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    "Éramos só nós dois aqui na Europa", disse o cavaleiro Gabriel Cury. "Estou longe da família, de tudo. Eu o entendia, e ele me entendia." FOTO: DIVULGAÇÃO_LUÍS RUAS

despedida

Galope interrompido

A morte inesperada de um cavalo olímpico

Roberto Kaz | Edição 116, Maio 2016

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Um passo em falso matou Grass Valley. Aconteceu no domingo, 17 de abril, em Belton, vilarejo miúdo ao norte de Londres. Durante a manhã, o cavalo saiu-se bem na prova de salto, derrubando apenas um obstáculo. Retornou ao caminhão que o transportara, comeu feno, bebeu água, teve a musculatura massageada. Às três da tarde, voltou a ser montado, dessa vez para o cross country – prova em terreno aberto, acidentado, que simula uma cavalgada no mato. Ultrapassou com maestria as seis barreiras iniciais. Ao pular a sétima, desequilibrou-se, pousando com o peso do corpo sobre uma única pata.

“Ele não chegou a cair”, contou Gabriel Cury, seu montador, de 22 anos. “Simplesmente parou e levantou a pata direita da frente, que estava com o casco pendurado.” Cury desceu do cavalo, abraçou-o e, constatando a gravidade da fratura, começou a chorar. Foi logo amparado por seu treinador, Mark Todd, que o retirou do local enquanto o bicho passava por uma eutanásia. “Não quis ver. Era o meu melhor amigo”, lamentou o cavaleiro.

Grass Valley vinha se destacando como o melhor cavalo da Seleção Brasileira de CCE – o Concurso Completo de Equitação, espécie de triatlo do hipismo, que mistura adestramento, salto e cross country. Nasceu na Irlanda dezesseis anos atrás, neto por parte de mãe de Clover Hill, então já uma estrela do salto. Pertenceu a duas pessoas até ser comprado, em 2009, pelo neozelandês Mark Todd. “Naquela época, ele competia na categoria intermediária, de duas estrelas”, disse Todd, que também comanda a Seleção Brasileira. “Mas era um cavalo valente e amável. Tinha potencial.”

 

Já no ano seguinte, o treinador o faria chegar ao Torneio de Badminton, na Inglaterra – algo como uma Copa do Mundo, disputada pelos poucos cavalos de quatro estrelas que compõem a elite do esporte. Mas em 2011, quando figurava entre os vinte grandes do mundo, Valley teria a carreira interrompida por um tendão machucado. “Precisou ficar parado por doze meses, fazendo fisioterapia e tratamento com célula-tronco”, lembrou Todd. “Quando voltou, não estava bom o suficiente para ganhar uma competição individual comigo, mas ainda podia ensinar um jovem montador. Acabou sendo o mestre do Gabriel.”

Natural de São Paulo, Cury começou a montar aos 6 anos. Ganhou duas vezes o campeonato sul-americano de salto por equipes com os cavalos Vulcan VDL e Just Like Heaven. Em 2013, mirando a Olimpíada do Rio, resolveu mudar de categoria, país e montaria: “Era mais fácil me qualificar pela equipe de Concurso Completo do que pela de salto.” Transferiu-se, então, para a Inglaterra, berço do CCE. “O nível dos cavalos é melhor por lá”, explicou Luiz Roberto Giugni, presidente da Confederação Brasileira de Hipismo. “Investimos nossas fichas no Gabriel.”

Chegando ao Reino Unido, Cury visitou o haras de Todd na cidade de Swindon, a uma hora da capital britânica. “Imaginava pesquisar vários cavalos antes de comprar um. Mas montei no Valley e não precisei conhecer outro.” Ele não revela o valor pago. Diz apenas que um equino desse nível costuma custar 100 mil euros.

 

 

Como todo cavalo de competição, Grass Valley tinha um cotidiano regrado. Treinava de segunda a sábado e competia no domingo. De manhã, caminhava por quarenta minutos fora da fazenda – era o treinamento físico. De tarde, enfrentava meia hora de adestramento – exercício mais técnico. Galopava duas vezes por semana e saltava uma, para não desgastar ossos e cartilagens. Comia feno, ração e suplemento alimentar. Era virgem e castrado.

Dividia o haras de Swindon com 25 outros cavalos premiados (o vizinho da frente, Leônidas, deve participar da Olimpíada). No inverno, usava capa para atenuar o frio e, em dias de disputa, um vestuário especial para relaxar o dorso. Recebia aplicações de gelo nas patas e injeções de anti-inflamatórios nas juntas para evitar machucados. “Dispunha do melhor tratamento que você pode imaginar. Era um atleta de alto nível, e mudou minha vida no esporte”, disse Cury. “Antes dele, eu era um cavaleiro normal. Depois, em um ano, já estava disputando a prova mais importante do mundo. Tínhamos muita sintonia.”

Em 2015, Cury e Grass Valley alcançaram o índice necessário para integrar a equipe olímpica. A partir de então, por prudência, o cavalo passou a participar de poucas provas. A de Belton foi a terceira de 2016. Estava lá mais para manter a forma do que para ganhar.

 

Na sexta-feira, 15 de abril, os dois deixaram a fazenda em Swindon e seguiram de caminhão para o vilarejo, que ficava a quatro horas de estrada. No sábado, cumpriram a prova de adestramento. No domingo, tudo correu à perfeição até a chegada do sétimo obstáculo. Dali em diante, a sucessão de eventos foi rápida. Uma ambulância entrou em cena, com um veterinário, que ergueu uma lona entre o público e o cavalo. Enquanto Cury era afastado, Valley tomou três injeções na jugular. A primeira o deixou grogue, fazendo-o tombar. A segunda o anestesiou. A terceira parou seu coração. Cinco minutos depois de quebrar a pata, o animal estava morto. “O cavalo é um paciente ruim porque ele não deita por muito tempo. Então fica difícil de o osso se regenerar”, esclareceu Eduardo Limongi, veterinário da Seleção Brasileira. “Uma fratura como essa é irrecuperável.”

Passado o choque inicial, Cury ligou para o pai, Shaady, dono de uma metalúrgica em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. “O cavalo tinha acabado de disputar o Badminton, que é a prova mais perigosa do mundo. Meses depois, foi jogar bobinho e perdeu a pata”, contou Shaady. Não houve prejuízo financeiro, porque o animal estava segurado. “Mas agora há o risco de Gabriel não participar da Olimpíada. E o cavalo fazia parte da família.”

Cury não sabe onde o corpo de Valley foi enterrado. “Nem quis ver. Preferi ficar com a lembrança boa.” Finda a prova, entrou no caminhão, voltou para a fazenda e chorou mais uma vez, agora diante da baia vazia. “Éramos só nós dois aqui na Europa. Estou longe da família, de tudo. Eu o entendia, e ele me entendia.” Ainda resta ao cavaleiro a chance de disputar os Jogos do Rio com o reserva Phineas Finn. Para tanto, precisa fazê-lo pontuar até junho. “Não é muito difícil, mas não tenho com ele o entrosamento que tinha com o Grass Valley.”

Roberto Kaz
Roberto Kaz

É jornalista e redator do Piauí Herald. É autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

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