questões cinematográficas

Democracia corrompida

Políticos, empresários e partidos em vertigem no documentário de Petra Costa

Eduardo Escorel
Dilma, Lula e Marisa parecem ter se esquecido de Temer, no dia da posse da presidente: “Quem imaginava que esse homem, cinco anos depois ia querer sair na foto sem Dilma?”
Dilma, Lula e Marisa parecem ter se esquecido de Temer, no dia da posse da presidente: “Quem imaginava que esse homem, cinco anos depois ia querer sair na foto sem Dilma?” FOTO: BIBLIOTECA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA

Lula evita dizer o que pensa – aprendeu a arte de só dizer o que convém e a pratica com maestria. Esse é um recurso usual de políticos experientes, mas por vezes mesmo os mais calejados, como ele, deixam escapar palavras sinceras e convicções profundas. São dualidades e franquezas como essas que podem ser encontradas na entrevista do ex-presidente a Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, e Florestan Fernandes Jr., do jornal El País, em 26 de abril.

A seguir, dois exemplos da retórica lulista: no primeiro, ele omite o que disse em outras ocasiões; no outro, revela algo até então desconhecido, ao menos para mim. Mônica Bergamo pergunta: “O senhor tem vergonha de ter eleito uma presidente que foi uma das mais mal avaliadas da história, perdendo apenas para Michel Temer?” Lula bate duas vezes no coração e diz ter orgulho, “muito orgulho da Dilma”. Ato contínuo, tergiversa e declara que nem todo filho consegue ter sucesso equivalente ao obtido pelo pai; menciona o caso do filho de Pelé e passa a falar da Primavera Árabe, da invasão da Líbia, da Guerra do Iraque.

Consta que Dilma Rousseff cobrou seu direito de concorrer a um segundo mandato em 2014, contrariando a expectativa de Lula, que pretendia voltar a ser candidato a presidente naquele ano. O apego de Dilma ao cargo teria provocado reações iradas no círculo familiar do antigo chefe. No ano seguinte, Lula chegou a dizer que os índices de aprovação de sua sucessora estavam no “volume morto”, ou seja, na reserva final, e que “o governo parece um governo de mudos”. Na mesma ocasião, segundo O Globo (20/6/2015), afirmou que a presidente “deixou o governo distante dos mais pobres” e cobrou “uma agenda positiva”, além de “mais exposição pública”.

Críticas desse teor, e outras feitas em particular durante o processo de impeachment, não impediram Lula de dizer em seu discurso horas antes de se entregar à Polícia Federal, em 7 de abril do ano passado, que era grato, “grato de coração, por que [seu governo] não teria sido o que foi se não fosse a companheira Dilma. Portanto, Dilma, você sabe que eu […] repartirei o meu sucesso na Presidência com Vossa Excelência, independentemente do que aconteça nesse mundo”. Lula elogiou sua ex-ministra, mas nada disse sobre o desempenho dela como presidente da República.

Para mim, a novidade na entrevista à Folha de S.Paulo e a El País foi saber qual era a expectativa de Lula quando se entregou no ano passado: “Uma das condições que fez com que eu viesse para cá [a Superintendência Regional da Polícia Federal, em Curitiba, onde está preso e foi entrevistado] era porque não havia nenhum advogado naquele instante que não garantisse que eu disputaria as eleições sub judice. Mesmo condenado, eu poderia concorrer. Eu estava com um orgulho muito grande de ganhar as eleições de dentro da cadeia. É importante lembrar que eu cresci dezesseis pontos aqui dentro [da prisão].  Sem poder falar.” Ironia cruel da história foi Jair Bolsonaro ter sido eleito em outubro de 2018, beneficiado pela mesma tática preconizada por Lula – reclusão e silêncio –, embora determinada por outras circunstâncias.

Lula não mencionou a expectativa de ser eleito presidente no discurso que fez antes de se entregar, incluído parcialmente na sequência final do documentário Democracia em Vertigem, de Petra Costa. Preferiu semear a esperança mítica em um retorno imprevisível: “Não adianta tentar acabar com as minhas ideias, elas já estão pairando no ar e não tem como prendê-las. Não adianta tentar parar os meus sonhos porque, quando eu parar de sonhar, eu sonharei pela cabeça de vocês. […] Não adianta eles acharem que vão fazer com que eu pare, eu não pararei porque eu não sou mais um ser humano. Eu sou uma ideia. Uma ideia misturada com a ideia de vocês.”

Mestre na arte da dissimulação, Lula apostou e perdeu. Posar de mártir quando pretendia voltar a se eleger presidente, embora preso e sem poder se manifestar, foi mais um lance da série de jogadas de alto risco que fez, todas malogradas, desde que impôs Dilma Rousseff como candidata à sua sucessão, em 2010, transferindo para ela a imensa popularidade de que desfrutava no final do segundo mandato.

Uma das maiores apostas perdidas de Lula, parecida com o ato desesperado de quem tenta se salvar em um naufrágio, foi o esforço para ser nomeado ministro-chefe da Casa Civil do governo Dilma, em março de 2016. Democracia em Vertigem propicia acesso inédito a um momento dos bastidores desse episódio. Vemos Lula no Palácio da Alvorada, de costas, falando ao celular com uma pessoa não identificada. Quando ele se vira de frente, interrompe o interlocutor e diz: “Então deixa eu te falar uma coisa, querido. Eu acabo de fazer uma reunião com a Dilma e eu serei o novo ministro-chefe da Casa Civil. Tá? Eu tomo posse a partir de terça-feira. Ela vai me nomear hoje, mas eu só tomo posse terça-feira.”

Em seguida, enquanto as emas silhuetadas se movimentam no jardim do palácio na noite de lua cheia, é reproduzida em off a famosa conversa telefônica em que Dilma avisa Lula que está mandando para ele o termo de posse para ser usado “em caso de necessidade”. Na cena seguinte, em plano noturno gravado de um drone, surge a Praça dos Três Poderes, vista do alto, e a narração, na voz da diretora Petra Costa, comenta: “Para alguns, esse áudio vazado era a prova de que Lula estava sendo nomeado ministro para ter acesso ao foro privilegiado e assim evitar a prisão. Para outros, era a prova de que Moro [ao tornar pública a gravação] estava usando o seu poder de juiz para tirar Lula do jogo político.” Dois dias depois da posse, a nomeação de Lula foi suspensa pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Um ano e quatro meses mais tarde, o juiz Sergio Moro condenou Lula, em primeira instância, a nove anos e seis meses de prisão.

Depois da estreia no Festival de Sundance, em janeiro, e da exibição no IndieLisboa, em maio, Democracia em Vertigem estará disponível em mais de 190 países, exclusivamente na Netflix, a partir do dia 19 deste mês.

 

Lula, como não podia deixar de ser, ocupa o proscênio do documentário de Petra Costa, ela mesma galvanizada pelo hábil ator político em quem votou radiante em 2002, quando tinha 19 anos, como se vê no filme de família incluído em Democracia em Vertigem. Roteirista, diretora e produtora, além de narradora, Costa começou a gravar seu documentário em 2016, intrigada pelas grandes manifestações de rua que desde o início do ano anterior pediam o impeachment de Dilma e a prisão de Lula.

Esse foi seu primeiro contato com a agressividade de um movimento que incluía defensores da “intervenção das nossas Forças Armadas” com o objetivo de depor o governo. Surpreendida pelas mudanças, que ela não percebera “por surdez ou cegueira”, como admite na narração em primeira pessoa, Costa deu início a uma jornada de dois anos em busca da causa de tamanha reversão de expectativas entre a população brasileira. “O que mudou”, ela pergunta, “para que duas pessoas que estavam se manifestando contra o governo tivessem que ser retiradas do protesto só por estarem vestidas de vermelho?” Na tentativa de entender o que acontecia, percorreu um longo caminho com tenacidade exemplar, dedicando-se de início ao processo de impeachment de Dilma, autorizado pela Câmara dos Deputados em abril de 2016.

Democracia em Vertigem parte da premissa, definida nos primeiros minutos do filme, de que o país está “avançando rapidamente rumo ao seu passado autoritário”. Argumento ao qual Costa acrescenta sua perspectiva pessoal: “Hoje, enquanto sinto o chão se abrir embaixo dos meus pés, temo que a nossa democracia tenha sido apenas um sonho efêmero.” A raiz dessa vertigem regressiva estaria, diz a narração, na série de opções feitas por Lula para chegar ao poder e, depois, criar condições de governar. Após três derrotas desde 1989, ele, primeiro, conciliou-se com o empresariado para se eleger em 2002; depois, como não dispunha de maioria no Congresso, seu governo passou a “comprar votos” de deputados e senadores “para conseguir aprovar projetos” – estratégia que resultou no escândalo do mensalão, que veio à tona em 2005 e do qual o presidente conseguiu se manter distante, apesar de que, “muito tempo depois, essa sombra ainda o perseguiria”, como é dito na narração do filme. Além disso, em seu primeiro mandato Lula se aliou ao PMDB, fiel da balança nas decisões do Parlamento.

Identificadas as raízes do mal, o desencanto de Costa se manifesta e, com a sucessão dos eventos, não tarda a se consolidar. Aos treze minutos de Democracia em Vertigem, ela comenta: “Eu votei no Lula com a esperança que ele reformasse eticamente o sistema político. Mas lá estava ele, repetindo práticas que sempre criticou e formando alianças com a velha oligarquia brasileira.” O documentário mal começou, mas até mesmo um espectador pouco informado sabe como tudo acabará, quinze anos depois – nos planos de abertura, o filme mostra Lula consolando os seus seguidores, desolados com a notícia de sua prisão.

 

emocracia em Vertigem superpõe e entrelaça dois amplos arcos históricos, um político, outro familiar – é difícil conceber projeto mais ambicioso. Em 121 minutos, lança mão de extensas gravações próprias, algumas entrevistas, imagens e áudios de arquivo, preciosas gravações inéditas de Ricardo Stuckert, fotógrafo oficial de Lula, e filmes de família. Tudo isso para dar conta de um período de quase sete décadas – do início da construção de Brasília, no final dos anos 50, à mais recente eleição presidencial. O principal foco do filme é a trajetória de Lula, das greves no abc paulista em 1979 até o processo de impeachment de Dilma em 2016, mas lembranças pessoais da diretora também são evocadas, entre elas seu aniversário de 1 ano de idade, em 1984, e a militância clandestina de seus pais na década de 70, mesma época em que a empreiteira do seu avô, criada em 1948, tornou-se uma das maiores do país.

Visões panorâmicas como a de Democracia em Vertigem costumam falhar exatamente em razão da abrangência excessiva. No caso desse documentário, o assunto é intrincado, difícil de explicar, mais ainda de entender, restando ao espectador a penosa tarefa de assimilar a quantidade de informação comunicada a cada minuto. A alternativa oposta, no entanto, tampouco resultou plenamente satisfatória quando foi adotada em O Processo, de Maria Augusta Ramos, lançado em maio de 2018. Ao restringir seu documentário ao ritual do impeachment, assumindo o papel de observadora disciplinada, Ramos não foi além da superfície dos fatos, deixando de oferecer alguma possibilidade de compreensão de seu real significado – a crença de que imagens e sons editados falam por si sós, nesse caso, resulta ilusória.

Opção radical foi feita em O Muro, lançado em junho de 2018. Lula Buarque de Hollanda deixa de lado o entediante ritual do impeachment e elege a polarização política como tema. Não há gravações no interior da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. A câmera se mantém fora dos prédios, concentrando-se no chamado “muro do impeachment”, montado na Esplanada dos Ministérios para separar manifestantes a favor e contra a cassação de Dilma. Sem ser irretocável, é um documentário interessante que trata de muros espalhados pelo mundo, da Cisjordânia à fronteira do México com os Estados Unidos – símbolos de alcance global da inviabilidade do diálogo.

Antes de voltar a Democracia em Vertigem, faço aqui um parêntesis para informar que prestei consultoria de montagem ao documentário de Petra Costa durante cerca de quatro meses, entre agosto e novembro de 2017. Minha função consistia em assistir e comentar as versões editadas do filme nesse período. Como não tive qualquer participação na montagem final, realizada no ano seguinte, acredito poder comentar o filme com objetividade e isenção. Continuemos.

 

Os danos resultantes da amplitude do enfoque de Democracia em Vertigem foram minimizados graças ao empenho da diretora em prolongar as gravações para dar conta de um ciclo da política brasileira que pode ou não ter se encerrado. A extensão dos registros permitiu preservar certa atualidade do documentário, renovada há pouco mais de um mês graças à divulgação da primeira entrevista de Lula desde que foi preso em 2018. Mesmo assim, por causa da velocidade com que a roda da política brasileira gira, qualquer tentativa de manter atualizado um filme como esse pode acabar frustrada. A primazia da visão de conjunto oferecida no documentário de Petra Costa, por exemplo, que vai até a prisão de Lula, acabou sendo perdida para a reportagem da BBC News, “Lula: Atrás das grades”, transmitida em 10 de maio, que incluiu trechos da entrevista de Lula dada a Kennedy Alencar, a segunda gravada na Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba.

Outra falha de Democracia em Vertigem é o uso recorrente de planos aéreos, diurnos ou noturnos, de Brasília, gravados por meio de drones, recurso que se tornou um dos maiores clichês do cinema brasileiro. Essas imagens, bem como os travellings repetitivos nos espaços interiores vazios do Palácio da Alvorada e do prédio da Câmara, acabam se tornando apenas um artifício visual de apoio à narração. Insatisfatória, também, é a falta de identificação das datas em que foram gravadas as entrevistas de Dilma e Lula, em especial. Em nome da mesma liberdade de um contador de histórias do mercado de Marrakech, que Werner Herzog disse ser equivalente à do diretor de cinema, perde-se a possibilidade de saber quando as declarações foram feitas e qual sua real conexão com o que foi visto pouco antes e o que é mostrado logo depois, na sequência do filme.

Questionável, ainda, é a inclusão duas vezes, uma em seguida à outra, do áudio da conversa do ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, com o então senador Romero Jucá, gravada secretamente pelo primeiro, semanas antes da instauração do processo de impeachment, em março de 2016. Vazada em 23 de maio, dias depois de Michel Temer assumir interinamente a Presidência e Jucá assumir o Ministério do Planejamento, a gravação seria a prova “de um grande acordo nacional para mudar o governo, para botar o Michel [Temer], e para estancar a sangria. Um grande acordo nacional, com o Supremo, com todo mundo, aí parava tudo” (em citação livre da gravação vazada).

O documentário não informa, porém, que Machado gravou a conversa para incluí-la na sua delação à Lava Jato e se beneficiar com isso. Tampouco esclarece que os fatos ocorridos posteriormente não seguiram à risca o que foi ventilado na gravação. “A sangria” até hoje não foi estancada, como prova a recente prisão de Temer. A gravação lançou “luz sobre o que se passava nas sombras da República”, sem dúvida. Mas essas tenebrosas transações políticas teriam sido a “motivação do impeachment”, como afirma a narração? De outro lado, acreditar “que o processo [de impeachment] pudesse cair por terra” por causa dessa conversa não passa de sinal de ingenuidade.

 

O interesse de Democracia em Vertigem cresce exponencialmente quando a narradora comenta as imagens e os sons de arquivo, que, por isso, deixam de servir como mera ilustração. Nessas cenas, a exegese do material propicia revelações insuspeitadas. Um desses momentos é a travessia de Lula cruzando o plenário da Câmara para tomar posse como presidente da República, em 1º de janeiro de 2003. Ele aparece cercado por uma multidão compacta de parlamentares, que o cobrem de sorrisos, beijos e abraços, ao som dos famosos acordes de valsa da abertura de O Guarani. A narradora diz: “Olha quanto tempo ele leva para atravessar o Congresso. Um escultor, cujo material é a argila humana. Esses abraços refletem tanto seu carisma quanto sua decisão de conciliar.”

Outro comentário sobre a imagem é ainda mais perspicaz. Após passar a faixa presidencial para Dilma no parlatório do Palácio do Planalto, em 1º de janeiro de 2011, Lula desce a rampa de braços dados com sua mulher, Marisa Letícia, e a presidente. Temer está um pouco à parte. A narradora observa: “Hoje percebo que o entusiasmo de ter eleito nossa primeira presidente mulher me cegou para outra coisa que acontece nessa cena. O precipício entre Dilma e seu tenso vice-presidente. Temer, à direita, tem seus gestos controlados, como se estivesse dentro de uma caixa. Ele entrelaça os dedos e puxa as mãos, como se quisesse separá-las. Foi um casamento arranjado. Dilma, que nunca havia se candidatado, precisava, ainda mais do que Lula, da aliança com o PMDB para governar. A condição do PMDB era que Temer, um político conservador e líder do partido, fosse vice-presidente. Quando perguntado sobre a aliança, Lula disse que, se Jesus viesse pro Brasil, teria que fazer aliança até com Judas.”

Ao posarem para fotos ao pé da rampa, Lula, Dilma e Marisa parecem ter se esquecido de Temer. O vice-presidente, que está atrás de Lula, procura se reposicionar. A narradora comenta: “Quem mais imaginava que esse homem que deu toda essa volta pra aparecer na foto, cinco anos depois ia querer sair na foto sem ela [Dilma]?” Em seguida, protegido por uma grade, Lula se entrega aos apertos de mãos e braços de dezenas de apoiadores. Enquanto isso, embora o documentário não mostre a cena, os noivos do casamento arranjado, Dilma e Temer, sobem a rampa para iniciarem uma relação cada vez mais tóxica. “Mas essa não é uma simples história de traição”, diz a narradora. “Se o clima nos trópicos estava no auge do otimismo, em alguns anos os alicerces da nossa democracia começariam a rachar.”

 

O risco de se tornar anacrônico ou, na melhor das hipóteses, uma celebração póstuma, assombra qualquer documentário, em especial os dedicados a questões políticas. Dada a lentidão do processo de realização de um filme, pode haver um intervalo de tempo demasiado longo entre os eventos focalizados e a estreia da obra, o que termina por minar a capacidade do documentário de ter voz ativa no debate público.

Esse é um dilema para o qual há poucas alternativas. A mais usual é antecipar o lançamento, mas isso nem sempre é viável; outra é aguardar a conjuntura ou a data que pareçam mais favoráveis. Terá sido casual o fato de O Processo e O Muro terem chegado aos cinemas pouco antes do início da campanha presidencial de 2018? Talvez ambos tivessem a expectativa de que o impeachment, mesmo passados dois anos, ainda provocasse alguma ressonância nos espectadores, o que ao menos no caso de O Processo demonstrou ser verdadeiro – o documentário teve mais de 60 mil espectadores nos cinemas e 215 mil acessos no YouTube, o que configura certo sucesso.

Um panfleto didático e outros três documentários sobre o impeachment também correram o risco de parecerem obsoletos quando estrearam. Lançados entre o final de março de 2017 e 2018, eles se situam em posições diferentes do espectro político. À direita, estão Impeachment Brasil – Do Apogeu à Queda, sem crédito específico de direção, e Impeachment – O Brasil nas Ruas, de Beto Souza e Paulo Moura, ambos a favor da destituição de Dilma. À esquerda, está Já Vimos Esse Filme, dirigido por Boca Migotto, para quem o impeachment foi um golpe. Apenas Excelentíssimos, de Douglas Duarte, tem uma perspectiva jornalística isenta.

Impeachment Brasil – Do Apogeu à Queda, da produtora Brasil Paralelo, teve cerca de 36 mil acessos no YouTube na época do lançamento e hoje acumula 113 mil acessos. Com padrão didático-propagandístico, marca registrada da produtora, o vídeo é conduzido por uma narração feita em tom impositivo, imagens de arquivo de péssima qualidade e 25 depoimentos professorais entrecortados de políticos, advogados e ativistas, começando, como não podia deixar de ser, pelo de Olavo de Carvalho.

O documentário de Souza e Moura é menos doutrinário. Impeachment – O Brasil nas Ruas pertence ao mesmo campo ideológico, mas tem fatura e acabamento técnico superiores ao panfleto da Brasil Paralelo. Defende seu ponto de vista por meio de gravações e fotos documentais de manifestantes de camisetas verde-amarelas, de imagens de arquivo e, principalmente, de uma sucessão de depoimentos. Alguns dos entrevistados participam também do vídeo Impeachment Brasil – Do Apogeu à Queda. Chega a parecer, inclusive, que os dois vídeos recorreram às mesmas gravações, com a diferença de que mais destaque é dado em Impeachment – O Brasil nas Ruas aos representantes dos diversos movimentos que promoveram as manifestações pró-impeachment de 2015. Exibido apenas em pré-estreias para convidados e exibições privadas, sem alcançar grande repercussão, o documentário está disponível no NOW, Google Play e YouTube Filmes.

Apesar da perspectiva política oposta aos dois vídeos anteriores, Já Vimos Esse Filme, de Boca Migotto, é semelhante em termos formais a Impeachment – O Brasil nas Ruas, pois reúne registros de manifestações públicas, imagens de arquivo e depoimentos. Lançado na internet em agosto de 2018, na rede Mídia Ninja e no portal Brasil 247, quando publicado no YouTube teve 16 mil acessos. Foi difundido também em sessões domésticas, chamadas de Cinema na Garagem, e tem versões em inglês e espanhol, disponíveis nos comitês Lula Livre na Europa.

Excelentíssimos, lançado em novembro de 2018, mais de dois anos após a interrupção do mandato de Dilma e quase um mês depois da eleição presidencial, acabou se revelando o mais anacrônico e o menos satisfatório desses quatro documentários. A tentativa de conciliar, conforme a proposta inicial, um retrato do Congresso com a cobertura do impeachment acabou não dando certo, e nenhum dos dois temas foi tratado de maneira adequada. Além disso, quando o filme estreou, as preocupações com a cassação de Dilma haviam sido suplantadas pelo estado de choque que atingiu os milhões de eleitores que não votaram em Jair Bolsonaro.[1]

 

Graças à persistência de Petra Costa em continuar gravando desdobramentos da Operação Lava Jato depois do impeachment, Lula ocupa seu lugar de direito, ao lado de Dilma, como protagonista de Democracia em Vertigem. Mas a própria realizadora parece ter acolhido essa paridade imposta pelos fatos com certa ambivalência. Apesar de ter perdido relevância política após sua destituição, Dilma é mantida em posição de destaque no filme. Isso talvez ocorra, em parte, por causa da solidariedade da realizadora com uma mulher torturada durante a ditadura. Além disso, deve ter influído a identificação que a mãe de Costa, Marília Andrade, diz ter sentido com Dilma, na época da eleição em 2010. “Mulher, mineira, militante… Em épocas diferentes, estudamos nas mesmas escolas. E fomos presas no mesmo presídio, Tiradentes. Eu por menos tempo, claro”, diz Andrade. No dia em que Dilma se tornou a primeira mulher a ser eleita presidente da República, mãe e filha, exultantes, celebraram o fato rodopiando em plena avenida Paulista, conforme se vê na cena incluída em Democracia em Vertigem.

Tais antecedentes permitiam esperar mais do encontro de Dilma e Marília Andrade registrado pelo documentário. Elas não se conheciam, apesar do que têm em comum. Foi Petra Costa quem promoveu o encontro delas, em 2017. Na conversa, há algo de excêntrico no pouco que Dilma tem a dizer: “O que acontece com a gente [após ter sido presidente] é que nunca mais se pode ser inteiramente anônimo. E tem uma imensa liberdade em ser anônimo, imensa, que a gente tem quando tá na clandestinidade. […] A imensa sensação de liberdade que nunca mais eu tive igual. Por pouco tempo, mas é imensa, né?” Ela conta que “não queria” ser candidata à sucessão de Lula, mas que “ele faz política de fato consumado, muito”. São três minutos que deixam uma interrogação no ar: por que essa conversa foi incluída no filme? Seja qual for o motivo, a sequência deixa claro que o senso crítico de Costa é menos acentuado em relação a Dilma do que em relação a Lula.

Dilma teria sido cassada tanto por suas falhas quanto por suas virtudes. Com a popularidade em alta, no início de 2013, arriscou contrariar a “conciliação lulista”, segundo Costa. “Ela tirou cargos importantes do PMDB e forçou os bancos a reduzir a taxa de juros.” Quando “a economia perde força, os protestos de rua desestabilizam o principal pilar do governo, o apoio popular” – em três semanas, a popularidade da presidente cai 27 pontos. “Numa tentativa de recuperar a credibilidade do governo, Dilma aprova uma série de medidas anticorrupção, entre elas a delação premiada, que facilitaria o caminho de uma ampla investigação. Um tsunami que desestabilizaria o sistema político.” Ao se aproximar a eleição presidencial, “muitos culpam Dilma por não interferir nas investigações. Uma atitude que levaria à sua queda” – ou seja, segundo a diretora, a ex-presidente teria sido vítima da sua própria integridade.

Petra Costa reconhece que, “depois de uma queda global no preço das commodities e uma série de erros econômicos, o país entra em recessão. Dilma quebra suas promessas de campanha, implementando um programa de austeridade. O desemprego chega a 8%, mais de quatro milhões de pessoas voltam à pobreza, e a taxa de aprovação do governo cai para 9%. Nesse clima, o Congresso aceita o pedido de impeachment contra Dilma”, ato decisivo, cujo prosseguimento – um rito político de nove meses, da autorização de abertura do processo pelo deputado Eduardo Cunha até a cassação do mandato pelo Senado – não passou de jogo de cena.

 

A corrupção sistêmica revelada pela Operação Lava Jato paira sobre Democracia em Vertigem do início ao fim do documentário, admitida com ressalvas no depoimento de Marília Andrade. Petra Costa pergunta: “Mãe, o que você sentiu quando começaram a revelar os esquemas de corrupção entre o governo e as empreiteiras?” Para Andrade, o “esquema de corrupção entre governo e empresa é regra geral na história do Brasil. A grande novidade é a Lava Jato prender e fazer delatar empresário, político. Inclusive executivos da empresa ligados à minha família [o grupo Andrade Gutierrez]. Isso é uma grande novidade. Nunca aconteceu antes no país. E eu até achei que pudesse ter efeito. Mas foi ficando muito partidarizado. E, acima de tudo, parece uma política da elite, do Estado, de eliminar a ameaça da esquerda. Tirar o Lula, derrubar a Dilma, acabar com o PT. Nem que pra isso fosse necessário eliminar uma parte da elite, que são os empreiteiros. Então, corta esse braço e mantém o resto”. O desenrolar dos fatos deixou claro, porém, que a Lava Jato não estava voltada apenas contra um partido e contra a esquerda.

Em seguida, quem fala sobre corrupção é Gilberto Carvalho, petista histórico, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência no governo Dilma e chefe de gabinete do presidente Lula. Para ele, em resumo, “a gente [do PT] passou a depender demais da governabilidade apenas com o Congresso. […] O financiamento de campanha achamos que era natural. Não fizemos a tal da reforma política que era fundamental ter feito pra acabar com a desgraça do financiamento de empresas. Aí tá a mãe da corrupção. O cara é candidato, precisa da empresa, a empresa dá o dinheiro. Depois vem pedir uma coisa pro cara, o cara pensa: se eu não votar esse projeto, não fizer essa concessão, não vou ter dinheiro na próxima campanha. O partido começou a fazer o que os outros faziam”. Carvalho é o único petista em Democracia em Vertigem a tratar do assunto sem rodeios ou generalizações.

Costa pergunta timidamente a Lula: “Você se arrepende de alguma coisa?” Ele responde com a destreza habitual: “Devo me arrepender de muita coisa, querida.” Sem interrupção, passa a falar do seu arrependimento “de não ter feito mais. […] Temos séculos de preconceito. Séculos de dominação da casa grande. A senzala sempre foi muito maltratada. Reverter tudo isso é uma coisa difícil. Nem sempre dá certo.”

Em conversa com a diretora, Dilma admite que o PT errou ao “não perceber que a hegemonia pela direita era crescente”, uma vez que ela não se manifestara em 2014. Isso ocorre, segundo a ex-presidente, quando Eduardo Cunha se elege presidente da Câmara, em 1º de fevereiro de 2015, e “monta a estrutura do golpe”: “Eu quero te dizer, eu não governei durante 2015.”

Na tentativa de elucidar os eventos que levaram ao impeachment, Costa acrescenta considerações hilariantes, embora feitas a sério, de dois deputados e o comentário ponderado de um senador: “Tem deputados do PT que falam […] que a Dilma nunca deu um abraço neles. Nunca pegou na mão”; “Eu posso dizer que a Dilma é honesta, mas a boa cozinheira não é aquela que faz a comida ao seu gosto. A boa cozinheira é aquela que faz a comida ao gosto de quem ia comer”; “Ela brigou com o Parlamento, ela brigou com o Judiciário, brigou com o Tribunal de Contas. Ela brigou com os seus eleitores.”

 

Na antevéspera da votação do impeachment, em pronunciamento feito no Senado Federal, Dilma Rousseff disse ter um único temor: a morte da democracia. Petra Costa, por sua vez, diz no documentário temer que “nossa democracia tenha sido apenas um sonho efêmero”. O tema é antigo e continua na ordem do dia, mais atual do que nunca – recentemente, inclusive, foi publicado o livro Democracia em Risco? com 22 ensaios que discutem o assunto. Em artigo na Folha de S.Paulo (5/5/2019), a historiadora Angela Alonso escreveu: “Desde que Jair Bolsonaro assumiu a Presidência, o que parecia a salvo de intempéries na democracia brasileira entrou em zona de tiro: dos direitos individuais à vigência das leis. O fato de o presidente ser partidário apaixonado do regime militar e do coronel Ustra, o rei dos torturadores, é, por si, uma evidência. As tentativas de controle de pensamento, ensino e pesquisa, outra. A incerteza subiu ao nível da estratosfera – para os que ainda consideram a Terra redonda e dotada de uma.”

Se abalos no edifício da democracia vêm ocorrendo há tempos, poucos deram atenção devida à gravidade das ameaças contidas na candidatura a presidente de um deputado federal despreparado e falastrão. Durante as gravações de Democracia em Vertigem, Costa captou sinais de que o ovo da serpente estava sendo chocado, mas, como muitos, ela também demorou a crer que a víbora pudesse vingar.

A exaltação ao “torturador e assassino mais infame da ditadura”, Carlos Alberto Brilhante Ustra, que o deputado teve a baixeza de chamar de “o terror de Dilma Rousseff” ao votar pelo impeachment, não foi suficiente. Muito menos as declarações do então deputado Bolsonaro feitas a Petra Costa um ano antes da campanha presidencial, repetindo o que já dissera tantas vezes em público: “O agronegócio é apaixonado por mim quando falo ‘no que depender de mim, vocês na fazenda vão ter fuzis’”; “Cartão de visita pra marginal do mst é um cartucho de 762”; “Vocês, caso queiram ter uma arma dentro de casa, se depender de mim, terão! Assim se combate a violência!”; “Vagabundo, o que ele entende é pancada”; “Me chamam de grosso, homofóbico, fascista etc. Eu sou um herói. E estou cada dia mais vivo perante a opinião pública.” Nada disso impediu que milhões de brasileiros elegessem Bolsonaro para o cargo de presidente da República.

Petra Costa encerra Democracia em Vertigem com três indagações: “Como lidar com a vertigem de ser lançado em um futuro que parece tão sombrio quanto o nosso passado mais obscuro? O que fazer quando a máscara da civilidade cai, e o que se revela é uma imagem ainda mais assustadora de nós mesmos? De onde tirar forças para caminhar entre as ruínas e começar de novo?” São perguntas retóricas. Nem por isso deixam de ser inquietantes.

 


[1] Comentei mais detidamente O Processo, O Muro e Excelentíssimos em textos publicados no site da piauí:O Processo – observação em crise”; O Muro – sinal de alerta, ouvidos moucos; Excelentíssimos – outro retardatário na tela”.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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