, e divide seu tempo entre o Rio e Paris.)

Avila “combina as tradições e as culturas matemáticas fortes dos dois países”, segundo um comunicado distribuído à imprensa pela União Internacional de Matemática (IMU, na sigla em inglês), organização que concede a Medalha Fields. O brasileiro é especializado no estudo dos sistemas dinâmicos, área que investiga a evolução de fenômenos variados no tempo. Valendo-se das ferramentas desse campo, ele atacou uma série de problemas que haviam derrotado outros colegas.



De acordo com o comunicado da IMU, Avila resolve seus problemas “com uma potência técnica formidável, com a engenhosidade e a tenacidade de um mestre solucionador de problemas e com um faro infalível para questões profundas e significativas”. A entidade destacou também o fato de o brasileiro trabalhar rotineiramente em parcerias com outros pesquisadores – ele já assinou trabalhos junto com cerca de trinta colegas. A justificativa da medalha afirma que “a abordagem colaborativa de Avila é uma inspiração para uma nova geração de matemáticos”.

Oferecida pela União Internacional de Matemática, a Medalha Fields foi concebida para celebrar grandes realizações em várias áreas da disciplina, mas também para estimular novos trabalhos de impacto. Por isso, é concedida a pesquisadores com idade máxima de 40 anos. Foi batizada em homenagem ao canadense John Charles Fields, que a idealizou no final dos anos 1920 (à sua revelia – ele preferia que ela não fosse associada a qualquer nome). Embora seja a mais cobiçada honraria da matemática, não se trata de um prêmio de valor elevado – Avila receberá cerca de 31 mil reais.

A medalha é entregue a cada quatro anos, no Congresso Internacional de Matemáticos, a até quatro pesquisadores. Até o início deste ano, apenas 52 matemáticos haviam ganhado a medalha desde a sua instituição, em 1936. Além de Artur Avila, os outros medalhistas de 2014 são o canadense-americano Manjul Bhargava, da Universidade Princeton; o austríaco Martin Hairer, da Universidade de Warwick; e a iraniana Maryam Mirzakhani, da Universidade Stanford, primeira mulher laureada.


Artur Avila e os demais pesquisadores premiados na abertura do Congresso Internacional de Matemáticos, em Seul (foto: IMU).

A Medalha Fields de Artur Avila coroa o projeto de estabelecer no Brasil um centro de pesquisa matemática de ponta, iniciado com a fundação do Impa em 1951 pelos matemáticos Lélio Gama, Leopoldo Nachbin e Mauricio Peixoto. O Impa começou a atrair matemáticos brasileiros que tinham ido se formar no exterior e estavam de volta ao país; não demorou até que passasse a formar doutores e se tornasse um polo produtor de matemática de alto nível feita em território nacional. O instituto ganhou prestígio ao longo dos anos e atrai matemáticos vindos da América Latina e de outros cantos do mundo.

A linhagem de Artur Avila mostra bem a transformação pela qual o Impa passou desde a sua criação. Jacob Palis, seu “avô acadêmico”, fez parte da primeira geração de matemáticos brasileiros que decidiu seguir carreira acadêmica no país. Palis se doutorou na Universidade da Califórnia em Berkeley sob a orientação do americano Stephen Smale, um dos maiores matemáticos do século passado, ele próprio medalhista Fields de 1966. De volta ao Brasil, Palis ajudou a implantar no Impa uma escola forte no estudo dos sistemas dinâmicos. Dentre seus primeiros alunos no Impa estava Welington de Melo, que viria a ser o orientador de Artur Avila.

Em janeiro de 2010, piauí publicou um perfil de Artur Avila – o brasileiro já era considerado um forte candidato à Medalha Fields no congresso daquele ano, realizado em Hyderabad, na Índia. Depois disso, a matemática continuou um tema frequente nas páginas da revista. Mais recentemente, em dezembro de 2013, foi publicado um perfil de Fernando Codá Marques, matemático brasileiro que começa a aparecer nas especulações de pesquisadores do mundo inteiro sobre possíveis candidatos à Medalha Fields – ele ainda terá idade para ganhá-la no congresso de 2018, a ser realizado no Rio de Janeiro.

Circula esta semana uma edição especial de piauí dedicada à matemática. A revista conta como o Brasil conseguiu construir em seis décadas um centro de pesquisa de primeiro nível nessa área e revela os bastidores da maior conquista da ciência nacional, além de recuperar a história das Medalhas Fields e a trajetória dos ancestrais acadêmicos de Avila. Os perfis de Artur Avila e Fernando Codá Marques também estão reunidos na edição especial, que chega às bancas na sexta-feira, 15 de agosto.

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