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    “Por que as feministas nunca citam Margareth Thatcher?”, indagou o professor à plateia CREDITO: MIRRORPIX_GETTY IMAGES

chegada

Aulas de bolsonarismo

De olho em 2020, PSL ensina filiados a ser de direita

Luigi Mazza | Edição 157, Outubro 2019

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Um Jair Bolsonaro de papelão, em tamanho real e com as mãos cruzadas, sorria na porta de um salão de festas em Vitória. O espaço, que estava quase lotado, pertence à Associação dos Militares da Reserva do Espírito Santo. Enquanto alguns dos presentes rondavam um bufê de café da manhã, outros tiravam fotos com o totem. Ou, então, se dirigiam a uma pequena bancada em que preenchiam uma ficha e se filiavam à legenda do presidente da República, o Partido Social Liberal.

Naquele sábado de agosto, cerca de duzentas pessoas acordaram cedo para assistir às palestras do Primeiro Encontro Estadual do PSL Mulher. A maioria do público era membro ou simpatizante da sigla e vinha de diferentes cidades da Região Metropolitana. Todos estavam sentados quando, por volta das 9 horas, o professor Wellington Callegari subiu ao palco. De microfone em punho, ele sintetizou o motivo da reunião: “Precisamos adequar nosso discurso à realidade da direita conservadora que tomou o poder em 2018 e que, se Deus quiser, ainda vai ganhar mais quatro anos em 2022.” Recebeu aplausos efusivos e gritos de apoio. Embora costume dar aulas no partido sobre a história da direita brasileira, desta vez Callegari tratou de feminismo.

“A figura da mulher está sofrendo uma apropriação indébita”, declarou, peremptório. Em seguida, indagou para si mesmo: “Como assim? Quem está se apropriando das mulheres?” Ele próprio respondeu: “As ideologias, as funestas ideologias!” Na parte introdutória da palestra, Callegari tentou demonstrar que as sociedades pré-industriais destinaram as tarefas domésticas às mulheres para garantir a sobrevivência da espécie e não “por maldade dos homens”. Como os índices de mortalidade eram altos, explicou, havia a necessidade de procriar bastante e dedicar muito tempo às crias.

 

Hoje, tal condição histórica está superada, prosseguiu. Mesmo assim, ideologias a serviço da esquerda continuam a “criminalizar todos os homens”. Um slide apontava os culpados: Freud, Marx e a Escola de Frankfurt, representada ali pelo sociólogo e filósofo Herbert Marcuse. Parte da plateia fotografava tudo que aparecia no telão.

Com uma retórica contundente, similar à de pregadores evangélicos, o palestrante de 37 anos falou por meia hora e guardou o ouro para o final. “Mulheres do PSL, sempre se perguntem o seguinte: por que as feministas que dizem lutar pelo empoderamento nunca mencionam a mulher mais poderosa do século XX?” O projetor exibiu, então, uma foto de Margareth Thatcher, primeira-ministra conservadora que governou o Reino Unido entre 1979 e 1990.

 

Servidor concursado do Tribunal de Justiça e professor de história num colégio particular, Callegari também ensina filosofia e geografia num cursinho pré-vestibular em Cachoeiro de Itapemirim, município a 137 km de Vitória onde mora com a família. É católico e, no ano passado, candidatou-se a deputado estadual pelo Partido Social Cristão, o PSC. Não se elegeu, mas chamou a atenção de Carlos Manato, presidente do PSL no Espírito Santo.

 

Desde julho, a convite dele, Callegari roda o estado não apenas para dar aulas sobre a história da direita, mas também para expor as principais bandeiras do bolsonarismo a membros do partido ou a quem deseja integrá-lo. O PSL capixaba lançou mão da estratégia a fim de evitar que gente pouco identificada com o ideário do governo federal se candidate a algum cargo ou entre na sigla. “Temos notado que nossos próprios militantes não sabem o que é ser de direita”, afirmou Manato.

O diretório local está na vanguarda de um debate que a legenda pretende travar nacionalmente. Fundado em 1994, o PSL era nanico até 2018, quando atraiu Jair Bolsonaro. Desde então, cresceu muito e velozmente. Hoje tem a segunda maior bancada da Câmara, com 53 parlamentares, e soma 271 mil integrantes, distribuídos pelo país inteiro. O número de filiados, embora esteja aumentando, ainda é bem inferior ao do MDB, maior partido brasileiro, que contabiliza 2,4 milhões de membros.

A necessidade de o PSL filtrar seus quadros ficou patente no começo de agosto. À época, a sigla expulsou o deputado federal Alexandre Frota sob a acusação de infidelidade partidária. O ex-ator pornô, que se elegeu como um defensor ruidoso de Bolsonaro, acabou virando crítico do governo e migrou para o PSDB. “Casos como o do Frota existem em todos os estados. Quando você cresce tão rapidamente em quantidade, perde em qualidade”, disse Callegari. Na véspera da palestra em Vitória, o professor assumiu a presidência do PSL em Cachoeiro. Ele abdicou da pré-candidatura a prefeito da cidade justamente para organizar o diretório municipal e executar o programa de aulas da legenda ao longo deste e dos próximos três anos. “No Brasil, só os partidos de esquerda – e aí bato palmas para eles – se preocupavam com a intelectualidade dos seus militantes. O que almejamos agora é alinhar o PSL. Dar coerência programática à sigla e podar os galhos que já não deviam estar lá.”

 

 

Um dos militantes da legenda que circulava pelo encontro é um convertido recente. O motorista José Vagton Manhani trabalha para a Prefeitura de Santa Maria de Jetibá, cidadezinha de colonização pomerana no interior do Espírito Santo, e planeja disputar uma vaga de vereador nas eleições do ano que vem. Assistiu à apresentação de Callegari ao lado de alguns conterrâneos, que vestiam camisetas com o logotipo do PSL. Até a campanha eleitoral de 2018, Manhani integrava o PDT. Decepcionado com “a corrupção da esquerda”, encantou-se pelo capitão reformado do Exército e zarpou para o PSL. “Se Bolsonaro mudar de partido, mudo junto.” Também presente à reunião, um advogado de Vila Velha se filiou assim que chegou. “É o partido do momento”, justificou. Ele, que preferiu não dizer o nome, se mostrou impressionado com a palestra sobre feminismo: “O professor falou de coisas que a gente não sabia.”

No discurso que fechou o evento, Damares Alves – ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos – apelou, como de costume, às forças superiores. “Nós precisamos de um partido para alcançar o poder. E o instrumento que Deus nos deu foi o PSL. Esse partido é abençoado!” Em sintonia com o linguajar místico da ministra, Callegari frisou que a “purificação” da legenda não deve promover uma caça às bruxas. “Não somos autoritários. Caso um dia alguém do PT se arrependa dos pecados e queira conhecer a luz, vamos recebê-lo de braços abertos”, prometeu, sorrindo.

Luigi Mazza
Luigi Mazza

Editor do site da piauí. Foi repórter da revista em Brasília e diretor do podcast Foro de Teresina

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