carta de Santiago

Do cobre ao ouro

Como os 33 mineiros ganham a vida depois de ficarem 69 dias presos no fundo da terra

Cristina Tardáguila
Em janeiro, 31 dos 33 mineiros resgatados no Chile, cada um acompanhado por quatro familiares, embarcaram para Orlando, nos Estados Unidos, a convite da Disney World. Desfilaram no carro do Mickey Mouse e tiveram todas as despesas pagas
Em janeiro, 31 dos 33 mineiros resgatados no Chile, cada um acompanhado por quatro familiares, embarcaram para Orlando, nos Estados Unidos, a convite da Disney World. Desfilaram no carro do Mickey Mouse e tiveram todas as despesas pagas FOTO: CORTESIA DO PARQUE DA DISNEY_ORLANDO, USA

O advogado Fernando García, um quarentão de pele bronzeada, é diretor do Departamento de Propriedade Intelectual da Carey y Cía., o maior escritório de advocacia do Chile, e tem sob seu comando uma equipe de sessenta profissionais. Sua especialidade são as causas que envolvem direitos autorais e patentes. “Desde dezembro, quando nos tornamos os únicos responsáveis pela negociação dos direitos autorais relacionados à história dos 33 mineiros de San José, guardamos aqui o diário escrito por um deles ainda na mina”, disse. Estávamos numa sala do 43º andar da Torre Titanium, o arranha-céu mais espelhado de Santiago.

García tirou do bolso da calça uma carteira de couro preta e procurou algo dentro dela enquanto falava. “Por questões de sigilo, não posso dizer em qual dos cinco andares da Carey o diário se encontra, mas ele está num cofre dentro de uma caixa-forte”, disse. Encontrou o que procurava, uma pequena chave prateada, que me exibiu ao dizer: “Para pegar o diário é preciso essa e outra igualzinha, que fica com um colega do escritório. Os dois têm que estar presentes e concordar com o motivo da abertura dos cofres.”

O diário guardado pela Carey y Cía. tem 137 páginas escritas à mão por Víctor Segovia, um eletricista de 48 anos de idade que trabalhava como mineiro para garantir o sustento de cinco filhos. Realizava turnos de doze horas e, no tempo livre, tocava violão. Nunca escrevera nada até o acidente que fez com que ele e 32 companheiros ficassem presos durante 69 dias na mina San José, no deserto do Atacama. Amassada, manchada e empoeirada, a papelada relata a convivência daqueles homens a uma profundidade de 700 metros, equivalente à distância que separa os pés da estátua do Cristo Redentor das árvores do Jardim Botânico, no Rio. Muito já se especulou, na imprensa, sobre o seu conteúdo. Já se aventou a possibilidade de ele descrever encontros homossexuais, tentativas de suicídio, consumo de drogas e conversas sobre canibalismo. Os mineiros não falam sobre o assunto. Mantêm intacto o pacto de confidencialidade que selaram debaixo da terra.

García disse que não leu sequer um parágrafo do diário. Há três meses, ele e sua equipe negociam – por e-mail e telefone – cláusulas de contrato e valores milionários com mais de cinco editoras internacionais e incontáveis produtoras de cinema. O objetivo da Carey é transformar o diário numa garantia do futuro econômico dos 33 mineiros e de suas famílias. “O céu é o limite”, disse o advogado. “Mas também não podemos demorar muito para bater o martelo.”

 

Desde o fim de dezembro, quando os 33 se reuniram no escritório da Carey y Cía. e constituíram a Propiedad Intelectual Minera, Sociedad por Acciones, os advogados sofrem pressão para fechar um acordo. “Foi para diminuir essa tensão que, há algumas semanas, optamos dar 2 mil dólares por mês para cada um dos mineiros, como antecipação dos lucros”, explicou Fernando García. Víctor Segovia, o autor do diário, ganha um pouco mais, mas o advogado não diz quanto: “Com a divulgação da cifra, daríamos margem à realização de cálculos sobre quanto o diário pode valer, e isso atrapalharia nossas negociações.”

Não é só da antecipação de direitos que os 33 vivem. Quando ainda estavam sob a terra, o empresário Leonardo Farkas, o dono de uma mina vizinha dado a rompantes filantrópicos, abriu uma conta-doação em nome deles, a de número 3333. De seu bolso, depositou 10 mil dólares para cada um e, no dia seguinte, lançou uma campanha de solidariedade pedindo contribuições. Quando foram resgatados, cada mineiro tinha 30 mil dólares acumulados.

Os advogados também participam da negociação daquilo que chamam de “produtos menores”: da participação em programas de televisão à cessão de imagens para anúncios publicitários. Só em janeiro, e contando-se apenas as propostas vindas do Japão, o escritório recebeu quinze consultas. Do Brasil vieram duas – uma para a realização de uma palestra e outra para a participação no comercial de uma ONG que solicitou sigilo. Os mineiros podem fazer acordos individuais, mas com restrições. “Desde que não revelem o conteúdo do diário, ou seja, não falem sobre os 69 dias na mina, cada um está livre para fazer o que quiser: passear, dar entrevistas, se divertir”, explicou García.

Apesar de ser o autor do diário, Víctor Segovia não é o que mais recebe convites e propostas de viagens. A vedete do grupo é o também eletricista Mario Sepúlveda, o segundo a sair da mina, que já esteve em cinco países depois do resgate. Alguns de seus companheiros o consideram espalhafatoso. Sepúlveda não se importa, diz que sempre foi hiperativo.

Parecia estar a mil por hora quando saiu da mina. Logo depois de beijar a mulher, Elvira, na frente de mais de 1 500 jornalistas, fotógrafos, técnicos de televisão e cinegrafistas, jogou no chão uma sacola amarela que trouxe das profundezas. Dela tirou duas pedras cinzentas, de cerca de 1 quilo cada, e as entregou ao presidente do Chile, Sebastián Piñera, e ao ministro das Minas, Laurence Golborne. Era um suvenir. Mario Sepúlveda correu então na direção dos curiosos e estendeu as pontas dos dedos para cumprimentar o maior número possível de desconhecidos. Parecia um candidato em fim de campanha. “Gracias! Viva Chile!”, repetia. Nascia o “Super Mario”. Jornais e sites de todo o mundo o estamparam na primeira página.

Casado há 18 anos, Sepúlveda tem dois filhos adolescentes, Scarlette e Francisco. Há três anos, passava a semana trabalhando como motorista da mina e, nos fins de semana, encontrava a família em Copiapó, uma cidade de 150 mil habitantes no deserto. Não reclamava da vida. Sua mãe morrera no parto e o pai abandonara os seis filhos à própria sorte. Dormira boa parte da infância num estábulo, comendo a ração dos animais.

Após o colapso das galerias, Sepúlveda e os companheiros tatearam na direção do quarto de paredes reforçadas e portas de metal conhecido como “refúgio”, que faz parte do esquema de segurança de toda mina. De lá, tentaram chegar ao duto de ventilação. Por lei, toda mina chilena deve ter ao menos um duto desse tipo com escadas que podem ser usadas como rota de fuga em casos de emergência. Na San José, o caminho estava obstruído ou as escadas inexistiam. Sepúlveda, um dos mais velhos, acalmou os colegas e os dividiu em equipes. Cada uma foi para um lado em busca de alternativas de fuga. Não havia nenhuma.

 

Um terço da produção mundial de cobre sai do Chile. Suas jazidas rendem 5,5 milhões de toneladas de minério por ano, mais do que a capacidade de carga de 13 mil Boeings 747-400. O cobre, principal produto da balança comercial, é responsável pela metade das exportações chilenas.

A região de Copiapó, a mais rica em minério e a mais pobre em desenvolvimento humano, é domínio da estatal Codelco, que em 2009 lucrou 4 bilhões de dólares. Ali também atuam gigantes como a Anglo American e a BHP Billiton. A mina San José era exceção. Desde 2004, era filha única e deficitária, tocada por um ex-gerente demitido da Unilever chamado Alejandro Bohn. Ao sair da empresa, Bohn recebeu 1 milhão de dólares de indenização e comprou 30% da San José pertencente a Marcelo Kemeny.

Não entendia nada de minas. Nem de segurança. Em 2007, um mineiro morreu num acidente de trabalho naquele lugar. Dois anos depois, a mina foi fechada durante meses por falta de condições. No ano passado, um bloco de pedra caiu num mineiro e lhe decepou a perna.

Quando o empresário Sebastián Piñera sucedeu Michelle Bachelet na presidência do Chile, em março de 2010, Alejandro Bohn obteve um atestado de que a mina estava segura e conseguiu a autorização para retomar os trabalhos na jazida. Em pouco tempo, já empregava cerca de 300 homens. No dia do acidente, os mineiros achavam que a via de escape estaria aberta porque os técnicos do governo haviam liberado os trabalhos. Quando os sindicatos dos mineradores – os maiores e mais poderosos do Chile – tomaram conhecimento do acidente, ameaçaram o presidente Piñera com uma greve nacional, para obrigá-lo a se envolver de corpo, alma e bolso nos trabalhos de resgate.

Empossado há cinco meses, Piñera tinha lidado com a destruição provocada no sul do país por um terremoto de 8,8 graus, seguido de um tsunami. Sua popularidade era menor que a de Michelle Bachelet. Naqueles primeiros dias de agosto, visitava o Equador e a Colômbia. Assim que soube do desabamento, ordenou que o novo ministro de Minas, Laurence Golborne, um desconhecido da população, fosse para lá. Dois dias depois, ele mesmo chegou ao local.

Golborne mobilizou alguns dos melhores especialistas em minas do mundo e deslocou para o deserto do Atacama o que havia de mais potente em maquinário de perfuração. Eram seis e meia da manhã do 17º dia de confinamento quando a equipe percebeu que a perfuradora havia alcançado um espaço oco e que vibrava: lá embaixo, os mineiros golpeavam a ponta do equipamento com tudo que tinham à mão como forma de se fazer notar. Ao retirar a perfuradora, os técnicos se depararam com um bilhete, manuscrito, atado à ponta da máquina com o elástico da cueca de Mario Sepúlveda. Nele, lia-se: Estamos bien en el refugio los 33.

Super Mario era o líder do grupo. Ele tinha um relógio de pulso e ficou encarregado de manter a noção do tempo. Informava quando era dia e quando era noite e determinava a hora de dormir. Foi ele quem dividiu os cativos em equipes para executar tarefas diárias. Alguns limpariam o banheiro improvisado, e outros buscariam novas fontes de água nos 2 quilômetros de galeria a que ainda tinham acesso. De hora em hora, promovia um buzinaço com os veículos imobilizados no centro da Terra, certo de que guiaria alguma equipe de resgate em sua direção. De vez em quando chorava, confessou meses mais tarde. Mas sempre o fazia longe do grupo.

O buraco de 15 centímetros de diâmetro aberto pela sonda foi revestido de PVC e ligou a superfície aos subterrâneos. Nas primeiras horas, serviu de via de passagem para litros de água e leite enriquecido com calorias e proteínas. Logo depois, passaram pelo duto questionários médicos e equipamentos para coleta de urina e sangue, material que seria analisado por laboratórios e que confirmaria que o grupo estava frágil, sofrendo de infecções e fungos, mas que poderia sobreviver. Em terceiro lugar, passaram sabonete, papel, gilete, escovas de dente e desodorante.

Depois de estabilizada a alimentação e a saúde, passaram pelo duto baralhos, dominós, jogos de tabuleiros e pequenas Bíblias. No livro Os 33: O Dramático Resgate dos Mineiros Chilenos, do jornalista Jonathan Franklin, correspondente do jornal britânico The Guardian no Chile, há relatos de que os mineiros pediram maconha e uma boneca erótica inflável. O primeiro item teria sido autorizado como forma de aliviar o estresse coletivo, mas o segundo foi vetado pelo corpo de médicos. “Ou mandamos 33 bonecas ou nenhuma”, teria dito o doutor Jean Romagnoli, cabeça da equipe, preocupado com possíveis disputas num ambiente fechado.

Mais tarde, começaram a passar pelo tubo os primeiros presentes do grupo. Ao longo dos 69 dias de prisão, desceram camisetas da seleção chilena, do Colo Colo e de seu arqui-inimigo, o Universidad do Chile, do Real Madrid e de seu arquirrival, o Barcelona, da seleção espanhola vencedora da Copa do Mundo, além de 33 iPods enviados por Steve Jobs, uma gravação feita pelo grupo americano Rage Against The Machine em homenagem a eles e mensagens do papa Bento XVI, do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e do presidente Barack Obama.

 

No dia 26 de agosto, quando o refúgio já contava com um cabo de fibra óptica, uma pequena câmera e um sistema de áudio, Mario Sepúlveda gravou o primeiro vídeo dos 33. Ele aparece barbudo e sem camisa e convida o espectador a fazer um tour pelo interior da mina. À medida que avança com a câmera pelo refúgio pouco iluminado, instiga os companheiros de confinamento a saudarem os familiares. Sua atuação lembra a de um apresentador de tevê, sem nunca dar as costas para a câmera. O resto do vídeo, no entanto, revela um mundo de criaturas estranhas, com olhos inchados de poeira, cabelos desgrenhados e vozes roucas que pedem pelo amor de Deus para serem retirados dali. Os 33 já estavam presos há 21 dias.

Da divulgação do vídeo até o anúncio de que o governo Piñera havia pedido a um psicólogo que passasse a filtrar o conteúdo das comunicações, não demorou muito. O objetivo declarado era garantir a tranquilidade emocional debaixo da terra. Mas sem dúvida o controle evitava a divulgação de imagens desesperadas ou constrangedoras.

Alberto Iturra, um senhor de cabelos brancos e fala pausada, havia se autonomeado para o posto de psicólogo-chefe da equipe de resgate pouco depois do deslizamento. Ele era funcionário da Asociación Chilena de Seguridad, a seguradora que cobre todos os acidentes mineiros naquela região, e se sentia na obrigação de atuar. Apresentou-se na jazida e obteve o consentimento do Ministério da Saúde para participar dos trabalhos de resgate. Acompanhou o salvamento do começo ao fim, atendendo tanto os presos como seus parentes.

 

No livro Rescate: La Historia de los 33, o jornalista chileno Andrew Chernin contou que o filtro estabelecido por Iturra na comunicação entre os mineiros e seus familiares irritou a todos. O grupo havia percebido que algumas cartas não eram entregues e que outras apareciam rasuradas. Revoltados, os mineiros anunciaram uma greve de fome. O ministro Laurence Golborne suspendeu a censura de Iturra.

O psicólogo fez alertas a respeito do perigo da notoriedade. “O mundo deles são as minas”, disse. “Eles estão presos num universo que conhecem. Mas, quando saírem, estarão num lugar totalmente novo e se sentirão órfãos. Nós não conseguiremos mantê-los em uma bolha de proteção, por isso devemos ensiná-los sobre a importância de regular essa exposição pública.”

O radialista Alejandro Pino, da Asociación Chilena de Seguridad, ofereceu aos mineiros um curso sobre como lidar com a imprensa, um media training. Pino resumiu sua orientação em seis tópicos: responda à primeira pergunta que ouvir; se for alvo de muitas perguntas, responda à mais simples; seja você mesmo e fale com o coração; conte suas histórias pessoais; use tanto o poder das palavras quanto o da linguagem corporal; lembre-se de que a imprensa não é inimiga.

Mario Sepúlveda aprendeu o bê-á-bá como nenhum outro. No 31º dia de confinamento, participou do principal telejornal da estatal TVN no papel de correspondente nas entranhas da Terra. Ao final de sua participação, depois de responder a perguntas sobre a jornada que se encerrava, devolveu a palavra aos apresentadores do platô, usando um típico jargão jornalístico: “Adelante estudios centrales!” O mundo achou muita graça.

A primeira entrevista exclusiva de Super Mario aconteceu poucas horas depois de ele sair da mina. Deitado na cama do hospital, recebeu um repórter do jornal inglês Daily Mail.

Sentado num bar de Santiago, Jonathan Franklin riu ao se lembrar do dia em que, diante dele, produtores de uma estação sul-coreana de televisão desembolsaram 400 dólares por pergunta respondida por um mineiro recém-resgatado. “Os coreanos questionaram sobre o passado e futuro dele”, contou o autor de Os 33. “Mas quando tentaram arrancar alguma coisa do que havia acontecido na mina, o chileno citou o tal pacto de confidencialidade e se calou. Os produtores se descabelaram. Aumentaram a oferta para 500 dólares, mas o mineiro rejeitou.”

Para o correspondente do Guardian, Mario Sepúlveda deve ter cobrado “uns 15 mil dólares pela entrevista exclusiva no hospital”. Havia mercado para o espetáculo da saída dos mineiros.

 

Na noite de 13 de outubro, exatamente quando começava o resgate do grupo (entre as 20h15 e 21 horas nos Estados Unidos), o canal americano Fox News foi sintonizado por pouco mais de 7 milhões de espectadores nos Estados Unidos – duas vezes e meia a média do horário. A CNN servira de fonte de informação para outros 2,7 milhões, na maior audiência da emissora desde as eleições presidenciais de 2008. No momento em que o primeiro dos 33 homens reapareceu, a BBC estava sendo sintonizada por 6,8 milhões de britânicos.

No Twitter, às 21 horas, uma busca por seis termos-chave – Chile, mineiros, rescate, Piñera e forzamientos – informava que a velocidade de postagem era de 104 mil novos tweets por hora, ou seja, 1 733 por minuto. No YouTube, havia 16 100 vídeos cujas descrições continham as palavras Chile e miners.

Em menos de 24 horas, o escritório de design Root33, de Santiago, postou o primeiro videogame sobre o caso: Los 33, el Juego. O jogador deveria mover uma cápsula até o fundo de uma montanha e resgatar os trabalhadores presos. Se demorasse a executar a tarefa, era vaiado pelos familiares que estavam do lado de fora. Em noventa minutos de exposição, foi baixado 9 200 vezes, quase duas por segundo.

Na cama do hospital, Sepúlveda soube que ele e os companheiros haviam sido nomeados pelo governo “Heróis do Bicentenário” da independência do Chile. No hospital ele recebeu os primeiros convites de viagens: Grécia, República Dominicana, Jamaica e Israel disputaram a primazia de se tornarem anfitriões do grupo. Clubes de futebol como Manchester United e Real Madrid entraram na fila.

Não faltaram convites individuais. Fã de corridas, Edson Peña foi chamado a disputar a maratona de Nova York. José Henríquez, que havia comandado orações nas profundezas da mina, foi contatado pelos pastores do Reino Unido. Omar Reygadas, que aparecera em sonho para o patriarca da Igreja Ortodoxa, era esperado em Chipre.

O atropelo de marcas interessadas em vincular sua imagem ao sucesso do grupo não tardou. Havia de tudo. Dos óculos escuros da Oakley, que passaram a proteger a vista sensível dos mineiros, às motos Kawasaki Ninja, que lhes dariam uma sensação de liberdade, passando por roupas sensuais que foram enviadas às esposas do grupo por uma sex shop de Santiago.

 

Quem visita a casa de Omar Reygadas, o 17º mineiro resgatado, encontra na cozinha uma pilha de 1 metro de altura por 2 de largura feita de caixas. Algumas ainda estão fechadas. As abertas exibem terços, peças de roupas, tênis e bolsas procedentes dos quatro cantos do mundo. O filho de Reygadas, que também se chama Omar, é o único dos cinco irmãos que ainda mora com o pai viúvo. Jovem, de pele morena e cabelos escuros, lembra um índio inca. Sentado na varanda da casa, contou que nos últimos três meses o pai não dormiu ali mais do que quinze dias. Uma mala prontinha para sair de viagem fica guardada num armário.

“Às vezes, ele entra pela porta, deixa a mala que estava usando por aí, e pega a nova para sair de novo”, disse o filho. “Mas não posso me queixar. Desde o acidente, quando ele fica parado muito tempo num lugar só, fica meio ranzinza e tristonho. Melhor que percorra meio mundo e seja feliz.”

Ao sair do hospital, Mario Sepúlveda só pensava em uma coisa: jogar seu corpo – 12 quilos mais magro – nas frias águas do Pacífico. Assim, na manhã nublada de 20 de outubro, quatro dias depois de ter alta, levou a família à praia e autorizou que as câmeras do canal americano ABC os seguissem. Para o nervosismo do câmera, ao pisar a areia, tirou a roupa e caiu nu no mar. Depois, recomposto, se ajoelhou ao lado do filho e rezou: “Deus, eu o adoro. Prometo que nunca o abandonarei, assim como prometi quando estava enterrado vivo.” A voz estava mais alta que o normal. Super Mario sabia que precisava compensar a distância do microfone.

Sepúlveda veio a perceber que o grupo necessitaria de um profissional para manter a agenda de compromissos, organizar as viagens e avaliar as propostas comerciais que passaram a inundar a conta de e-mail contactomineros33@gmail.com, ativa até hoje.

 

O escolhido foi Edgardo Reinoso. Com um tipo que lembra o do apresentador Jô Soares, só que bem mais alto, havia sido apresentado às famílias das vítimas pela prefeita da cidadezinha mais próxima do local do desastre. Logo ao chegar à mina, explicou aos familiares quais eram seus direitos naquela situação e ofereceu seus serviços jurídicos. Alugou um ônibus e levou mulheres, filhos e irmãos das vítimas ao cartório mais próximo. Antes que o grupo assinasse o documento que o transformaria em seu representante legal, fez questão de que o tabelião explicasse aos presentes todas as cláusulas da procuração, o que demorou quatro horas. Logo depois, viajou até Copiapó e se transformou no fiador dos 33 na ação de embargo de bens que interpôs contra os donos da mina. Durante os 69 dias de confinamento, o advogado trabalhou entre um quarto de pensão e as tendas de campanha nos arredores da mina.

Edgardo Reinoso é sócio de um escritório com doze funcionários e se especializou em ações de “daños personales”, em quedas de braço travadas entre trabalhadores e empresas, ou entre cidadãos e o Estado. Começou a ficar famoso em 1987 ao conseguir que a Prefeitura de Valparaíso pagasse 120 mil dólares a um ciclista que havia se acidentado em decorrência do péssimo estado das ruas da cidade. “Ganho 85% dos processos”, disse num restaurante em Viña del Mar, sua cidade natal. “Nos 15% dos casos em que vejo possibilidade de derrota, faço acordo e fica tudo bem para todo mundo.”

Reinoso é filho de uma dona de casa com um militar que apoiou o golpe de Augusto Pinochet. Estudou em colégio católico e se formou em direito pela Universidad de Chile. Pretendia seguir a linha política do pai, até que três colegas de faculdade foram arrancados da sala de aula pela polícia do ditador. Migrou então para a esquerda.

Diante das crescentes oportunidades que os mineiros passaram a receber, Reinoso sugeriu que o grupo formasse uma sociedade anônima. Assim, teriam mais força nas grandes negociações que viriam – sobretudo as relacionadas à venda de direitos autorais. Os 33 aprovaram a ideia e, enquanto Reinoso aguardava o veredito contra a mina San José, pôs-se a trabalhar na montagem da sociedade anônima.

Ciente da fama do advogado e certo de que, assim que tivesse a condenação de Alejandro Bohn em mãos, Reinoso viria atrás do Estado para cobrar sua responsabilidade pela reabertura da mina, o governo de Sebastián Piñera se preveniu.

No dia 4 de dezembro, aproveitando que 28 dos 33 mineiros estavam em Santiago para participar de um programa de televisão e serem fotografados para a capa da revista Time, Cristián Barra, braço direito do ministro do Interior, reservou um auditório no Hotel Crowne Plaza e os convidou para uma reunião a portas fechadas. Imprensa e Reinoso ficaram de fora. “Tomei conhecimento da reunião na última hora e, quando cheguei ao hotel, luxuosíssimo, me barraram alegando que o assunto não me dizia respeito”, contou o advogado.

Presente ao encontro no Crowne Plaza, no entanto, estava o ministro Laurence Golborne, que chegou rapidamente a 90% de aprovação popular devido à atuação para salvar os 33. E aparecia na imprensa como o futuro candidato de Piñera às eleições de 2013. Reinoso respirou fundo e foi embora.

No dia seguinte à reunião, o jornal El Mercurio noticiou que o governo havia oferecido a todos um emprego na estatal do cobre, a Codelco, e sugerido que outros escritórios de advocacia assumissem a condução dos interesses comerciais do grupo. Cristián Barra e Laurence Golborne tinham convencido os mineiros a se afastarem de Reinoso com dois argumentos de peso: lembraram ao grupo que o advogado se preparava para processar o Estado chileno, justamente quem havia gasto 20 milhões de dólares no resgate deles, e disseram que, com honorários de 20% sobre o valor da causa, Reinoso embolsaria sozinho mais do que qualquer uma das 33 vítimas da mina.

Em 21 de dezembro, depois de informarem a Reinoso que sua atuação se restringiria aos processos civis e penais, os 33 chegaram ao edifício Titanium e assinaram um acordo de trabalho com o escritório Carey y Cía. Passavam a Fernando García e a seus subordinados o filé-mignon de sua história.

Até os primeiros dias de fevereiro, havia no Chile três livros sobre a odisseia dos mineiros: dois de jornalistas e um do psicólogo Alberto Iturra. Na segunda quinzena do mês, o livro do correspondente do Guardian foi lançado simultaneamente em dezessete idiomas. Chegará ao Brasil pelo selo Agir, da Ediouro, no mês de junho. No site eBay, a expressão chilean miners levava a quinquilharias como bonecos Playmobil em forma de mineiros (5 dólares) e camisetas com a frase Estamos bien en el refugio los 33 (14 dólares).

O advogado Fernando García conta que os mineiros não pretendem reprimir esse pequeno comércio. “O que já está aí vai ficar”, informou. “Correremos atrás apenas daquilo que for realmente publicitário.”

 

Às nove horas da manhã do dia 17 de novembro, o Teatro Teletón, em Santiago, estava às escuras. Na plateia lotada, 500 estudantes que prestariam vestibular para a Universidad Santo Tomás – uma instituição privada que anuncia em shopping centers – se esforçavam para manter o silêncio e controlar a ansiedade. Do lado direito do palco, uma pequena luz arredondada surgiu e começou a caminhar na direção deles. Era Mario Sepúlveda, que, usando um capacete de mineiro, aproximava-se do palco para iniciar uma das seis palestras motivacionais que programara para aquele mês.

As luzes se acenderam e os alunos gritaram de euforia. Muitos ficaram de pé, e a salva de palmas durou cerca de cinco minutos. Super Mario mostrou então que usava uma camiseta na qual se lia a frase Tú puedes, o slogan da universidade, em letras graúdas. Ao longo de duas horas, tão histriônico quanto o personagem Kramer, do seriado americano Seinfeld, ele falou do acidente e do resgate.

“Estar na mina foi a coisa mais bonita que me aconteceu porque me despertou a vontade de viver”, disse. “Esses 69 dias me ensinaram a ser uma pessoa melhor. Quando vocês não puderem alcançar um objetivo, concluir um projeto, tentem de todas as formas. Nunca desanimem nem se sintam derrotados. Vocês têm que continuar lutando. Foi esse espírito que salvou a minha vida”, contou.

A ideia de transformar Sepúlveda em um palestrante veio de Nelson Flores, dono da produtora Yes Group. Ele me explicou que, ainda dentro da mina, Mario Sepúlveda já se revelava o mais carismático. “Ele era o que falava melhor. Não é de poucas palavras, não usa jargões da mineração e sabe manter a atenção do público. Nasceu para isso e, em breve, estará dando palestras pelo mundo.”

Nelson Flores se associou à produtora americana IMG Speakers, de Nova York, para que Super Mario fizesse palestras em outros países. Em poucos dias, apareceria ao lado de Sarah Ferguson, Roger Federer e Magic Johnson.

Perguntei se o cachê pago a Mario Sepúlveda por palestra seria suficiente para comprar um carro. Flores, rindo, respondeu: “Depende do carro.”

No dia 27 de janeiro, Super Mario era o mais desenvolto no balcão da Copa Airlines no aeroporto de Santiago. Tinha passaporte e cartão de embarque em mãos e ajudava os demais com os trâmites burocráticos. Naquela tarde, 31 das 33 vítimas da mina, cada um acompanhado por quatro familiares, embarcaram para Orlando, nos Estados Unidos, a convite da Disney.

Nos dias seguintes, Super Mario foi fotografado, sorridente, no desfile da Disney. Usava um capacete de segurança amarelo ao qual haviam sido acopladas as orelhas de Mickey.



Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é diretora da Agência Lupa e autora do livro A arte do descaso (Intrínseca)