CRÉDITO: FAW CARVALHO_2026
Céu de Miguelzin
Meu menino sempre teve esse olho virado pro alto, pras nuvem
Jeovanna Vieira | Edição 233, Fevereiro 2026
O menino desde pequeno foi encantado com as cores. Primeira palavra dele não foi mamãe, foi “marelo”. Era eu e ele nesse conjunto habitacional, e pra tudo, sempre abaixo da graça de Deus. Quando entramo naquele apartamento, as parede já tavam encardida. Nunca que gostei de sujeira. Preparei mistura de cal e xadrez verde e deixei tudo com cara de limpeza. Tudo pintadin. Miguel gostou também, Nossa casa tá bonita, mãe. Tava mesmo. De vez em quando eu puxava uns crochê e tome crochê. Parede verde e crochê em cima dos móveis que a gente tinha. Vi muita novela a vida inteira, eu sei como decorar uma casa.
A gente descia pro pátio do prédio na minha folga e pintava junto. Pintava tudo que dava na cabeça dele, árvore, melancia, capivara. Rarrarrá. Ele me pintava, eu pintava ele. Não era comum muito as mãe e os filho brincarem junto. Eu pelo menos nunca vi lá. Pai, então… Fui saber de menino criado apegado com pai agora, coisa recente. As mãe ficava conversando entre si e os filho brincando entre eles, e eu com Miguel, porque a gente era sozin mesmo pra tudo. As mãe me chamava pra perto. Achava sem sentido, eu mulher feita brincando como igual com meu filho. Miguelzin era menino com a cabeça dada pra interagir com criança não. Era pintar que botava brilho no olho dele, e eu ia deixar de fazer brincadeira que fosse pra prestar prazo em coisa que vizinhança falava? Então pintava. Comprei uma cartolina, emendei duas, três, deitei no chão da calçadinha que tinha lá no condomínio e ele me desenhou certin meu corpo. A gente botou de comprido do lado da porta com fita crepe. Quando eu ia trabalhar lá na casa da dona Gabriela, apontava pro desenho de eu grande e falava, Ó, mãe tá aqui. Apontava pro coração dele e, Aqui também, ó.
Reportagens apuradas com tempo largo e escritas com zelo para quem gosta de ler: piauí, dona do próprio nariz
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