questões eleitorais I

Contadores de votos

Uma história do Ibope, da miséria dourada à venda bilionária

José Roberto de Toledo
Na tarde do primeiro turno, os irmãos Luís Paulo e Carlos Augusto Montenegro, vice-presidente e presidente do Ibope Inteligência, e Márcia Cavallari, CEO da empresa, revisam pesquisas de boca de urna para divulgação; o instituto foi o que mais faturou nas eleições de 2018
Na tarde do primeiro turno, os irmãos Luís Paulo e Carlos Augusto Montenegro, vice-presidente e presidente do Ibope Inteligência, e Márcia Cavallari, CEO da empresa, revisam pesquisas de boca de urna para divulgação; o instituto foi o que mais faturou nas eleições de 2018 RACHEL GUEDES_2018

O trânsito paulistano estava especialmente carregado naquela tarde garoenta de sexta-feira. Os 22 quilômetros entre a sede do Ibope, o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística, na Água Branca, e nosso destino no Jabaquara custaram duas preciosas horas, ou quase. Fazia uma semana que Jair Bolsonaro havia sido esfaqueado enquanto era carregado nos ombros por entusiastas de sua campanha a presidente da República. O candidato do PSL estava hospitalizado, e ainda não se sabia qual impacto o atentado contra a vida do líder da corrida presidencial teria na opinião do eleitor. Era o que iríamos ajudar a aferir.

Enquanto o Uber abria caminho em meio à chuva fina, Adislene Machado Meireles me contava os macetes que aprendeu em dezesseis anos como pesquisador do Ibope. Ele explicou que é muito mais fácil fazer entrevistas domiciliares na periferia do que no Centro rico da cidade. O melhor lugar para trabalhar, disse, é em uma favela: “O acesso é bem mais fácil. Os moradores querem falar, te convidam para entrar.” E a segurança? “O pesquisador não pode ficar depois que escurece.” Meireles sabe do que está falando. Palmilhou Norte, Sul, Leste e Oeste de São Paulo. Conhece a capital de Perus a Marsilac, do Lajeado ao Rio Pequeno. Perguntei qual é o pior lugar para pesquisar. “Os setores mais difíceis são os verticais”, sentenciou, sem hesitar. Traduzindo: as áreas adensadas, onde quase todos moram em prédios de apartamentos. E o pior dos piores? Os Jardins, lar da burguesia paulistana. Nos bairros ricos gasta-se mais tempo para encontrar quem responda aos questionários porque o pesquisador não consegue autorização para entrar nos condomínios. O medo de assalto endureceu as regras de segurança nos edifícios. O jeito é ficar esperando em frente, na rua, até que alguém entre ou saia. Mas isso pode demorar. Pesquisadores experientes tentam convencer o porteiro a interfonar para os apartamentos e pedir a um morador para descer e dar a entrevista na calçada. Mas não um morador qualquer.

MATÉRIA FECHADA PARA ASSINANTES

José Roberto de Toledo

Editor-executivo da piauí (site), foi repórter e colunista de política na Folha e no Estado de S. Paulo e presidente da Abraji

Leia também

Últimas Mais Lidas

“Tive Covid, e agora?”

Moradora da periferia de São Paulo relata como enfrentou a doença e as dificuldades para voltar ao trabalho

Na piauí_165

A capa e os destaques da revista de junho

O piloto, o PCC e o voo da morte

Como a investigação da Polícia Federal chegou a um personagem central num crime que abalou a cúpula da facção

Oxigênio e sobrevivência

Prioridades na Cinemateca Brasileira e na vida

Máscara, gás e pimenta

Epidemia amplia tensões sociais e eleva risco de confrontos

“Eu não aguento mais chorar!”

Fragmentos de revolta contra o assassinato de negros pela polícia explodem em manifestação no Rio

A Terra é redonda: Desnorteados

Hospitais saturados, indígenas ameaçados, desmatamento em alta: como a pandemia está afetando os povos e ecossistemas da Amazônia

Polícias fraturadas

PM adotou padrões de risco distintos ao coibir protestos deste domingo; na PF, fronteiras entre segurança e política são ainda mais tênues 

Bolsonaro seduz policiais militares com promessas, cargos e poder

Entre o capitão e os governadores, é preciso saber para onde irá a Polícia Militar

Mais textos