tribuna livre da luta de classes

Do sonho rooseveltiano ao pesadelo golpista

A ascensão e o declínio do lulismo¹

André Singer
O lulismo se presta a inúmeros gêneros de mistificação, por ser regressivo e progressivo ao mesmo tempo. Ele não pretendia produzir confronto com as classes dominantes, mas ao diminuir a pobreza o fazia sem querer. Acelerado por Dilma, o lulismo acabou vítima de suas contradições
O lulismo se presta a inúmeros gêneros de mistificação, por ser regressivo e progressivo ao mesmo tempo. Ele não pretendia produzir confronto com as classes dominantes, mas ao diminuir a pobreza o fazia sem querer. Acelerado por Dilma, o lulismo acabou vítima de suas contradições FOTO: ED FERREIRA_BRAZIL PHOTO PRESS

O  que aconteceu com a perspectiva rooseveltiana de acelerar o lulismo e criar “no curto espaço de alguns anos” um país em que as maiorias pudessem levar “vida material reconhecidamente decente e similar”? Onde foi parar o horizonte desenhado por Dilma Rousseff no discurso inaugural daquele bonito sábado, 1º de janeiro de 2011, de podermos ser “uma das nações mais desenvolvidas e menos desiguais do mundo – um país de classe média sólida e empreendedora”? O que restou da previsão feita pelo economista Marcelo Neri, segundo a qual os brasileiros – “campeões mundiais de felicidade futura” – teriam, daquela vez, razão para ser otimistas, pois uma “nova classe média” seria dominante em 2014?

Motivos de esperança existiam. Dilma sentou na cadeira presidencial tendo atrás de si um crescimento de 7,5% do PIB, uma taxa de desemprego de 5,3% e uma participação do trabalho na renda 14% acima da que havia em 2004. Uma massa de trabalhadores fazia uso de prerrogativas antes destinadas apenas à classe média, como viagens de avião, tratamento dentário e ingresso em universidades. O Brasil parecia incluir os pobres no desenvolvimento capitalista sem que uma só pedra tivesse riscado o céu límpido de Brasília[1]. Lula resolvera a quadratura do círculo e achara o caminho para a integração sem confronto. Aclamado urbi et orbi, recebia aplausos da burguesia, nacional e estrangeira, e de centrais sindicais concorrentes. No início de 2009, Obama declarou que ele era “o político mais popular da Terra”. Em novembro, a revista britânica The Economist colocara na capa o Cristo Redentor como um foguete e a frase “O Brasil decola”. Em dezembro de 2010, o ex-presidente encerrava o mandato com 83% de aprovação, a maior da série iniciada pelo Datafolha na década de 80. A Copa do Mundo de Futebol de 2014 e a Olimpíada de 2016, ambas no Brasil, projetavam-se como a consagração definitiva do lulismo.

MATÉRIA FECHADA PARA ASSINANTES
Para acessar, assine a piauí

André Singer

André Singer, jornalista, cientista político e professor na Universidade de São Paulo, foi secretário de Imprensa da Presidência da República de 2003

Leia também

Últimas Mais Lidas

Um general da ativa no centro da articulação política

Novo ministro terá de deixar Alto Comando do Exército; divergências no uso da verba de comunicação e atritos com ala olavista, inclusive Carlos Bolsonaro, explicam demissão de Santos Cruz

RBG – Ruth Bader Ginsburg, a juíza da Suprema Corte que faz diferença

Mesmo aquém de seu personagem, documentário é chance de conhecer mulher singular

Moro contra a parede

Para especialistas, conversas entre ex-juiz e Dallagnol indicam parcialidade e, no limite, podem levar Supremo a anular julgamento de Lula

Alertas mais precisos contra o desmatamento

Nova plataforma gratuita de monitoramento flagrou, em seis meses de testes, quase 900 quilômetros quadrados desmatados

Foro de Teresina #54: O trânsito de Bolsonaro, o bate-cabeça da oposição e o elogio da agressão

Podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Bolso esvazia bolsonarismo

Estagnação da economia é a maior razão de arrependimento de quem votou em Bolsonaro mas acha o governo ruim ou péssimo

Os Papéis de Aspern – apelo de Henry James contra a bisbilhotice

Diretor e roteirista não sairiam ilesos de um tribunal que julgasse atentados à obra alheia

Mais textos
1

Excelentíssima Fux

Como a filha do ministro do STF se tornou desembargadora no Rio

2

A redenção dos cinco

Um filme sobre os rapazes presos por um estupro que não cometeram

3

Moro contra a parede

Para especialistas, conversas entre ex-juiz e Dallagnol indicam parcialidade e, no limite, podem levar Supremo a anular julgamento de Lula

4

Um general da ativa no centro da articulação política

Novo ministro terá de deixar Alto Comando do Exército; divergências no uso da verba de comunicação e atritos com ala olavista, inclusive Carlos Bolsonaro, explicam demissão de Santos Cruz

6
7

Bolso esvazia bolsonarismo

Estagnação da economia é a maior razão de arrependimento de quem votou em Bolsonaro mas acha o governo ruim ou péssimo

10

Procura-se um presidente

Dependência virtual e extremismo de Bolsonaro precipitam corrida política no campo da direita